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31 de agosto de 2012

Me apaixonei pelo meu amigo. E agora?




Vocês se conhecem há tempos, têm um relacionamento muito legal, confiam um no outro e até contam as aventuras amorosas que vivem, em seus mínimos detalhes. Consideram-se praticamente irmãos, saem sempre juntos, compartilham amigos, segredos e sonhos.

Um baita privilégio ter alguém assim por perto, com quem a gente se dá tão bem e, principalmente, com quem pode contar para o que der e vier! Amigo é mesmo "coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...", como tão lindamente canta Milton Nascimento.

Porém, contudo, no entanto... num belo dia, sem que você esteja contando com isso, olha para essa pessoa e sente que ela está muito mais dentro do seu coração do que você imaginava. Tão dentro que o faz acelerar, bater descompassadamente. Tao forte que faz você suar frio!

Assustada, confusa, você se pergunta: o que é isso? O que está acontecendo comigo? Será que to ficando maluca? E de repente, "cai a ficha"! Sim, você está apaixonada pelo seu amigo! E a primeira e constante pergunta que se faz agora e pelos próximos intermináveis dias, é: e agora?

Bem, se a recíproca for verdadeira e os dois se derem conta de que a amizade está pedindo algo ainda mais íntimo e intenso, e se os dois estiverem solteiros e desimpedidos, então, não há o que se perguntar. Penso que é hora de conversarem sobre o que estão sentindo e, da forma mais sincera e espontânea possível, aceitarem esse convite para viver esse amor tão amigo, que pode mesmo ser pra lá de especial!

Mas, se o ritmo dessa relação mudou só para você; se seu amigo não dá indício nenhum de que o sentimento dele também está diferente, então, é mesmo prudente refletir a respeito. Se, por um lado, você pode tentar conquistá-lo, mostrando que já existe entre vocês um cenário bastante promissor, por outro, tudo isso pode significar um grande risco.

De todo modo, penso que problema mesmo existe quando um dos dois é comprometido e pretende continuar assim. Daí, para o caldo entornar e a amizade desandar é um perigo! Sem contar que é quase certo que conflito, frustração e dor vêm pela frente, seja porque um dos dois vai ter de se afastar, seja porque um dos dois não vai estar por inteiro na nova relação instaurada - e vai machucar o outro.

O fato é que, quando existem dois (ou mais) corações envolvidos de forma tão contundente, é preciso lançar mão de ferramentas internas como intuição, sensibilidade, ponderação, verdade (muita verdade!) e fé! Sim, fé para confiar na sabedoria da vida, para perceber que ela manda sinais, que ela mostra o melhor caminho. Mas precisamos estar atentos, confiantes e maduros para aceitar, seja o que for que se mostre como o mais razoável para todos.

Assim, se você se apaixonou pelo seu amigo, se sente que está numa situação delicada e corre o risco de perder algo que é tão caro para você, então, respire fundo, consulte seu coração, questione-se sobre o que realmente quer e, se sentir que é necessário, fique um tempo de longe, observando, tanto a si mesmo, como a relação e ao outro.

Se chegar à conclusão de que esse novo sentimento é forte demais para ser relevado, e que você quer arriscar, sugiro que você esteja convicto de que vai precisar falar sobre o que sente e, principalmente, ouvir. Ouvir o que seu amigo pensa, sente e quer diante de tudo o que você vai dizer. Depois, convide-o para uma conversa franca e deixe a voz do amor falar.

Aconteça o que acontecer, se os dois conseguirem se respeitar e, acima de tudo, valorizar tudo de bom que já viveram, o final dessa história - seja agora ou daqui há algum tempo - só poderá ser feliz! Só poderá servir para fazê-los crescer! É assim sempre quando duas pessoas enxergam além de si mesmos. Enxergam suas almas!


Rosana Braga

26 de agosto de 2012

A importância de ser e de ter amigos




Ter e ser amigo são experiências das mais profundas que se pode viver. Traz sentimento de liberdade, de poder se expor e de compartilhar experiências de modo totalmente espontâneo e franco, ao mesmo tempo que íntimo. Neste tipo de relação de confiança recíproca, amigos espelham-se um no outro e a partir disso costuma acontecer a dança de papeis onde ora se é o amigo, ora o irmão, ora o pai, ora a mãe e por aí vai, tudo no intuito da ajuda mútua.

