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30 de outubro de 2012

Como fica o romantismo com a chegada dos filhos?



Embora a biologia explique as tantas alterações e instabilidades que ocorrem no corpo e no humor de uma mulher assim que ela dá à luz um filho, não restam dúvidas de que não é nada fácil, na maioria das vezes, administrar um corpo modificado, mais um bebê exigente, mais um casamento em jogo.
 
 Não que a chegada de um filho seja um evento ruim. Longe disso e muito pelo contrário! Trata-se de uma bênção, uma nova etapa do amor. Mas sejamos honestos: é praticamente como abrir uma nova, grande e importante empresa! Explico! Quando colocamos uma pessoinha tão amada no mundo, queremos que ela dê certo, que ela seja saudável, inteligente, educada, próspera e, claro, feliz, realizada - assim como uma empresa bem sucedida!

Para tanto, não medimos esforços. Na medida do possível, investimos no desenvolvimento dela boa dose de atenção, tempo e dinheiro, todo nosso conhecimento e todas as nossas melhores intenções. Afinal, um filho exige dedicação e comprometimento para crescer de modo satisfatório, principalmente nos primeiros anos de sua vida, ou até ganhar certa autonomia.

Até lá, como fica a relação entre a diretoria? Isto é, como fica a atenção, a paciência, o carinho e o namoro - tão nutritivos e essenciais - entre o papai e a mamãe, entre este homem e esta mulher que, depois de se dedicarem o dia todo para que nada falte ao lindo bebê, encontram-se sozinhos num mesmo quarto?

Sim, podemos imaginar: exaustos, às vezes irritados por não conseguirem dar conta de tudo, ansiosos ao pensarem quanto tempo terão até o próximo choro, até a próxima reivindicação do leitinho da mamãe. Enfim, por vários motivos óbvios, especialmente a mulher tende a se sentir sem o menor clima para romantismos e intimidades mais ousadas.

Começando pela famosa "quarentena", período de 40 dias em que as relações sexuais ficam proibidas para que o corpo da mulher se recupere do parto, passando pelos desencontros do tipo "quando um está dormindo o outro está trabalhando", "quando o outro está disponível o um está ocupado", e assim vai... torna-se realmente complicado encontrar um tempo para retomarem a vida de casal.

Ok, esse cenário é compreensível e aceitável por algum tempo, mas não por muito tempo. Não por tempo suficiente para tornar o seu relacionamento cada dia mais tenso, chato e desestruturado. Certamente, não é isso que vocês querem. Portanto, é hora de se planejar e agir! Amar não é um sentimento abstrato, é um verbo de ação. Pede escolha, decisão e atitude! Algumas sugestões que podem ajudar:

1- Quando sentirem que o bebê já pode passar algumas horas da noite com a babá, a vovó, o titio ou a madrinha - por volta dos três meses talvez - não deixem que a preguiça ou algum sentimento de culpa equivocado impere! Marquem um jantar, um passeio, um cinema, qualquer diversão que inclua só vocês dois! Momento de se olharem, se ouvirem, falarem de seus sentimentos e desejos. Momento de se parabenizarem pelo belo trabalho que têm feito desde que o pequenino chegou.

2- Depois de mais algum tempo, quando o nem tão pequenino assim já puder passar um final de semana longe de vocês, é hora de planejar uma viagem a sós. Pode ser num lugar bem perto, desde que tenham privacidade. Hora de matar as saudades do tempo em que podiam se agarrar, namorar sem medo de fazer barulho, sem medo de ouvir um chorinho ou um "manhêêê" ou "paaaaaaiii". Hora de investir na ousadia, na sedução e na vontade de reconquistar a pessoa amada. Vale a pena. É restaurador!

3- Mantenham a consistência! Ou seja, reservem um tempo só para vocês dois. Que seja uma vez por semana, uma vez a cada quinzena ou uma vez por mês - mais do que isso seria negligenciar uma área muito importante da sua vida - o seu casamento, o relacionamento com quem você compartilha sua vida!

Sei que razões para não tomar essas decisões surgirão muitas: falta de dinheiro, falta de tempo, falta de ânimo e falta de consciência do quanto isso é importante. Porém, posso garantir: aquele ditado sobre o amor ser como uma flor que precisa ser regada para sobreviver é muito sábio e verdadeiro.

Não espere que seu casamento desmorone para somente então se lamentar ou acusar o outro por não ter feito a parte dele. Faça a sua. E faça agora. Afinal, ser mãe e ser pai é mesmo uma delícia, desde que tanto nós quanto eles - os filhos - percebam que por trás desses papéis existe um casal que precisa de tempo, espaço e amor compartilhado com privacidade e intimidade.


Rosana Braga 

2 de agosto de 2012

Substituição: sai concessões e entra respeito




Não acredito que estejamos dando a importância devida para o que está acontecendo no íntimo da nossa vida conjugal e nas relações amorosas de um modo geral. Estamos vivendo uma revolução da maior importância, e que pode ser definida assim: se antes a vida em comum era fundada na boa capacidade das pessoas de fazer concessões, de abrir mão dos seus desejos e interesses em favor do outro e visando a harmonia a qualquer custo, hoje em dia nossa capacidade para conceder diminuiu muito e a disposição que temos é para que respeitem nossos desejos, interesses e nosso modo de encaminhar as coisas da vida.

Pode parecer pouca coisa, mas na realidade trata-se de uma alteração fundamental, porque se funda em uma mudança na maneira como estamos pensando e vivenciando o fenômeno amoroso. A verdade é que o individualismo está crescendo junto com o avanço tecnológico que nos trouxe a possibilidade de nos ocuparmos com a televisão, o computador, o som individual que podemos ouvir em qualquer lugar... Podemos nos entreter cada vez melhor sem companhia, de modo que tendemos a nos tornar mais seletivos quanto ao convívio. Isto é um avanço, uma coisa boa. O individualismo não é egoísmo, como muitos pensam. O egoísta não é um individualista porque ele precisa dos outros para servi-lo! É a favor da vida em grupo porque tentará tirar vantagens no convívio com as pessoas.

A ideia que reinou durante os tempos do romantismo - que está com os seus dias contados - era a de que nós somos metades, criaturas que só se completavam com o encontro da outra parte, que era o seu complemento. Esta outra metade poderia ser o que nos faltava: a tampa da panela ou a metade da laranja que nos arredondava. Metades diferentes tendiam a se atrair mais intensamente, de modo que a grande maioria dos casamentos se estabelecia - e ainda hoje as coisas estão assim, só que em rápido processo de mudança - entre pessoas bastante diferentes. É claro que a vida em comum padecia de grandes desacertos e desencontros, de modo que só poderia sobreviver graças à grande capacidade de fazer concessão das pessoas envolvidas.

