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31 de agosto de 2012

Me apaixonei pelo meu amigo. E agora?




Vocês se conhecem há tempos, têm um relacionamento muito legal, confiam um no outro e até contam as aventuras amorosas que vivem, em seus mínimos detalhes. Consideram-se praticamente irmãos, saem sempre juntos, compartilham amigos, segredos e sonhos.

Um baita privilégio ter alguém assim por perto, com quem a gente se dá tão bem e, principalmente, com quem pode contar para o que der e vier! Amigo é mesmo "coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...", como tão lindamente canta Milton Nascimento.

Porém, contudo, no entanto... num belo dia, sem que você esteja contando com isso, olha para essa pessoa e sente que ela está muito mais dentro do seu coração do que você imaginava. Tão dentro que o faz acelerar, bater descompassadamente. Tao forte que faz você suar frio!

Assustada, confusa, você se pergunta: o que é isso? O que está acontecendo comigo? Será que to ficando maluca? E de repente, "cai a ficha"! Sim, você está apaixonada pelo seu amigo! E a primeira e constante pergunta que se faz agora e pelos próximos intermináveis dias, é: e agora?

Bem, se a recíproca for verdadeira e os dois se derem conta de que a amizade está pedindo algo ainda mais íntimo e intenso, e se os dois estiverem solteiros e desimpedidos, então, não há o que se perguntar. Penso que é hora de conversarem sobre o que estão sentindo e, da forma mais sincera e espontânea possível, aceitarem esse convite para viver esse amor tão amigo, que pode mesmo ser pra lá de especial!

Mas, se o ritmo dessa relação mudou só para você; se seu amigo não dá indício nenhum de que o sentimento dele também está diferente, então, é mesmo prudente refletir a respeito. Se, por um lado, você pode tentar conquistá-lo, mostrando que já existe entre vocês um cenário bastante promissor, por outro, tudo isso pode significar um grande risco.

De todo modo, penso que problema mesmo existe quando um dos dois é comprometido e pretende continuar assim. Daí, para o caldo entornar e a amizade desandar é um perigo! Sem contar que é quase certo que conflito, frustração e dor vêm pela frente, seja porque um dos dois vai ter de se afastar, seja porque um dos dois não vai estar por inteiro na nova relação instaurada - e vai machucar o outro.

O fato é que, quando existem dois (ou mais) corações envolvidos de forma tão contundente, é preciso lançar mão de ferramentas internas como intuição, sensibilidade, ponderação, verdade (muita verdade!) e fé! Sim, fé para confiar na sabedoria da vida, para perceber que ela manda sinais, que ela mostra o melhor caminho. Mas precisamos estar atentos, confiantes e maduros para aceitar, seja o que for que se mostre como o mais razoável para todos.

Assim, se você se apaixonou pelo seu amigo, se sente que está numa situação delicada e corre o risco de perder algo que é tão caro para você, então, respire fundo, consulte seu coração, questione-se sobre o que realmente quer e, se sentir que é necessário, fique um tempo de longe, observando, tanto a si mesmo, como a relação e ao outro.

Se chegar à conclusão de que esse novo sentimento é forte demais para ser relevado, e que você quer arriscar, sugiro que você esteja convicto de que vai precisar falar sobre o que sente e, principalmente, ouvir. Ouvir o que seu amigo pensa, sente e quer diante de tudo o que você vai dizer. Depois, convide-o para uma conversa franca e deixe a voz do amor falar.

Aconteça o que acontecer, se os dois conseguirem se respeitar e, acima de tudo, valorizar tudo de bom que já viveram, o final dessa história - seja agora ou daqui há algum tempo - só poderá ser feliz! Só poderá servir para fazê-los crescer! É assim sempre quando duas pessoas enxergam além de si mesmos. Enxergam suas almas!


Rosana Braga

30 de agosto de 2012

Você tem medo da paixão?




A paixão é comparada ao fogo: intensa, forte, quente, envolvente e extremamente sedutora. Não manda aviso que está chegando nem pede licença para entrar em sua vida. Algumas pessoas temem a paixão pelo movimento de entrega que ela implica. Paixão é envolvimento, o apaixonado mistura-se ao outro e às próprias expectativas em relação ao outro.