Mas como chegar nesse lugar? É fácil? Simples? Na amizade real, a sensação que fica é a da liberdade de poder se expressar naquilo que estamos sendo no momento e como consequência, esclarecimento maior sobre nós mesmos e sobre a vida. O não-julgamento do amigo permite expansão genuína de amor, respeito e cumplicidade somados à expansão das afinidades.

O encontro amigo evoca rompimento com inúmeros preconceitos e certamente nos farão pensar sobre outros tantos dogmas por nós navegados de modo cego. A aceitação do outro leva ao conhecimento inequívoco de nós mesmos. Na amizade sincera, é inevitável todos saírem da própria superficialidade cedendo lugar à maior intimidade e aprofundamento em si mesmo. Logo no início das amizades, muitas pessoas imaginam-se íntimos e profundos, mas ainda estão à beira de um processo onde ocorrerão as brigas e desacordos, resultado de relacionamentos maduros, para que aprendizados se estabeleçam.

Uma amizade salutar ou mesmo um grupo de amigos saudáveis promove autoconhecimento diferenciado. É através das relações de amizade que se consegue transitar nos mais diversos ambientes emocionais e onde paradoxalmente se aprende a ter autonomia sobre todo tipo de escolha, inclusive, sobre as próprias amizades.

Na frenética e ainda inconsciente sede do encontro consigo mesmo, muitas vezes é pelo intermédio do outro que a virada ocorre, ou seja, que o encontro genuíno se revela. Num repente e, nunca desapercebidamente, o sagrado de estar com um amigo de verdade é sentido e vivenciado emocionantemente. Ter muitos amigos, porém, não significa que você tenha amigos de verdade. Amigos de verdade querem o seu bem e estão com você tanto na chuva, quanto na dor, quanto na alegria.

Amigos falsos lhe usam apenas para que você possa alegrar a vida deles, dar mais dinamismo, escutar continuamente problemas que nunca mudam. Amigos falsos não sabem ouvir, não têm essa capacidade. Amigos falsos lhe usam para não saírem sozinhos ou mesmo o levam nos lugares apenas e tão somente para competir com você. Para você dar suporte, a fim de que se sintam minimamente melhores do que os outros e do que você.

Observe o tipo de amizade que você tem atraído para si mesmo e, se tiver alguma questão em relação, reflita o porquê disso tudo. Honestamente, pergunte-se também que tipo de amigo você tem sido? No final, veja se o que deseja para sua vida está compatível com as amizades que tem.

Quando não se identifica com as amizades, quando frequentemente se sente usado pelos amigos ou mesmo quando é constante a perda dos mesmos, um processo de terapia em busca de autoconhecimento é altamente indicado. Quando se está só e sem amigos, também é um bom motivo para começar a se questionar e ver o que acontece.

Ninguém vive sozinho. Conhecemo-nos através da relação que temos com o outro. Quando não há relação alguma, há o que se pensar a respeito. Por isso mesmo, iniciar uma relação com um terapeuta muitas vezes serve para superar dificuldades desta ordem. Nestes casos, as pessoas que iniciaram terapia comentam que deviam ter começado muito antes. Não tinham noção de como carregavam traumas e inserções de culturas familiares, desde a infância, fazendo-os ser o que são hoje. Tem muita coisa que comanda a vida das pessoas e elas não sabem de onde vem e mesmo quando sabem, se estão sozinhas, tem dificuldades para mudar.

A questão não é a conquista do diferente, mas a conquista de ser você mesmo, de descobrir o que se gosta, o que não se gosta e na sequência, de usufruir de tudo com sabedoria. Ter amigos, ser amigo, ser seu melhor amigo. Autoconhecimento, amor, vida.


Silvia Malamud 
 

21 de julho de 2012

Coisa rara



Meu Deus, como é difícil ter um bom amigo hoje em dia. Alguém que possa oferecer um colo e um afago na hora da tristeza e que consiga sorrir de verdade com a sua alegria. É que nem todo amigo é amigo o suficiente para dar pulos de felicidade com as coisas boas que chegam na sua vida. 

Não é fácil compartilhar o dia a dia, deixar as próprias frustrações e projeções de lado e ser limpo, honesto, puro. É muita coisa em jogo. Tem mágoa, tem inveja, tem os percalços da vida, tem suas desilusões, tem seus planos que mofaram dentro da gaveta. É por isso que digo com certo amargor na boca: nem todo mundo sabe ser amigo. 