É bom dizer também que, nesses casais, quase sempre um fazia concessões e o outro era exigente e imprimia seu ritmo à vida em comum. Ou seja, sempre se louvou a capacidade de conceder das pessoas, mas quem concedia mesmo era apenas um dos membros do casal. O outro, o mais egoísta, sempre cuidou do seu interesse acima dos outros membros da família. O generoso concedia e o egoísta levava vantagem. O que concedia se sentia superior, melhor, mais elevado, e o egoísta se achava o mais esperto porque obtinha benefícios mais facilmente. A verdade é que, de uma forma ou de outra, ambos se tornavam extremamente interdependentes. Não há egoísta sem que exista o generoso e não há generosidade que se possa exercer se não existir o egoísmo que receba os favores. A dependência recíproca acontecia porque as pessoas não conseguiam se imaginar sozinhas. A ideia reinante era a de que "é impossível ser feliz sozinho". Metades não se sustentam a não ser ao lado de outras metades.

Graças ao avanço tecnológico que nos tem feito mais competentes para ficar sozinhos, aos poucos temos descoberto que não somos metades e sim inteiros! Somos inteiros que nos sentimos incompletos, com um vazio na "boca do estômago", mas somos mais conscientes de que somos unidade e não uma fração. A relação amorosa que está nascendo é, portanto, diferente daquela do romantismo do século 19 e início do século 20. Mudam as regras do relacionamento e isto não quer dizer que o amor esteja em baixa. Ao contrário, está mudando e se adaptando aos novos tempos. Inteiros que se aproximam formam pares mais instáveis, pares que podem se separar.

Estamos diante de mais um importante fator de desencontro entre os sexos. Outra vez nos deparamos com o complicado problema que consiste em não sabermos lidar com nossas diferenças. Elas, quando mal-entendidas, são fator de ofensa, humilhação e rejeição. Mulheres podem ter se sentido violentadas porque seus homens as quiseram possuir mesmo à revelia delas, enquanto que homens se sentiram rejeitados porque não encontraram mulheres disponíveis justamente "naquele dia". É importante e urgente que consigamos acumular mais informações a respeito de como varia a disponibilidade sexual da mulher durante o ciclo menstrual.

Não creio que as mulheres se sintam interessadas pelas trocas de carícias eróticas durante todos os dias do mês, de modo que não creio que vivam num cio permanente. Aliás, acho inconveniente e inoportuno o uso do termo "cio" para nos referirmos ao que acontece na nossa espécie. O fato de provocarem os homens de modo permanente não pode ser confundido com o que acontece na intimidade delas. É claro que, sendo racionais, podemos muito mais do que manda nossa biologia. Assim, uma mulher poderá ter relações sexuais sempre, mesmo naqueles períodos que não coincidem com sua disponibilidade maior. Isto acontecerá quando o desejo de agradar o parceiro for maior do que a resistência biológica que porventura encontre. Além do mais, é provável que existam grandes diferenças individuais tanto na intensidade do desejo sexual como na interferência do ciclo hormonal sobre o desejo.

23 de outubro de 2011

Sexualidade



Este é um tema central na vida de todos, estejamos ou não vivendo a dois. Além disso, também faz parte do nosso cotidiano o fato de que a sexualidade continua sendo tabu em nossa cultura. Justamente por isso temos ainda muitas dificuldades em viver natural e integralmente a nossa sexualidade.

Houve mudanças muito significativas desde os meados do século passado em que vários paradigmas foram sacudidos e as posições do homem e da mulher passaram não só a ser questionadas, como também reavaliadas e modificadas em um curto espaço de tempo e de forma contundente. A mulher saiu da sombra do homem e passou a ocupar um lugar por si mesma, seja nos âmbitos social, profissional e político, além de mais obviamente no âmbito familiar.

Estamos vivendo explicitamente desencontros muito frequentes em que a mulher tem exigido do homem atitudes e posicionamentos aos quais ele não foi preparado para responder. Assim, é evidente o desconcerto, a perplexidade e o susto que se percebe no homem, em geral por não poder compreender o que ocorre, tentando satisfazer à mulher sem realmente saber por onde começar, e ainda se sentindo muito arraigado aos hábitos que foram vigentes durante muitos séculos com relação ao que definia o ser masculino e o feminino.

Existe ainda muita inibição e repressão com respeito à expressão da sexualidade. É muito comum ainda viver a sexualidade em torno à experiência genital unicamente, sobretudo em torno à perseguição do orgasmo como meta e confirmação da satisfação, sendo a sexualidade definida como “satisfatória e bem vivida” quando o orgasmo é conseguido.

O homem ainda se sente responsável pelo orgasmo da mulher, portanto pode facilmente cair em um descrédito de sua masculinidade caso a mulher não demonstre a satisfação esperada.

Como consequência também ocorre que a mulher aprende a representar essa satisfação para não frustrar, nem possivelmente perder o homem, como também para manter a imagem de “boa amante” e “mulher liberada”. Nestes casos, a mulher se distancia de seu próprio ritmo e verdadeiro desejo, chegando a perder totalmente o contato com a sua energia sexual individual.

Em diversas relações é frequente a utilização da sexualidade como moeda de intercâmbio: “se você me der tal coisa eu te dou tal outra, caso contrário nego o que você mais quer”. E isso tem acontecido tanto com homens como com mulheres.

A dificuldade de comunicação de forma clara e sincera, os contínuos desencontros e o desconhecimento do próprio corpo, incluindo a inconsciência de sua energia sexual a um nível sutil e profundo, desembocam com frequência em uma sublimação do sexo, no desinteresse e na negação em explorar e expandir a própria sexualidade, tanto individualmente, como também dentro da relação a dois.

Às vezes ocorrem tentativas de viver o sexo somente como válvula de escape de tensões e confirmação da masculinidade e feminilidade, transformando os encontros em meros exercícios físicos desconectados do todo.

O homem aprendeu, em nossa cultura, a medir sua masculinidade pela quantidade de pessoas com as quais manteve relações sexuais. A mulher aprendeu a usar sua sexualidade e seu corpo para obter contato afetivo e sentir-se desejada. Mas esses aprendizados têm causado as maiores frustrações, além de acusações mútuas que provocam um abismo dentro de relações que deveriam ser as mais próximas e íntimas. É patente perceber o quanto a integração do prazer se torna impedida, os canais que propiciam a criatividade e a saúde psicofísica se mantêm obstruídos e a evolução do ser humano, em níveis menos aparentes e mais sutis, permanece estagnada.

O caminho mais imediato e mais fácil para restabelecer a fluidez da energia sexual é, a meu ver, reconhecer, explicitar e se propor a mover-se em torno aos aspectos, atitudes e comportamentos que têm dificultado e/ou impedido a integração da sexualidade na própria vida como um todo.




Suzana Stroke






25 de julho de 2011

O homem separado




Embora muitos não percebam, os homens não se dividem apenas entre casados e solteiros, ou entre aqueles que têm e não têm namorada. Há outra categoria, menor, mas igualmente importante: a dos homens separados. Eles constituem um grupo inteiramente à parte.

Não importa se o sujeito foi casado por dez anos ou se acaba de romper um namoro que mudou a sua vida. Quem terminou uma relação importante vive, por tempo indeterminado, num universo emocional diferente daquele em que vivem as outras pessoas.

