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31 de maio de 2013

Sem medo de envelhecer



Muitas pessoas têm medo de envelhecer talvez pela proximidade da morte que isto representa. A maioria delas é apegada à ideia da finitude da matéria e se esquece ou não acredita na eternidade do espírito. A morte para elas é um mistério insolúvel, o fim da vida, dor e até mesmo castigo. Considerada um Tabu, muitos evitam até falar o seu nome, tamanho é o medo que têm dela. 

Outra coisa que contribui para a rejeição da velhice é que a humanidade está vivendo uma época em que os valores espirituais foram sendo substituídos pelos valores materiais e as pessoas iludidas passaram a cultuar somente a juventude e a beleza exterior. Infelizmente, a maior parte das pessoas veem os idosos apenas como seres decadentes, feios e senis.

Aqueles que são ligados exclusivamente às exterioridades veem os indivíduos em processo de envelhecimento como uma derrota da natureza. Preferem isolar ou excluir os idosos da sua convivência para não precisarem se defrontar com a realidade, pois é muito difícil para essas pessoas assumirem a sua própria fragilidade e efemeridade.

Já os povos do oriente, que pertencem a uma cultura mais ligada à espiritualidade e que aceitam a morte com naturalidade, veem os mais velhos com reverência e respeito. É costume pedir conselhos e opiniões aos anciões pois a sua experiência e sabedoria são reconhecidas e acatadas. As pessoas acreditam ser um privilégio viver em sua companhia e uma honra poder ajudá-los a atravessar os seus últimos anos de vida.

Na verdade, não se deve ter medo de envelhecer, pois essa é mais uma etapa natural e gratificante da vida. É importante saber que a natureza segue os seus padrões cíclicos objetivando sempre a elevação do espírito; portanto, a velhice deve ser vista como mais uma oportunidade de aprendizado. Como tudo na vida, é preciso ver a velhice como uma bênção, pois nessa fase tem-se a oportunidade de compartilhar a sabedoria adquirida, servindo aos mais jovens para que eles às vezes nem precisem passar pelas experiências mais duras, abreviando e suavizando o seu caminho.

De fato, só o corpo envelhece, pois a nossa essência é imutável e eterna e, portanto, não deve ser identificada com o corpo. Este é apenas o veículo utilizado por nós na estrada da vida. Mas é imprescindível saber que ele é o templo da nossa alma aqui e, portanto, sagrado como tudo no Universo, por isso devemos respeitá-lo e cuidar para que ele cumpra com dignidade a sua missão de receptáculo e instrumento da nossa Consciência neste plano. A espiritualidade frisa sempre que a evolução e a libertação humana só acontecem por aqui.

A velhice não deve ser rejeitada, pois ela é natural e essencial para colocarmos em prática algumas virtudes divinas como a paciência, a humildade, a aceitação e o serviço abnegado. As rugas tão temidas por algumas pessoas devem ser vistas como cicatrizes de batalhas vencidas, marcas de superações e conquistas.

Para atravessarmos bem essa fase da vida podemos nos preparar alimentando-nos corretamente, fazendo exercícios físicos leves e praticando a meditação. Outro ponto importante é manter a mente sempre livre de preconceitos e anseios, e ocupada positivamente para que tenhamos mais condições de alcançar uma idade avançada produtiva e feliz. Produtiva sim, feliz sim. Produtividade não quer dizer resultado de trabalho duro, mas a decorrência da realização interna que tem também a felicidade como consequência.

Concluindo, se pensarmos e agirmos sempre com equilíbrio, envelheceremos com mais serenidade, alegria e compaixão, e mesmo que as rugas se espalhem por nossa face, e ainda, se nos faltar a saúde em algum momento, estaremos seguros do caminho e da vitória neste plano. Estaremos em paz com nós mesmos e com o Universo, cientes que demos o melhor de nós mesmos.



Marián Marta Magalhães

31 de julho de 2012

Sobre o medo da morte




Desde o início dos tempos, a questão da morte e da finitude muitas vezes acaba por alterar a tranqüilidade e o prazer de existir, freqüentemente sendo substituída por fluxos de pavor e mesmo de desorganização psíquica.
As perguntas que ficam em relação ao tema permeiam questões sobre o desconhecido, sobre a própria finitude, sobre a razão da vida, sobre o que é transcendente.

Ao longo de nossas vidas, inúmeras são as vezes na qual vivenciamos ciclos emocionais repetitivos. Isso se deve ao fato de que "lá", quando ainda éramos crianças e com os recursos e conhecimentos limitados que pode ter uma criança, entendíamos que nos manifestando com determinados padrões de comportamento na certa seria o melhor para sobrevivermos a situações conflitantes.

Ocorre que com o desenvolvimento que vem através da linha do tempo e com as novas oportunidades que a vida nos oferece, gradativamente podemos perceber que o que foi entendido pela nossa criança daquele tempo, pode ser totalmente redimensionado, abrindo espaço para novos conhecimentos sobre nós mesmos, bem como sobre as nossas relações para com a vida. Infelizmente, porém, não é sempre que este tipo de transformação saudável acontece.

