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30 de novembro de 2010

Mutilação no deserto


  
Acho que todo mundo já ouviu falar na top model somali que foi circuncidada e fugiu de seu país. A história dessa moça é triste, mas de superação, e merece ser contada. Ela se chama Waris Dirie e hoje é embaixadora da ONU contra a causa que fez o mundo tomar conhecimento: a mutilação genital feminina (FGM, na sigla em inglês).

Aos cinco anos, Waris teve seu clitóris cortado, bem como os grandes e pequenos lábios. Depois, tudo foi costurado e apenas uma buraquinho foi deixado para sair a urina e a menstruação. Se permanecesse na família, e não fugisse aos 13 anos, após ser forçada a casar, a cicatriz deixada pela costura seria cortada à faca pelo marido.

Este era o ritual sagrado do casamento. Eu fico com o estômago revirado e os olhos marejados em pensar que seis mil meninas são submetidas a essa violência física e psicológica todos os dias no mundo todo. Essa mutilação causa dores, infecções e problemas na gestação. Muitas meninas morrem, e muitas mulheres já adultas também morrem por conta da FGM.

O filme Flor do Deserto é baseado no livro que Waris escreveu sobre sua vida (“waris”, em somali, quer dizer “flor do deserto”). Depois de fugir de casa, atravessar o deserto a pé e encontrar sua avó na cidade grande, foi para Londres fazer faxina na Embaixada da Somália. Não desejava retornar ao seu país destroçado pela guerra civil, então passa a viver ilegalmente na capital britânica. Com a ajuda de uma vendedora de roupas, arranja emprego no Mc Donalds e começa a se estabilizar. É na lanchonete que conhece Terence Donovan (Terry Donaldson), famoso fotógrafo de moda que percebeu seu potencial como newface.

Demora a se abrir para esta oportunidade e, quando decide fazer sucesso nas passarelas, descobre que não pode viajar porque seu visto vencera há seis anos. A solução é casar com o síndico da pensão onde mora, rapaz a princípio adorável, mas obstinado em conquistá-la. Depois de um ano, e com visto permanente, Waris ganha o mundo e a imprensa. É para uma jornalista que conta o dia que mudou sua vida. Não era aquele em que Donovan ofereceu se cartão, mas o da trágica tarde em que foi mutilada. O mundo se cala e ela é convidada a ser embaixadora da ONU.

A história é pesada, mas o filme é esteticamente bonito, com cores fortes e belíssimas cenas do deserto. Quem faz o papel de Waris é Liya Kebede, top model etíope que também luta por uma causa nobre – a promoção da saúde materna e infantil. Pelas semelhanças entre a história de Waris e ela (são africanas, modelos e trabalham com a ONU), Liya é natural ao atuar, passa sinceridade na personagem. Já Sally Hawkins estereotipa Marilyn, a amiga vendedora de roupas, poderia ser menos exagerada. O ótimo Timothy Spall (Donaldson) e Craig Parkinson (Neil, o marido) retratam muito bem seus papéis, mas Anthony Mackie (Harold Jackson) parece estar sobrando na trama. Como disse um amigo, Harold não tem muito uma função a cumprir, ou melhor, tem: não tornar a Waris assexuada. Uma pena, porque o rapaz é talentoso.

O fim do filme traz uma carga de engajamento muito grande, que é o da própria vida da Waris, mas, como cinema, não funciona muito. Na vida real – fora das telas –, essa militância torna a história dessa mulher, hoje com 45 anos, ainda mais especial.

Laura Lopes

16 de outubro de 2010

Aisha, a afegã, posa com prótese e sorri



Em agosto, a revista Time publicou uma das capas mais ousadas de sua história. Mostrava a bela jovem Aisha, de 18 anos, mutilada por seu marido, um talibã “ofendido em sua honra”, no Afeganistão. A visão do rosto jovem desfigurado causava um misto de repulsa e pena, mas era sem dúvida uma denúncia poderosa das condições terríveis a que mulheres podem ser submetidas no regime talibã.

Este blog publicou um post sobre o assunto e informou que estava nos Estados Unidos para uma cirurgia, com o objetivo de reconstituir seu nariz e orelhas, arrancados quando tentou fugir do marido arranjado por sua família.

Agora, ela posou para a imprensa internacional com uma prótese temporária, enquanto aguarda uma solução mais permanente, que exige cirurgia.

