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16 de dezembro de 2012

Autoestima - o papel da criança boazinha



De vez em quando, ao atender algum(a) cliente, vem a tona o padrão emocional da criança boazinha. Vou descrever como esse padrão é formado, por que ele é formado, e as conseqüências que ele trás. 

Conforme já expliquei em outros artigos, a criança tem uma profunda necessidade de reconhecimento e aprovação dos pais, para sentir que ela tem importância. É a partir desse reconhecimento que a criança vai amadurecendo e aprendendo a se reconhecer e se amar, até que se torna um adulto independente emocionalmente. Isso, é claro, só acontece quando seus pais são pessoas emocionalmente saudáveis que souberam como suprir essa carência da criança. 

A avidez que a criança tem por reconhecimento é enorme, e ela vai desenvolver estratégias para obtê-lo, conforme a reação dos adultos. Uma das maneiras de obter essa aprovação que ela tanto busca, é através do papel da boazinha. 

"Que criança educada! "Que criança obediente, faz tudo que a gente pede!" "Como ela não dá trabalho, não reclama de nada!". Para obter esse tipo de aprovação, algumas crianças começam a passar por cima dos seus verdadeiros desejos e opiniões para se encaixar com as expectativas dos pais. 

Elogios são muito bem vindos na educação das crianças para que elas possam fortalecer a sua autoestima. Entretanto, quando os pais tem uma baixa autoestima, eles podem usar o elogio e a aprovação como um meio de manipular o comportamento da criança, e não como uma forma de demonstrar amor incondicional. Ainda mais quando são pais que tem padrões emocionais de querer controlar a vida e os gostos dos filhos. 

Nesse tipo de família, a criança desde pequena não tem permissão de ter sua própria vontade e opinião, a não ser que essa vontade e opinião coincida com a dos pais. Quando há essa coincidência, ela recebe o reconhecimento e atenção. Porém, quando demonstra querer algo diferente ou pensar de forma divergente dos pais, logo é punida e criticada. A criança se sente culpada, parece que ter sua própria vontade é algo errado, e aprende a ir deixando de lado seus verdadeiros pensamentos e sentimentos. 

Vou dar um exemplo. Um certo dia, a criança prefere ficar em casa do que fazer um determinado programa em familia, ou prefere se divertir com seus amigos. Alguns pais ficam ressentidos com o filho quando ele tem esse tipo de desejo, chegando a criticar, brigar e até obrigar a criança a fazer o que eles querem. Essa criança começa a internalizar que não é certo ter sua vontade própria, que é melhor que ela seja "boazinha" para não causar tristeza, sofrimento ou raiva nos seus pais. Ela passa a sentir responsável pela forma que os pais se sentem. 

No caso de pais emocionalmente equilibrados, eles ficam felizes em ver que o filho está começando a fazer suas escolhas. São pais que vão conversar com a criança, preocupando-se com o que elas realmente sentem e darão a ela a opção de escolher em muitas ocasiões que programa fazer. Ficarão verdadeiramente felizes em ver a felicidade dos filhos, mesmo que eles queiram seguir um caminho diferente. Não haverá qualquer punição em forma de críticas ou falta de reconhecimento pela fato da criança ter uma vontade diferente. Assim a criança cresce livre e não precisa assumir o papel da boazinha para ganhar reconhecimento e aprovação. Ela sente que é amada independente das escolhas que faz. Cresce então com mais confiança em si mesma e torna-se um adulto com boa autoestima. 

Ao passar por cima dos seus próprios desejos e atender aos pais, a criança tem um ganho imediato que é o reconhecimento e aprovação. Entretanto, a cada vez que ela deixa de seguir seu próprio caminho, vai guardando sentimentos de frustração e insatisfação. Inconscientemente vai ficando ressentida consigo mesma e também com seus pais. É comum também se sentir sufocada e presa. 

Algumas famílias não tem um padrão intenso de controle e manipulação, mas mesmo assim, sutilmente influenciam e manipulam a escolha dos filhos. São pais que não vão criticar ou brigar, ou obrigar a criança a fazer determinadas coisas quando elas não querem, mas podem tratá-la com indiferença. Ao passo que, quando esse filho toma a decisão que os pais acham ser a correta, ganha algum tipo de reconhecimento. A criança é também extremamente sensível a indiferença e por isso em boa parte das vezes será levada agir forma que seus pais desejam, passando por cima de seus próprios sentimentos. 

Um exemplo comum que vejo de manipulação dos pais é na influência da escolha da profissão dos filhos. Se o filho escolhe a carreira dos sonhos dos pais, é premiado com elogios, presentes e com o orgulho. Mas quando escolhe seguir um outro caminho, esse filho é criticado, não lhe dão apoio ou é tratado com indiferença. 

A criança que cresce com o padrão da boazinha desenvolve uma necessidade de reconhecimento e atenção que baixam sua autoestima, carregando essas dificuldades pela vida adulta. Conforme já expliquei anteriormente, esse adulto guardará dentro de si mágoas, frustrações e ressentimentos contra si mesmo, por não ter seguido seu caminho. Além disso, sentirá raiva das pessoas pelas quais se sentiu manipulado, gerando afastamento, brigas e problemas de relacionamento. 

Cabe aos pais cuidar da sua própria autoestima para que possam deixar que seus filhos cresçam de forma independente. E, para o adulto que cresceu nessas circunstâncias negativas, cabe agora a ele buscar ajudar para melhorar a sua autoestima. De nada adianta culpar seus pais. Ficar preso na mágoas e ressentimentos dos pais é uma forma infantil de puni-los e de não assumir a responsabilidade pela próprio crescimento e felicidade, o que é bastante comum em casos de autoestima baixa. É também uma maneira inconsciente de perpetuar o próprio sofrimento.


Andre Lima 



15 de dezembro de 2012

Pais e filhos




Expectativas sem fim... A imaginação rola solta. O meu filho vai continuar os meus passos com o império que construí... Marina será uma grande pianista. Jorge, jogador de futebol! Posse. Projeção, ideais, planejamentos. Estratégias de sucesso. Carências preenchidas. 

Planos de vida. A escola certa, amigos escolhidos, direcionamento. Submissão. Chantagens emocionais... Manipulação. Eu dei a vida, criei, paguei os estudos, quero obediência. Como pode fazer isto com os seus pais? Nós o amamos tanto... e é desta forma que retribui? Depressão. Doenças. 

