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5 de setembro de 2011

O ódio e seus filhotes




Qualquer sentimento, seja de amor, inveja, ciúme, medo, ódio ou ternura, não é controlável do jeito que supomos ou desejamos. Eu quero dizer que situações, que contextos de vida inevitavelmente podem nos atingir: atiçam nossas vísceras, mecanismos de neurotransmissão entram em ação e o corpo fica diferente, pensamentos e imagens são evocados. Há uma pegadinha nesta minha argumentação e preciso salientar que estou, ao menos por enquanto, estritamente me referindo ao domínio do sentir, que abrange as emoções e os pensamentos correlatos a elas.

No trânsito, por exemplo, quando uma moto corta nossa frente de modo imprevisto e perigoso, sentimos medo, susto, irritação e/ou raiva. Parte dessas reações é fruto da história de evolução da espécie, nosso corpo fica naturalmente agitado, em prontidão para se defender de um ataque, de tocaia contra o que nos ameaça, seja um tigre (no caso do homem pré-histórico) ou um veículo mal dirigido, na contemporaneidade.

E daí? De que vale saber dessas coisas? A questão é que há pessoas que ficam num estado alterado por muito mais tempo, ou numa intensidade absolutamente desproporcional à ameaça representada pelo motociclista imprudente. Alguns saem em perseguição, outros disparam uma arma de fogo em direção à moto, a gente fica sem saber quem teve ou deixou de ter razão num caso desses. Imprudência no trânsito resultando em violência urbana, esse seria o resumo desta historinha.

Há também o caso do motorista que não reage explicitamente ao deslize do motociclista, mas cuja pressão arterial sobe naquele exato momento ou que chega ao trabalho espumando de raiva e descarregando a irritação no office-boy, que de nada teve culpa.

Pois é, a agressividade de um sujeito ao pilotar a moto deflagraria a agressividade ou o adoecer de outro sujeito, o qual pode se tornar agressivo com terceiros. OK, tudo aqui é de faz-de-conta, mas eu garanto que tramas similares são plausíveis no mundo real, fora das novelas das oito. Agressividade gerou raiva, que gerou mal-estar e mais agressividade.

Lá no começo eu disse que não dá para controlar o que se sente. Então um apressadinho concluiria que estamos fritos e nada há para se fazer. Nada disso. Podemos, na verdade, exercer algum controle pessoal e de uns sobre os outros, mas em termos do que fazemos, e não em termos do que sentimos.

Que escolha eu faço quando piloto como búfalo selvagem? Quem sou eu, que resolve conflitos com balas de revólver? Que desconexão existe entre o que eu faço e valores que supostamente eu afirmaria defender, como a compaixão, prudência, amizade, etc.?

É possível planejar estratégias sociais para promoção de comportamentos de paz e de bem-estar. No meu artigo eu poderia falar do papel do poder público, dos responsáveis pela lei e por sua real implantação. Poderia, outrossim, falar de fé, de religiões e de amor ao próximo. Prefiro outro caminho. Podemos aprender a aceitar o que sentimos (raiva intensa, por exemplo) sem precisarmos reagir aos sentimentos que forem pouco benéficos a nós e aos outros.

Você sabia que praticantes regulares de yoga e de meditação costumam ter reações físicas e emocionais menos exaltadas frente ao mundo? Essas pessoas aprendem, através de um treinamento bem orientado, a aceitar seus sentimentos, mas a permanecerem em contato com a dimensão construtiva do mundo, seus organismos são mais compassados e suas emoções são compassivas. Aprendem a julgar menos (a si mesmos e aos outros) e a se acalmarem mais, mantendo o foco nos valores mais relevantes, relacionados ao bem-estar individual e coletivo.

Procure informações a respeito de práticas como meditação e yoga, aceite suas emoções, e eduque seus atos amorosamente. Este é um bom começo para uma sociedade melhor, e trata-se de um caminho que só depende de você.