Infinitas são as vezes quando caminhamos rumo a novas experiências, porém ainda fixados em referências antigas que de nada nos servem para as dinâmicas das nossas atualidades individuais e únicas. Talvez por questões traumáticas, pelo medo excessivo ou pelo grau de fixação de prazer distorcido, advindo de respostas da infância, torna-se possível a indefinida perpetuação numa situação de realidade onde já não há mais validade alguma para a atual consciência evoluída. Neste sentido, existe uma emergência silenciosa de se sair desta espécie de bolha.

Note que ao nos perpetuarmos neste ciclo vicioso, sem que percebamos, acabamos por interromper a plena vivência de aspectos fundamentais das nossas existências. Por consequência, grande parte da energia que possuímos fica represada de modo circular, gerando um tipo de hipnotismo que literalmente impede o mergulho numa realidade mais profunda do existir.

Por vezes, num engano atroz e por medo do desconhecido que representa sair da "bolha" e de se atirar no mundo da realidade, pessoas e mais pessoas acabam por se perpetuar nas mesmas questões emocionais, vagueando como sonâmbulas, mudando os cenários vivenciais, mas não as questões emocionais envolvidas; permanecendo num local em que nada se recicla.
É exatamente nesta situação que a vida não acontece.

O medo de morrer, neste sentido, ocorre quando a pessoa sente que ficou em dívida consigo mesma, com a sua própria vida. Deixando de lidar com o mundo da realidade, com as alegrias e com as frustrações inerentes a todo aquele que efetivamente está vivo.

Quem deixa de vivenciar aspectos fundamentais de sua própria vida, pode ter um medo da morte cristalizado. É freqüente a pessoa saber que tem uma conta a pagar a si mesma e, quer seja pela falta de coragem ou pela falta de iniciativa, sente que não aconteceu a renovação do que já estaria morto.

A grande questão é a de se nutrir de coragem e por vezes pedir auxílio quando se fica mais consciente deste processo de sair da bolha conhecida que se manteve anos a fio selada em meio a um montante de ilusões, sonhos de realização, idealizações e medos.

Nesta situação, para que efetivamente ocorra uma ruptura e, por consequência, uma transformação de vida, o "Eu" deve estar suficientemente fortalecido para que se possa comandar com total força transformadora toda essa mudança paradigmática.

Observem que a questão da morte, da finitude, é um assunto que sempre interessa. Os sentimentos envolvidos podem ocorrer em um rompimento afetivo, na perda de um animal de estimação, de pessoas próximas e mesmo no vislumbre da nossa própria morte. É lógico que o processo de desligamento seja muitas vezes complicado. Existem inúmeras questões envolvidas. Aqui, falo da plenitude da vida para que possamos de algum modo alcançar o que nos espera na condição de humanos que somos de modo mais autoconsciente e lúcido.

Tendo a absoluta certeza de que as nossas existências estão validadas!

É quando nos tornamos incorruptíveis no caminho de volta, pelo fato da autoconsciência adquirida. Na sequência, nos encaminhamos a perceber que essas mesmas dimensões/bolhas se tornarão apenas imagens, depois memórias distantes e, logo após, alcançamos o status de se ficar totalmente desidentificados com o antigo lugar. É neste momento que a vida começa por ficar totalmente dinamizada de outro modo.

Nesse palco terreno, todos somos protagonistas, elegemos os antagonistas com os quais lutaremos e, nessa épica luta individual, almejamos sair vitoriosos e por vezes a vitória consiste em apenas abandonar um ciclo que se repetia e que não levava a lugar nenhum. 
Penso que a vida deveria ser encarada mais esportivamente, aprendendo a dar valor tanto às derrotas quanto às vitórias.

Esse tema sobre vidas não vividas também é muito oportuno, porque vejo isso o tempo todo em muitas pessoas, sendo que essa cobrança sobre sonhos e projetos não realizados é muito comum. Também vejo pessoas que, para fugir dessa frustração, dizem viver só o momento presente, abrem mão de projetos e sonhos para não ter que enfrentar possíveis derrotas.

A filosofia poderia ser: "Deixe a vida me levar, mas que eu tenha o leme em minhas mãos".


Silvia Malamud 



19 de junho de 2012

Uma questão de tempo...




Sim... as pessoas que amamos são insubstituíveis ao nosso coração. Aquele lugarzinho que elas ocupam fica marcado com a presença delas, com o cheiro, com a forma e até o som do riso.

E quando elas partem forma-se o vácuo. Mas se a presença física se foi, ficam ainda as lembranças de tudo aquilo que foi construído juntos: os momentos vividos, as horas compartilhadas, muitas vezes as partidas e reencontros...

A saudade é tão indizível quanto a dor que ela provoca.

Mas ainda existe uma esperança: quem faz o bem aqui, nunca vai completamente: essa pessoa vive através dos ensinamentos que deixou, vive através das marcas que foi colocando em cada passo, cada acontecimento...

E o que reconforta é a esperança de que esse ponto final colocado é apenas passageiro, pois o Senhor nos prometeu que um dia, no céu, nós nos reconheceríamos.