Exigências. Perfeição. Abismo profundo. Choque de temperamentos. Linhas traçadas ao longo do tempo. Vale a pena tanta imposição? Uma sombra nos olhos. Tristezas. Lutas por um destino maior. Gritos silenciosos de socorro. Ter coragem para dizer não. Tomar as rédeas do destino. Acreditar que o poder está dentro de nós... 

Dor, sinônimo de perda. A felicidade é assim? Aceitação. Tolerância. Estimular os talentos naturais. Acreditar nos sonhos que virão. Um amor para sempre. Proteção. Aconchego. Avançar, apesar do medo. Oportunidades de aprender com os erros. Sentindo o vento no rosto. Luz no fim do túnel... 

Um novo amanhã, vindo da luz das sensações, saber que somos únicos na nossa essência. Sentimentos ternos, olhares profundos e a confiança entre pais e filhos crescendo na eternidade. Palavras de apoio, abraços carinhosos, entender de gente... Sorrir intensamente. 

Sem bloqueios. 

Lágrimas de encantamento enchendo a nossa alma, pura e simples, mas tão feliz! Em paz... Escutar sem críticas, fruir o momento presente, trocar energia positiva dando as mãos. Perdoar, para que os laços da comunicação sejam uma constante. Para que a vida seja maravilhosa... 

Conexão divina, intuição aflorada, encontrando a raiz da criatividade. Com muita doçura, expandindo o ser interior, em sintonia com o mundo. Sensações indescritíveis, intensa alegria, foco na missão de vida! Busca do autoconhecimento. Atravessando fronteiras, com fé e tranquilidade, encontrando o caminho do coração.


Mon Liu


30 de outubro de 2012

Como fica o romantismo com a chegada dos filhos?



Embora a biologia explique as tantas alterações e instabilidades que ocorrem no corpo e no humor de uma mulher assim que ela dá à luz um filho, não restam dúvidas de que não é nada fácil, na maioria das vezes, administrar um corpo modificado, mais um bebê exigente, mais um casamento em jogo.
 
 Não que a chegada de um filho seja um evento ruim. Longe disso e muito pelo contrário! Trata-se de uma bênção, uma nova etapa do amor. Mas sejamos honestos: é praticamente como abrir uma nova, grande e importante empresa! Explico! Quando colocamos uma pessoinha tão amada no mundo, queremos que ela dê certo, que ela seja saudável, inteligente, educada, próspera e, claro, feliz, realizada - assim como uma empresa bem sucedida!

Para tanto, não medimos esforços. Na medida do possível, investimos no desenvolvimento dela boa dose de atenção, tempo e dinheiro, todo nosso conhecimento e todas as nossas melhores intenções. Afinal, um filho exige dedicação e comprometimento para crescer de modo satisfatório, principalmente nos primeiros anos de sua vida, ou até ganhar certa autonomia.

Até lá, como fica a relação entre a diretoria? Isto é, como fica a atenção, a paciência, o carinho e o namoro - tão nutritivos e essenciais - entre o papai e a mamãe, entre este homem e esta mulher que, depois de se dedicarem o dia todo para que nada falte ao lindo bebê, encontram-se sozinhos num mesmo quarto?

Sim, podemos imaginar: exaustos, às vezes irritados por não conseguirem dar conta de tudo, ansiosos ao pensarem quanto tempo terão até o próximo choro, até a próxima reivindicação do leitinho da mamãe. Enfim, por vários motivos óbvios, especialmente a mulher tende a se sentir sem o menor clima para romantismos e intimidades mais ousadas.

Começando pela famosa "quarentena", período de 40 dias em que as relações sexuais ficam proibidas para que o corpo da mulher se recupere do parto, passando pelos desencontros do tipo "quando um está dormindo o outro está trabalhando", "quando o outro está disponível o um está ocupado", e assim vai... torna-se realmente complicado encontrar um tempo para retomarem a vida de casal.

Ok, esse cenário é compreensível e aceitável por algum tempo, mas não por muito tempo. Não por tempo suficiente para tornar o seu relacionamento cada dia mais tenso, chato e desestruturado. Certamente, não é isso que vocês querem. Portanto, é hora de se planejar e agir! Amar não é um sentimento abstrato, é um verbo de ação. Pede escolha, decisão e atitude! Algumas sugestões que podem ajudar:

1- Quando sentirem que o bebê já pode passar algumas horas da noite com a babá, a vovó, o titio ou a madrinha - por volta dos três meses talvez - não deixem que a preguiça ou algum sentimento de culpa equivocado impere! Marquem um jantar, um passeio, um cinema, qualquer diversão que inclua só vocês dois! Momento de se olharem, se ouvirem, falarem de seus sentimentos e desejos. Momento de se parabenizarem pelo belo trabalho que têm feito desde que o pequenino chegou.

2- Depois de mais algum tempo, quando o nem tão pequenino assim já puder passar um final de semana longe de vocês, é hora de planejar uma viagem a sós. Pode ser num lugar bem perto, desde que tenham privacidade. Hora de matar as saudades do tempo em que podiam se agarrar, namorar sem medo de fazer barulho, sem medo de ouvir um chorinho ou um "manhêêê" ou "paaaaaaiii". Hora de investir na ousadia, na sedução e na vontade de reconquistar a pessoa amada. Vale a pena. É restaurador!

3- Mantenham a consistência! Ou seja, reservem um tempo só para vocês dois. Que seja uma vez por semana, uma vez a cada quinzena ou uma vez por mês - mais do que isso seria negligenciar uma área muito importante da sua vida - o seu casamento, o relacionamento com quem você compartilha sua vida!

Sei que razões para não tomar essas decisões surgirão muitas: falta de dinheiro, falta de tempo, falta de ânimo e falta de consciência do quanto isso é importante. Porém, posso garantir: aquele ditado sobre o amor ser como uma flor que precisa ser regada para sobreviver é muito sábio e verdadeiro.

Não espere que seu casamento desmorone para somente então se lamentar ou acusar o outro por não ter feito a parte dele. Faça a sua. E faça agora. Afinal, ser mãe e ser pai é mesmo uma delícia, desde que tanto nós quanto eles - os filhos - percebam que por trás desses papéis existe um casal que precisa de tempo, espaço e amor compartilhado com privacidade e intimidade.


Rosana Braga 

17 de julho de 2012

Sexualidade precoce



Os pais sempre buscam conselhos de como educar os filhos por sentirem insegurança na adequação do futuro deles. Quando se trata de temas envolvendo sexualidade essa dificuldade aumenta bastante. Por isso se assustam quando descobrem que os filhos já têm vida sexual ativa, principalmente se aparece uma gravidez. 