A característica essencial desse período é a dubiedade de sentimentos e a indefinição. O homem separado não tem mais compromisso, mas ele ainda não se sente realmente livre. Vive, de forma muito aguda, a euforia de não ter mais laços e a angústia de estar sozinho. Habita, simultaneamente, dois mundos que se afastam um do outro. Num deles é o companheiro de alguém, o pai, o homem da casa. No outro, é um camarada solitário em busca de emoções e sensações reprimidas. Até que esses dois mundos voltem a se encontrar, até que o homem separado recupere a sua identidade, ele tende a viver em desequilíbrio – o que não é necessariamente ruim.
Eu lembro desses períodos de separação de forma muito intensa. Viagens, rostos, conversas na rua tarde da noite. A palavra para esses interregnos é descoberta. Sobretudo, a descoberta de pessoas e seus mundos. Cada um de nós vive num planeta próprio. Explorar esses planetas, entrar na casa e na vida dos outros sem o peso dos compromissos é uma delícia.

Há também os excessos. A gente enlouquece de liberdade e pira de carência. Sem se dar conta, o sujeito começa a agir como cachorro louco. É comum ver homem separado se atirando sobre as mulheres indiscriminadamente. Não é só lascívia. Depois de anos com a mesma mulher, ou meses com a namorada atenciosa, passar um fim de semana sozinho pode ser o inferno – e, para escapar dele, as pessoas fazem qualquer coisa.

Quando se olha de fora, parece que os homens separados estão 100% do tempo atrás de sexo, mas não é bem isso. A grande ausente nos namoros e casamentos falidos é a paixão. Sexo existe, mas não existe mais romance. Ninguém mais suspira no meio da transa, não se tem mais vontade de escrever cartas à mão ou mandar flores. Você não olha mais para a sua mulher como se ela fosse a mais linda do mundo. E isso faz falta para os dois.

O escritor Norman Mailer já dizia nos anos 1960: as pessoas se esfregam nas festas achando que estão em busca de sexo, quando, na verdade, estão procurando amor. Cinquenta anos depois, o diagnóstico ainda vale para boa parte das situações.

Às vezes eu me surpreendo ao perceber que dos meus períodos de homem separado sobraram relações bacanas. Algumas mulheres conseguiram enxergar por trás da máscara de sedutor tragicômico um sujeito com quem se poderia conversar e conviver. Tornaram-se amigas - mas são exceção.

A tendência nesses momentos de tumulto é queimar as oportunidades e o filme. Você conhece pessoas especiais, mas não consegue ver um palmo à frente do nariz. Não as percebe. Age com todas de uma forma padrão, ditada pela particularidade do seu momento. Banaliza sentimentos e possibilidades.

Há certo vampirismo nos homens separados, uma necessidade de tomar dos outros dando relativamente pouco. Há uma carência (essa é a palavra-chave) que devora tudo em volta até que algo sacie e acalme. Até que o sujeito seja capaz, de novo, de se apaixonar. Até que ele recupere o romance em sua vida. Esse, eu acho, é o momento em que ele deixa de ser um homem separado e volta a ser um homem livre. A capacidade de se apaixonar encerra a transição.

Esta, ao menos, é a minha experiência. Ela não me parece muito distinta da experiência dos outros homens, mas, nem por isso, serve como regra. Haverá quem saia do casamento pronto para se apaixonar de novo, instantaneamente. Outros baterão cabeça por meses ou anos. Um homem especial talvez seja capaz de reconhecer mesmo na bruma da separação o sorriso da mulher feita para ele – e não jogue fora a oportunidade.



Ivan Martins 



Men At Work - Overkill




9 de junho de 2011

Eles e elas





Ela tem fome de amor. Ele, de sexo. Ela quer enlace. Ele não pensa em compromisso. Parecem até incompatíveis. Mas seus caminhos se cruzam e há uma vontade irresistível de se encaixar um no outro. O homem sonha com várias mulheres, cada uma mais maravilhosa do que a outra; a mulher sonha com um homem extraordinário, com uma paixão total. Quando o homem pensa na conquista, pensa no ato sexual. A mulher busca romance.

A realização do homem acontece no encontro erótico: começa e acaba ali. Para a mulher, as coisas não são tão simples, ela quer ser lembrada, fazer-se desejada depois do encontro, no dia seguinte, no outro e ainda no outro... Para o homem, o tempo passado com sua amante é um tempo livre de preocupações, de prazer e no esquecimento. Já a mulher sente necessidade de amar de modo contínuo e também de ser amada dessa forma. O homem sabe que para provocar o desejo numa mulher, basta um gesto, um toque, uma palavra. E, uma vez atingido seu objetivo, que é a relação sexual, esse encontro pode cair no esquecimento.

Da perspectiva masculina, sentir atração por uma mulher, fazer amor com ela, não significa necessariamente pensar em construir um futuro, constituir família, realizar um grande amor. O ato sexual em si já lhe basta. Talvez sem vínculos, sem acordos, sem compromisso, o prazer seja ainda maior. Para a mulher, torna-se assustadora, incompreensível, a facilidade com que o homem se desliga e vai embora, para reaparecer algum tempo depois como se nada de anormal tivesse acontecido. Pois a mulher deseja continuidade, enlace, vida a dois. E assim seus caminhos se cruzam. No começo da revolução sexual, adotamos a idéia de que homens e mulheres deveriam se assemelhar em tudo.

Agora reconhecemos que, embora eles se pareçam em inúmeros aspectos, também apresentam muitas diferenças. Para o homem, o prazer sexual vem antes de tudo, enquanto a maior parte das mulheres diz que necessita da ternura, do carinho, dos toques amorosos mais do que do ato sexual propriamente dito. Matar sua fome de sexo não é tão imprescindível quanto matar sua fome de amor.

Existe no erotismo masculino um anseio de liberdade, um ingrediente que se opõe ao vínculo, à responsabilidade. O homem procura afastar tudo o que o aborrece, quer sempre ter o direito de escolher, de recompensar quem lhe dá prazer, e de descartar, quem não lhe dá.

Já o erotismo da mulher é baseado em um desejo permanente de agradar. Às vezes, de uma relação amorosa, o homem consegue se lembrar com nitidez de apenas alguns encontros eróticos. Para isso, anula, coloca entre parênteses, a história da relação. Quase sempre essas lembranças são visuais e têm a ver com o início da relação. Lembra-se, por exemplo, com intensidade impressionante, do momento da entrega da mulher, da rendição. Já a mulher lembra-se das datas, dos detalhes, do dia-a-dia do amor. Mas, por outro lado, o homem se envergonha de admitir que ele também tem necessidade de afeto, que teme a solidão e que, tanto quanto a mulher, tem fome de amor profundo.

