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3 de dezembro de 2012

50 tons da verdade!




Sim, me rendi à trilogia "50 tons"*! E embora ainda não tenha lido o último volume, já poderia refletir aqui sobre os tantos e tantos temas levantados na narrativa que conta sobre o encontro e a relação entre um jovem casal - Ana e Christian. Porém, quero me deter, neste momento, a apenas um!

Não se trata da combinação entre dominador e submissa, nem do erotismo tão explorado entre cada intenso acontecimento. E também não quero defender nenhuma das tantas diferentes opiniões que já ouvi e li acerca deste que é - indiscutivelmente - um grande sucesso editorial!

Quero falar de um detalhe que muito me envolveu e cativou! É sobre a capacidade que o protagonista - Christian Grey - tem de expor a sua verdade. De se colocar. De falar exatamente o que quer, como quer, onde quer e quando quer.

Em princípio, colocado desta forma, e especialmente a quem não leu, pode parecer uma característica egoísta. Mas definitivamente não é! A começar por um contrato que ele aceita discutir, passando pela clareza de suas colocações e, sobretudo, pela coerência que ele mantém, o tempo todo, entre o que fala e faz. Fiquei realmente admirada.

Pra quem já me lê, sabe que uma das sugestões que insisto em repetir quando falo de relacionamento é sobre a comunicação. Clareza, objetividade, transparência. Acredito, realmente, que a prática recorrente dessas qualidades facilitaria de modo imensurável e inenarrável nossa vida, nossa saúde e nossas relações, especialmente as afetivas.

De repente, pensei: "Que maravilha! Ele pede e pratica pelo menos 50 tons da verdade!". E por ser assim, termina incentivando Ana a esse treino. Não exige "sim" ou "não", porque mais importante do que as determinações é o que pode ser vivido. Enquanto casal, parceiros, adultos e conscientes, eles discutem, perguntam, ouvem um ao outro. Quando ainda não sabem, dão-se espaço e tempo para pensar. Quando sentem que algo pode lhes ser demais, comprometem-se a, pelo menos, tentar.

Sem garantias, sem certezas. Um dia de cada vez. Um cômodo de cada vez. Um acessório de cada vez. E pra melhorar, ainda têm as palavras de segurança! "Amarelo" e "Vermelho"! A primeira serve de alerta para quando um está se aproximando do limite do outro. E a segunda, refere-se ao alerta de que um chegou ao máximo do que o outro pode suportar.

Quem de nós tem coragem de avisar? Quem de nós pergunta ao outro qual é o seu limite? Quem de nós pede ao parceiro para gritar "pare" quando não aguentar mais uma situação e, de forma respeitosa, mantendo as alteridades rigorosamente intactas, para imediatamente? Sem discutir. Sem barganhar. Sem tentar impor as próprias necessidades!

Não estou aqui discutindo os termos ou as cláusulas do contrato formal e por escrito que ele propôs a ela, mas sobretudo do contrato verbal, das intermináveis conversas, da abertura total e irrestrita para falar, perguntar, refletir, esgotar as dúvidas, os medos e as inseguranças. Isso é que é incrível, arrebatador, encantador!

Quem não quer conviver com alguém que está disposto a falar do que sente, que está comprometido até o último fio de cabelo com a sua verdade? Penso que não é o sexo ou o dinheiro ou a beleza do personagem que conquistou o mundo. Sim, claro, tudo isso tem seu valor e, apesar de serem questões absolutamente relativas, realmente não vejo nada de mau em querer o belo, o bom e o prazeroso. Mas penso que o que sustenta tudo isso na narrativa são os inúmeros tons da verdade usados tão contundentemente na relação entre eles.

Quantas vezes temos medo de nós mesmos, da nossa história, do nosso passado, de nossos pensamentos e sentimentos, de nossas fraquezas? E por tudo isso, inventamos alguém que não somos para tentar obter alguma garantia de que podemos ser amados pelo outro? E sabe o que conseguimos? Enganos, ilusões e frustrações! Amores de mentira! Relações pequenas, cheias de silêncios ensurdecedores, abismos e mal-entendidos!

O que me abraçou definitivamente na trilogia de E. L. James, a autora britânica deste best-seller, foi a coragem de seu personagem de não se esquivar de si mesmo. De enfrentar seus próprios demônios como consegue, quando pode, pedindo ajuda ao seu psiquiatra, aceitando ajuda de onde veio, sem julgar, sem desmerecer.