Por mais que muitos pais queiram negar, os filhos iniciam cada vez mais precocemente a vida sexual. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que, entre os meninos, 47% dos menores de 15 anos já tiveram a primeira experiência. Isso significa quase metade deles. Já o índice de meninas é de 33%. 

Durante anos os pais foram aconselhados a não protegerem os filhos e sim prepará-los para o mundo. Só que recentemente o mundo nunca teve tão poucos valores humanos definidos, sendo necessário repensar até que ponto a educação deve ser direcionada para manter seres humanos robotizados, sem identidade própria, descartáveis e tão influenciáveis pela mídia que parece ser a “nova escola da vida”... Esse mundo está interessado em seus filhos. E você está? 

Caso você faça parte dos pais que desejam a felicidade dos filhos, não busque modelos e fórmulas apenas na sociedade e, sim, invista para que seus filhos encontrem neles valores adequados à natureza deles, para que construam uma vida compatível a seus sistemas de crenças e valores. Também participe com os seus, pois eles precisam de referências de pais que investem em si para serem melhores pessoas. Se existe algo de bom num momento de tantas mudanças e descrenças, nos antigos modelos que existiam, é a liberdade da escolha de nossos próprios valores conscientes. 

Cabe aos pais definirem os valores deles de forma clara e honesta, para ter a permissão de serem bons educadores. Falo da necessidade de confiança, respeito, capacidade de dialogar e, com amor, conseguir manter a hierarquia de estar à frente dos filhos sempre que necessário nas situações de regras e limites. 

Vivemos numa cultura bastante erotizada e com isso nossos filhos poderão ter uma visão distorcida do sexo, tendo também a internet facilitando o acesso ao que quiserem. Os pais precisam acompanhar as atualizações da tecnologia, senão ficarão alheios à vida dos filhos. 

Tudo isso não é tarefa fácil, principalmente, em se tratando dessa fase que é a adolescência. O apoio familiar nesse momento é importante para fortalecer a memória das escolhas e decisões. A manutenção de um espaço para a relação de confiança entre pais e filhos, e do respeito das escolhas amadurecidas, são sagradas em todas as situações para conseguirmos ser parceiros na evolução da vida, sendo capazes também de seguir a favor de sentimentos de gratidão pela paz e não devedores de um mundo que parece estar com valores humanos à deriva, tão desalinhados... 

Fatima Bittencourt

14 de dezembro de 2011

Coerência de princípios é a base da boa educação



Num mundo de tantas mudanças, pressões, cobranças de resultados, precisamos respeitar nossos princípios. Nossos valores devem ser sólidos e não podem ficar abalados por nenhum dinheiro deste mundo. E os princípios exigem clareza e coerência. As pessoas que têm princípios ambíguos e flexíveis acabam fragilizando sua dignidade.

É muito importante que mãe e pai mostrem seus princípios ao filho. Os pais que constantemente, e na prática, valorizam a honestidade, a lealdade, o respeito ao próximo, o sucesso através do trabalho dão aos filhos a certeza de que vale a pena cultivar essas qualidades.

No que diz respeito a esses valores, os pais devem ser firmes e coerentes. Mostre que a verdade sempre deve prevalecer sobre a mentira, que a justiça deve contrapor-se à mentalidade que prega a vantagem a qualquer preço. Todas as vezes em que os filhos (de qualquer idade) se mostrarem flexíveis quanto aos princípios, os pais devem conversar sobre o tema para demonstrar a necessidade da adesão total a esses princípios.

Por que dizer a verdade e rejeitar a mentira? Porque a pessoa que mente se enfraquece, cria laços com a angústia, com a ansiedade, com a insegurança e se torna vacilante no seu caminho de desenvolvimento humano. Educar com princípios é argumentar para que o filho entenda a razão pela qual precisa abraçar os valores.

Toda conversa entre pais e filhos deve se basear na busca de um sentido para a vida. Você já pensou na força das palavras dos seus pais? Você já percebeu que tem 30, 40 ou 50 anos de idade e até hoje escuta na consciência a voz dos seus pais? Por isso, tenha também consciência de que suas palavras e orientações são decisivas na vida de seus filhos. Eles jamais esquecerão o que você lhes disser.

Às vezes os pais mentem por coisas muito pequenas que, aparentemente, não fazem grande diferença. E essas pequenas mentiras acabam fazendo um grande estrago na vida de uma pessoa. É fundamental percebermos como esses detalhes influenciam a educação dos filhos, mesmo que naquele minuto a mentira parecesse ser a saída mais fácil. Os pais devem ter bem claro que tudo o que dizem e fazem repercutirá para sempre na vida dos filhos.

As pessoas estão buscando a vitória a qualquer custo, e isso inclui passar por cima dos outros. Não podemos abrir mão dos princípios da honestidade e confundir a vitória com o sucesso nem a derrota com o fracasso. Na vida de uma pessoa de sucesso também acontecem derrotas. Na vida de uma pessoa que fracassa há também muitas vitórias. E precisamos entender que uma derrota pode nos ajudar a aprender mais sobre nós mesmos, sobre a vida, e com isso crescer para, no futuro, conquistar uma grande vitória.

Querer uma vitória agora e, para atingi-la, agir de maneira antiética e desonesta é, além disso, totalmente inútil. Chegará o dia em que a verdade prevalecerá e aquela falsa vitória se tornará uma grande derrota.

Quando converso com os atletas que oriento, digo-lhes sempre: "Vamos procurar vencer sempre, mas não de qualquer jeito". Vencer de qualquer jeito causa nas pessoas a percepção de que a vitória não foi delas, mas fruto da trapaça, da enganação. Não foi o atleta que venceu, mas sua falta de honestidade. Conseqüência: será um eterno frustrado.

Uma vitória real e permanente só é possível quando construímos uma vida sobre bases sólidas. Nossos filhos precisam desse exemplo.



Roberto Shinyashiki 

2 de março de 2011

Adoção, ato de amor incondicional



Em uma conversa com uma amiga, estávamos falando sobre o desejo de um dia adotar uma criança. Não que não queiramos ter filhos biológicos, não é isso, mas além de filhos biológicos, temos o desejo em comum de adotar uma criança, preferencialmente de uma etnia que não a caucasiana. Não quero entrar no mérito da questão da etnia. Isso fica a segundo plano.

A questão é que existem muitas crianças literalmente abandonadas em orfanatos e outras instituições. Crianças cujo futuro é incerto. Crianças que podem não ter oportunidades na vida e e serem levadas ao roubo e às drogas por pura influência do meio e, principalmente, pela falta de alguém que lhes dê amor e afeto, alguém que possa lhes ensinar a diferenciar o certo do errado, que possa lhes passar princípios e moral.

