5 de agosto de 2010

Tudo sob controle?




Foi preciso perder uma pessoa muito querida, no ano passado, para descobrir o que eu custei a entender: nem tudo depende de mim.

No auge do medo da perda, é claro que a gente dobra a disposição para fazer tudo que parece estar ao alcance. Telefona para o médico toda hora, procura especialistas, pesquisa terapias alternativas, pede ajuda aos parentes, reza para todos os santos, troca informações em redes sociais... Mas acontece de chegar o momento em que nada mais resolve. O momento da temida e dura entrega, da aceitação de que o poder já não está conosco – se é que esteve algum dia.

De lá para cá, tenho estado mais atenta ao que eu não posso mudar. Percebi que minha irritabilidade, antes constante, se devia em grande parte à mania de querer manter tudo sob controle. Sob o meu controle. Eu achava que era assim que eu tinha de agir: antecipando todos os problemas que tinham chance de acontecer, me precavendo, criando regras para tudo funcionar. E o mais grave é que eu acreditava que antes de tudo tinha de controlar a mim mesma. Vivia como um soldado obediente ao general, mas ambos eram eu. Como quase nada saía como previsto, estava sempre me irritando com os resultados imperfeitos. Chato e desnecessário, hoje sei.

Decidi que muita coisa não está e não deve estar sob as minhas ordens. Relaxei. Passei a saber que não preciso ter tempo para fazer tanta coisa, já que o dia tem 24 horas e não existe mesmo tempo para todas as coisas que eu costumava achar que tinha de fazer. Desconfio que é mais importante dar-me menos coisas para fazer – para ter mais o que fazer com as coisas que já tenho.

Era comum eu partir para a briga antes mesmo de o conflito surgir: eu o antecipava. Achava que brigando conseguiria o que me era de direito. Fracassei. Hoje estou experimentando aceitar algumas derrotas, depois entender melhor o adversário para então mudar as estratégias de defesa e ataque. Já sei que não vou ganhar sempre, e já não me maltrato tanto por isso.

Se sei que não vou ganhar, poupo energia e evito brigar à toa. Exercito a paciência. Convenço-me de que, desta vez, o resultado não depende de mim. E reservo disposição para o que só eu posso fazer. E é aí que está o ganho no que parece ser uma perda: poder fazer o que a gente realmente deve, porque não perdeu tempo com o que não precisava.

Sabe aquela propaganda que mostrava várias coisas que “não têm preço”, e que para todas as outras você tinha o cartão de crédito tal? Pego emprestado o argumento para expor o meu. Convencer a loja de móveis planejados a entregar a mercadoria no prazo prometido? Não depende de mim. Acordar muito-cedo-e-sem-dor-de-cabeça na sexta-feira para fazer exercícios tendo trabalhado muito e dormido pouco a semana toda? Não depende de mim. Para todas as coisas que dependem de mim, posso e devo usar toda a minha disposição, a minha disciplina e minha vontade de me aperfeiçoar.

Uma delas é, em parte, minha saúde. Há aspectos da minha saúde que sou eu que controlo, e outros que talvez um dia eu descubra que fogem completamente ao meu poder, como aconteceu com aquela pessoa que foi embora. Eu posso controlar minha alimentação, então me dedico a fazer compras cuidadosas toda semana para ter comida saudável e gostosa em casa sempre. Posso controlar minha postura e a minha musculatura praticando os exercícios certos regularmente. Também posso controlar o meu descanso, dosando minhas atividades com minhas horas de sono, então procuro equilibrar minha agenda para não exagerar nem de um lado nem de outro.

Eu acredito, hoje, que o estresse vem antes da confusão que fazemos do que depende e do que não depende de nós. Gastamos tubos de energia nos dedicando ao que não podemos controlar, e deixamos de lado coisas que só funcionam se assumirmos a responsabilidade sobre elas. Eu convido você a refletir sobre as responsabilidades que anda assumindo e o peso que anda carregando nas costas. Esse peso todo lhe pertence, ou está na hora de se livrar de algumas tralhas? Procure descobrir o que depende só de você, e assuma a solução. Meu palpite: será um alívio.


Francine Lima

Um comentário:

Sônia Silvino disse...

Uau!!! Bem nos meus dedinhos, amiga! rsrsrs
Sou estressadíssima! Ainda não consegui mudar de nível, mas tenho muita esperança. rs
Amei a tua visita!
Bjkas, muitas!