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22 de outubro de 2010

O que é intimidade?




Para os homens, é “fazer sexo, beijar, trocar carinhos, ficar nu. Para eles, a intimidade é da ordem do corporal, do toque, da visão. É uma intimidade física.”

Para as mulheres, “é um tipo muito particular de estar junto, de conversar e escutar, de compartilhar o silêncio, um nível mais profundo de comunicação psicológica. É uma intimidade emocional”.

Quem diz é a antropóloga Mirian Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em seu novo livro, Intimidade. Em suas pesquisas entre homens e mulheres da zona sul do Rio de Janeiro, Mirian tem percebido um abismo entre as expectativas dos gêneros em relação aos relacionamentos e à felicidade a dois.

A falta de intimidade real com os parceiros é uma reclamação feminina onipresente. Ou pelo menos daquilo que as mulheres consideram intimidade. As mulheres acreditam que os homens são incapazes de ser mais subjetivos, mais reflexivos, mais interiorizados. (…) Nos discursos femininos, é possível enxergar a ideia de que a natureza da mulher, em termos de autoconhecimento e de exploração da subjetividade, é superior à masculina.

Já o discurso masculino revela que eles se sentem injustamente cobrados por não conseguir corresponder às excessivas demandas das mulheres. Eles dizem que não se sentem compreendidos ou aceitos por elas, que permanecem insatisfeitas e não reconhecem seus esforços para responder às ilimitadas e contraditárias exigências femininas.

Diante da repetição deste tipo de discurso entre homens e mulheres, a antropóloga acredita que esteja neste descompasso entre a ânsia feminina por sua noção de intimidade e as queixas masculinos pela falta do que chamam de compreensão a chave para se compreender os atuais conflitos nos arranjos conjugais.

A maior parte dos homens, diz o livro, prefere deixar a vida resolver sozinha os problemas. Chama os amigos para “beber e esquecer”. A maioria das prefere o extremo oposto: ruminar as questões à exaustão, sem necessariamente resolvê-las. Ter espaço para fazer isso a dois é intimidade.

E pra você, o que é intimidade?


Martha Mendonça

28 de setembro de 2010

Intimidade


Houve um tempo, crianças, em que a gente não falava de sexo como quem fala de um pedaço de torta. Ninguém dizia Fulano comeu Beltrana, assim, com essa vulgaridade. Nada disso. Fulano tinha dormido com ela. Era este o verbo. O que os dois tinham feito antes de dormir, ou ao acordar, ficava subentendido. A informação era esta, dormiram juntos, ponto. Mesmo que eles não tivessem pregado o olho nem por um instante.

Lembrei desta expressão ao assistir Encontros e Desencontros. No filme, Bill Murray e Scarlett Johansson fazem o papel de dois americanos que hospedam-se no mesmo hotel em Tóquio e têm em comum a insônia e o estranhamento: estão perdidos no fuso horário, na cultura, no idioma, e precisando com urgência encontrar a si mesmos. Cruzam-se no bar. Gostam-se. Ajudam-se. E acabam dormindo juntos. Dormindo mesmo. Zzzzzzzzzzz.

A cena mostra ambos deitados na mesma cama, vestidos, conversando, quando começam a apagar lentamente, vencidos pelo cansaço. Antes de sucumbir ao mundo dos sonhos, ele ainda tem o impulso de tocar nela, que está ao seu lado, em posição fetal. Pousa, então, a mão no pé dela, que está descalço. E assim ficam os dois, de olhos fechados, capturados pelo sono, numa intimidade raramente mostrada no cinema.

Hoje, se você perguntar para qualquer pré-adolescente o que significa se divertir, ele dirá que é beijar muito. Fazer campeonato de quem pega mais. Beijar quatro, sete, treze. Quebram o próprio recorde e voltam pra casa sentindo um vazio estúpido, porque continuam sem a menor idéia do que seja um encontro de verdade, reconhecer-se em outra pessoa, amar alguém instintivamente, sem planejamento. Estão todos perdidos em Tóquio.

Intimidade é coisa rara e prescinde de instruções. As revistas podem até fazer testes do tipo: “descubra se vocês são íntimos, marque um xis na resposta certa”, mas nem perca seu tempo, a intimidade não se presta a fórmulas, não está relacionada a tempo de convívio, é muito mais uma comunhão instantânea e inexplicável. Intimidade é você se sentir tão à vontade com outra pessoa como se estivesse sozinho. É não precisar contemporizar, atuar, seduzir. É conseguir ir pra cama sem escovar os dentes, é esquecer de fechar as janelas, é compartilhar com alguém um estado de inconsciência. Dormir juntos é muito mais íntimo que sexo.


Martha Medeiros