Obviamente isso não quer dizer que mesmo com cuidados essas (ou qualquer outra) crianças serão honestas e viverão uma vida correta aos olhos da sociedade. Mas o fato é que sem carinho algum, uma pequena parcela terá outro destino.

Por outro lado, existem tantos casais que a Dona Vida impossibilitou, por uma razão ou outra, de terem filhos biológicos. E essas pessoas, ao menos em sua maioria, são os que mais dão valor à paternidade e fariam o impossível para poder carregar um bebê no colo. É muito comum que essas pessoas tenham traumas e sofram por causa desta impossibilidade. Mas graças a Deus existe um fio de esperança, nem tudo está perdido. E é aí que entra a adoção.

Adotar uma criança significa tirar uma criança da rua, dar-lhe um lar, dar-lhe amor, atenção, e uma oportunidade de ter uma vida digna de um ser humano. Quisera eu que todos pudessem desfrutar das mesmas oportunidades, mas não é assim que funciona. Por motivos que vão além do nosso conhecimento nem todas as pessoas têm a chance, ao menos nessa vida, de viverem plenamente. Ao adotar uma criança, estamos dando uma oportunidade especial para uma pessoinha cujos pais biológicos não puderam (ou não quiseram, talvez) lhe prover as suas necessidades e acharam que seriam melhor cuidados por outras pessoas do que por eles mesmos. E em muitos casos, realmente, é melhor entregar à adoção do que deixar morrer de fome.

Para os pais que adotam esta criança, estão dando a si mesmos a esplêndida experiência de serem pais, de cuidar de seu filho, de vê-lo crescer, ajudá-lo, ensiná-lo. Dizem que não existe prazer maior do ser pai, e eu não duvido nem um pouco disso. E esses pais, que a princípio não poderiam ter filhos têm, então, a chance de realizar o seu sonho e realizar o sonho de olhar para o pequenino e chamar de meu filho!

Um dos impecilhos que mais atrapalham esse processo de adoção é que alguns pais têm o seu orgulho ferido por não poder dar a luz a um filho biológico e pensam em não criar o filho dos outros. Pura bobagem! A pobre criança nada tem a ver com os erros dos pais, não têm culpa de os pais não terem tido a capacidade ou a possibilidade de lhe dar uma vida digna. E aquele que tem amor para dar não escolhe quem amar. Se não pode ser biologicamente seu, que seja afetuosamente seu.

Eu acredito que pai é aquele que cria, não aquele que põe no mundo. Pai é aquele que educa, não aquele que sustenta. Então mesmo não tendo saído do ventre da mulher, o casal poderá, sempre, chamá-lo de filho, não importa o que digam ou o que pensem. E a criança tem o dever de chamá-los de pais, pois é efetivamente isso que eles são.

Aquele que tem amor a dar não deve escolher para quem. Aquele que quer ter um filho e possui condições de dar-lhe uma chance na vida, que o faça. Deixe o orgulho de lado e ame uma criança. As recompensas virão de formas incríveis e inimagináveis.



Fabio Centenaro 

20 de dezembro de 2010

Gravidez acidental não existe


Comecei a pensar sobre o assunto quando uma amiga me disse que sua amiga havia engravidado por acidente. Ela não era nenhuma adolescente: tinha mais de 35 anos. Se ela tivesse começado a vida sexual aos 15 anos, a média entre os brasileiros, isso quer dizer que ela conseguiu evitar uma gravidez com sucesso por 20 anos. Até acontecer o “acidente”. Não é estranho? 

Até existe camisinha que estoura. Mas o acidente costuma acontecer por imperícia de quem usa esse método do que por falha no produto. E, ainda assim, há o recurso da pílula do dia seguinte. Até já houve caso de pílula anticoncepcional de farinha, mas virou processo na Justiça. E, pode haver falhas diversas de prescrição médica, garantindo que alguém não pode engravidar quando, na verdade, pode. Mas isso é mesmo um acidente ou é um erro médico? 

O que quero dizer é que são pouquíssimos os casos de gravidez acidental. E muitos os casos de gravidez indesejada, não-planejada, mas que não foi evitada como deveria. Talvez, se tivesse feito o que vinha fazendo há 20 anos, essa amiga da minha amiga não teria se surpreendido com o resultado do teste de gravidez. Mas, se até os 35 ela nunca tinha usado nenhum método contraceptivo e não tinha engravidado, realmente estava querendo testar as probabilidades e até que se saiu bem! 

Nos Estados Unidos, mais de um terço das mulheres que engravidam não queriam ter um filho, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Até tentei encontrar dados sobre isso aqui no Brasil, mas faltam-nos estatísticas detalhadas sobre planejamento familiar. O mais interessante é que a grande maioria das mulheres lá engravidou porque não usou um método contraceptivo ou o usou de maneira incorreta. 

Uma pesquisa feita pelo CDC e publicada em agosto sugere que 4,5 milhões de americanas com vida sexual ativa não usam anticoncepcional, embora afirmem querer evitar gravidez. Você consegue entender? Eu não! Como alguém pode querer evitar a gravidez e, ao mesmo tempo, não fazer nada sobre isso? Será que é por motivos religiosos? Duvido. Ultimamente até o papa Bento XVI andou falando de camisinha… 

Entre as que usam pílula, muitas esquecem de tomar o remédio (atire a primeira pílula quem nunca esqueceu!), mas não tomam uma segunda precaução. E aquelas que só usam camisinha começam ou terminam a relação sexual sem o preservativo. Assim, nem com reza do papa, né?! 

Aí, os mais de 99% de garantia de um método vão ruindo e cedendo lugar à chance de gravidez que, se não é assim tão grande, sempre existe. Para muitas mulheres, a gravidez não planejada acaba sendo uma alegria. Embora não exatamente esperado, um filho era bem-vindo. Para outras, no entanto, um filho estava realmente fora dos planos. E uma gravidez indesejada é sempre uma situação complexa, não importa a idade da mãe. 

É fato que muitas mulheres não querem tomar pílula; outras não se adaptam ao diafragma; algumas não vão querer usar camisinha; várias não vão se dar bem com as injeções ou implantes hormonais. Mas são tantas as opções que, com auxílio médico adequado, é possível achar uma e usá-la corretamente. 

Da próxima vez que você ouvir “ah, foi um acidente…”, pense: será que foi um acidente mesmo?