Porque, acredito eu, foi a sequência de suas escolhas - nem certas e nem erradas, apenas as escolhas possíveis em cada momento de sua vida - que lhe possibilitou chegar ao encontro de seu grande amor. Ao encontro da mulher através de quem ele pode enxergar sua própria alma. E o que é o amor senão ser para o outro um espelho fiel de tudo de bom e tudo de nem tão bom que existe nele e, ainda assim, continuarem juntos?

No mais, o exercício é de evolução diária, consistente e com o máximo de prazer que for possível! Lancem mão de seus acessórios pessoais e façam-se pulsantes e satisfeitos!

* De E. L. James, a trilogia foi traduzida e publicada no Brasil sob os títulos "50 tons de cinza", "50 tons mais escuros" e "50 tons de liberdade".

Rosana Braga



8 de agosto de 2011

Como pregar um botão…e por aí vai




Eu nunca fui “prendada”. Nunca soube cozinhar, não sei costurar, não faço artesanato, não conheço truques de limpeza, não faço minhas próprias unhas, não ser dar nó em gravata de marido (ainda bem que ele não usa gravata) e nem dobrar lençol com elástico. Meu prato mais sofisticado é o mexidinho de arroz com ovo. Meu antigo marido e o atual cozinham melhor do que eu. Numa urgência, não prego botão sem espetar o dedo com a agulha. Quando era criança, minha mãe até me ensinou a fazer crochê, mas eu gostava mais de jogar futebol.

O motivo, dá para perceber, é uma mistura de falta de interesse e falta de habilidade.

Mas recebi esta semana um livro muito interessante: "Como pregar um botão – e outras coisas úteis que sua avó sabia fazer".

A autora, Erin Bried, redatora da revista americana Self, dá mais de 100 dicas sobre culinária, limpeza, jardinagem, etiqueta, etc. Tem algumas realmente incríveis. Vou citá-las, mas sem desvendar o segredo, para não deixar o pessoal da editora Civilização Brasiliera chateado comigo:

Como preparar e conservar geleia de morango. Subitamente, a ideia de transformar morangos em geleia me pareceu muito instigante. Vou tentar.

Como usar vinagre para limpar praticamente tudo. Achei incrível! Estou pensando inclusive em passar nos dentes dos meus filhos, já que a dentista sempre reclama que eles não escovam direito. (Ah, a autora fala “praticamente”…Que pena).

Como usar um cachecol. Essa eu achei que sabia. Bastava enrolar no pescoço. Mas estou vendo que é bem mais do que isso. Vivendo e aprendendo.

Como preparar um grogue da chá quente. Eu nem sabia o que era grogue. Fui procurar. É água quente com bebida alcóolica, açúcar e limão. Agora só falta fazer o chá, que serve pra curar resfriado.

Como enrolar um recém-nascido. Esse livro deveria ter chegado uns 13 anos antes. Quase sufoquei minhas pobres crianças, mas eles sobreviveram.

Como ler uma história infantil. Essa me surpreendeu. E são cinco passos! O último é dar um beijo de boa noite. Essa parte eu sempre fiz, mesmo sem contar história.

Como fazer escambo. Sensacional. Vou chamar minhas amigas pra fazer um escambo qualquer noite dessas lá em casa. De preferência vestidas de índio.

Como dançar uma valsa básica. Valsa, básica?

Como brincar de mímica. Ah, peraí. Eu passei a infância fazendo isso. Nisso eu sou boa. Ou não?

Como dobrar um lençol com elástico. Depois dessa, minha vida mudou!

Há algumas dicas nem tão práticas. Cada uma delas valeria um livro inteiro. Vejam só:

Como formar um bom cidadão

Como ser uma boa parceira

Como controlar o orçamento

Como amar seu corpo como ele é

Como conquistar amigos

Como se proteger de perigos


Enfim, entre dicas práticas e outras um pouco, digamos, presunçosas, é um livro legal. Para aprender um pouco (sim, de verdade) e se divertir ainda mais.

Agora dá licença que vou ali amolar uma faca para desidratar uma maçã...



Martha Mendonça 


Coldplay - Yellow


 

21 de dezembro de 2010

Ler pouco e reler muito



Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.