Muitas vezes, penso que homens e mulheres são imensamente diferentes, até incompatíveis. Mas, apesar de tudo, existe uma necessidade intensa de acoplamento. Se homens e mulheres parecem incompatíveis, talvez seja porque eles tenham realidades emocionais diversas. Por isso, parece mais fácil, às vezes, a amizade entre duas mulheres ou mesmo entre dois homens. Mesmo sendo tão difícil o entendimento, homem e mulher continuam tentando. É isso que poderíamos chamar de "desafio do diferente". Ou seja: apesar dos desencontros, das dúvidas, dos desesperos, existe uma espécie de vontade irresistível de se encaixar no outro.



Maria Helena Matarazzo


The Beatles -  Because


3 de junho de 2011

Amantes em busca





Por que, no mundo atual, tornou-se tão difícil encontrar um companheiro ou uma companheira? Antigamente, as coisas não eram assim. Começavam com uma simples troca de olhares. Daí, ou acontecia aquele clique mágico do amor à primeira vista, ou aquela aproximação gradual, que aquece lentamente os sentimentos. A verdade é que a situação não assustava tanto como hoje. Há alguns anos, as pessoas solteiras ou divorciadas eram menos descrentes; seu entusiasmo sem medo criava maiores possibilidades de encontro e permitia que se aproximassem com uma facilidade que parece ter desaparecido.

Como estava ocorrendo uma revolução sexual, pode-se argumentar que havia um deslumbramento com a liberdade recém - descoberta, quer dizer, todos queriam desesperadamente sentir mais prazer e/ou fazê-lo durar mais.

Entretanto, muitas das crenças e expectativas dessa época se transformaram em armadilhas. Durante a revolução sexual, muitos homens e mulheres, em vez de terem se tornado sexualmente liberados, ficaram sexualmente aprisionados. Em vez da sensação de aventura sugerida pelos manuais de sexo, passaram a sentir-se fora de sintonia. Em vez de relaxar, de se entregar, passaram a comparar seu comportamento com aquilo que estava sendo descrito à exaustão nas revistas masculinas e femininas.

Acontece que, de modo geral, os conselhos oferecidos eram simplistas demais para uma das mais complexas experiências da vida. Funcionavam como guias turísticos do tipo Descubra o caminho para a Prazerlândia, esquecendo que, em matéria de sexo, não se pode simplesmente dizer às pessoas: "Experimente", como se estivéssemos falando de um novo sabor de sorvete.

Uma das melhores análises da revolução sexual foi feita por Melvyn Kinder, no seu livro Correndo para Lugar Nenhum. Ele explica que, durante a revolução sexual, se pensou que era bom oferecer-se a todos, porque todos se ofereciam a nós.

Estas ideias não teriam sido tão destrutivas se o contato sexual fosse ou pudesse ser somente divertido, prazeroso, lúdico. Porém, os problemas mais sérios começaram quando as pessoas foram vistas como não sendo normais se não fossem capazes de se envolver em tal "diversão". Em outras palavras, foi dito a homens e mulheres que havia algo errado com eles se pensassem ou se comportassem de modo diferente.

As coisas se complicaram principalmente para as pessoas solteiras, porque se aproximar, vir a conhecer alguém, significava conhecer sexualmente. Nessa época, tornou-se lugar comum pensar em sexo como algo separado dos sentimentos, como se cada um só alugasse seu corpo por algumas horas para sentir prazer e depois de um certo número de orgasmos o outro simplesmente se desmanchasse no ar, desaparecesse como pessoa.

É bom lembrar que antes da revolução sexual os contatos eram mais simples. Para as mulheres, só havia dois tipos de homem: aqueles com quem dormiam (seus maridos) e os com quem não dormiam (todos os outros). Mas de repente as mulheres descobriram homens de cuja existência nem sequer desconfiavam. Havia aqueles com quem tinham vontade de dormir, os com quem dormiam às vezes e aqueles cujos nomes esqueciam. Era o que se chamava "liberdade sexual" .

Nem todas as mulheres aproveitaram esta liberdade, a maioria delas nem experimentou, mas hoje não se pode mais considerar a liberdade sexual como um presente simples e bom do passado. Ficaram várias seqüelas. Por exemplo, a revolução sexual deixou as pessoas confusas com o contraste entre a facilidade de desfrutar um momento de intimidade com alguém e a dificuldade de preservar a intimidade fora e além da cama.

Na verdade, todos aprendemos que leva tempo para conhecer alguém e mais tempo ainda para amar.

Outra sequela foi a questão do dia seguinte. Quando um homem e uma mulher se encaravam depois de um encontro sexual, muitas vezes havia um constrangimento, pois os dois sabiam que não estavam a caminho de uma conexão, mas, ao contrário, avançavam para a desconexão.

Já se fala, atualmente, que a revolução sexual foi uma encruzilhada de ilusões perdidas. Por isso aquela ânsia, aquela sede de liberdade a qualquer preço, está dando lugar a uma aproximação mais lenta, porque sabemos agora que a sexualidade separada do amor cria suas próprias armadilhas.
Maria Helena Matarazzo 


29 de abril de 2011

Amor: uma comunicação profunda




O que é o verdadeiro amor? Será que ele (ou ela) me ama realmente? Será que eu sei amar? Existe tal coisa como o amor?

Qual o ser humano que já não fez uma destas perguntas? De fato o amor está na ordem do dia desde que a humanidade se tornou consciente deste sentimento.

Existem muitas formas de amar, mas são elas o verdadeiro amor? Para responder com clareza à esta pergunta, é preciso conhecer qual o nível de motivação que predomina em determinada pessoa.

Será que alguém excessivamente preocupado pela sua segurança, por ganhar dinheiro para garantir a sua subsistência, ter um abrigo contra as intempéries e roupa para se proteger do frio, pode amar? Talvez seja demasiado, preocupado pelas suas próprias necessidades vitais? Sem contar pessoas que mesmo tendo estas necessidades satisfeitas, continuam obcecadas pela sua segurança. O medo de lhes faltar algo lhes faz acumular bens de modo insaciável. Se se estabelecem relacionamento com outrem, será para nutrir a sua possessividade e não para amar.

Há pessoas que, do ponto de vista material se contentam com pouco, desde que possam satisfazer o seu prazer sexual. Sexo é uma forma de energia muito poderosa, pois ela existe antes de tudo para satisfazer a necessidade de procriação, isto é, de sobrevivência da espécie. Para muitos, atração sexual é algo irresistível. Conhecemos desde o famoso inquérito Kinsey, muitos detalhes da vida sexual, sabe-se inclusive a freqüência e estatística de relações sexuais em relação à idade, o sexo, a categoria profissional, etc...

Mas será isto o que chamamos de amor? Sabe-se que neste tipo de relacionamento, a satisfação é provisória e de fato não existe, porém quanto mais se tem, mais se quer ter. Grande parte da humanidade fica estagnada neste nível de motivação. E quando os filhos são criados, se inexistir o verdadeiro amor, surge a separação e o divórcio, pois constatam que o relacionamento acabou. Vão procurar outros parceiros sexuais, num círculo vicioso que não acaba... Ou então vão procurar satisfazer a sua vontade de poder, de ser importante, de ser admirado pelos outros, de ter a sua foto nos jornais. O círculo vicioso continua: mais importância se tem, mais importância e admiração se quer. A sede de poder não tem limite.