Nesses momentos, a gente pensa por que todos nós às vezes reclamamos e nos deprimimos por motivos absolutamente fúteis. O sorriso dessa moça – e seu claro orgulho por finalmente poder parecer uma pessoa normal, sem provocar no próximo um olhar de choque – é comovente.

A prótese dá uma ideia de como Aisha ficará após a operação. Quem está financiando a cirurgia é a Fundação Grossman Burn, com sede em Los Angeles.

Seu sobrenome nunca foi revelado. Sua história, sim, para o mundo inteiro. E é aterradora e revoltante. Aisha foi dada pelo pai a um guerrilheiro Talibã quando tinha apenas 12 anos de idade, uma criança. Foi vendida em troca de uma dívida. A família do marido dela a forçou a dormir no estábulo com os animais. E, anos depois, quando a menina tentou fugir de um cotidiano de humilhações, seu marido a perseguiu e, como castigo, a mutilou. Ela desmaiou e, no meio da noite, despertou em meio a um líquido viscoso. “Quando abri meus olhos, não podia enxergar nada, por causa do sangue”, declarou à repórter da CNN Atia Abawi.

Aisha foi abandonada na montanha. Achavam que ela morreria. Mas ela conseguiu, apesar de terrivelmente ferida, chegar à casa de seu avô. E foi tratada durante dez semanas num posto médico administrado por americanos. Transportada para um refúgio secreto em Cabul, capital do Afeganistão, foi levada enfim para os Estados Unidos, abrigada por uma família americana.

Espera-se que sua reabilitação dure cerca de oito meses.

Segundo o Dr. Peter Grossman, seu nariz e suas orelhas serão reconstituídas com osso, pele e cartilagem extraídos de outras partes de seu próprio corpo. A mulher do médico disse que Aisha se lembra de seus tempos de escravidão toda vez que se olha no espelho, mas hoje já é capaz de sorrir e, quem sabe um dia, poderá superar toda a injustiça e crueldade de que foi vítima – num momento em que era uma adolescente, com todos os mesmos sonhos de quem um dia quer ser feliz, amar e ser amada.

De acordo com estimativas das Nações Unidas, quase 90% das afegãs sofrem algum tipo de abuso doméstico.Os afegãos afirmam que tudo isso não passa de propaganda americana, porque, pela lei sagrada islâmica, cortar nariz e orelhas de pessoas seria ilegal.

Ruth de Aquino

8 de outubro de 2010

Aisha, a afegã


Bibi Aisha, a jovem afegã mutilada que saiu na capa da revista Time, já se encontra nos Estados Unidos para realizar uma cirurgia de reconstrução do nariz e das orelhas, extirpados pelo marido em punição à sua tentativa de fugir de casa.

No Afeganistão, onde está hoje, Aisha tem o apoio e a proteção da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs. Nos Estados Unidos, a Fundação Grossman Burn vai pagar a sua cirurgia e ajudá-la a reconstruir a vida no novo país.

Em entrevista à rede de TV americana CNN, Aisha descreveu o seu sofrimento. “Quando eles cortaram meu nariz e minhas orelhas, eu desmaiei”, disse Aisha. “Senti como se houvesse água fria em nariz. Eu abri os olhos e nem pude ver por causa de todo o sangue”.

Aisha conta que, aos 16 anos, foi entregue ao pai do marido e aos seus dez irmãos e se tornou prisioneira deles por dois anos. Ela diz que os homens eram membros do Talibã na província de Uruzgan, no sul do Afeganistão.

Ao tentar fugir, foi pega pela polícia em Kandahar e teve que voltar para casa. Por causa da fuga, Aisha foi acusada de desonrar e envergonhar a família do marido e, julgada pela justiça do Talibã, foi condenada à mutilação.

A imagem de seu rosto na capa da revista americana certamente ficará como um dos símbolos da opressão sofrida pelas mulheres no Afeganistão onde, segundo a ONU, quase 90% das cidadãs sofrem algum tipo de abuso doméstico.

A escolha da Time foi uma referência à capa história da National Geographic de 1985, que se tornou um ícone da situação das afegãs durante a ocupação soviética. A reportagem da Time questionou a abertura do diálogo com o Talibã e defendeu a permanência dos Estados Unidos no Afeganistão mesmo depois do escândalo do vazamento de dados sigilosos de operações com vítimas civis.



Letícia Sorg