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20 de dezembro de 2011

Papai Noel e “os impostores”




Já não é de hoje que eu me questiono até quando as crianças vão se dar por satisfeitas ao encontrarem diversos papais noeis, em tamanho, tipos de barba e roupas diferentes espalhados pela cidade. Os bem-intencionados centros comerciais montam suas decorações natalinas e botam lá um bom velhinho de aluguel para tirar fotos com os pirralhos.

Quando eu era pequena, a moda não tinha se espalhado. Ainda. Era algo tão incipiente e mal caracterizado que eu nem dava bola. Sentia o mesmo tédio infantil quando aparecia aquela tia bem intencionada me entregando um presente e dizendo “Papai Noel deixou esse lá em casa para você”. Estava claríssimo para mim que aquele presente fora comprado pela tia bem intencionada. Da mesma forma, eu sabia que o Papai Noel de verdade era aquela entidade mítica e distante que chegava de helicóptero no Maracanã, apoiado num cajado dourado e com um andar bem devagar. Ele sim! Ele era o verdadeiro Papai Noel, aquele que precisava rodar o mundo entregando presentes. Era um senhor tão ocupado e misterioso que eu jamais, em toda minha vida, consegui tirar uma foto ao lado dele.

A foto deste post é um flagrante de Papai Noel em seu lar, no Pólo Norte.

Papai Noel é mágico. Entra na casa das pessoas sem elas verem. Tem que ler cartinhas. Milhares, milhões…em diversos idiomas! É, portanto, um homem culto. Que fala com sotaque. Precisa estudar. Mesmo tendo gnomos para colaborar com sua intensa atividade, ele fiscaliza pessoalmente a confecção dos brinquedos, as compras pela internet e vistoria os pacotes. Precisam estar impecáveis.

Papai Noel cuida também das renas. Ele não entende de mecânica de trenó, mas questiona tudo que é feito. Ele não fica ocioso na praça de alimentação. Esses outros são impostores, que distribuem pirulitos para as crianças achando que elas são bobas de acreditar que Papai Noel teria tempo, às vésperas do Natal, para ficar sentado o dia todo num shopping tirando fotos apenas com crianças brasileiras. Tenha dó. Se nem a mãe tem tempo direito nessa época do ano, imagina Papai Noel!

Alguém tinha que fazer alguma coisa, acabar com essa mentira. Crianças muito pequenas têm medo de ir para o colo do velhinho. As maiores são espertas o suficiente para perceber que aquele senhor é um sósia improvisado do verdadeiro Papai Noel. É um desserviço com a lenda natalina você encontrar Papai Noel no shopping, topar com outro no posto de gasolina e um terceiro, no mesmo dia, distribuindo panfleto no sinal. Não pode, gente.

A roupa legítima do Papai Noel tinha que ser uma espécie de símbolo global, brasão terráqueo, uniforme militar. Não pode sair usando por aí impunemente.

Por essas e outras é que minha filha mais velha passou direto pelo Papai Noel do shopping perto de casa. Como se ele fosse parte da decoração do shopping. Nem ligou. Um dia antes nós tínhamos falado com outro Papai Noel num shopping mais distante. Banalizou total. Só pode ser isso. Que história é essa de Papai Noel ficar dando plantão em shoppings de Brasília? E as crianças do Rio? Da China? De Paris?

Por isso, quando passamos por aquele personagem no corredor do shopping, virei para ela e tentei dar logo uma explicação mais convincente.

“Quer saber? Eu acho que esse aí não é o verdadeiro”

“Eu sei, mamãe, eu sei”.