Letícia Sorg 

10 de dezembro de 2010

Os efeitos negativos de adiar ter filhos


Certa vez, viajando sozinha, encontrei uma mulher jovem que também viajava só. Começamos a conversar e, papo vai, papo vem, ela me disse que tinha uma filha de 20 anos. Fiquei surpresa. Eu não imaginaria.Ela me contou, então, que tinha engravidado aos 20. Foi um tanto difícil e tudo, mas ela havia construído uma relação ótima com a filha e, aos 40 e poucos, tinha liberdade para viajar, dedicar-se à carreira e curtir o marido.

Fiquei pensando que seria legal chegar aos 40 dessa maneira, quase com uma sensação de dever cumprido, com filhos crescidos, e muita saúde e tempo pela frente para aproveitar. Mas certamente não é o que vai acontecer comigo: chegando aos 30 (tenho 28 anos), não estou vendo filhos num futuro imediato. Supondo que eu tenha um filho aos 35, terei 55 quando ele chegar aos 20, quando ele provavelmente ainda vai depender de mim para cursar uma faculdade. Então, em vez de começar a diminuir o ritmo de trabalho, talvez eu tenha que aumentá-lo para pagar as contas. É uma situação diferente da de meus pais, por exemplo, que se casaram aos 20 e poucos e, aos 30, já eram pais e estavam mais ou menos estabelecidos.

É verdade que a nossa expectativa de vida está aumentando. Mas também é verdade que adiar a decisão de ter filhos tem consequências. Muitas delas negativas. Demorar para casar e ter filhos gera problemas para homens e mulheres. A principal questão é a dificuldade de equilibrar o trabalho e as obrigações domésticas. Até aí, nenhuma novidade. Ao adiar a formação da família, as pessoas podem encavalar duas tarefas pesadas: educar crianças pequenas e lutar por crescimento profissional.

Nos Estados Unidos, a idade média do primeiro casamento é 28 anos para homens e 26 para mulheres. Por isso, é provável que o primeiro filho chegue bem no momento mais decisivo da carreira, em que as exigências são maiores.

O efeito disso é a falta de tempo e, claro, o estresse: 44% das mães que trabalham e têm um parceiro que trabalha dizem que ambos passam pouco tempo com os filhos, 73% dizem que têm pouco tempo com o parceiro e 74% afirmam que têm pouco tempo para si mesmas. Muitas mulheres abrem mão de tempo de lazer e sono para conseguir dar conta de tudo que têm que fazer. Entre os homens, 58% dizem que passam pouco tempo com os filhos, 62% afirmam que têm pouco tempo com a parceira e 58% têm pouco tempo para si próprios.

Nos casos em que a paternidade é muito adiada, acima dos 50 anos, o estudo alerta para a possibilidade de um dos pais ter problemas de saúde e precisar de cuidados especiais antes de os filhos estarem estabelecidos.

Nem sempre a idade de ter filhos é algo que a gente consegue decidir – tem a gravidez não - planejada, tem o parceiro certo que não aparece, entre outras coisas –, mas, hoje, me parece muito mais atraente e menos amalucada a ideia de ter um filho aos 20. Talvez porque eu não tenha mais 20. Ou será que é melhor mesmo ter filho mais cedo?

Letícia Sorg

28 de novembro de 2010

Como proteger nossos filhos



A relação familiar está cada vez mais degradada. Pais, filhos, maridos e esposas estão cada vez mais distantes. Ninguém vive mais sem internet, celular, TV por assinatura e todos os demais meios modernos de comunicação. As pessoas hoje ignoram o método mais eficiente de contato: o olho no olho, as expressões, gestos e demonstrações de sentimento e afetividade.

Atualmente, não é raro ver colegas de trabalho em uma mesma mesa se comunicando pelo messenger. Da mesma forma, pais, filhos, maridos e esposas preferem, no pouco tempo de convívio familiar, estar conectados a telefones e computadores. Estão mais acostumados a assistir programas pouco educativos do que ao convívio afetivo com a família, a acompanhar a vida de seus filhos, a ensinar, a trocar experiências, a entender os filhos e a encaminhá-los na vida. Não há formula perfeita, método ou meio infalível de proteger uma criança, mas há diversas formas de acompanhá-la.

Está mais do que visto que as crianças precisam de referências, limites, ensinamentos, congratulações e castigos. A permissividade e a falta de responsabilidade dos pais em relação à criação dos filhos produz uma geração em que vemos jovens de excelentes condições financeiras e sociais se entregando ao tráfico, às drogas, praticando atos de vandalismo e crimes. Nessas horas os pais interferem, porém não para educá-los e conscientizá-los da importância da responsabilidade, mas na tentativa de corromper as autoridades para que seus filhos não sejam punidos e seu fracasso na educação não seja exposto.

Eu converso com minha esposa e temos a mesma convicção de que educar não é uma tarefa fácil. Não bastam 10 ou 15 anos para formar completamente uma pessoa segura e responsável. Entretanto, no momento que nos dispusemos a ter filhos, sabíamos de nossa responsabilidade como pais perante a sociedade e, principalmente, sobre a vida deles. Portanto, para proteger seus filhos de qualquer pessoa que possa lhes fazer mal, basta participar de suas vidas.

Participe das reuniões do colégio, escute seu filho, apoie sempre que possível, seja duro quando necessário, mas acima de tudo, seja sempre justo. Deixe que seu filho saiba exatamente quais são os seus valores, seja transparente, mostre a ele como funciona a sociedade em que vivemos e qual a nossa importância nela, o que podemos fazer para melhorá-la e quais são exatamente nossas obrigações. Além disso, não apoie ou incentive de forma alguma o crime, não deixe de cumprir suas obrigações de cidadão ou cometa algum ato ilícito na frente da criança. Vá com seu filho ao cinema, em vez de aparecer em casa com dezenas de DVDs pirata e jogos eletrônicos.

Claro que é importante dar todos os direitos do mundo a nossos filhos - mas isso só pode acontecer se eles também cumprirem suas obrigações. Os pais precisam entender que é fundamental ensinar o respeito às leis e ao próximo - então, pegar o carro antes de ter sua habilitação de motorista, nem pensar.

Mesmo assim, acredito que uma boa educação, a confiança no relacionamento com os pais, fará com que a própria criança, sem medo, conte a seus responsáveis o que se passa em sua vida. Resumindo, a confiança, o relacionamento, os exemplos, os valores e a credibilidade que seus filhos têm em você e na sua família são a forma mais eficiente e eficaz de protegê-los dos males do mundo.