Então... é apenas uma questão de tempo. Um dia a gente se reencontra fatalmente com aqueles que amamos e nos amaram acima de tudo nessa vida terrena. E enquanto estamos aqui, vamos deixando nossas marcas também, por que há os que precisam de nós e os que um dia irão querer viver com a esperança de nos reencontrar.

Assim, um dia, numa promessa feita por Deus, haverá no céu uma grande festa.

Tudo é uma questão de tempo...


Letícia Thompson






Meu querido pai Madeira, hoje você estaria fazendo 99 anos!!! Sei que tem festa no céu e que vc está alegrando a todos, como sempre fêz conosco aqui. Um beijo grande de quem sempre te amará!
Lena Simões



Frank Sinatra - I did it my way





2 de novembro de 2011

As quatro estações depois da perda



Quatro estações são necessárias para que se possa passar adiante depois de uma perda. O primeiro tudo depois da morte é sempre o mais difícil: o primeiro aniversário, o primeiro natal, o primeiro réveillon, as primeiras férias... são as ocasiões mais doloridas. Mas o passar dos dias ameniza a dor e vai dando lugar a uma certa nostalgia, ao carinho da lembrança.

Pensamos no instante da perda que nunca mais seremos capazes de sorrir, mas isso não é verdade. Depois de algumas auroras e alguns entardeceres, vamos descobrindo que a vida ainda está muito presente, que ainda somos capazes de nos alegrar com outras coisas, sem que isso diminua o amor e a saudade que sentimos de quem partiu.

Aceitamos dificilmente a morte porque nos esquecemos com facilidade que nossa vida na terra é apenas uma passagem. E quando alguém parte, é como se acordássemos para essa realidade: somos eternos para a vida, mas não a terrena! Inconscientemente pensamos na nossa própria morte e na daqueles que ainda estão conosco.

Mas... enquanto o sangue pulsar nas nossas veias, é a vida que pulsa e tudo o que podemos e devemos fazer é vivê-la. Alguém que amamos parte para sempre e isso é tremendamente doloroso. Essa pessoa é insubstituível ao nosso coração, já que cada pessoa é única em si no nosso viver e somos conscientes disso. Mas outros que amamos e que nos amam ainda estão por aqui e isso deve ser motivo de alegria e reconforto.

Por esses, pelo menos, devemos nos reerguer, reagir, fazer um esforço. E para nós, para nosso bem. Deus nos consola; amigos, família nos consolam... só precisamos é aceitar as mãos estendidas. Quatro estações e um pouco de paciência... o sol vai brilhar novamente, a alegria vai de novo encher o coração e tudo vai voltar ao normal. É preciso acreditar nisso!



Leticia Thompson


18 de outubro de 2011

E por falar em desapego...





Falar sobre desapego geralmente soa mal: dependendo do ponto de vista, parece complicado, pretensioso, arrogante e até falso e mentiroso. Quem, em sua vida, nunca sofreu por ter que abrir mão de alguém ou de algo que julgava ou sentia ser de estrema importância para si?

Quando crianças, o fato de saber que chegará um novo irmãozinho e que por isso o lugar de "único" deixará de existir, faz sofrer, assim como saber que frequentar a escola exige abrir mão do aconchego da mãe para aprender a caminhar sozinho. Mais difícil ainda, é aprender a viver em sociedade: emprestar brinquedos, dividir a atenção da professora, perder-se na multidão anônima da escola. Estes são os primeiros treinos conscientes de desapego: a descoberta que o mundo é muito maior do que o mundo pessoal, e que, para viver nele é preciso soltar-se e caminhar consigo e pelos próprios pés.

Diariamente, somos colocados frente a situações que nos levam a praticar, com bom senso, o desapego. É o modo que a vida tem de nos ensinar a sermos livres. Mas, de repente, a vida nos dá um chacoalhão: ela quer que cresçamos e, se parados, não saímos do lugar. Estes empurrões são proporcionais às nossas necessidades, mas apesar disso, muitas vezes é difícil entendê-los e aceitá-los. É muito comum a indagação angustiada: "Porque eu? Porque comigo?"

Poder. Status. Perdas de bens materiais, de emprego, de estabilidade financeira nos abalam terrivelmente, pois nos obrigam a nos separar da fonte de nosso conforto e estabilidade. É preciso reduzir despesas, deixar de lado o supérfluo, repensar as necessidades, o que implica em reavaliar valores pessoais e familiares, as verdadeiras amizades.

Implica em praticar o bom senso, a indulgência; em saber relevar e deixar ir tudo e todos que não conseguem se enquadrar na nova realidade. É um momento poderoso de descoberta dos amigos de verdade, e, sobretudo do próprio potencial ético, da força interior, do nível de autoconfiança e da certeza do merecimento pessoal na reestruturação de uma nova arquitetura profissional e financeira.

Desapego é deixar ir, sim, com gratidão pelo que se teve e pela oportunidade de poder e saber empreender novos caminhos.