De fato, segurança, sensualidade e poder, nunca são satisfeitos de modo absoluto. Apego ao conforto, ao sexo e à auto-imagem, só levam a decepções e sofrimento. O prazer que despertam é apenas momentâneo. Deixa um vazio angustiante que exige mais prazer para preenchê-lo.

Felizmente existem pessoas que conseguiram ultrapassar estas manifestações do egoísmo e do egocentrismo. Estas pessoas vivem em estado de amor. Para elas tudo o que acontece em torno delas tem um caráter sagrado e maravilhoso. A cada instante são sensibilizadas por pequenos detalhes da vida cotidiana: o passarinho que canta; uma troca de sorrisos com um transeunte; um gesto de carinho para um menino da rua, a solidariedade num mutirão. 

Para estas pessoas a alegria de viver é ilimitada. Este estado de amor desperta e acompanha uma capacidade criativa impar; nada de condicionamentos e de atos automáticos; tudo se renova. A sua criatividade e seu amor se tornam verdadeira compaixão, pois se coloca a serviço de aliviar o sofrimento e dar alegria a todos os seres. Estes são os verdadeiros cidadãos.

E quando dois seres assim se encontram e decidem unir sua existência, suas sexualidades se expandem e se transformam em ternura e amor à vida sob todas às suas formas. É uma comunicação profunda sentida pelos dois como tendo caráter divino.


Pierre Weil

20 de abril de 2011

Abraça-me




Uma química delicada se produz entre duas pessoas que se sentem atraídas uma pela outra. O encontro se faz quase sempre pelo olhar. Segue-se a participação da boca, primeiro em sorrisos, depois em palavras. Aí vai surgindo o desejo de tocar, de abraçar.

Pesquisadores dizem que precisamos de seis abraços por dia para não nos sentirmos carentes. Por que seis? Talvez porque um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda, quatro então nem se fala ...

Nossos braços servem para abraçar, enlaçar. Só que cada abraço tem que ser sentido, vivido. Como dizia o terapeuta paulistano José Ângelo Gaiarsa, você não toca no outro como se ele fosse uma cadeira. Senão você está coisificando o outro. Acontece que o outro é de carne e osso, parecido com você, por isso, o gesto não pode ser impensado, mecânico, automatizado.

As pessoas estão cansadas do gesto maquinal que não reflete nada. Quando eu toco o outro, que está além das fronteiras do meu próprio corpo, eu o sinto e sinto a mim mesma simultaneamente. Nesse sentido, podemos ficar horas sem fim nos tocando e nos sentindo. Mergulhando na sensação, percebendo o outro e me percebendo, tenho a sensação de estar sendo abraçada.

A criança registra essa impressão na mente e vai pelo resto da vida tentando reconstituir, reencontrar essa sensação. Por isso o ser humano tem fome de abraço. Ele está tentando repetir o prazer que está associado a essa primeira experiência.

Assim como aprendemos a falar, porque alguma pessoas falam conosco e vamos falar da forma como elas falaram, também aprendemos a tocar, em grande parte, dependendo da forma como fomos tocados. O aprendizado do amor começa aí.

As sensações de mamar e amar ficam profundamente interligadas e até inseparáveis em nossa mente.

Mais tarde, frequentemente comer se torna uma forma de compensar a falta de amor.

É por isso que, quando estamos carentes, atacamos a geladeira, bebemos mais cerveja, tomamos mais sorvete, comemos mais um chocolate.

Tanto a fome de alimento com essa fome de contato normalmente se intensificam nos períodos de tensão. Entretanto, enquanto a fome de alimento podemos matar sozinos com comida, cigarro ou álcool, a fome de contato dificilmente pode ser satisfeita sem outra pessoa. O que se resolve com gestos que nos aproximam, nos vinculam ao outro.

Pode-se alisar, abraçar, tocar de forma apressada, impensada, dissociada. Ou pode-se tocar sensualizando, erotizando cada movimento.Cada gesto traduz um sentimento, uma emoção, que provoca uma reação. e o gesto é indiferente, não manifesta nada, não tem energia nem intenção, você congela o outro e se congela. Se ele for macio, terno, doce, você derrete o outro e se derrete. Se ele for erótico, excitante, estimulante, apaixonado, você incandesce o outro e se incandesce também.

Muitas vezes, quando se faz amor, carinho e carícia se misturam, se juntam, se fundem e confundem. Brincamos com o nosso corpo porque sabemos que fazer amor é "um alisar o outro e o outro alisar o um". Nessa troca de carícias, o outro responde ao meu gesto e tende a fazer aquilo que meu gesto insinua. O que acontece é uma conversa dos dedos sobre a pele.

O que se busca, quando se faz amor, é essa ampliação da consciência do contato. Na medida em que vamos aprendendo a ampliar o contato com outra pessoa, vamos ampliando e aprofundando nosso contato vivo e prazeroso com tudo o que existe.

Tato é a linguagem inicial da vida. 


Maria Helena Matarazzo 


4 de março de 2011

Uma pausa para pensar um pouco sobre o amor




A questão amorosa preocupa mais à maioria do que os aspectos essencialmente relacionados com o sexo. Não creio que isso seja justo, pois o sexo ainda é um grande problema a ser melhor resolvido pelas gerações que estão aí e também pelas que virão.

Aconteceu um fato recente que me fez escrever este pequeno texto sobre o amor. Fui convidado para fazer uma pergunta para Rosa Montero (escritora espanhola que foi entrevistada por um programa de televisão. Perguntei se ela achava razoável pensarmos na existência de um fator anti-amor, um fator interno que torna tão difícil e incomum a realização das histórias de paixão, tema de um dos seus trabalhos mais recentes.

A resposta dela foi de tal forma surpreendente que me fez reconsiderar alguns aspectos relacionados com o que já escrevi sobre o assunto: ela desviou totalmente do assunto e parece não ter entendido minimamente o que eu estava falando. Compreendi o quanto a maior parte das pessoas, mesmo as mais esclarecidas, ainda é carente de informações a respeito do tema. Ela dizia que a paixão é um vício, algo que só pode durar uns 2 anos; este é o discurso oficial, nada criativo. Dizia também que depois de superada a paixão, as relações ganhavam aquele aspecto cotidiano um tanto monótono e repetitivo. Ela disse que ela mesma havia se apaixonado várias vezes e que as histórias sempre terminavam assim: quando se sai da fantasia para a realidade, o tédio e a monotonia acabam por predominar.