Alex de Britto

4 de novembro de 2010

O dilema da mãe trabalhadora





Imaginemos uma trabalhadora que, após passar pelos obstáculos naturais do início da carreira, chega a um cargo de responsabilidade em uma empresa. O futuro na profissão parece sorrir para ela, mas ela também está apaixonada pelo maridão e mal pode esperar pela vinda do primeiro filho.

Nove meses depois, nossa trabalhadora está em casa com seu bebê recém-nascido. Sua empresa adotou a licença maternidade de seis meses, que passou a vigorar em janeiro, em troca de benefícios fiscais. Esses seis meses de convívio intenso com a mãe provavelmente vão beneficiar o desenvolvimento e a saúde da criança. A licença de 180 dias é considerada uma vitória para as mulheres trabalhadoras. Mas pode ser um tropeço na ascensão profissional de nossa jovem batalhadora.

É o que pensa, muito desgostosamente, Luciana Moya, especialista nas áreas trabalhista e previdenciária da consultoria Hirashima e Associados. “Infelizmente, aquelas mulheres que querem ser bem sucedidas em setores concorridos e de alta performance não podem tirar seis meses de licença maternidade”, afirma. “Ela deve voltar o mais rapidamente possível”.

Luciana fala com experiência pessoal. “Tive duas licenças maternidade de três meses”, diz. Antes de se tornar sócia de uma empresa, ela fez carreira na Arthur Andersen, gigante mundial do ramo de auditoria, que fechou as portas em 2002. Luciana lamenta não ter tido mais tempo com os filhos, mas acredita que a dinâmica corporativa é implacável com quem se distancia do trabalho por muito tempo.

Ela não crê que a mulher vá sofrer represálias por tirar seis meses de licença, mas acha que a longa ausência faz com que ela “perca a sintonia” com o chefe e colegas — o prejuízo viria “nas entrelinhas”. Com o afastamento prolongado, a mulher ficaria distante dos novos projetos e iria para o fim da fila de promoções, transferências e treinamentos.

É uma dilema que deve torturar as mulheres que enfrentam pesadas disputas por visibilidade nas empresas. Todas querem o melhor para o filho — mas dar o melhor para o bebê significa passar mais algumas semanas com ele nessa fase inicial da vida ou aumentar as chances de ele ter uma mãe com salário maior no futuro? Nós, homens (como pais, companheiros, amigos, chefes, colegas), temos a obrigação de contribuir ao máximo para que ela tome a melhor e mais tranquila decisão nesse momento. Só tenho a impressão que esse nosso ”máximo” será sempre pouco, diante do tamanho do dilema.

Diante das opções meses a mais com a criança ou escalada mais rápida na carreira (sua ou da sua companheira), o que você faria? O que você já fez?


Thiago Cid

12 de outubro de 2010

Estresse infantil



Ainda muito longe do vestibular ou de iniciar a carreira profissional, cada vez mais crianças têm de lidar com o estresse, há pouco tempo considerado “doença de adulto”. Uma pesquisa da ISMA, Associação Internacional para Prevenção e Tratamento de Estresse, apontou suas três principais causas entre crianças de 7 a 12 anos de idade.

A surpresa é que o bullying, a prática de violência, humilhação e intimidação física ou psicológica entre crianças, não é a primeira causa. As críticas e desaprovações dos próprios pais – citadas por 63% das crianças consultadas – incomodam mais que bullying.

Em segundo, o excesso de tarefas na rotina é apontado por 56%. O bullying aparece em terceiro, com 41% das crianças reclamando do peer pressure (pressão dos colegas). “O bullying não é generalizado”, explica Ana Maria Rossi, psicóloga e diretora da unidade brasileira da ISMA. A pesquisa foi feita com 220 crianças do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Um dos motivos apontados pela especialista é o ambiente de brigas na família, que torna as crianças pouco comunicativas. Com o tempo, além da falta de expressão, chegam as dores de cabeça, de barriga e pouco ânimo para sair.

“Os pais começam a ficar preocupados, mas ao levar os filhos aos pediatras, muitas vezes nenhuma causa clínica para o mal-estar é revelada”, afirma Ana Maria. Após encaminhar a psicólogos, há casos que chegam a necessitar de medicação, para depressão ou para ansiedade.

Uma das maneiras mais comuns de a criança mostrar que apresenta um problema de estresse é o que os psicólogos chamam de benefício secundário. Ao ser hostilizada no ambiente escolar por conta das roupas que veste ou de sua aparência, a criança passa a se queixar de dores, por vezes inexistentes. A reclamação faz com que elas possam escapar, por alguns dias, da escola.

“Alegar a dor faz com que elas evitem o lugar que as deixa tristes, conseguindo o que querem”, explica a psicóloga. A criança é muito intuitiva, sabe como usar sua sensibilidade para manipular o adulto.

Um dos usos do benefício secundário é o de fugir do acúmulo de atividades, muitas delas impostas pelos pais. “É importante ver o que a criança gosta. Se ela não é esportiva, para que colocá-la, ao mesmo tempo, em aula de natação, basquete e futebol?”, afirma Ana Maria. Isso sobrecarrega os pequenos, muitas vezes eles odeiam a atividade, só não revelam isso verbalmente.

Para Ana Paula Rossi, o mais importante para os pais é saber escutar os filhos. “Devem monitorar as notas dos filhos, estar por perto, deixar de inventar atividades para a criança simplesmente por medo de conviver com ela”, diz a especialista. Quanto às mentiras, o melhor é tentar entender o porquê de o garoto usar o mecanismo de defesa, em vez de censurá-lo por isso.

Os pais não devem ter medo de educar os filhos, cedendo às táticas de crianças muito mimadas para obter o que querem. Para evitar um escândalo, muitas vezes os pais desviam da função de orientar, e isso é um desserviço à criança.

“Nos Estados Unidos, essa é uma questão complicada, já vi muitos pais sendo censurados pelas pessoas ao tentarem passar autoridade às crianças em público”, diz Ana Maria. De vez em quando, é muito mais fácil para o pai simplesmente dizer sim ao mimo.

O outro extremo também não é o mais indicado. O pai não deve ser irredutível quanto ao que o filho deve ou não fazer, a escolha precisa ser da criança.

Ana Maria Rossi

A criança e a linguagem do amor



Ao ler algum livro sobre educação infantil, busco um ou outro ensinamento que, acredito, será o mais útil de todos, se eu pudesse escolher do que gostaria de lembrar. Costuma funcionar: a coisa gruda na cabeça.