Envelhecer. Não aceitar o estereótipo social de inutilidade, fragilidade, doença, solidão e medo, mas sim entender a beleza da maturidade, a riqueza das experiências vividas e deixar ir, sem dó e frustração, as idéias amargas da perda da juventude do corpo. Valorizar e praticar os bons hábitos adquiridos na estrada percorrida assim como as novas possibilidades dos novos tempos, do novo corpo, da nova inteligência intelectual e principalmente, a emocional. Desapego é deixar ir, sim, com gratidão pelo que se teve e pela oportunidade de poder e saber empreender novos caminhos.

Adoecer, perder a saúde e o bem estar físico. O tratamento médico é indispensável como também buscar as causas internas e externas, respeitando os limites do corpo e da alma. Neste caso, o desapego é não se revoltar; é a aceitação humilde e verdadeira da própria humanidade e de suas propriedades: a temporalidade e a mortalidade do corpo físico, o que não significa largar-se, não se cuidar, entregar-se. Isto seria negligência e omissão.

O foco principal é perceber que, apesar de termos em nós o poder divino e suas qualidades inerentes, o controle central ainda escapa de nossas mãos. Graças à nossa imaturidade espiritual e emocional, que nos impedem assumir plenamente o controle de nossa evolução pessoal, não temos a saúde plena em tempo total.

A doença nos fere como uma violenta bofetada, e nos mostra de forma dura e objetiva (embora achemos cruel e injusta) a nossa vulnerabilidade, impotência, ignorância, joga no chão nossa arrogância de sermos melhores que o resto do rebanho.

A doença e suas conseqüências e seqüelas são o grande desafio para nossa fé em uma inteligência maior e em sua justiça, embora não a compreendamos. São o teste para o desapego do controle sobre si próprio, sobre a família, sobre os bens materiais, sobre o futuro, sobre a morte e sobre a vida. E, diante da morte, o desafio da aceitação da temporalidade e da mortalidade; da entrega a uma nova etapa ainda desconhecida, permitindo-se deixar ir sem dor ou medo.

Luto. Morte. Dor. A grande perda do familiar querido, principalmente filhos. Dor maior não existe!

A dor da distância, da não presença física, da saudade. Mas é preciso se desligar, deixar ir, entregar à sabedoria do todo, para que haja evolução, mudança, crescimento, tanto pessoal quanto daquele que passou à outra dimensão. Isto é desapego, é deixar ir, sem dor; é amor verdadeiro, que tudo dá sem querer troca. Desapego é deixar ir, sim, com gratidão pelo que se teve e pela oportunidade de poder e saber empreender novos caminhos. É libertação do orgulho, da vaidade, do medo, da arrogância. Não desanime e deixe ir... Consciente e amorosamente troque e transforme-se para ter harmonia e luz. Muita paz!




Eda Cecília Marini 

11 de março de 2011

Amor e morte




"Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo ‘clima’, certa ‘preparação’. Certa ‘grandeza’. Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade".



Caio Fernando Abreu


19 de fevereiro de 2011

Uma questão de tempo...




Sim... as pessoas que amamos são insubstituíveis ao nosso coração. Aquele lugarzinho que elas ocupam fica marcado com a presença delas, com o cheiro, com a forma e até o som do riso.

E quando elas partem forma-se o vácuo. Mas se a presença física se foi, ficam ainda as lembranças de tudo aquilo que foi construído juntos: os momentos vividos, as horas compartilhadas, muitas vezes as partidas e reencontros...

A saudade é tão indizível quanto a dor que ela provoca.

Mas ainda existe uma esperança: quem faz o bem aqui, nunca vai completamente: essa pessoa vive através dos ensinamentos que deixou, vive através das marcas que foi colocando em cada passo, cada acontecimento...

E o que reconforta é a esperança de que esse ponto final colocado é apenas passageiro, pois o Senhor nos prometeu que um dia, no céu, nós nos reconheceríamos.

Então... é apenas uma questão de tempo. Um dia a gente se reencontra fatalmente com aqueles que amamos e nos amaram acima de tudo nessa vida terrena. E enquanto estamos aqui, vamos deixando nossas marcas também, por que há os que precisam de nós e os que um dia irão querer viver com a esperança de nos reencontrar.

Assim, um dia, numa promessa feita por Deus, haverá no céu uma grande festa.

Tudo é uma questão de tempo...



Letícia Thompson

22 de dezembro de 2010

A dor da perda


Uma amiga perdeu a mãe, de repente. A notícia me alcançou por e-mail, agora que a internet deixou o mundo pequeno. Estou longe, mas também perto, neste lugar sem distância que é o mundo virtual.

Senti tanto o desamparo da minha amiga, porque sei que as mães não deveriam morrer. Quando perdemos alguém que amamos, a dor é tão extravagante que chega a nos comer vivos. A dor está lá quando acordamos. Continua lá quando respiramos. E, quando nos distraímos, crava seus dentes bem no coração. Neste longo momento depois da perda, sabemos mais dos buracos negros do que os astrônomos porque carregamos um dentro de nós. E arrancamos cada dia nosso do interior de sua boca ávida, com uma força que não temos, para que não nos sugue de dentro para dentro.