Existe aquele tipo de gente que veste a máscara de amigo e só quer saber da sua vida. Quer sugar, ficar por dentro, mas não dá nada. Não compartilha, não divide, não sabe se doar. Não conta nada de si e quando você pergunta só diz que está tudo bem. Tem também o tipo que nunca tem problema, que a vida é sempre boa, sem tropeços e sem nada chato ou ruim. Estranho, não? A vida muitas vezes é bem chata e bem ruim e a gente não tem nada a fazer a não ser esperar. Porque tem coisa que foge do nosso alcance e temos que entender isso também. Nem tudo depende de mim, de você, do nosso esforço, do nosso suor. 

Tem também o tipo que, mesmo sem querer, não consegue ficar feliz por você. O máximo que diz é que legal, que bom, parabéns. Mas aquela felicidade que vem de dentro não dá as caras. Me pergunto: isso é ser amigo? Quantos amigos você tem? Não falo daquele companheiro de bar, aquele que ri das suas piadas, brinda com um copo de cerveja gelada. Quantos amigos você tem? Não falo daquele que é uma pessoa legal e divertida para trocar ideias e fazer fofoca. Quantos amigos você tem? Não falo daquele que sabe cada passo seu e oferece sempre o lenço de papel mais próximo. Quantos amigos você tem? Não falo daquele que está sempre junto nas festas. Quantos amigos você tem? Não falo daquele que sabe da sua vida apenas o que você quer que saiba. 

Quantas pessoas te conhecem de verdade? Pra quem você se abre? De quem você não tem medo? Que pessoa você tem certeza que quer o seu bem? Quem realmente não sente desconforto ao ver sua felicidade? Quem não ficou magoado por bobagem? Quem sabe reconhecer quando erra? Quem nunca te deixou na mão? Quem assume quando pisa na bola e pede desculpa? Com quem você discute, mas depois fica tudo bem? Quem entende o seu jeito? Quem aceita seus defeitos? Quem não fala mal de você para os outros amigos? Quem ajudaria você a pagar sua conta de luz, caso fosse necessário? Quem vibra com seu sucesso profissional? Quem deseja realmente toda felicidade do mundo no seu relacionamento? Quem? Por favor, me diga quantos, quantas. Quem valoriza o que você faz? Quem é grato pelo que você fez? A ingratidão em qualquer relação é coisa muito feia, principalmente em amizade. 

É bom a gente pensar de vez em quando sobre isso. Analisar as relações, as pessoas, rever as amizades. Agora você me responde ah, mas eu ligaria para a Camila às 4 da manhã se estivesse em apuros e tenho certeza que ela sairia de casa e me ajudaria. Eu não estou falando disso. Falo de algo mais profundo, que conecta as pessoas, que une e não separa por nenhuma força. Falo de um sentimento genuíno, de amor, de gratidão, de respeito, de carinho, de amizade. Muita gente fala que fulano é amigo, mas não sabe o significado disso. Ser amigo é chorar o teu choro e rir, com o coração, o teu riso. E isso é coisa rara hoje em dia.

Clarissa Correa

25 de maio de 2012

As prisões de cada um



Todos cometem pequenos ou grandes delitos. E no amor, como fica esse balanço? Uns nem imaginam que fizeram faltas com consequências tão graves; outros acham que estão no máximo do pecado e se julgam criminosos hediondos, quando na verdade ninguém foi prejudicado a não ser eles mesmos.

O amor tem leis próprias e uma infinidade de jurisprudências. Só que o coração é o juiz, o poder supremo – ele prende, liberta, absolve, perdoa, pune. Há que respeitá-lo, pois nele ninguém manda. No máximo, podem afrontá-lo de forma dura, ou enganá-lo por vias escusas. Quem tem essa capacidade? A razão, sem dúvida. Embora não tenha poder absoluto, é dotada de força avassaladora, já que é ela quem, de fato, descumpre as ordens do coração.

Essa conversa está muito burocrática né? Tudo isso para dizer que o coração tem razões que a própria razão desconhece; que a razão sufoca, invade, invalida e, acima de tudo, aprisiona o sentimento de um jeito implacável. Infelizmente, não dá para sair por aí fazendo tudo o que o coração quer, mas tornar-se refém da razão também não está entre as dez atitudes mais saudáveis do mundo.

Outro dia li uma frase que diz mais ou menos o seguinte: quando alguém está na sua cabeça é porque ainda não saiu do seu coração. Existem pessoas que esmagam o coração alheio sem entender que o primeiro a ser machucado é o delas.