Um desses ensinamentos que grudaram na minha cabeça recomenda escolher as batalhas que valem a pena. Taí algo muito útil para a gente não entrar naquela de dizer que é muito cansativo convencer uma criança de quase 5 anos de idade a fazer tudo da maneira como você acha que é o melhor para ela, da hora de levantar até dormir. Isso partindo do pressuposto que nós, pais, temos essa mania de achar que sabemos o que é melhor para elas. Tipo a roupa que vai usar. Temos que escolher o tempo todo? Acho que não. E procuro não fazer disso um cavalo de batalha, desde que ela não vista um gorro e uma saída de praia por cima da meia-calça para ir jantar com a gente num restaurante.

Claro que estou brincando. Não sou tão mandona assim. Ela tentou fazer isso ontem e mudou de idéia por conta própria. Depois de ouvir nossa opinião, bateu o bom senso na criança. Crianças também têm bom senso. Mas eu falava das batalhas corretas.

Até que outro dia, numa conversa com uma amiga, falávamos sobre nossas tentativas, às vezes erradas, às vezes certas, de participar de forma autêntica da vida das crianças, com brincadeiras, fantasias e demonstrando nossa empatia.

Quantas vezes você já disse ou viu outro dizer assim para uma criança: pare de bobagem, vai chorar por causa disso? A resposta é “vai chorar sim”. Provavelmente ela vai chorar por causa de algo cuja importância escapa aos nossos olhos treinados para pensar coisas sérias, tomar decisões importantes, lidar com problemas muito mais torturantes. Provavelmente a criança vai chorar porque desmontamos a casinha de lego que ela acredita jamais conseguir reconstruir igual, ou porque jogaram fora aquela colagem maluca de papel picado que era uma armadilha mágica capaz de prender qualquer assombração que entrasse no quarto dela.

Nós, adultos, muitas vezes nos esquecemos que o “importanciômetro” da criança funciona numa freqüência bem diferente da nossa. Não quero dizer com isso que vamos abrir mão do nosso papel de ensiná-las a discernir o certo do errado, o grave do desimportante. Não é isso. Estou falando daquela nossa capacidade de ver o outro sob a perspectiva dele.

Isso tudo calou fundo em mim quando li “A auto-estima do seu filho”, de Dorothy Corkille Briggs. O capítulo entitulado “A segurança da empatia” sugere exatamente isso: que a gente lembre daquela vez em que, depois de desabafar com alguém, ouvimos como resposta um inútil “não fica assim não porque tudo dará certo”. Obrigada pela força, mas não era bem isso que eu esperava ouvir. Não dá vontade de falar mais nada, né? Às vezes queremos ouvir simplesmente algo como “se eu estivesse no seu lugar, me sentiria da mesma maneira, isso dói, isso chateia, mas de repente…”, aí a coisa envereda pela mensagem positiva.

Descartar o sentimento alheio é das piores reações que podemos ter quando o outro busca consolo. Não seria diferente com as crianças. Empatia é ser compreendido pelo nosso ponto de vista. É a verdadeira compreensão, diz a autora. É mais do que mera simpatia. É sobretudo não tentar negar o sentimento do outro.

Em vez de sabotar o escuro com um comentário tipo “bobagem ter medo do escuro porque não tem nada lá”, uma história que resgate a criança que fomos e como superamos o nosso medo da escuridão surtirá mais efeito. Para refrescar minha memória, reli o capítulo do livro que trata do assunto e deixo aqui um trecho que considero muito bom. Usem à vontade.

A empatia é uma prova vigorosa de interesse. Quando você deixa de lado, temporariamente, o seu ponto de vista para estar com seu filho, você demonstra um respeito fundamental por ele, tratando-o como um indivíduo à parte, cujo ponto de vista pessoal tem importância. A empatia diz ‘a maneira pela qual você vê as coisas é importante para mim. Vale o meu tempo e esforço para estar com você em seus sentimentos. Eu realmente quero compreender como você é, porque eu me importo (…)’. A empatia tem importância fundamental para que as linhas de comunicação fiquem abertas. As crianças deixam de falar quando se sentem sempre incompreendidas.
 
Pensando bem, não está aí a base das grandes amizades?
 
 
Isabel Clemente
 

6 de outubro de 2010

A (difícil) lua-de-mel pós-filhos




“Você mentiu para mim! Você disse que eu ia chorar no avião, mas eu chorei no táxi!”. Isso aí foi o desabafo bem-humorado de uma amiga que estava me contando sobre a experiência de ter passado uma semana a sós, com o marido, em viagem, desde que o primeiro filho do casal nasceu. O bebê ia completar um ano quando eles deram uma fugidinha para Nova York. Chique, né? Eu diria, também, necessário.


Não é preciso ser pai e mãe para saber que a vida do casal não pode ser negligenciada depois dos filhos, mas é preciso ser pai e mãe para saber, na prática, o quanto é difícil deixar os pequeninos para trás, por poucos dias que seja.


É difícil por causa da logística. Quem cuidará dele ou deles, se for mais de um? É difícil por causa da preocupação que nos assola. Acredito, sem nenhuma referência científica para enfiar aqui, que pais e mães de crianças pequenas têm mais medo de morrer do que a média dos mortais. Difícil por causa da saudade, do remorso de se achar egoísta, da vontade simplesmente de ficar junto o tempo todo.


Na primeira (e até agora) única vez que fiz isso, chorei no avião. Não era a primeira vez que eu viajava e dormia longe dela (que já ia fazer 3 anos), porque o trabalho já tinha exigido isso de mim, mas era nossa primeira lua-de-mel pós-filhos. Chegando lá, relaxei e tratei de aproveitar. Afinal, não só era minha primeira viagem a sós com ele depois do nascimento da primeira filha. Era também minha estréia em Nova York, e esse tipo de oportunidade não se desperdiça (aqui rolou uma coincidência, ok? Isso não é um post para dizer que, se você quer ficar a sós com seu/sua companheiro/a, você tem que ir para Nova York, ainda que isso seja uma boa ideia).


Momento confissão: boa parte do tempo em Manhattan foi gasto com visitinhas a lojas de brinquedos e roteiros e comentários repletos de referências infantis. “Ela ia gostar tanto de conhecer a Central Station”, disse, num rompante de saudades da pequena, quando estávamos diante do relógio que Mellman, a girafa do desenho animado Madagascar, enfiou na cabeça. “Será que deveríamos também conhecer o zoo para ver se o Alex está lá?”. Momento gozação.