Em síntese, ela disse que ou vivemos o amor como drogados ou então o vivenciamos como um tédio. Nada pode ser mais tradicional, conservador e depressivo do que estas considerações extraordinariamente reacionárias. Dão a impressão de que não há saída e salvação para a questão do amor a não ser pelo esforço enorme de aceitar e respeitar as diferenças que são inerentes ao fato de que o amor real implica em indivíduos específicos. Não fala sobre que diferenças e, com isso, coloca todas as diferenças no mesmo saco. Não preciso enfatizar o quanto acho isso perigoso, pois é muito diferente estar convivendo com um bandido, com uma pessoa sem caráter e desleal, ou com alguém que gosta de acordar cedo quando gostamos mais de dormir até tarde. Há diferenças e diferenças e colocá-las todas juntas é estimular a idéia de que não devemos levá- las em conta já que terão que existir e teremos que trabalhar muito – ainda que no contexto das relações tediosas – para que consigamos ter algum tipo de afetividade pela pessoa por quem antes tínhamos paixão.

Ela fala que, na paixão, amamos mesmo é o estado que o encantamento pelo outro provoca em nós. É verdade. Diz que não amamos a outra pessoa e que amamos mesmo é o amor! Este é mais um capítulo do discurso oficial, tradicional e vazio. Amamos uma determinada pessoa porque ela provoca em nós uma série de sentimentos e sensações e isso é o que venho afirmando há décadas. Amo aquela pessoa cuja presença provoca em mim a sensação de aconchego, de paz e de bem-estar que eu perdi no momento do nascimento. Amo a pessoa porque ela é capaz de provocar em mim emoções muito agradáveis. É mais que lógico que seja assim. O trágico é que muitas pessoas, depois de encantadas, continuam a amar a pessoa apesar dela provocar dor, humilhações e todo o tipo de insegurança e desconforto. Isso não é mais amor e sim uma dependência mórbida que está desconsiderando os fatos e que torna tantas pessoas reféns de parceiros que não valem a pena. Aí as pessoas falam coisas do tipo: ele é péssimo, mas eu o amo! Isso é que não faz o menor sentido. Temos mesmo que amar a pessoa que nos faz feliz, que provoca em nós grandes e prazerosas sensações.

Enfim, eu que pensava que não haveria necessidade de escrever mais nada a respeito do amor decidi, em virtude deste fato e de tantas observações que tenho lido no meu site a respeito da sexualidade (além das consultas on line onde, é claro, os assuntos relacionados com namoros e casamentos desastrosos predominam largamente), tratar de escrever mais sobre o amor, sobre os caminhos que levam à felicidade sentimental. Não é para já porque outros compromissos e projetos em andamento me exigem muito tempo. Mas acho que em 2007 lançarei um texto bem simples e direto que trate de desfazer todos esses mal entendidos.

Quero muito reafirmar mais uma vez que a paixão corresponde a um encantamento de ótima qualidade entre pessoas parecidas que vivenciam este encontro com muito medo. O medo é parte da paixão e dá a ela o caráter aflitivo e tenso que pode se assemelhar ao vício. Quando o medo se atenua, a relação continua a manter todo o vigor e todo o encantamento próprio das relações baseadas na confiança recíproca, numa intimidade totalmente compartilhada e num clima erótico legal. O medo não é outro senão uma manifestação do que chamo de fator antiamor, presente em todos nós, que está principalmente relacionado com o medo da felicidade. Este é o maior obstáculo à realização amorosa. Como todo medo, só pode ser tratado de uma forma: enfrentando-o com consciência, coragem, determinação e persistência.

Flávio Gikovate

24 de fevereiro de 2011

Amores modernos



Que tempo é esse de tantas máquinas e pouco amor? Na internet, você se oferece num classificado. Pesos e medidas que nunca vão definir quem você é. Que tempo é esse que anestesia o coração?

O sexo corre solto, ninguém é de ninguém. Vale tudo no jogo da sedução. Corpos e formas nas prateleiras da noite. Quantidade versus qualidade. Como é mesmo ser íntimo? Conversa em volta da mesa, troca de idéias, papo furado. Abrir a guarda, ficar vulnerável, de carne e osso como todo mundo é.

Nos tempos modernos você não conhece o vizinho, esquece dos amigos. O trabalho, o sucesso, o congestionamento e a fumaça embotam os sentidos.

Desfile de tragédias e cenas chocantes invadem sua casa, de onde você vê o que acontece no mundo. Acostuma com a desgraça e nem lembra que pode mudar o canal. Toneladas de informações para se manter no mercado. Para não perder o seu posto, defender a posição.

Mas se você parar para pensar no que está fazendo, se consultar a alma para saber o que ela quer, pode ser que você leve um susto ao perceber que esse dia-a-dia não o leva a lugar algum.

Afinal, o que você espera da vida? Será que não é mais um boi na boiada? Como andam suas relações?

A música bem alta, a melodia que falta. O divertimento que tenciona mais do que relaxa. Tudo para disfarçar o desgosto, a falta de entusiasmo. Tudo para esconder o quanto você está só.

Mas existe outro jeito de ser, que não depende desses tempos, e que pode ser muito mais interessante. E você o descobre quando experimenta os caminhos que foram apontados por sábios homens, em um tempo de menos tecnologia e muito mais compaixão.




Sergio Savian

Por que você está só?




As pessoas têm ideias erradas sobre o amor; como a de que, quando amamos, não precisamos de nada mais. Outro erro é confundi-lo com a excitação e a euforia do início da união. Esses mitos prestam um grande desserviço ao amor. Ao se livrar deles fica mais fácil encontrar parceiros e estabelecer relações mais criativas e duradouras. Há muitas crenças falsas sobre o amor. Uma delas defende que "é bom em si e, se amarmos, não precisamos de nada mais"; outra propõe que "surge do nada e é eterno".

A ideia de que o sentimento é sempre bom sugere que deveríamos amar sem problemas; já a de que surge do nada indica que temos de esperar por ele, em vez de procurá-lo. É também um absurdo pensar no amor como um sentimento e depois queixar-se de que não é duradouro. Sentimentos mudam.

Aquela emoção inebriante e arrebatadora ligada ao sexo prolonga-se por algumas horas; ou poucos dias; a excitação e a euforia talvez duram meses, mas isso ainda é um tempo curto no calendário do amor. O clímax de um bom romance não ocorre logo nos primeiros capítulos, quando ainda faltam 500 páginas para o final. Assim, ficar vidrado nas sensações calorosas e borbulhantes nos momentos iniciais pode nos fazer confundir excitação com amor.

A paixão desenfreada é uma idealização e frequentemente consiste apenas no sentimento de excitação, às vezes, avassalador. Na verdade, a idealização de quem amamos é o que em grande parte faz do amor uma emoção tão desejável; não há nada de errado em vermos a pessoa amada como "o ser mais maravilhoso do mundo". Só que a idealização tem seu preço: torna o amor maior do que o companheirismo e desejo sexual, pois envolve a glorificação do outro. Aí a levamos ao extremo: procuramos alguém que nos ame totalmente, sem compromissos anteriores, sem paixões recolhidas. Mas é quase impossível encontrar alguém que tenha uma história assim, uma vida sem amores vividos, fracassados ou perdidos.

O problema é que, quando existe exigência excessiva pela perfeição do outro, despimos a pessoa amada da realidade, ela é esmagada com expectativas impossíveis e posta num pedestal, podendo cair a qualquer momento; ou a vemos como alguém que não atingiu seu potencial, não conseguiu realizar-se e acaba sendo fonte de decepções.