Usamos o termo cegos de paixão, porque realmente esta dança parece algo cega, não enxergamos o outro como se houvesse entre nós uma cortina de fumaça composta por nossas ilusões, fantasias e desejos. Na paixão enxergamos apenas o que queremos ver, nossas necessidades, nossa completude.

Toda cegueira traz consigo a escuridão e a insegurança. O sentimento de segurança não se desenvolve a partir de nossos olhos, mas dentro de nós. O que nos protege contra o medo é nossa certeza de poder superá-lo. A paixão é uma forma de envolvimento emocional; o que possibilita o permitir-se apaixonar é a sensação de individualidade; quando sabemos quem somos e o que desejamos, a paixão chega como um movimento que acrescenta e nos transforma, mas, quando estamos perdidos dentro de nós, frágeis e imaturos, a paixão torna-se perigosa e viciante, nascem as relações doentias onde o outro passa a ser a parte que necessitamos insanamente.

A maturidade emocional traz segurança e parâmetro para nos lançarmos na paixão. Isto não significa medir o quanto se entregar, ou envolver-se de forma moderada tentando evitar um possível sofrimento, pelo contrário, significa ter internamente a certeza que existe um eu que está se apaixonando, capaz de se defender e que não desintegrará com uma frustração, sofrerá sim, caso se decepcione ou não for correspondido, mas certamente sairá renovado e fortalecido dessa experiência.

A paixão é um movimento intenso onde reina a emoção e onde a razão de nada ou pouco interfere. Como todos os movimentos humanos, pode ser positiva, à medida que possibilita crescimento e transformação, ou negativa à medida que torna o indivíduo alienado e dependente emocionalmente.

É comum as pessoas se apaixonarem por alguém que conhecem muito pouco, simplesmente, porque a paixão vem de outra esfera, a esfera da ilusão, tão necessária para nossa vida. Com o decorrer da relação, e ao passo que as pessoas vão se conhecendo melhor, suas qualidades e desejos, suas particularidades, ela vai naturalmente tomando novas formas podendo se transformar em amor, amizade, ternura ou - nas piores hipóteses - em relações doentias, onde reinam outros sentimentos como raiva, posse, inveja, mágoa e ressentimento.

Muitas vezes nos relacionamos buscando no outro o que não temos, ou o que pensamos que não temos. Nas relações patológicas o outro passa a desempenhar o papel ou a função na qual temos dificuldade. Por exemplo, se não sabemos nos defender, colocamos o outro como nosso defensor ao assumirmos a posição de vítimas, enquanto poderíamos usá-lo como modelo, aprendendo com ele a nos autoproteger, a sermos mais seguros e assertivos em nossos desejos e responsáveis por nossas atitudes.

O caminho que cada relação vai tomar dependerá da saúde emocional de cada um dos envolvidos. Devemos cuidar de nossa saúde emocional da mesma forma que cuidamos de nossa saúde física, pois ela interfere em todas as relações que fazemos, sejam pessoais ou profissionais e em nossa busca de viver de forma prazerosa e feliz.

Em síntese: paixão é vida, é arriscar, é ousar, é envolver-se, é sentir e não apenas pensar. Aprendemos com a experiência a avaliar a relação custo/benefício de nossos atos, mas também aprendemos que a vida não pode ser conduzida pelo medo, pois é preciosa demais para ser desperdiçada. Então, você ainda tem medo da paixão?
Sirley Bittú 

24 de junho de 2012

Não consegue se entregar para viver um grande amor?




Por mais que o discurso da grande maioria das pessoas seja o de que desejam sinceramente experimentar uma relação madura, intensa e íntegra, verdade seja dita: muitas sequer conseguem acreditar nesta possibilidade e, consequentemente, entregar-se ao que sentem!

Outras, embora acreditem e se empenhem para viver uma relação baseada nesses preceitos, sentem tanto medo de dar errado e sofrer, ou de não serem correspondidas, que começam e terminam com "um pé atrás", como se tivessem de se manter sempre defendidas para, caso algo dê errado, estejam preparadas... Mas, sabem que nunca estão, nem nunca estarão!