Assim como existe gente que brinca com o coração do outro sem esperar que o seu próprio um dia lhe pregue uma peça. E finalmente ainda há aqueles que são sinceros, mas acabam engolidos pelo aprisionamento da razão. Choram em silêncio, travam uma disputa desleal entre o querer e o não poder, não arriscam, não extravasam, apenas sentem um ritmo acelerado, tão acelerado que, a qualquer momento, vencem a barreira da razão e se permitem transgredir. Resta saber se esse coração será punido ou absolvido.


Fernanda Santos 






3 de dezembro de 2011

Quando é preciso ir embora



Romper seja lá o que for é sempre muito difícil. Sempre dói. Parece que você está jogando a felicidade pela janela. Quantas vezes você pensa no fim e recua, porque está apegada a sentimentos, idealizações e até a armadilhas emocionais das mais cruéis. Uma verdadeira briga entre o cérebro e o coração.

Dualidade. Sim, agora vai dar certo; não, não tem jeito mesmo. Ah, mas isso foi tão especial; nossa, que desconsideração… Tem gente que vive anos assim, acreditando e desacreditando; apostando e perdendo; esperando e não tendo. Tem gente que vive isso tudo num único dia. Acho que vale pensar no que você está se apegando. Se for em nuvens, não deve estar vendo o que está por trás delas.

As dúvidas pré-rompimentos sempre existirão e sempre serão doloridas. E para ajudar na decisão é preciso mergulhar fundo em si mesma e ouvir qual é grau de felicidade que o relacionamento (o trabalho, a amizade) está lhe proporcionando. Sim, no fundo é o que você está ganhando com isso. Se seus olhos brilharem mais de alegria do que de lágrimas, está valendo. Se você estiver se sentindo mais mulher do que amiga/terapeuta, continua valendo. Se seu coração bater mais de amor do que de nervoso, vá em frente, se a outra pessoa quer você na mesma intensidade, corra para o abraço.

Do contrário, tem algo errado. Bem errado. O outro não é obrigado – aliás, nunca conseguirá – satisfazer suas carências ancestrais. Quem carece de si mesmo pode até encontrar algum conforto numa relação torta, mas precisa saber que ela tem data marcada para terminar. Uma pessoa e meia definitivamente não estabelece um relacionamento. Estabelece dependência. Infelizmente, às vezes é preciso cair das nuvens, se esborrachar no chão para assumir que precisamos de mais para ser feliz. O melhor a fazer é libertar e libertar-se. Nesse caso, sem medo de ser infeliz. Porque tudo passa. Tudo.




Fernanda Santos 




12 de novembro de 2011

O poder da amizade




Às vezes, busca-se um parceiro sexual, outras, um amigo, porque com frequência a amizade nos oferece coisas que um caso de amor não pode dar.

Na verdade, a amizade é uma forma de amor. Ela se estabelece por meio de encontros sucessivos - "quarta-feira", na semana que vem" -, cada um deles representando um momento de felicidade, uma ocasião durante a qual compreendemos algo novo a respeito de nós mesmos e do outro.

Como cada pessoa é diferente, essa desigualdade se torna preciosa, pois cada amigo ajuda o outro a se descobrir, a entender o que para ele é essencial: "Será que ele/ela me ama? Mas será que isso é amor? "Nessas horas de afinidade profunda, duas pessoas conseguem enxergar a vida pelo mesmo prisma.

São esses contatos de corpo e alma que têm importância - o que acontece nos intervalos não conta. Por isso, dois amigos, quando se despedem, dizem sempre "até logo", "até qualquer hora", quando se reencontram, é como se tivessem se deixando na véspera, religam-se imediatamente, ficam em linha direta, como se o tempo não tivesse passado.

Por que a amizade tem essa importância? O mundo está cheio de rivalidades, de obstáculos, de inveja. Por isso sentimos fome de amizade, dessa "amizade - refúgio" em que o outro nos entende, nos apoia, revela coisas que jamais seríamos capazes de encontrar sozinhos dentro de nós mesmos.

Sim, porque os amigos servem para isso: para nos compreender, nos suprir de energia, nos dar um pouco de esperança.

Assim é o amor - amizade: é ele que ajuda cada um de nós a ser equilibrar sobre os próprios pés, a se sentir um pouco mais forte e assim ter coragem para lutar o próximo round da vida.




Maria Helena Matarazzo



20 de julho de 2011

Essa rede invisível de amor






“A felicidade não se compra", de 1946, dirigido por Frank Capra, é um dos filmes mais bonitos que já assisti. Descobri há uns dez anos, citado por um palestrante para ilustrar o tema que abordava. Curiosa, fui procurá-lo na locadora. Fiquei encantada pela história, que conta, entre outras coisas, o quanto “cada vida humana é capaz de tocar muitas outras vidas” de forma preciosa e singular, mesmo sem muitas vezes ter essa percepção.