Nelson Rodrigues

20 de dezembro de 2010

"As Receitas das Famílias Portuguesas”



A cozinha portuguesa é uma das mais ricas e tradicionais da culinária ocidental. Basta pensar nos doces e pratos lusianos para ativar as papilas gustativas de qualquer um. A forte influência colonial é parte significante da nossa gastronomia, guardando pratos típicos usados para celebrar hábitos e festas das famílias brasileiras. Filipa Vacondeus, ícone da gastronomia lusitana, reuniu importantes receitas que habitam há gerações as mesas das famílias de Portugal, no livro “As Receitas das Famílias Portuguesas”, lançado recentemente no Brasil.

A autora expressa o seu desejo por repassar aos amantes da boa mesa as receitas familiares “das casas das avós”, criando um registro prático de um tipo de cultura popular, mas que tende a ir se perdendo devido à praticidade da vida contemporânea. Atenta a mudança dos tempos e dos novos hábitos de quem cozinha nos dias atuais, Filipa procurou fazer adaptações de ingredientes para agilizar a execução dos pratos, e ainda dar algumas dicas para torná-los mais econômicos e acessíveis. O livro compreende uma compilação de receitas desde as rápidas e práticas para o dia a dia até as mais elaboradas das ceias de Natal e Ano Novo, como o tradicional peru de Natal, ou mesmo diversos preparos de bacalhau e pato, especialidades lusitanas.

Entre entradas, ovos e omeletes, sopas, peixes, frutos do mar, carnes, doces e receitas típicas, como é o caso da açorda - uma espécie de sopa de pão que acompanha qualquer tipo de carne, o livro é uma rica compilação das iguarias portuguesas que compõe um tesouro gastronômico chamado por Filipa de “patrimônio nacional”.

Outra proposta seria simplificar ao máximo a disposição de informações no intuito de facilitar o ato de cozinhar para quem não tem grandes habilidades ou experiências com as panelas. Na busca por uma simplicidade assertiva, as receitas acabaram por ficar sem algumas explicações sobre noções de processos e informações sobre quantidades dos ingredientes, o que para quem não tem experiência acaba desencorajando a aventura na cozinha. Para quem tem certa experiência, as receitas organizadas por Filipa são ótimas para inspirar inclusive recriações e novas formas pessoais de preparo das iguarias lusitanas.

Seguindo a receita, executei o bacalhau assado no pão português. Como não ficou clara a quantidade de alguns ingredientes, houve um desperdício desnecessário. Porém o resultado final, no paladar, foi bastante satisfatório com gostinho de nostalgia. O conceito americano de “confort food”- pratos que saciam o paladar e oferecem bem-estar emocional por remeter à infância ou aos rituais de família - resume perfeitamente a proposta de Filipa Vacondeus. Qualquer inconveniente fica pequeno perto da deliciosa sensação de cozinhar algo especialmente tradicional.

Luty Vasconcelos

5 de dezembro de 2010

Por que o brasileiro lê pouco?




Fiquemos com a resposta da maior autoridade no mundo, a Unesco. Para o setor da ONU que cuida de educação e cultura, só há leitura onde:

1. Ler é uma tradição nacional;
2. O hábito de ler vem de casa; e
3. São formados novos leitores.

O problema é antigo: muitos brasileiros foram do analfabetismo à TV sem passar na biblioteca. Para piorar, especialistas culpam a escola pela falta de leitores.


Os professores costumam indicar livros clássicos do século 19, maravilhosos, mas que não são adequados a um jovem de 15 anos. Apresentado só a obras que considera chatas, ele não busca mais o livro depois que sai do colégio.

Muitos educadores defendem que o Brasil poderia adotar o esquema anglo-saxão, em que os clássicos são um pouco mais próximos, dos anos 50 e 60, e há menos livros, que são analisados a fundo.

Mas aí teria de mudar o vestibular, é isso já é outra história.

Raphael Soeiro

4 de dezembro de 2010

Entendendo o Kama Sutra



Geralmente conhecido no mundo ocidental, o Kama Sutra é um antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, amplamente considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. Kama é a literatura do desejo. Já o Sutra é o discurso de uma série de aforismos. Sutra foi um termo padrão para um texto técnico.

1. É um manual de sexo?

Muito mais que um guia com 529 posições sexuais, a obra é um compêndio de etiqueta para uso dos nobres, baseado em preceitos sagrados hindus. O Kama Sutra aborda diversos aspectos da vida cotidiana: como encontrar o par ideal, se relacionar com outras pessoas, cuidar da casa e obter sucesso. Segundo a mitologia hindu, o homem atinge sua plenitude quando pratica o dharma (virtude religiosa), o artha (riqueza mundana) e o kama (o amor). Kama sutra, em sânscrito, significa "dissertação sobre o amor".

