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7 de fevereiro de 2012

A função da família




Hoje em dia vivemos a família, de modo geral, como uma das instituições socioculturais que tem por objetivo a manutenção de determinadas regras ou leis que permitam, a uma comunidade mais ampla, conviver em harmonia. Existe também a intenção de proteger as crianças, dando-lhes ambiente saudável e educação pertinente para que possam tornar-se adultos responsáveis nos âmbitos individual e comunitário. 

Algumas pessoas têm me perguntado se a família enquanto instituição está em fase de deterioração. Outras pessoas têm questionado a validez da família tal como a temos conhecido até hoje. 

As experiências que observo são as mais diversas, no entanto existe um lugar comum: a necessidade de ter sido reconhecido e amado pelos pais, assim como a necessidade de reconhecer e amar os próprios filhos (que nem sempre é percebida conscientemente, assim como tão pouco são percebidas as consequências das frustrações vividas). 

A história demonstra que passamos por várias formas de viver a família, desde as comunidades primitivas em que não havia uma função determinada ou específica para os adultos com relação aos filhos. Dividiam-se as funções e responsabilidades dentro da comunidade de acordo com as necessidades gerais e as capacidades individuais. No século passado houve tentativas de vida comunitária com base principalmente no movimento hippie. Em Israel implantaram-se os kibutz como uma maneira de dividir tarefas e responsabilidades, permitindo às crianças experienciarem várias influências além dos pais. 

Atualmente, vivemos uma situação muito crítica quanto aos diversos problemas que estão se agravando com velocidade assustadora: injustiça social, aumento progressivo de população, sistema financeiro mundial decadente, núcleos familiares desprotegidos e sem condições de dar às crianças o mínimo de sobrevivência e educação na maior parte do planeta. 

A família, entendendo como tal pais e filhos, ainda é a célula menor da qual emerge o futuro enquanto nova geração. Ela começa a ser constituída por dois adultos que decidem unir suas vidas para, em princípio, construir algo que seja melhor do que viver individualmente. Esta união requer consciência, sabedoria, compreensão e cuidados mútuos. É uma grande escola com potencial imenso de aprendizado e crescimento. 

Neste núcleo existe a possibilidade de transformar falhas, deficiências ou baixos níveis de consciência individuais, como também há a descoberta de que a união faz a força através de colaboração e construção de formas de viver mais produtivas e criativas, podendo assim gerar um ambiente muito mais saudável e harmônico para os filhos que serão recebidos neste núcleo familiar. 

Atualmente tem sido bastante frequente famílias constituídas a partir de apenas um adulto com crianças, assim como casais com filhos de uniões anteriores, o que implica situações mais complexas, requerendo maior investimento individual, tanto na relação entre os adultos, como também na relação com as crianças. 

Concluindo, da família depende a manutenção da saúde emocional e a evolução espiritual dos seus membros. É também fundamental o mínimo de apoio com relação à sobrevivência para os mais carentes, além de orientações específicas mais amplas dirigidas à comunidade como um todo, para que a função da família possa ser exercida e a evolução de seus membros ocorra constantemente, gerando novos seres que ocupem o lugar dos adultos de amanhã com maior capacidade, consciência das prioridades e maior envolvimento amoroso dentro da família e na comunidade. 

É sem dúvida um magnífico estímulo o bem querer que existe entre as pessoas que constituem uma família, para encontrar desde aí o amor em toda sua amplitude, seja no dar como no receber. 



Suzana Stroke





8 de novembro de 2011

Culpas


 

Podemos separar este tema em dois âmbitos: o que está diretamente ligado ao caráter ou personalidade, quando a culpa faz parte dos padrões de conduta consequentes de um núcleo fundamental. E um outro que está mais conectado aos erros que causaram dano a si mesmo e/ou a outros.

No primeiro caso, a culpa é utilizada como desculpa inconsciente para manter uma paralisação na ação. Ou melhor, é um padrão repetitivo no qual a pessoa se mantém dentro de um ciclo vicioso, na maioria das vezes sem causa definida, e que ocupa seu estado psicofísico, causando inclusive doenças.

São pessoas que se sentem culpadas por qualquer coisa que possa parecer equivocada. Funcionam como uma esponja que traz para si a razão ou causa de situações que ocorrem no dia-a-dia, desde pequenas coisas como, por exemplo, um filho que vai mal na escola, até coisas mais abrangentes, como a casa constantemente em desordem.

A avalanche de “culpas” faz parte do repertório mental, seja de forma implícita ou explícita, e restringe de maneira surpreendente não só a capacidade evolutiva como também a expressividade nas emoções, sem falar na paralisação da capacidade ativa.

Uma pessoa desse tipo de personalidade sente como se o mundo inteiro a estivesse constantemente acusando, coleciona dificuldades e problemas e esvazia sua tensão interna colocando-se numa posição de vítima incompreendida, esperando que outros reconheçam a carga pesada que leva e, assim, não se responsabilizando pela própria vida.

É muito comum se ouvir a palavra “culpa” de forma generalizada, como se fosse algo que faz parte da natureza humana, e com isso não há um questionamento dos fatos e das causas, com o objetivo de buscar soluções e renovações.