Ao contrário de nossas expectativas, o amor não é "a resposta" para tudo; apresenta tanto soluções quanto problemas. Amar, por outro lado, não é entrar num mundo onde não existam desilusões, medos, ciúme, raiva. A idealização do amor tem, portanto, um custo. Não é verdade que tudo de que precisamos é estar amando; necessitamos também de trabalho, de pagar o aluguel, de amigos fiéis, de boa dose de coragem.

A excessiva idealização nos faz pensar no amor como garantia em vez de desafio, numa coisa fixa, não num processo de vaivém, ou seja: ora ele se manifesta, ora não. Esperamos sentir mais do que realmente sentimos e, por isso, desconfiamos de nós mesmos. Acontece que, como qualquer outra emoção, o amor varia de intensidade. E, como a maioria de nós não é capaz de manter um delírio febril por muito tempo, aparecem as dúvidas chatas: "Será que eu ainda o (a) amo?". É como se o amor fosse real só quando é explosivo, obsessivo, quando nos absorve totalmente.

O amor, como todas as outras coisas, deve encaixar-se na vida e, em geral, ela é cheia de problemas e obrigações. Como pergunta, de forma contundente, o filósofo americano Robert Solomon em seu livro O Amor, "por que nos recusamos a admitir que o amor possa ser de meio período", como ocorre com a tristeza, a alegria e os outros sentimentos? Ele continua: "No amor, não queremos só sexo e segurança, mas também felicidade, companhia, diversão, alguém com quem viajar, sair, alguém de quem depender nas horas difíceis...”.

Portanto, o amor é um estimulante emocional poderoso, que pode parecer milagroso, porém tanto destrói vidas quanto as salva. E ninguém vende um remédio milagroso aos fregueses sem mencionar os efeitos colaterais ou a dosagem ideal". Esses mitos prestam um grande desserviço ao amor. Quem se liberta deles pode ter mais facilidade para encontrar parceiros e estabelecer relações criativas e duradouras.


Maria Helena Matarazzo 

15 de fevereiro de 2011

Onde está o amor




Uma química delicada se produz entre duas pessoas que se sentem atraídas uma pela outra. O encontro se faz quase sempre pelo olhar. Segue-se a participação da boca, primeiro em sorrisos, depois em palavras. Aí vai surgindo o desejo de tocar, de abraçar.

Pesquisadores americanos dizem que precisamos de seis abraços por dia para não nos sentirmos carentes. Por que seis? Talvez porque um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda, quatro então nem se fala...

Nossos braços servem para abraçar, enlaçar. Só que cada abraço tem que ser sentido, vivido. Como disse o terapeuta paulistano José Ângelo Gaiarsa, você não toca no outro como se ele fosse uma cadeira. Senão você está coisificando o outro. Acontece que o outro é de carne e osso, parecido com você, por isso, o gesto não pode ser impensado, mecânico, automatizado.

As pessoas estão cansadas do gesto maquinal que não reflete nada. Quando eu toco o outro, que está além das fronteiras do meu próprio corpo, eu o sinto e sinto a mim mesma simultaneamente. Nesse sentido, podemos ficar horas sem fim nos tocando e nos sentindo. Mergulhando na sensação, percebendo o outro e me percebendo, tenho a sensação de estar sendo abraçada.

A criança registra essa impressão na mente e vai pelo resto da vida tentando reconstituir, reencontrar essa sensação. Por isso o ser humano tem fome de abraço. Ele está tentando repetir o prazer que está associado a essa primeira experiência.

Assim como aprendemos a falar porque alguma pessoas falam conosco e vamos falar da forma como elas falaram -, também aprendemos a tocar em grande parte dependendo da forma como fomos tocados. O aprendizado do amor começa aí. As sensações de mamar e amar ficam profundamente interligadas e até inseparáveis em nossa mente.

Mais tarde, frequentemente comer se torna uma forma de compensar a falta de amor. É por isso que, quando estamos carentes, atacamos a geladeira, bebemos mais cerveja, tomamos mais sorvete, comemos mais um chocolate.

Tanto a fome de alimento com essa fome de contato normalmente se intensificam nos períodos de tensão. Entretanto, enquanto a fome de alimento podemos matar sozinos com comida, cigarro ou álcool, a fome de contato dificilmente pode ser satisfeita sem outra pessoa. O que se resolve com gestos que nos aproximam, nos vinculam ao outro. Entretanto, pode-se alisar, abraçar, tocar de forma apressada, impensada, dissociada. Ou pode-se tocar sensualizando, erotizando cada movimento.

Cada gesto traduz um sentimento, uma emoção, que provoca uma reação. Se o gesto é indiferente, não manifesta nada, não tem energia nem intenção, você congela o outro e se congela. Se ele for macio, terno, doce, você derrete o outro e se derrete. Se ele for erótico, excitante, estimulante, apaixonado, você incandesce o outro e se incandesce também.

Muitas vezes, quando se faz amor, carinho e carícia se misturam, se juntam, se fundem e confundem. Brincamos com o nosso corpo porque sabemos que fazer amor é "um alisar o outro e o outro alisar o um". Nessa troca de carícias, o outro responde ao meu gesto e tende a fazer aquilo que meu gesto insinua. O que acontece é uma conversa dos dedos sobre a pele.

O que se busca, quando se faz amor, é essa ampliação da consciência do contato. Na medida em que vamos aprendendo a ampliar o contato com outra pessoa, vamos ampliando e aprofundando nosso contato vivo e prazeroso com tudo o que existe.



Maria Helena Matarazzo


28 de janeiro de 2011

Definições do amor




Pensamos por meio de palavras e frases. Qualquer erro no uso das palavras determina um engano que tenderá a se amplificar e nos conduzirá a conclusões cada vez mais equivocadas. Não se trata de insistir para que sejamos mais atentos ao significado das palavras que utilizamos apenas por perfeccionismo. Trata-se de não utilizarmos mal nossa mente, já que ela funciona a partir das palavras, frases e suas conclusões. Qualquer erro poderá ter consequências desastrosas para nosso futuro.

A forma mais comum de engano no nosso sistema de pensamento deriva de usarmos uma mesma palavra com mais de um sentido. No caso, a palavra é AMOR. Na linguagem coloquial, amor é usado como sinônimo de solidariedade, como amor por tudo e por todos que estão sobre a Terra.

"Eu te amo" é uma expressão usada por um sedutor que conheceu sua "vítima" há poucos minutos e deseja levá-la para a cama. Pessoas alegres e pouco criteriosas se dizem encantadas e amam com facilidade cada nova pessoa que conhecem. Uma pessoa egoísta empenhada em se mostrar feliz consigo mesma não titubeia em afirmar: "eu me amo". Estamos diante de diferentes usos da mesma palavra: uso equivocado, vazio ou idealizado. Usamos a palavra amor como o coringa em certos jogos: ela serve para todas as situações.