Claro, amar (e receber amor) não são tarefas fáceis! Entregar-se requer autoconfiança, confiança no outro e coragem para correr riscos. Coragem para, sobretudo, ver-se no outro, através dele! Além disso, pode ser mesmo que não dê certo, que acabe antes do que a gente gostaria ou que haja boa dose de sofrimento envolvido nesse intenso aprendizado.

Estamos falando de um encontro entre seres em evolução e amadurecimento. Estamos todos aprendendo, desejando acertar, mas errando muitas vezes, sem conseguir enxergar a nós mesmos naquilo que tanto nos incomoda e assusta.

Além disso, somos também resultado de muito do que aprendemos com nossos pais, do que vimos na dinâmica de amor deles. O que e como vivemos quando crianças diz muito sobre o modo como nos relacionamos atualmente, pode apostar! Elis Regina imortalizou muito bem essa verdade no verso:


"...Minha dor é perceber / Que apesar de termos / Feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais..."

Mas isso não significa, definitivamente, que você não tem como fazer diferente, fazer do seu jeito, do modo como acredita ser o melhor. Isso não significa que você não está pronto para se entregar, para apostar todas as fichas num encontro sem que isso signifique se perder de si mesmo.

Pare de acreditar que existirá um momento perfeito, com alguém perfeito, quando você estiver completamente certo ou tiver todas as respostas. Esse momento simplesmente não existe. Nunca vai chegar!

O momento de se entregar é agora, hoje, daí de onde você está, com quem estiver, ou ainda que esteja só. A entrega não pode depender do outro. É a sua escolha. É a sua postura diante do amor, diante da vida! Isso muda tudo! Faz toda a diferença!

O fato é que, no exato instante em que você decide viver, conectado com o momento presente, atento aos sinais, fluindo com os acontecimentos, em sintonia com seu coração, a existência recupera toda a sua força e faz acontecer o que tiver de ser! Isso se chama fé! E não existe amor sem fé!

Não estou dizendo que as dúvidas, todos os medos ou todas as frustrações desaparecerão. Não! Até porque isso tudo também faz parte do processo de amar e viver. De crescer. De fazer valer a pena!

O que estou dizendo é que quando a gente para de dar desculpas e começa a viver de verdade, o amor se enche de possibilidades e de atalhos. Que fica muito mais fácil lidar com os conflitos. Que se tornam muito mais cheios de significados tanto os encontros quanto os desencontros.

Porque, no final das contas, cada detalhe é parte fundamental de uma história cujo enredo depende somente de quanto tempo você fica sentado na plateia pensando se deve arriscar ou não, e de quanto tempo você sobe no palco e faz acontecer. Pensando, sim. Mas, sobretudo, vivendo, amando e aprendendo!


Rosana Braga

7 de dezembro de 2011

Pequenos detalhes



E, a sua casa, abriu-se para mim... Entrei com todo o meu fogo e vida...


Um homem precisa conhecer a sua fêmea, distinguir o que ela exala, como quer ser tocada... Sem que ela diga. Porque nunca é igual... Mas ele pode perceber... Como a lua: ela mostra suas formas para que o observador reconheça suas fases... Assim, a mulher também precisa se mostrar... Não é fácil enxergar através das nuvens... Eles não são adivinhos como pensamos que eles são. Abra a sua casa e mostre seus cantos!

Uma mulher precisa conhecer as horas do seu homem, seus espaços, gostos e suas luas... Sim, eles também são sagrados... Também querem ser descobertos e celebrados. Conheço poucos assim, mas eles existem... A maioria está dormindo... Cabe a nós acordá-los. Agradeça... Sempre!

Os pequenos detalhes: seja um chá que ele te traga, uma torrada que ele faça ou uma cadeira pesada que ele carregue colina acima porque você quer tirar uma foto lá. Sim, essas coisas acontecem. E, se você agradece, fortalece a união, eles gostam de ouvir isso... O reconhecimento faz bem, faz acontecer mais.

Ambos precisam dar asas um ao outro. Crescer juntos... Se encaixarem um no outro. Como as engrenagens de um relógio: nem tão separadas, nem coladas. Mas, com um espaço suficiente - que uma entre na outra, folgada - para que ambas se movimentem e juntas façam acontecer. É isso que eu quero: Que tudo aconteça! Juntos! Amor é doação, magia, paixão. Não quero menos que isso.