2. Quem o escreveu?

Foi Mallanaga Vatsyayana, teólogo hindu dos séculos 3 e 4. Ele passou 20 anos compilando 79 textos eróticos da Antiguidade (alguns, escritos 1 000 anos antes e já trabalhados por outros sábios). De inédito mesmo, apenas seus comentários pessoais. Apesar de afirmar que testou todas as posições citadas na obra, historiadores especulam que Vatsyayana não era casado e morreu enclausurado num convento.

3. Como ele se tornou popular?

Em 1883, o britânico Richard Burton (1828-1890), o mesmo que traduziu As Mil e Uma Noites, trouxe a obra para o Ocidente. Ela caiu nas graças do público masculino porque, na tradução, Burton selecionou só os trechos mais picantes. A tradução completa foi concluída apenas há 14 anos, pelo francês Alain Daniélou.

Bruno Vieira Feijó

30 de novembro de 2010

Os cadernos de Agatha Christie



Depois da morte de um escritor de sucesso, os herdeiros se vêem diante de uma dúvida: o que fazer com os arquivos pessoais dos autores? Há os que decidem publicar tudo, e são criticados por desrespeitar a memória do autor – um exemplo é a indignação de críticos literários com a publicação de Os originais de Laura, de Nabokov, que não estaria à altura das outras obras do escritor.

Por outro lado, a decisão de não publicar os textos é igualmente problemática. Corre-se o risco de privar o público de textos cujo valor é inestimável. O castelo e O processo, obras-primas da literatura mundial, foram publicados à revelia de Franz Kafka, que desejava que seus textos inacabados fossem queimados após a morte. Nesse caso, a crítica é quase unânime: Max Brod, amigo de Kafka, fez muito bem em desrespeitar as vontades do autor.

Nos últimos anos, porém, o valor literário parece não ter mais qualquer influência na decisão de publicar ou não um texto inédito. A prova disso é a publicação de caça-níqueis como Os diários secretos de Agatha Christie, que acaba de ser chegar ao Brasil. Organizado por John Curran, curador literário do legado da autora, o livro reúne páginas dos 73 cadernos pessoais em que a autora escrevia rascunhos de suas obras.

Apesar de ajudar a compreender o processo criativo da escritora, os desenhos, notas e listas de personagens acrescentam pouco ao que já se sabe sobre Agatha – e não chegam nem perto da qualidade de seus romances e peças de teatro. Basta olhar as páginas reproduzidas no livro para nos assegurarmos de que a autora não tinha a menor intenção de vê-las publicadas: os cadernos são uma verdadeira bagunça, com notas aleatórias, rasuras e rascunhos de tramas de livros interrompidas por anotações cotidianas como listas de compras e números de telefone.

O principal atrativo do livro são dois contos inéditos da autora. Em A captura do cérebro, o detetive Hercule Poirot enfrenta um mistério capaz de mudar os rumos da Europa, em uma história com personagens nitidamente inspirados em Hitler e Mussolini. O conto foi recusado pela revista Strand em 1940, por seu teor político. Em O incidente da bola de cachorro, outro conto publicado pela primeira vez, Poirot recebe uma carta de uma senhora. Ao visitá-la, descobre que ela está morta. O conto nunca foi apresentado para a publicação: em vez disso, Agatha decidiu ampliar a história e escrever o romance Poirot perde uma cliente.

A qualidade dos contos, que devem encantar os fãs do detetive belga, parece ser a única justificativa para a publicação do livro. Publicá-los junto com os “cadernos secretos” é uma decisão comercial: os contos dão aos leitores um motivo para comprar o livro, enquanto as centenas de páginas adicionais permitem que as editoras cobrem um preço muito maior do que o de um pequeno livro de contos. Até chegar ao que lhes interessa, os admiradores da ficção de Agatha Christie são obrigados a enfrentar 407 páginas de rascunhos que nunca deveriam ter saído da gaveta. Um desrespeito à autora – e ao leitor.



Danilo Venticinque 

24 de novembro de 2010

A hora da madrasta



Não se trata de um post sobre um filme de terror, apesar do título. Quero falar de Wednesday Martin. Americana, doutora em Literatura pela Universidade de Yale. Há nove anos ela se casou com um homem que já era pai. Ganhou duas enteadas adolescentes, sendo que uma delas morava com eles. Na época ainda não tinha filhos. Hoje tem dois. Ela acaba de tirar do forno o livro Stepmonster. Stepmonster é uma mistura de madrasta (stepmother) e monstro ou um novo olhar sobre o porquê de as madrastas pensarem, sentirem e agirem do jeito que pensam, sentem e agem.