Amor é palavra usada e abusada. Usa-se mais a palavra amor do que vive-se o sentimento. E quantas são as pessoas que se sentem felizes no amor? Pouquíssimas. E quem é capaz de definir o que seja o amor? Quase ninguém. E como podemos pretender nos dar bem nesse campo se não sabemos nem mesmo como conceituar o sentimento?

Peço licença para propor uma definição de amor. A questão é fundamental, pois envolve emoções que nos são fundamentais e em torno das quais temos sofrido muito. De todo o modo, as diferenças entre amor e sexo são gritantes: amor é a sensação de prazer que deriva do fim da dor relacionada com o desamparo; sexo é um prazer positivo, já que independe da existência prévia de uma dor ou desconforto. O amor é interpessoal, uma vez que o aconchego depende da presença de uma outra pessoa; o sexo é pessoal, posto que a estimulação das zonas erógenas pode ser feita pela própria pessoa.

O amor é sentido por um objeto definido, ao passo que a excitação sexual independe de objeto definido e pode ser despertada por múltiplas pessoas em um tempo muito curto. Amor e sexo são impulsos completamente diferentes, que podem ser vivenciados separadamente. É claro também que combinam muito bem e nada é mais agradável do que trocar carícias eróticas com aquela pessoa que também nos provoca a sensação de aconchego!

A partir dessas definições precisas fica claro como é difícil sustentar como interessantes as expressões "amor próprio", "amor ao próximo" e principalmente "fazer amor". Fica difícil também entender como é que se perpetuou o uso de "autoestima", já que, de alguma forma significa o mesmo que amor por si mesmo. Vamos tentar desfazer essa confusão passo por passo.

Fazer amor é expressão usada como sinônimo de trocas eróticas, o que não tem nada a ver com o fenômeno amoroso. Acredito que a expressão foi cunhada com o intuito de "purificar" os "pecados" do sexo, uma vez que a palavra "amor" daria dignidade e beleza ao que era visto como sujo e indigno. Amor é um sentimento e não se "faz" um sentimento. É comum que as trocas eróticas se dêem entre aqueles que se amam. Porém, não sei se a prática sexual não é mais comum entre os que não se amam e que muitas vezes nem mesmo se conhecem. Transar é expressão bastante mais adequada para descrever as trocas eróticas que envolvem um relacionamento sexual.

Amor ao próximo pressupõe um sentimento difuso de amor por todas as pessoas, o que não está de acordo com a idéia de que o sentimento só se manifesta em relação a quem nos provoca aconchego. Pode existir uma certa sensação de aconchego quando nos sentimos integrados em um grupo maior, como por exemplo quando nos sentimos parte de um povo. Penso que a melhor palavra para definir esse outro tipo de aconchego derivado de nos sentirmos integrados em um todo maior é solidariedade.


Flávio Gikovate 
 

18 de janeiro de 2011

O poder do diálogo



Acho que vale a pena escrever sobre as coisas que podem parecer banais, pois a banalidade com que lidamos com conceitos nos tira a possibilidade de reinventar a nossa própria história.

Uma das expressões mais banalizadas que acabaram dificultando e não facilitando - como era a intenção inicial - é o diálogo. Principalmente nos momentos quando o que se sente deve ser priorizado como o entendimento, a discussão e a chance de entrar em contato com novas maneiras de ver ou pensar situações, em especial sobre os temas que nos afetam sobremaneira como as relações afetivas e sexuais.

Os consultórios de psicologia estão sempre lotados de queixas de rigidez de conceito e da complexidade de se rever posições, pois o discurso é sempre de que as relações são competições e mudar de opinião geralmente é confundido com capitulação.

Falar de questões delicadas que podem melindrar ou nos colocar cara a cara com nossas dificuldades, fragilidades e erros são os grandes nós das relações.

Obviamente não existe uma receita infalível para responder uma pergunta, resolver um impasse ou mesmo para demonstrar um desejo ou necessidade. Mas há dicas que podem ajudar os casais a encontrarem um caminho, basta ter vontade.

Sobretudo nas questões da intimidade do casal. Questões muito comuns e que, apesar da apologia que se faz do diálogo, muitas vezes são encobertas pelo silêncio.

O grande segredo genérico é que essa fala deve ser norteada pelo desejo e carinho. Contudo, o que se percebe, na maioria dos casos, é a eclosão de tudo o que não foi dito no decurso da relação.

E, se as pessoas se gostam e se desejam, por que a belicosidade? Nessa sociedade em que ainda hoje apresenta homens e mulheres como concorrentes acaba se utilizando desse espaço para mostrar um ao outro o sonho da superioridade, num eterno jogo de sedução e sujeição.

E, quando há competição, com certeza não existe o amor, que representa paz, serenidade e o encontro com o outro.

Sexo e amor são coisas distintas e não podemos confundi-las. Ao separá-las é possível se aproximar das dificuldades sexuais sem a paixão e a urgência do sexo. Mas com a competência que ajuda no entendimento do amor.

Portanto, muito mais do que palavras, o diálogo sincero e objetivo é um estímulo para um encontro verdadeiro dos desejos que, ao caminharem para o mesmo destino se sustentarão numa troca constante. E, certamente, as diferenças de quaisquer ordens perderão o sentido competitivo e a cumplicidade será a força motriz para resgatar aspectos e sensações que ficaram perdidas pelo caminho.


Márcia Atik 

4 de dezembro de 2010

Entendendo o Kama Sutra



Geralmente conhecido no mundo ocidental, o Kama Sutra é um antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, amplamente considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. Kama é a literatura do desejo. Já o Sutra é o discurso de uma série de aforismos. Sutra foi um termo padrão para um texto técnico.

1. É um manual de sexo?

Muito mais que um guia com 529 posições sexuais, a obra é um compêndio de etiqueta para uso dos nobres, baseado em preceitos sagrados hindus. O Kama Sutra aborda diversos aspectos da vida cotidiana: como encontrar o par ideal, se relacionar com outras pessoas, cuidar da casa e obter sucesso. Segundo a mitologia hindu, o homem atinge sua plenitude quando pratica o dharma (virtude religiosa), o artha (riqueza mundana) e o kama (o amor). Kama sutra, em sânscrito, significa "dissertação sobre o amor".

2. Quem o escreveu?

Foi Mallanaga Vatsyayana, teólogo hindu dos séculos 3 e 4. Ele passou 20 anos compilando 79 textos eróticos da Antiguidade (alguns, escritos 1 000 anos antes e já trabalhados por outros sábios). De inédito mesmo, apenas seus comentários pessoais. Apesar de afirmar que testou todas as posições citadas na obra, historiadores especulam que Vatsyayana não era casado e morreu enclausurado num convento.

3. Como ele se tornou popular?

Em 1883, o britânico Richard Burton (1828-1890), o mesmo que traduziu As Mil e Uma Noites, trouxe a obra para o Ocidente. Ela caiu nas graças do público masculino porque, na tradução, Burton selecionou só os trechos mais picantes. A tradução completa foi concluída apenas há 14 anos, pelo francês Alain Daniélou.

Bruno Vieira Feijó