Regina Wielenska 



5 de agosto de 2011

O gramado mais verde



Um dito popular faz menção ao fato do gramado do vizinho sempre parecer mais verde que o nosso. Curioso é imaginar que, de modo recíproco, o dono do tal jardim talvez considere nosso gramado melhor do que o dele. O mundo teria mais harmonia se a inveja existisse apenas com relação a questões paisagísticas. E o caldo engrossa pelo fato de que maridos, celulares, carros, viagens, filhos, empregos, abdomens, cargos, TVs e uma infinidade de outras posses, materiais ou abstratas, são potencialmente capazes de produzir desconforto intenso em quem identifica que o outro tem, faz, conhece ou usufrui exatamente daquilo ao qual não tem acesso.

O dilema na inveja é que no mundo sempre haverá criatura em condição melhor do que a nossa. Tudo é questão de pinçar um aspecto do eu e, automaticamente, sem consciência do que se faz, sair à caça de pessoas que nos sirvam de comparação; é um jogo infindo e perverso. Esse padrão destrutivo de funcionamento geralmente é aprendido cedo, no seio da família ou entre os amigos da adolescência. Em alguns casos, são pais que dão mostras de patológica competitividade, extremamente preocupados com o sucesso alheio, que anseiam por resultados e nunca saboreiam as vitórias pessoais ou dos filhos porque sempre haverá alguém um passo além deles. Os filhos não são valorizados pelo que sabem, sofrem pressão constante para alcançarem outros patamares.

Que saída existe para quem deseja transformar esse padrão comportamental? O primeiro passo é reconhecer em si sentimentos de inveja e seus assemelhados. Após dar-se conta da inutilidade da competição e de comparações desmedidas, pode-se cultivar um projeto pessoal no qual parta do princípio de que cada um é/sabe/tem exatamente o que, até aquele momento, teve condição. Não adianta impor para si parâmetros que cabem a terceiros. Somos frutos de uma história de aprendizagem iniciada por ocasião do parto, e que se entrecruza com predisposições biológicas e fatores sócioculturais, que afetam a coletividade. Do mesmo modo que aprendemos a sentir inveja, podemos aprender a deixar que a ocorrência desse sentimento seja apenas isso, um fenômeno privado a respeito do qual nada precisa ser feito.

Na verdade, recomenda-se fazer algo mais profundo. Reveja seus valores: que tipo de vida faz mais sentido, quais seriam as metas realistas, ajustadas ao seu perfil, e que trouxessem qualidade ao viver, sem afastar de si pessoas com as quais poderia ser bom conviver harmonicamente e com intimidade, em clima de confiança recíproca? Você vai sentir inveja e “deixar prá lá”. Suas ações vão caminhar na direção do que lhe faz bem, afinal somos dotados da capacidade de sentir uma coisa A e agir na direção B, oposta a A, isto vale nas ocasiões em que A não nos serve mais e B parece fazer sentido.

Lembro de histórias de gente muito pobre, como o faxineiro de um aeroporto, que encontrou uma mala cheia de dinheiro e a entregou às autoridades. Quanta coisa poderia ser feita com essa dinheirama? Tratamento dentário, TV de LCD, pagar aluguel atrasado, comer iguarias de preço proibitivo... A pessoa escolhe devolver a grana a quem de direito, unicamente pelo fato de sua consciência lhe dizer que “não é justo ficar com o que é dos outros”, mesmo participando de um contexto sóciocultural que lhe dirá “não seja mané, achado não é roubado”.

A inveja destrutiva pode ser combatida se nos ancorarmos, por meio de ações, a valores maiores, que definam o rumo de uma vida da qual naturalmente possamos nos orgulhar, dispensando comparações inúteis e escravizantes. Agir de modo compatível com esses valores automaticamente destituirá o poder motivador inerente ao sentimento de inveja. Então, abandoná-lo à míngua é o jeito. 


Regina Wielenska


Led Zeppelin - Stairway to Heaven