E, a minha casa, abriu-se para ele... E ele entrou com tanta saudade e vida... Cheirou cada cômodo, compreendeu cada palavra, notou detalhes e olhou-me nos olhos: “É preciso entrar um no mundo do outro!” Então, deitou no meu peito, e assim ficamos... Como engrenagens – do amor.





Carolina Salcides

23 de junho de 2011

O susto de se descobrir apaixonado

 



Apaixonar-se pode significar viver uma sucessão de quedas livres, pois o amor permite experimentar raras emoções e perigosas sensações. Da fase inicial de deslumbramento à desejada etapa de intimidade madura os sabores são muito variados.

Para a criança, perguntamos: “Você me ama?”, “Quanto?” Então ela abre os braços e mostra “esse tanto”, porque na infância só existe pensamento concreto. Mais tarde na vida, tentamos demonstrar de muitas e muitas maneiras quanto é “esse tanto”. A psicanálise ensina que aqueles que foram bem amados na infância procuram encontrar um companheiro para recriar o paraíso perdido, enquanto os que sofreram privação, não foram desejados nem amados, buscam alguém para compensar este vazio. Então vamos pela vida querendo amar para copiar ou para compensar. Mas tudo isso com medo, medo de abrir o coração, porque quando agimos assim ficamos vulneráveis à desilusão, à rejeição.


É assustador amar. Às vezes, um homem diz: “Que desgraça, acho que me apaixonei”. Isso porque se apaixonar pode ser uma sucessão de quedas livres. O escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) disse que algumas tentações são tão grandes que é preciso muita coragem para ceder a elas, mas todos sabemos que na vida aprendemos mais com dez dias de agonia do que com dez anos de felicidade. Quando amamos, sentimos um prazer exuberante equivalente ao de um homem dirigindo um carro novo fascinado com seus incríveis poderes recém-adquiridos.

O amor permite saborear raras emoções e perigosas sensações. Entretanto, parece que existem três etapas, três fases no processo de conquista do outro. A primeira, do deslumbramento, dura um dia, um mês, dois meses - se for verão. Desde muito cedo na nossa vida a excitação está misturada com superação de obstáculos. Então, à medida que nos desenvolvemos, vamos criando nosso mapa interno de excitação. Nele estão os riscos que enfrentamos, nossos conflitos, nossas lutas pessoais (“não quero parar de me sentir atraído pelo proibido”). Superar as barreiras é, portanto, o teste da força de atração.

Já a segunda fase pode ser tão curta quanto um telefonema, dependendo dos nossos medos, das nossas dúvidas, ou tão longa quanto forem nossos desejos, nossa fome, nossos sonhos eróticos. Essa fase pode ter um sabor salgado, incrivelmente doce ou doce-amargo.

E a terceira, nunca sabemos se vamos atingi-la ou não, por isso sentimos aquele tipo de medo estranho chamado coragem. Nessa fase, instantânea ou lentamente, cada um vai mostrando seu jogo, pondo suas cartas na mesa, pensando “eu sinto”, “eu quero”, “eu posso”. Os dois vão se abrindo, revelando seus sentimentos, seus pensamentos, e a fronteira entre o permitido e o proibido começa a se dissolver. Mergulha-se no jogo de vai-e-vem, das trocas, do sexo variado, às vezes simplesmente guloso, outras vezes, gourmet. Começa então de fato a descoberta do outro.

Quando amamos de verdade, amamos porque o outro é isto, isso e aquilo e apesar de o outro não ser nem isto, nem isso, nem aquilo. É nessa fase que se quebra a barreira entre fantasia e realidade. Então, quando uma pessoa se percebe sendo aceita por aquilo que é, correspondida, o nível de intimidade vai se aprofundando e ela se entrega. Mas essa entrega não é fácil.