George Bailey, o protagonista, interpretado pelo ator James Stewart, é um homem de bom coração, gestos nobres, que assume os negócios do pai e, num momento de extremo desespero pela perspectiva da iminente falência, considera que teria sido melhor não ter nascido e pensa em suicídio. Aí começa a parte mais interessante do filme: um anjo meio atrapalhado desce à Terra e o faz mergulhar numa espécie de sonho para lhe mostrar como seria diferente a vida das pessoas que amava e havia ajudado, em vários momentos de sua trajetória, se, de fato, ele não chegasse a nascer. Aparentemente despretensioso, o filme é de uma sensibilidade imensa.

Como é dito em algum trecho do roteiro, cada vida toca mesmo muitas outras vidas. Direta ou indiretamente. No nosso cotidiano, tantas vezes agitado, apertado, ensandecido, a gente não percebe. Não registra. Não lembra disso. Mas, se pudermos parar um pouquinho e afastar o sentimento dessa roda-viva, é possível notar o quanto a nossa vida está ligada a outras tantas numa rede invisível, tecida com fios de puro sentimento. O quanto o fato de existirmos influencia, de diferentes maneiras, em variadas circunstâncias, a história de muitas pessoas, conhecidas ou anônimas. Gente que já passou e nem sabemos mais por onde anda. Gente que continua próxima dos nossos olhos e do nosso amor. Gente, cuja vida esbarra na nossa de forma muito rápida, mas nem por isso o encontro é menos valioso. Pessoas que nem sabemos quem são.

Não estamos separados, como tantas vezes sentimos. É fantástico ter olhos para ver a amorosa rede de conexões que cada vida representa. Quando tratamos uma pessoa com gentileza, respeito, cuidado, não é somente ela que está sendo tocada, mas toda a infinidade de inter-relações envolvidas com a sua passagem pelo mundo, as que já existem e as que poderão vir a existir. Tocamos, em desdobramento, outras tantas histórias e possibilidades vinculadas àquela vida, única e intransferível. Cada pessoa é muita gente, além da preciosidade de ser simplesmente quem é.

Ao olhar para mim, sinto a presença de muitas pessoas. Não teria chegado até aqui, da mesma forma, sem elas. Gente da minha família de sangue. Gente da família que o meu coração cria, vida afora. Gente que encontrei em algum ponto do caminho. Muitas me ajudaram sem sequer perceber. Recebi, em diferentes momentos, a dádiva de gestos de cuidado e amor que fizeram toda diferença. Mesmo os mais singelos foram providenciais: sorrisos, olhares, escutas, abraços, palavras, silêncios compartilhados quando a presença diz tanto. Luciano de Crescenzo, escritor italiano, disse uma coisa linda: “Somos todos anjos como um só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. E não é?

Essa leitura da interpendência, que eu acho muito poética, nos convida a refletir sobre a responsabilidade das nossas ações. O filósofo Emerson, num texto que lhe é atribuído, disse que tivemos sucesso na nossa jornada quando ao menos uma vida respirou mais fácil porque nós vivemos. Essa perspectiva de contribuir para que outras vidas respirem melhor porque existimos nos faz redimensionar a importância da nossa estada por aqui. A natureza é um sistema vivo todo amoroso, feito de gestos gratuitos de troca e beleza. Como parte dela, não somos, por essência, diferentes. Precisamos aprender a respirar melhor e a ajudar, cada um do seu jeito, que outras vidas também respirem com mais facilidade. Não precisa ser por meio de feitos espetaculares. Pode ser nas miudezas do dia-a-dia, no improviso de cada instante. Isso já é grande à beça.



Ana Jácomo 

Michael Jackson and Friends - We are the world




Feliz  Dia do Amigo!!!
  

A Felicidade Não Se Compra


Título original: It's a Wonderful Life
Lançamento: 1946 (EUA)
Direção: Frank Capra
Atores: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore (Henry F. Potter) Thomas Mitchell, Henry Travers.
Duração: 129 min
Gênero: Drama
Sinopse:
Em Bedford Falls, no Natal, George Bailey (James Stewart), que sempre ajudou a todos, pensa em se suicidar saltando de uma ponte, em razão das maquinações de Henry Potter (Lionel Barrymore), o homem mais rico da região. Mas tantas pessoas oram por ele que Clarence (Henry Travers), um anjo que espera há 220 anos para ganhar asas, mandado Terra, para tentar fazer George mudar de idéia, demonstrando sua importância através de flashbacks.