Devagar, bem devagar, muito mais devagar do que o mundo lá fora nos exige, o vazio vai virando uma outra coisa. Uma que nos permite viver. Descobrimos que nossos mortos nos habitam, fazem parte de nós, correm em nossas veias. Que suas histórias estão misturadas com as nossas, que seus desejos se deixaram em nós. Acolhemos então aquele que nos falta de uma forma que nunca mais nos deixará. Como saudade. E como saudade não poderá mais partir.

Há pessoas que acham que quando doamos as roupas e os objetos de quem amamos e se foi, ou deixamos de chorar no cemitério, superamos a perda. O que acontece é que compreendemos que aquela pessoa não estará mais no mundo externo, não pertence mais a ele. Mas também não é mais um vazio que grita como nos primeiros meses, às vezes anos. Ela agora mora no mundo de dentro, vive como memória nossa, em nós. E assim não está mais morta, mas viva de um outro jeito.

A vida dos mortos em nós não é possessão nem fantasma. Nem é morte. O mórbido é quando não conseguimos dar um lugar vivo para o morto. Então a memória fica pregada naquele momento de horror e a vida se torna impossível, porque a existência não é água parada, mas rio que corre. Acontece quando alguém, pelos mais variados motivos, não consegue fazer o luto e dar um lugar de saudade para a dor. Quando nos fixamos, num dogma ou numa falta, partes importantes de nós gangrenam. Mas quando os mortos se acomodam em nós como lembrança que muda segundo o viver de quem vive, tudo flui. Se há algo que a vida é em essência é movimento. E o luto é um movimento que reabre as portas para a vida ao romper com a rigidez da morte em nós. Por isso, para o luto não pode haver pressa.

Quando sofremos uma grande perda, as pessoas dizem, para nos consolar, que tudo passa. Acho que nada passa. A frase mais precisa seria que tudo muda. Também nós que aqui estamos como matéria um dia seremos apenas eco. Aquela que fui ontem já mudou, a ruga que há um ano não existia agora é visível na pálpebra direita, minha percepção do mundo não é mais exatamente a mesma do mês passado, alterada por novas experiências que me alargaram. De certo modo, nascemos e morremos tantas vezes até o fim da vida. E é este o movimento que importa.

Queria dizer isso à amiga que perdeu a mãe de repente. Com o tempo, um período só dela e que não pode ser determinado em parte alguma nem por ninguém, minha amiga vai começar a perceber que a mãe é uma ausência presente no formato das suas unhas, num certo jeito de mexer a cabeça quando fala, na tonalidade rara dos olhos. Está nas palavras e nas histórias que conversam dentro dela, na mitologia familiar que se perpetua, nos sons da memória. E então poderá reencontrar a mãe dentro dela. E levá-la para passear.

E, num dia que sempre chega, viverão as duas como história, como cacos de lembranças encaixados em diferentes rearranjos de vitrais, na vida dos que vieram depois. É pouco, talvez. É tudo o que temos. 
 
 Eliane Brum
 
Texto resumido por Lena Simões
 
A você, meu pai, que partiu no dia 25 de dezembro de 1996.
A ausência deu lugar à saudade. 

26 de novembro de 2010

Mortos que brilham



Antigamente a gente dizia assim: “Quem é vivo sempre aparece”. Agora seria melhor reformular o ditado popular para a seguinte versão: “Quem é morto nunca desaparece”. Isso se o morto for famoso, porque, vive só quem morre na glória. Nos últimos anos, temos nos maravilhados cada vez mais pelo culto dos mortos célebres, em especial os recentes.

Mais do que nunca, os vivos consomem os mortos, deliciam-se com o sentimento de que sobreviveram a eles, de que ainda estão por aqui para festejar o espetáculo da finitude. O fenômeno sempre existiu com variantes de quando e lugar. Os fantasmas nos divertem, porque eles já não oferecem perigo, já não apresentam novidades nem decepcionam. Já se converteram em um ícone a ser venerado.

Neste momento, os mortos oferecem o maior e mais lucrativo espetáculo da Terra. Desde sua morte súbita, Michael Jackson faturou pelo menos US$ 100 milhões e se tornou novamente o maior astro pop da atualidade. Vendeu 5 milhões de CDs e quase 9 milhões de downloads de suas músicas foram feitos na internet. Se alguém fosse bater no túmulo de Michael, lá em Los Angeles, e perguntar se ele gostaria de ressuscitar, ele sacudiria a cabeça num movimento de euforia – e assim iria de encontro à famosa declaração de Schopenhauer: “Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça num movimento de recusa”.

Mas talvez o sábio alemão tenha razão. Caso os mortos pudessem voltar para ver o sucesso que estão fazendo, talvez perdessem o cartaz. Os mortos de verdade, os famosos, nunca morrem, porque a tecnologia os torna eternos. A princesa Diana, que se foi em 1996, continua até hoje a receber mensagens de condolências, como se essas tivessem de ser enviadas aos mortos e não aos seus entes queridos vivos.