Primeiro, aos fatos: estima-se que ao menos metade das mulheres adultas hoje nos Estados Unidos se casaram ou vão se casar com homens que já têm filhos. E 70% desses casamentos vão desmoronar. A taxa de divórcio já é 50% maior nos re-casamentos onde há crianças. Ou seja: madrastas e enteados não estão dando liga. Existe um culpado? E, se existe, é sempre a madrasta? A escritora chama atenção para a vasta literatura que existe sobre como madrastas devem lidar, compreender e tratar seus enteados. Mas quem vê o lado delas?

Afinal, madrasta serve pra que?
O problema todo é que madrasta não tem papel definido. Mãe é mãe, pai é pai, filho é filho, por mais que haja flexibilidade em cada atuação. Mas madrasta é o que? No limbo, ela acaba assumindo o papel de má. E muitas vezes se sente mais confortável nele.

Padrasto não carrega o mesmo estigma.

O senso comum diz que o novo marido da mãe é sempre um companheiro e protetor e provedor em potencial. Nenhuma princesa de contos de fada sofre com o novo marido da mãe.

Ela é a inimiga e pronto!
Os estudos mostram que raramente os sentimentos negativos das crianças em relação à madrasta têm motivos reais. Ela é apenas um símbolo do fato de que os pais não são mais casados – e um belo bode expiatório, especialmente para adolescentes.

Papai é um pau-mandado!
Sempre que há uma decisão na família que desagrada a criança, ela sempre acredita que partiu da madrasta, nunca de seu pai.

Um tempo para cada coisa
Tudo tende a funcionar melhor quando o casal aceita que não tem uma família tradicional. Isso significa que a madrasta não precisa ir a todas as apresentações de escola dos enteados e que o pai pode (e deve) ter alguns momentos exclusivos com seus filhos.

É melhor quando a madrasta já é mãe
Mesmo que o tipo de criação seja diferente daquele que o marido usa com seus filhos, a mulher consegue entender melhor determinados sentimentos quando já tem seus próprios rebentos. Embora a presença de outros personagens familiares também possa trazer outra carga de conflitos. Mas isso já é outra história.

Felizmente eu não tenho qualquer subsídio para escrever um livro como Stepmonster. Eu já era mãe de um casal de pequeninos quando virei madrasta da menina mais doce da face da Terra (minha própria filha tem muitas qualidades, mas uma delas não é ser a menina mais doce da face da Terra). Ela não mora conosco, mas está na minha casa pelo menos três vezes por semana. Eu acho que tive sorte com ela e ela comigo. Temos um relacionamento que mistura admiração e molecagem. Sinto imensamente pelas mulheres que não podem ter o prazer da “madrasternidade”: uma condição especial em que é possível amar e se divertir com uma criança muito próxima sem ter a responsabilidade última por ela. Eu recomendo.

Martha Mendonça 
Dedico este post à Ana, super "mãedrasta" dos meus filhos. Obrigada, sempre, Ana! 

8 de novembro de 2010

Censura às caçadas de Pedrinho

 

Um bom leitor de Monteiro Lobato sabe que tia Nastácia encarna a divindade criadora, dentro do sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos. Ela é quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Ela é a escolhida para ficar no céu com São Jorge. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.

Em vez de proibir as crianças de saber disso, seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos. Mostrassem como nascem e se constroem preconceitos, se acharem que é o caso. Sugerissem que se pesquise a herança dessas atitudes na sociedade contemporânea, se quiserem. Propusessem que se analise a legislação que busca coibir tais práticas. Ou o que mais a criatividade pedagógica indicar.

Mas para tal, é necessário que os professores e os formuladores de políticas educacionais tenham lido a obra infantil de Lobato e estejam familiarizados com ela. Então saberiam que esses livros são motivo de orgulho para uma cultura. E que muito poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento. Raros autores estimulam tanto os leitores a pensar por conta própria quanto Lobato, inclusive para discordar dele. Dispensá-lo sumariamente é um desperdício.

A obra de Monteiro Lobato, em sua integridade, faz parte do patrimônio cultural brasileiro. 


Academia Brasileira de Letras

Nota da Academia Brasileira de Letras (ABL) em resposta ao parecer contrário do Conselho Nacional da Educação (CNE) quanto `circulação do  livro de Monteiro Lobato, "Caçadas de Pedrinho".