Uma das perguntas que as pessoas se fazem é: “Como pode algo tão assustador ser ao mesmo tempo tão bom?” É preciso muita coragem para viver as incertezas do amor. Por outro lado, é preciso enfrentar o medo, as dificuldades, porque são elas que nos forçam a prestar atenção a nós mesmos e a lutar por nossos sonhos. Não vale a pena só passar de raspão pelo outro, pelo amor. O que queremos é criar uma reação emocional em cadeia para poder abrir os braços até chegar a “esse tanto”.



Maria Helena Matarazzo 


Queen - Love of my life


23 de maio de 2011

Quanto tempo dura uma paixão?




Paixões arrasadoras, com "P" maiúsculo, daquelas para valer, são raras: uma, duas, três durante toda a vida. Em geral, dá para contar nos dedos. Não estou falando de minipaixões - aquelas que duram um dia, uma semana, um mês, nem de paixões vividas à distância, que podem durar anos. Estou me referindo às paixões clássicas, irresistíveis, avassaladoras, que colocam a vida de pernas para o ar e nos fazem perder o rumo de casa.

Se dependesse da nossa vontade, é claro que a paixão jamais acabaria. Mas estudos científicos mostram que esse tipo de envolvimento, quando vivido realmente (e não apenas sonhado), dura de dezoito a trinta meses. Ou seja, em média dois anos.

Como a vida pode fazer uma brincadeira dessas? Leva-nos ao Paraíso, transporta-nos ao melhor dos mundos e, em poucos meses - para os amantes, sempre um prazo insuportavelmente curto -, joga-os de volta à realidade.

Pensando bem, a natureza é sábia. Nenhum ser humano suportaria por tempo indefinido esse clima de constante expectativa, de enorme antecipação, de incontrolável excitação e de total incerteza que toma conta dos apaixonados. Assim, com o passar das semanas, o estado de graça que caracteriza a paixão começa a se alterar. Os sentimentos, pouco a pouco, vão assumindo outros contornos e novas possibilidades se abrem diante dos amantes.

Mas esta já é outra etapa da nossa história. Vamos tentar compreender o perigoso e fascinante campo da paixão. Visto de permanência no Paraíso é sempre por tempo limitado

Duas pessoas se cruzam numa esquina da vida, uma vai se chegando, se acercando da outra, até que, depois de um período de aproximações sucessivas, tudo parece possível. A partir daí, o outro, que era inatingível, torna-se atingível, o que era intocável torna-se tocável. Entramos numa atmosfera em que o sonho vira realidade e a realidade vira sonho.

Sentimentos têm história. Por isso, os dois falam de suas vidas horas sem fim, durante dias, semanas ou meses. Na verdade, estão partilhando suas experiências, tornando-as comuns. Assim, os enamorados reconstituem a própria existência, tecendo-a em conjunto. É como se cada um redescobrisse sua identidade à medida que se revela para o outro.

Quem melhor descreveu esse estado de amor nascente foi o sociólogo italiano Francesco Alberoni. Ele explica que, mesmo sendo necessário um grande esforço e bastante tempo para ser descoberto pelo outro, parece não haver lógica entre o que se fez e o que de fato aconteceu. Sempre foi mais, foi além.

No estágio inicial do amor, a pessoa amada é vista como única, singular e incomparável. Isso porque o enamorado concentra todos os seus sonhos no outro e reencontra nele todos os amores do passado (pai, mãe, amigo, amante). Nessa hora, você entrevê o Paraíso, e isso não é pouco.

É fácil reconhecer a fase do amor nascente. Você provavelmente já viveu a experiência: transfigurou a realidade, dissociou-se dela, idealizou loucamente o parceiro. Nesse momento, todos nós conhecemos esperanças sem limites e medos avassaladores; mergulhamos em certeza inegáveis ("Estou vendo com os meus olhos, sentindo na minha pele…") e incertezas negáveis ("Será que estou só imaginando, será que estou apenas materializando meu desejo?").

Segue-se então um período de deslumbramento em que ambos ficam cegos pela impulsão de serem felizes - é a sensação do "eu mereço". Porém, não existe visto de permanência por tempo ilimitado no Paraíso. O visto é sempre de trânsito. A vida pergunta qual é a finalidade da viagem: turismo, negócios, lazer? Um congresso de sexo e amor? E carimba no passaporte: três dias, uma semana, um mês. Três meses, com direito a renovação. Findo o prazo, temos de fazer as malas e voltar para a realidade.