O ator Heath Ledger, que morreu aos 28 anos em 2008, talvez não tivesse ganhado o Oscar por seu papel como Coringa no filme Batman – o cavaleiro das trevas. E talvez o filme não houvesse chegado a uma bilheteria de US$ 1 bilhão, se ele já não fosse o astro póstumo. Segundo a revista Forbes, ele se tornou um dos grandes milionários post mortem; só perdeu Elvis Presley que tem a seu favor os royalties sobre as suas canções, além dos objetos colecionáveis e outros produtos enviados ao mundo inteiro de Graceland, hoje parque temático com lojinha.

Eis aí o eterno ex-beatle John Lennon – revivido em música por Yoko Ono, que resolveu ressuscitar a Plastic Ono Band. Ele faturou nos últimos meses US$ 9 milhões com as vendas do game The Beatles: Rock Band. Marilyn Moroe continua fazendo sucesso 50 anos depois de sua morte – e arrecadou este ano US$ 6,5 milhões só com a venda de sua imagem para campanhas publicitárias.

No Brasil, o músico Renato Russo virou uma espécie de santo das vendas de material bruto de sua banda Legião Urbana, e continua a arrecadar milhares de reais mensalmente. Talvez se os argentinos fundassem um parque conceitual da recentemente falecida cantora Mercedes Sosa em Tucumán, sua cidade natal, talvez conseguissem repetir o fenômeno do sucesso fúnebre na América do Sul. O culto portenho ao cantor Carlos Gardel rende dividendos desde que o avião em que estava explodiu, em 1935. Che Guevara é o líder dos colecionáveis latino-americanos, sua camiseta ainda é um hit, e Evo Morales está lançando o diário do guerrilheiro na Bolívia.

O método do marketing póstumo tem-se popularizado, agora entre os moribundos sedentos de notoriedade. São eles que tomam voluntariamente a atitude de se lançar à aventura da posteridade de ouro. Farrah Fawcett se expôs em um documentário para a televisão, que mostrava o progresso de seu câncer. Foi tanto sucesso que agora vai ganhar uma sequência, finalmente com o epílogo. O astro Patrick Swayze também frequentou as manchetes e foi alvo dos paparazzi nos momentos finais de sua doença; planejou também lançar um livro logo que morresse. E acaba de sair nos Estados Unidos The time of my life, feito em parceria com a mulher, Lisa Niemi, que já está na lista dos mais vendidos.

Luís Antônio Giron

7 de novembro de 2010

Top 10: filmes mais marcantes sobre vida após a morte




Desde que o cinema brasileiro decidiu apostar em filmes sobre espiritualismo, descobriu um grande público interessado no tema. Mas não é de hoje que este assunto desperta a atenção, tanto na vida real quanto no mundo da ficção.

10. Nosso Lar
É baseada em um livro do mais famoso médium brasileiro, Chico Xavier, o novo sucesso do cinema nacional este ano: Nosso Lar (2010), que retrata a trajetória de uma pessoa pelo mundo espiritual a partir do momento que desencarna. Conta a história de André Luiz (Renato Prieto) em sua passagem pelo purgatório, por uma “colônia espiritual” e pela cidade que dá nome ao longa, onde ele busca o sentido da “vida após a vida”.

9. Minha Vida na Outra Vida

Minha Vida na Outra Vida (2000) é baseado em uma obra literária autobiográfica, que a autora Jenny Cockell afirma tratar-se de fatos reais. A personagem (Jane Seymour) começa a ter lembranças de sua vida anterior, quando era Mary, uma irlandesa que morreu na década de 30. Ao perceber que todas as suas visões são reais, vai em busca dos filhos que teve no passado.

8. Um Olhar no Paraíso
Uma menina preocupada em zelar por sua família mesmo depois de morrer. Essa é Susie (Saoirse Ronan), a personagem principal de Um Olhar no Paraíso (2009), que é assassinada brutalmente aos 14 anos. Presa em um espaço entre o céu e o inferno, ela precisa lidar com um paradoxo de sentimentos: o desejo de vingança contra seu assassino e a vontade de ver sua família superar sua morte traumática.

7. O Mistério da Libélula
Um filme que traz sutis sinais de uma pessoa que quer mostrar aos amados que permanecem na Terra que está bem. É assim O Mistério da Libélula (2002), no qual o médico Joe Darrow (Kevin Costner) fica viúvo e começa a perceber que sua mulher, Emily (Susana Thompson), quer se comunicar. Ela faz isso por meio de simbólicas libélulas e de seus antigos pacientes que, entre a vida e a morte, conseguem fazer contato com ela e podem ajudar o casal a resolver as pendências que não os deixam seguir em frente.

6. A Casa dos Espíritos
A Casa dos Espíritos (1993) gira em torno das relações conflituosas da família de Clara (Meryl Streep), que, com uma visão espiritualizada sobre a vida, tem sempre uma palavra reconfortante para levar equilíbrio àquele ambiente. Ela ainda tem a missão de usar o dom da mediunidade para ajudar o marido e a filha a resolverem suas desavenças. Baseado em romance de Isabel Allende.