No caso das culpas geradas por atos que verdadeiramente causaram danos a si mesmo ou a outros, pode-se ver que as mesmas geralmente interferem diretamente na autoestima, principalmente se são enterradas no esquecimento ou substituídas por autoengano, visando uma saída “honrosa” que consome grande parte da energia vital, assim como mantém a consciência obscurecida e autoimagens falsas projetadas no exterior que exigem constantemente justificativas para manter o “segredo” considerado imperdoável.

Quando a pessoa entra em um caminho de autoconhecimento, é possível reconhecer a culpa como um hábito repetitivo e um traço da personalidade que pode ser transformado pela atenção e contenção conscientes desse mesmo hábito.

Nos casos das culpas instaladas no psiquismo e que são provenientes de danos reais, durante o processo de autoconhecimento, a pessoa poderá eliminar de seu sistema esses obstáculos ao seu crescimento através do reconhecimento honesto acompanhado da possibilidade de perdoar-se e pedir perdão a quem seja necessário.

Esse reconhecimento surge a partir da humildade e sinceridade vivenciadas necessariamente com uma testemunha que, por sua vez, é uma pessoa que conquistou a confiança daquele que vivia a culpa de forma tão pesada. Podemos compreender esse peso com base em um pensamento de fundo (em geral obsessivo) de que é impossível ser perdoado, por si mesmo e, muito menos, pelo mundo.

A experiência do perdão é muito importante como meio para recomeçar desde um lugar limpo e saudável. Para poder chegar a uma experiência completa com o perdão é necessária uma postura aberta e confiante, vivenciada em companhia. Assim é possível uma expressão profunda, eliminando a ferida que se mantinha apodrecida enquanto a limpeza e cicatrização não ocorram definitivamente.



Suzana Stroke





23 de outubro de 2011

Sexualidade



Este é um tema central na vida de todos, estejamos ou não vivendo a dois. Além disso, também faz parte do nosso cotidiano o fato de que a sexualidade continua sendo tabu em nossa cultura. Justamente por isso temos ainda muitas dificuldades em viver natural e integralmente a nossa sexualidade.

Houve mudanças muito significativas desde os meados do século passado em que vários paradigmas foram sacudidos e as posições do homem e da mulher passaram não só a ser questionadas, como também reavaliadas e modificadas em um curto espaço de tempo e de forma contundente. A mulher saiu da sombra do homem e passou a ocupar um lugar por si mesma, seja nos âmbitos social, profissional e político, além de mais obviamente no âmbito familiar.

Estamos vivendo explicitamente desencontros muito frequentes em que a mulher tem exigido do homem atitudes e posicionamentos aos quais ele não foi preparado para responder. Assim, é evidente o desconcerto, a perplexidade e o susto que se percebe no homem, em geral por não poder compreender o que ocorre, tentando satisfazer à mulher sem realmente saber por onde começar, e ainda se sentindo muito arraigado aos hábitos que foram vigentes durante muitos séculos com relação ao que definia o ser masculino e o feminino.

Existe ainda muita inibição e repressão com respeito à expressão da sexualidade. É muito comum ainda viver a sexualidade em torno à experiência genital unicamente, sobretudo em torno à perseguição do orgasmo como meta e confirmação da satisfação, sendo a sexualidade definida como “satisfatória e bem vivida” quando o orgasmo é conseguido.

O homem ainda se sente responsável pelo orgasmo da mulher, portanto pode facilmente cair em um descrédito de sua masculinidade caso a mulher não demonstre a satisfação esperada.

Como consequência também ocorre que a mulher aprende a representar essa satisfação para não frustrar, nem possivelmente perder o homem, como também para manter a imagem de “boa amante” e “mulher liberada”. Nestes casos, a mulher se distancia de seu próprio ritmo e verdadeiro desejo, chegando a perder totalmente o contato com a sua energia sexual individual.

Em diversas relações é frequente a utilização da sexualidade como moeda de intercâmbio: “se você me der tal coisa eu te dou tal outra, caso contrário nego o que você mais quer”. E isso tem acontecido tanto com homens como com mulheres.

A dificuldade de comunicação de forma clara e sincera, os contínuos desencontros e o desconhecimento do próprio corpo, incluindo a inconsciência de sua energia sexual a um nível sutil e profundo, desembocam com frequência em uma sublimação do sexo, no desinteresse e na negação em explorar e expandir a própria sexualidade, tanto individualmente, como também dentro da relação a dois.

Às vezes ocorrem tentativas de viver o sexo somente como válvula de escape de tensões e confirmação da masculinidade e feminilidade, transformando os encontros em meros exercícios físicos desconectados do todo.

O homem aprendeu, em nossa cultura, a medir sua masculinidade pela quantidade de pessoas com as quais manteve relações sexuais. A mulher aprendeu a usar sua sexualidade e seu corpo para obter contato afetivo e sentir-se desejada. Mas esses aprendizados têm causado as maiores frustrações, além de acusações mútuas que provocam um abismo dentro de relações que deveriam ser as mais próximas e íntimas. É patente perceber o quanto a integração do prazer se torna impedida, os canais que propiciam a criatividade e a saúde psicofísica se mantêm obstruídos e a evolução do ser humano, em níveis menos aparentes e mais sutis, permanece estagnada.

O caminho mais imediato e mais fácil para restabelecer a fluidez da energia sexual é, a meu ver, reconhecer, explicitar e se propor a mover-se em torno aos aspectos, atitudes e comportamentos que têm dificultado e/ou impedido a integração da sexualidade na própria vida como um todo.




Suzana Stroke