Sabemos quando estamos delirando, mas sabemos também que não podemos viver em estado permanente de delírio. Então, o que fazer? Cronometrar os dias, as horas, os minutos? Fazer contagem regressiva?

Não se deve medir o tempo em que se ama. Só o tempo cronológico pode ser cravado, cronometrado. O tempo subjetivo, não. Todos nós temos um relógio interno que nos diz quanto amamos e com que intensidade.

Quanto vale uma noite de prazer absoluto? Quanto tempo duram ou ficam gravados em nossa mente um olhar, uma carícia?

Encontros, músicas, ruídos, gestos de ternura, pedaços de conversa, essas coisas não se medem, não têm preço.

Quando a pessoa desperta desse estado onírico da paixão, o que acontece é que a paixão termina, e isso, em geral, provoca a morte da relação, ou então uma metamorfose. O fim do deslumbramento abre espaço para que o amor renasça com outra cara. A fase da paixão estonteante deve ser vista como uma etapa de um processo que continua.

Depois que os amantes voltam a colocar os pés no chão, surge a possibilidade da formação do vínculo amoroso, e a importância desse vínculo vai depender da quantidade e qualidade das trocas que os parceiros forem capazes de estabelecer.


Maria Helena Matarazzo


15 de abril de 2011

Os paradoxos da paixão




Por experiência própria, você já deve ter descoberto que há muitas maneiras de amar.

Existem os amores descomprometidos e rápidos, surgidos de olhares que se cruzam ao acaso, provocando uma enorme descarga de energia, uma vontade incontrolável de seguir, de perseguir, de caçar. São encontros não marcados, diante dos quais vibramos numa intensidade anormal porque sabemos que a primeira vez também pode ser a última.

Existem ainda os amores intensos e rápidos, aqueles nos quais se perde a consciência do perigo e a noção de limites. O que se deseja é variedade, excitação, a promessa certeira do prazer. O que se deseja é estar fora do mundo das proibições, experimentando o perigoso jogo do tudo ou nada. Estes encontros poderiam ser chamados de minipaixões. Acontecem com frequência em viagens, férias e também são facilitados pelo anonimato das grandes cidades. O objetivo é a conquista: um alvo determinado, aquele homem, aquela mulher. Nessas horas, fantasia e realidade se misturam e se confundem.

Mas as diferentes maneiras de amar não acabam por aí. Como esquecer os amores comprometidos e lentos? Para muitas pessoas, só o primeiro encontro não basta. A busca da felicidade exige um segundo, um terceiro, um quinquagésimo. Nesses casos, a ligação amorosa nasce da revelação, do desvendamento, da descoberta. Deseja-se encontrar aquele "algo mais", que só parece atingível quando se explora cada milímetro do outro, por meio de uma sucessão de perguntas, de toques, de confidências e provas de dedicação que, aos poucos, vão construindo o vínculo amoroso.

Poderíamos falar também dos amores intensos e lentos, quando se descobre que o prazer é a energia que une e agrega. Nesses amores de combustão vagarosa, a relação se delineia à medida que os parceiros se encaixam e criam laços de apego. São vínculos que dão a sensação de um porto seguro, de morar dentro do outro, e não de estar só de passagem.

Na verdade, as possibilidades de relacionamento amoroso são infinitas, mas também vale lembrar que, raramente, os encontros acontecem da forma como previmos ou planejamos. O que, de resto, é ótimo, pois quando nos abrimos para essa força vital que chamamos Eros, amor, descobrimos que o impulso erótico profundo, misterioso, não pode ser facilmente compreendido, classificado ou controlado.

Talvez não exista, no vasto repertório de experiências humanas, nada que se compare a uma paixão. É um sentimento que nos faz viver momentos de expectativa, de excitação, de incerteza; que de uma hora para outra nos tira os pés do chão, deixando-nos "nas nuvens".

Estou falando daquelas paixões sentidas na pele, na carne, que fazem a temperatura emocional ultrapassar os 100 graus centígrados, que dão ao mundo um colorido que nunca observáramos antes. Paixões que mudam o rumo de nossas vidas, nas quais nos entregamos totalmente, sem defesas e sem receio, nas mãos do ser amado. Paixões que, colocando-nos na fronteira da sanidade e da loucura, nos fazem perder a consciência do perigo e a noção de limites.