5. Cidade dos Anjos
Anjos que, em vez de fantasiosas asas, usam roupas pretas e vagam pela Terra protegendo os humanos. Um deles, Seth (Nicolas Cage), se vê obrigado a lidar com sentimentos mundanos, como o amor que sente por Maggie (Meg Ryan), e passa a considerar a de voltar ao mundo mortal para viver ao lado dela. Esse é Cidade dos Anjos (1998) que, espiritualmente, deve ser visto mais como um filme no qual uma médica racional é tocada por um sinal divino e passa a acreditar que existe algo além da terra firme.

4. Amor Além da Vida
Em Amor Além da Vida (1998), o céu não é um espaço necessariamente branco e cercado por nuvens, ao desencarnar cada um encontra o ambiente que mais lhe agrada. É, então, em um cenário que lembra os traços de uma pintura fresca para onde Chris Nielsen (Robin Williams) vai após sua morte. Tudo perfeito para ele, até ficar sabendo que sua mulher, Annie (Annabella Sciorra), não aguentou a dor de ficar sozinha e se matou. Como suicida, ela é enviada a um local obscuro, distante dele, e não será mais capaz de reconhecê-lo caso o encontre,o que não o impede de ir atrás de seu grande amor.

3. Os Outros
Uma mãe vive em uma mansão isolada com seus dois filhos, enquanto espera que seu marido retorne da II Guerra Mundial. Como as crianças sofrem de uma doença rara de hipersensibilidade à luz solar, a família vive na quase completa escuridão. Apesar da rotina incomum e cercada de manias passam os dias tranquilos. Mas tudo começa a mudar em Os Outros (2001) quando Grace (Nicole Kidman) contrata novos empregados, que começam a quebrar suas regras e a levam a encarar um problema que acomete muitos espíritos.

2. O Sexto Sentido
Abalado pelo trauma de ver um de seus pacientes se suicidar na sua frente, o psicólogo Malcolm Crowe (Bruce Willis) se dedica ao caso do menino Cole Sear (Haley Joel Osment) para tentar se redimir. Aos 8 anos, o pequeno médium é contatado por espíritos que pedem sua ajuda para resolver problemas terrenos que os impedem de evoluir. Mas como Cole não entende a intenção deles, torna-se uma criança aflita, amedrontada e com dificuldades de convivência. O médico o ajuda asuperar seus medos, mas também é auxiliado pelo garoto a entender parte de seus conflitos pessoais em O Sexto Sentido (1999).

1. Ghost

Ghost (1990) é um dos filmes mais bem sucedidos do gênero, pois a história de amor de Sam (Patrick Swayze) e Molly (Demi Moore) encanta quem é ou não adepto da doutrina espírita. A história começa com a morte de Sam, que não consegue ir para o outro plano porque ainda tem pendências na Terra, como proteger sua mulher de seu melhor amigo, que planejou sua morte. Para isso, conta com a ajuda da médium Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), que precisa aprender a lidar com seu dom, ajudar Sam a entrar em contato com Molly e ainda participar do plano que planeja levar o criminoso para a cadeia.


Pollyane Lima e Silva 

2 de novembro de 2010

A um ausente




Tenho razão de sentir saudade,
A um ausente tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade
 
 
Este post dedico a você, meu pai, que se foi, contra a minha vontade e deixou muitas saudades no meu coração... 



8 de setembro de 2010

Marcas necessárias



Vivemos numa época que não quer ser marcada. A maioria de nós tenta escapar das rugas, estas cicatrizes do rosto, de todas as formas – algumas delas bem violentas. Os sinais da idade, da vida vivida, são interpretados como algo alienígena, estranho a nós. Estão ali, mas não deveriam estar. É quase uma traição. Urge então apagá-las.

É tamanho o nosso medo da velhice e da morte, que as marcas da vida vivida são decodificadas como feias, quase repugnantes. Tanto que estamos diante de uma novidade – as primeiras gerações de seres humanos envelhecendo e morrendo com os sinais não da idade, mas das cirurgias plásticas. Sim, porque estas também são cicatrizes. Não há jeito de morrer sem marcas porque não há como viver sem ser marcado pela vida. Mesmo os bebês, que por alguma razão morrem ao nascer, já trazem no corpo a marca fundadora – o corte do cordão umbilical que lhes arrancou de dentro da mãe. O umbigo é nossa primeira cicatriz, aquela que nos unifica.

Se a tecnologia conseguir inventar um ser humano sem marcas é porque desinventou o ser humano. Podemos talvez um dia apagar todas as marcas visíveis, tatuadas no corpo. Mas nunca haverá uma cirurgia capaz de eliminar as marcas da alma. E esta é também uma tentativa que temos empreendido com muito empenho. Por um excesso de psicologuês, uma leitura transtornada do pensamento de Freud, passamos a achar que tudo é terrivelmente traumático. Qualquer contrariedade ou vivência não programada supostamente estigmatizaria nossos filhos e aniquilaria seu futuro. Qualquer derrapada no script de nossos dias nos assinala como catástrofe. Parece que viver se tornou uma experiência por demais traumática para quase todos – e, se assim é, a única solução seria não viver. Mas a questão não é o trauma – e sim o que cada um faz com ele.