19 de julho de 2011

Dissolvendo mágoas




É inevitável que vez ou outra na vida sejamos feridos pelas pessoas. Alguém nos engana, alguém nos trai, alguém nos trata com falta de respeito, desconsidera nossos sentimentos... Eu sei que você já passou por isso em algum momento. Isso não quer dizer, necessariamente, que tenhamos que continuar carregando isso no peito pelo resto de nossas vidas, cultivando mágoas, como fazem tantas pessoas.

O nosso peito é como um grande lago, suave, ladeado por flores, pássaros e todos os tipos de vegetações. Quando alguém nos fere, é como se uma pedra fosse jogada no lago... tudo fica ondulado por alguns instantes, a superfície perde a limpidez, a água fica momentaneamente turva e o vento sopra de uma forma tão gélida que chega a doer.

Mas depois de um tempo, o que naturalmente aconteceria? A pedra atirada ficaria quieta em algum lugar lá no fundo do lago, uma prova de que vivemos intensamente, uma experiência de vida que veio para nos trazer sabedoria. A superfície da água voltaria a ficar lisa como um espelho, a areia levantada voltaria ao fundo e voltaríamos a sentir a plácida paz desse lago sagrado.

Mas algumas pessoas não se conformam. Em vez de aprenderem com o que aconteceu e retornarem a seu estado natural de confiança na vida, querem encontrar a pedra atirada, que agora se encontra perdida lá no meio de seus lagos. E, se possível, gostariam de atirar a pedra de volta, bem no meio da testa do infeliz que ousou jogar a pedra no lago! Ficam andando de lá para cá dentro do lago, cultivando mágoas e pensamentos ruins, ondulando ainda mais a superfície, levantando cada vez mais areia, turvando a água, perturbando a própria paz. Cada vez que se lembram do que aconteceu e de quem as magoou, é como se jogassem novamente a pedra no lago, e de novo, e de novo, e de novo! E a todo momento comprovam o grande estrago que lhes foi causado, e dizem: Vê? Não consigo mais enxergar a minha imagem na superfície do lago!

Na verdade, a pessoa que nos magoou atirou, sim, a primeira pedra, mas a forma como reagimos a isso é o que pode de verdade nos fazer mal. Continuamos impedindo que a paz aconteça, recriamos a mágoa infinitas vezes dentro de nós... Por que fazemos isso?

Fazemos isso porque em algum lugar dentro de nós existe uma crença distorcida de que a vida deve ser sofrida, de que o sofrimento nos torna maiores, mais dignos. Se lá, no nosso íntimo, existisse a crença sorridente de que merecemos ser felizes, simples assim, não perderíamos tempo em nos atormentar dessa forma, em cultivar mágoas que só nos ferem.
Se acreditássemos de verdade que merecemos a felicidade, deixaríamos a pedra lá, no fundo do lago, e sairíamos para encontrar algo melhor para fazer. Também cultivamos mágoas porque nos falta amor, amor por nós mesmos. E foi essa mesma falta de amor próprio que, provavelmente, acabou permitindo que o outro nos ferisse tanto. Quem ama a si mesmo não fica em relacionamentos desrespeitosos, é mais rápido em buscar aquilo que é bom e saudável.

Precisamos parar de nos colocar no lugar de vítimas das situações. Mesmo quando a outra pessoa errou, nos enganou ou o que quer que seja, uma partezinha nossa permitiu que isso acontecesse. Assim, de nada adianta ficarmos repetindo infinitamente em nossas mentes e corações o ocorrido. Isso só nos aprisiona mais e mais.

Muito mais sábio seria tranquilizar a mente até que a superfície do lago voltasse a ser calma como um espelho. E então, sentados em frente a esse espelho, perguntaríamos: Como posso aprender com o que aconteceu? Como posso evitar que volte a acontecer? E depois, seria bom que ficássemos em silêncio, até que a resposta nos venha.

Imagine que as águas de seu lago sejam como um bálsamo sagrado capaz de curar e dissolver pedras. Permita que as mágoas sejam dissolvidas nessa energia que brota de seu coração. Não tenha pressa, leva certo tempo, eu sei, mas até mesmo os maiores rochedos podem ser dissolvidos pela suave persistência da água.



Patricia Gebrim 


Aerosmith - Crazy