Ao nos apaixonarmos, sentimo-nos a dois passos do Paraíso; ora entrando (quando estamos junto da pessoa amada), ora saindo (quando nos afastamos). Uma idéia fixa nos envolve: como representar tudo para o outro e como conseguir que o outro se transforme em tudo para nós. Sob o domínio da paixão, sentimos a compulsão de negar o que somos, ou já fomos, para corresponder às expectativas daquele ou daquela por quem nos apaixonamos. Nessa fase, nada se compara à extasiante experiência de estar a sós, de mergulhar, de se fundir com a pessoa amada. Invade-nos uma fome insaciável de intimidade, infinita de reciprocidade, que torna apavorante a perda do amor recém-encontrado.

Como algo tão assustador pode ao mesmo tempo ser tão bom?

Você já deve ter percebido por experiência própria que paixão jamais combina com lógica ou rima com racionalidade. Não se trata de uma escolha consciente, de um ato premeditado; simplesmente, acontece. Apesar disso, sempre fica uma pergunta no ar: por que as pessoas se apaixonam perdidamente? É difícil, para não dizer impossível, explicar de forma total uma experiência humana ao mesmo tempo tão universal e tão misteriosa como é a paixão amorosa. No entanto, podemos levantar algumas possibilidades.

Em nosso mundo externo sempre existe falhas, buracos, assim como em nosso mundo interno sempre existem carências e necessidades. Quando nos damos conta de nosso vazio interior, surge a necessidade de preenchê-lo, ou seja, sentimo-nos ávidos de amor. Nessas circunstâncias, em geral, o aparecimento de uma pessoa de carne e osso para suprir a carência se transforma em mera questão de tempo. De uma hora para outra, a paixão bate à porta.

Na ânsia de se preencher, de se completar, o apaixonado absorve, engole o outro, ou se deixa absorver, engolir totalmente. Em conseqüência, a paixão vai crescendo de forma avassaladora e se transforma em "monomania", na coisa mais importante da vida, na razão de ser da própria existência.

A "vítima" da paixão passa a ver o mundo por uma ótica distorcida. Os valores se alteram, tudo muda de sentido. Quem se apaixona fica por demais ansioso para poder decifrar os sinais que o outro lhe envia. Fica também por demais apegado para poder realmente enxergar o outro e por demais obcecado para poder conhecer o outro. Chega a dizer que o ser amado é tudo e tudo se resume ao ser amado. Isso significa ignorar as demais pessoas.

Embutida nessa entrega total, há também uma exigência de complementação total. As grandes paixões desconhecem barreiras, insurgem-se contra o proibido. A literatura está cheia de exemplos de amantes que, apesar dos mais terríveis obstáculos, mantiveram-se unidos por laços indestrutíveis.

Mas a ligação entre paixão e sofrimento não aparece apenas na ficção, nos romances, nas novelas. Ela existe na vida real. A separação é tão dolorosa porque um homem, uma mulher apaixonados não preenchem suas necessidades afetivas com várias relações de troca, de amizade. Para eles, o ser amado é a única fonte de gratificação. Isso transforma a paixão numa espécie de prisão paradisíaca.

A expressão "estar perdidamente apaixonado" dá bem a medida da ambiguidade que envolve esse sentimento que todos ansiamos por experimentar, mas que tanto nos perturba quando, sem pedir licença, ele invade nosso coração.



Maria Helena Matarazzo

28 de março de 2011

Sensações





“Entendo que amar é coisa abstrata
está na mente feito pó no ar;
mas, é matéria viva quando ata
duas almas sob as cruzes do altar.

Amar é bom. O corpo sua, a íris se dilata
o desejo queima que nem raio solar;
nasce no peito sem medida exata
e corre no sangue qual ondas no mar.

Amar sãos ossos, músculos em contração,
dois corpos em perfeita simetria
bailando uma estranha melodia...

Nenhum poder atrai quanto essa atração.
Vivemos, quando o amor nos invade
a doce loucura da felicidade!”



Inácio Dantas