É verdade que, compreendendo o trauma como algo que nos marca, que nos mata simbolicamente para que possamos renascer de outro jeito, nossa vida é cheia deles. O que questiono aqui é a crença de que não deveria ser assim, a ilusão de que é possível, e o pior, que é desejável, ter uma vida sem marcas no corpo e na alma.

É claro que alguns acontecimentos são devastadores e lutamos para que não voltem a se repetir com ninguém. Mas, mesmo nestes casos, me parece que a vida só é possível não apagando o que é inapagável, mas fazendo algo novo com esta marca. Transformando-a em algo que possa viver.

Acho uma prepotência “ser contra” ou ridicularizar a tentativa de um outro de lidar com suas marcas, dar um novo sentido àquilo que o constitui. Transformar em algo mais que a dor o que era só dor. Pode não ser o seu caminho, mas isso não o impede de olhar para a saída encontrada pelo outro com o profundo respeito que ela merece.

Quando as pessoas me contam suas histórias, começam a contar pelos seus renascimentos. Pelo momento em que morreram de um jeito, por causa de um trauma, e renasceram de outro. É ali que identificam seu início ou reinício. Uma nova vida só é possível quando contém a anterior e a sua quebra. O que atravanca nossa existência é ficar fixado no trauma, enxergar a marca como uma morte que não renasce, como um corte que não vira cicatriz. Por isso a palavra “sobrevivente” me incomoda. É como se vida fosse o que havia antes, algo que não pudesse se quebrar, e o que temos agora fosse algo menor que a vida, uma mera sobre-vida. Me parece, ao contrário, que a matéria da vida é justamente esta sucessão de quebras, e viver é dar sentido a elas.

Esta ideia vendida e consumida exaustivamente, de que a vida não pode ser marcada nem no corpo nem na alma, tem causado enorme sofrimento às pessoas. Não o sofrimento que nos leva a criar uma vida, mas aquele que nos leva a anestesiar uma vida. Este equívoco tem transformado gente que poderia viver em meros sobreviventes. Porque se não podemos ser marcados, se cada marca for vivida como algo mórbido e não como parte do vivido, fixamo-nos na morte. Viramos uma ladainha que repete sempre o momento mortífero e não consegue seguir adiante.

Ser é ser em pedaços. O que nos impede de viver não é o trauma, mas a ideia de que exista uma vida que possa prescindir deles. E o que nos humaniza é a capacidade de criar algo vivo com nossas marcas de morte. Como poderia dizer a poeta Adélia Prado, “uso todos os meus cacos para fazer um vitral”. Cada vida humana é um vitral feito com as marcas de todas as nossas mortes. Sem os cacos, nada há.



Eliane Brum
Edição: Lena

13 de julho de 2010

As sete mortes mais bizarras do rock


Mórbido? Não foi essa a intenção... Hoje, no Dia Mundial do Rock, o objetivo do artigo é fazer uma lista clássica e relembrar algumas das mortes mais esquisitas de astros do rock. Não estão incluídas aqui as mortes que ainda não foram esclarecidas.

Veja se você concorda com a classificação...

7º - Billy Murcia, do New York Dolls, 1972
O baterista do New York Dolls morreu sufocado com café quente quando sua namorada tentava reanimá-lo de uma intoxicação braba por álcool e vários tipos de drogas. Isso aconteceu durante a primeira tour da banda pela Inglaterra, quando ele tinha só 21 anos.
6º- Clarence White, Byrds, 1973
O guitarrista do Byrds foi atropelado por um caminhão dirigido por um motorista bêbado. Dois anos antes, a banda havia lançado a música Truck Store Driving Man, satirizando os caminhoneiros.
5º - John Bonham, Led Zeppelin, 1980
O baterista do Led Zeppelin morreu sufocado pelo próprio vômito após beber o equivalente a 40 copos de suco de laranja – com muita vodca.
4º - Keith Relf, Yardbirds, 1976
O ex-vocalista do Yardbirds e fundador do Renaissance sofreu uma descarga elétrica quando tocava guitarra dentro de uma banheira cheia de água. Foi encontrado pelo filho com os fones de ouvido na cabeça.
3º - Johnny Ace, 1954
O cantor de rhythm and blues morreu brincando de roleta russa nos bastidores de um show. Segundo os membros da sua banda, ele estava bêbado e foi advertido contra brincar com a arma, mas teria dito: “Tudo bem! A arma não está carregada, viu?”. Então ele disparou e morreu imediatamente.
2º - Ricky Nelson, 1985
O rival de Elvis Presley, sucesso nas décadas de 1960 e 1970, explodiu o avião que pilotava ao acender um “freebase” (cigarro de maconha e cocaína).
1º - Michael Hutchence, INXS, 1997
Segundo relatório oficial, o vocalista da banda INXS se suicidou por asfixia com um cinto em um quarto de hotel em Sydney. Mas segundo sua ex, ele curtia sentir falta de ar durante o sexo e, no dia da sua morte, teria tentado masturbar-se enquanto se sufocava – mas levou a coisa longe demais. Foram encontrados cocaína, álcool, Prozac e outros medicamentos em sua corrente sanguínea.