Jantar a dois, sono ininterrupto e a oportunidade de viver intensamente o egoísmo da paixão que nos uniu antes de tudo é das experiências mais revigorantes para um casamento. Quero mais.


Um amigo disse o seguinte: “isso é muito bom, e tem que ser feito. Todo ano a gente foge uns dias”. O casal tem três filhos. Uau, pensei, lembrando da expressão caricata do Russel, o simpático menino-escoteiro de Up, outra animação imperdível do roteiro infantil. De outra amiga, mãe de duas, ouvi a confissão oposta. “Nossa, acho que desde que Maria nasceu, não sabemos o que é ficar a sós”. Maria vai fazer dez anos.


Claro que ninguém se lança nesse tipo de aventura a dois toda hora. É preciso chance, dinheiro e vontade para uma nova lua-de-mel. Mas se você já tem os dois principais ingredientes (chance e vontade), use a imaginação. Para resgatar o clima namoro, vale uma cervejinha a dois depois do expediente para um papo sem interrupção das crianças. Vale também a regra do “agora vocês vão dormir porque mamãe e papai precisam ficar a sós”. Vale também um cineminha com direito a grandes produções. Que tal encarar o marido como o carinha que você quer impressionar num primeiro encontro?


No caso das viagens, tenha certeza de um dado: as crianças sobrevivem. Aliás, costumam ficar melhor do que nós, desde que continuem na rotina delas, bem cuidadas, com pessoas de confiança. A gente tem que saber também pedir. Pedir ajuda, às vezes, é difícil.


Quanto à minha amiga que chorou no táxi, a viagem foi perfeita. O menino esteve bem, não a rejeitou na volta – um temor muito comum que invade o coração da mãe cheia de culpa - e o casamento segue feliz, obrigada.


Você já teve sua lua-de-mel pós-filhos?




Isabel Clemente


5 de outubro de 2010

Opinião de mãe



Durante a infância e a adolescência, me lembro de pedir a opinião da minha mãe todas vezes em que me vestia. Mesmo quando a roupa era um uniforme escolar, perguntava se o moletom não estava “balão demais”, se a calça jeans não aumentava o tamanho do quadril. Invariavelmente, ela respondia que eu estava ótima – na maioria das vezes sem olhar para mim, absorta em seu trabalho.

Mesmo sabendo que a resposta seria sempre a mesma, todos os dias eu a procurava. Hoje, sei que buscava mais sua aprovação do que saber se a roupa me caía bem. Inclusive porque cheguei a ir para a escola com a blusa vestida do avesso, calças furadas, um pé de cada de tênis (sério, muito sério).

Mas, por um lado, tive alguma sorte com essa negligência. Segundo dois livros lançados recentemente nos Estados Unidos e resenhados pela revista americana Newsweek, as mães podem ser grandes responsáveis por desvios na autoimagem de suas filhas. Elas costumam passar mensagens negativas sobre a imagem do corpo das filhas, muitas vezes involuntariamente. Um deles, o You’d be so pretty if... (Você seria tão bonita se…), é autobiográfico.

Escrito pela jornalista Dara Chadwick, ela lembra o dia em que sua mãe colocou o monstro dentro de sua cabeça. Quando ela tinha 20 anos, saiu com a mãe para comprar vestidos. Insatisfeita com a própria imagem no espelho, a mãe disse a filha: “Se você achar que está gorda, é porque está.” Anos depois, a frase continua ecoando na mente da jornalista quando ela entra em um provador de roupas.

O outro livro, My mother, my mirror (Minha mãe, meu espelho), foi escrito pela terapeuta Laura Arens Fuerstein com base em frases fatídicas vociferadas por sua própria mãe e as de pacientes. Nele, ela diz que as meninas procuram se enquadrar na visão que as mães constroem delas. A opinião da mãe é como um espelho.

Em famílias com mais de uma filha, a primeira costuma ser vista como a responsável (meu caso), enquanto a segunda é tida como a popular. E as meninas reproduzem esse comportamento. Dara dá algumas dicas sobre como evitar traumas. Cuidado redobrado com o que se diz na frente das meninas, mesmo quando a crítica é para si mesma. Outro conselho é não deixar de fazer algo como dançar em um casamento porque está se achando gorda. Assim, mãe vai ensinar a filha que só as magras podem se divertir.



Laura Neves

27 de julho de 2010

Pais e filhos



Os pais influenciam a personalidade dos filhos? Sim, mas a influência é imprevisível!

Desde os primeiros estudos de Sigmund Freud, e até antes deles, os pais são tidos como os agentes mais importantes na criação de uma pessoa. São os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização. Com 
essa premissa, Freud foi, ao lado de Darwin, um dos grandes pensadores do século 19 a abalar a idéia de Deus, mostrando que as noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas.

Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade (como a timidez, a vergonha), recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora. Freud vai mais longe: para ele, o jeito com que meninos e meninas lidam com a figura do pai e da mãe é essencial para definir a sexualidade da pessoa.

Mas as ideias do austríaco fomentaram tantas generalizações grosseiras e técnicas furadas de educação que hoje, fora dos círculos de psicanalistas, estão cada vez mais desacreditadas e o pai da psicanálise é considerado mais um filósofo que propriamente um cientista.

O que não quer dizer que ele deva ser descartado. Até o ponto que a genética permite, um bebê recém-nascido é como um molde de argila flexível. O que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor a maneira como agirá no futuro. Ao nascer, vai demorar meses até conceber ideias básicas, como a de ser distinto das coisas ao redor. Aos poucos, porém, vai se dar conta e que consegue mover algumas dessas coisas seus braços e pernas e que outros seres fazem o mesmo. Assim, a partir do outro, o bebê começa a ter a noção de eu, de que é um indivíduo.

Conforme interage com os adultos, a criança se molda ao mundo em que nasceu. Se os adultos ao redor forem lobos ou cavalos, passará a vida toda uivando ou relinchando e bebendo água com a língua, como aconteceu como o Selvagem de Aveyron, garoto encontrado na França em 1799 que viveu a infância isolado na floresta e por volta dos 12 anos trotava, farejando e se alimentado de raízes. Ou então as indianas Kamala e Amala, dos anos 20. Acolhidas por lobos quando recém-nascidas, elas andavam de quatro, tinham horror à luz e passavam a noite uivando.

Entre lobos ou humanos, a criança aprende o que pode ou não fazer. Percebe que, ao chorar mais alto, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe e ganha uma bela bronca. Também começa a diferenciar sentimentos: o que achava ser dor, começa a receber nomes diferentes como fome, ciúme, medo.