Tô dizendo…




Isabel Clemente 

19 de dezembro de 2011

Entre em 2012 leve

 

Tenho um desejo para 2012. Chegar nele leve. Não falo de peso. Eu me refiro à bagagem que acumulamos com o tempo: os nossos pertences. É hora de abrir os armários, doar livros, roupas e sapatos. Fazer uma limpeza geral e dar um destino melhor ao que aparentemente poderia ficar guardado por anos sem uso. E daí que é bolsa de marca? Ótimo. Alguém ganhará uma ótima bolsa de marca. Custou muito e você não usa? Dê! Perto de você deve ter alguma pessoa capaz de valorizar ainda mais seu presente há muito inútil. Aquele vestido de madrinha encomendado há dez anos? Fala sério, se te convidarem para madrinha daqui a dois anos você vai usar novamente? Se você respondeu sim, que vai reciclar e tal, parabéns. Caso contrário, tente um brechó. Você pode vendê-lo em consignação. E os livros? Já leu todos? Passe adiante, pelo menos alguns deles. Quer guardar para os filhos? Leve em conta, por favor, que a reforma ortográfica fará com que algumas palavras soem como pharmarcia com ph para os futuros leitores.

Meias estão se acumulando nas gavetas? Vê se não tem uma com fio puxado para jogar no lixo. E meias sem par? Tem coisa mais inútil? Contas de telefone velhas, extratos, canhotos de cheques, canetas falhando, relógios quebrados. Conserte ou jogue tudo fora,vai.

Casa com duas crianças pequenas tende a acumular brinquedos, que perdem o encanto, as peças, a graça. Vamos doar um monte? Lá foi a mais velha feliz da vida separar Barbies com cara de novas. Até eu fiquei espantada. Mas deixei passar. O mesmo não posso dizer da baixinha de 2 anos que não gostou nada nada de ver uma sacola cheia de brinquedos indo embora. “MEUS BINQUEDOS!!!!!”, disse, antes de abrir um choro de dor e revolta, que logo passou.

E o computador antigo que você guardou não sabe para quê? Doe para uma escola. Tem sempre uma precisando. Já reparou se está de fato usando todas as panelas guardadas na cozinha? E os potinhos de plástico? O lixo reciclável também é um bom destino para muitas das tralhas que acumulamos em casa. Tem duas vassouras piaçaba? Você usa as duas ao mesmo tempo? Leve logo aquele aparelho celular desativado para a reciclagem. E se comprar um vestido novo para o Natal, tire outro do armário antes que ele fique tão surrado a ponto de ninguém querer usar.

Casas entulhadas me dão nervoso. Parece que uma nuvem de energia pesada paira no ambiente. Armários abarrotados então… nada mais deselegante. Li isso num ótimo manual sobre elegância e etiqueta, by Gloria Khalil. E elegância, não me entendam mal, não tem a ver com grana, nem com sua capacidade de comprar um super-closet. Doar artigos em bom estado é uma atitude elegante e sempre será.

Questionar a utilidade de tudo em casa é uma ótima resolução de ano novo. Melhor do que aderir a uma nova dieta e mais fácil do que atacar de frente aquele seu defeito insuportável é abrir mão de coisas. Libera energia, e faz um bem enorme à consciência ver que tem gente aproveitando o que você desprezou. Sentir-se leve é um ótimo primeiro passo para um ano realmente novo. Leves, caminhamos com mais facilidade e sonhamos com mais liberdade, sem falar que gavetas vazias dão ótima arrumação. 
 


Isabel Clemente 
 
 
 
 
 

6 de outubro de 2010

A (difícil) lua-de-mel pós-filhos




“Você mentiu para mim! Você disse que eu ia chorar no avião, mas eu chorei no táxi!”. Isso aí foi o desabafo bem-humorado de uma amiga que estava me contando sobre a experiência de ter passado uma semana a sós, com o marido, em viagem, desde que o primeiro filho do casal nasceu. O bebê ia completar um ano quando eles deram uma fugidinha para Nova York. Chique, né? Eu diria, também, necessário.


Não é preciso ser pai e mãe para saber que a vida do casal não pode ser negligenciada depois dos filhos, mas é preciso ser pai e mãe para saber, na prática, o quanto é difícil deixar os pequeninos para trás, por poucos dias que seja.


É difícil por causa da logística. Quem cuidará dele ou deles, se for mais de um? É difícil por causa da preocupação que nos assola. Acredito, sem nenhuma referência científica para enfiar aqui, que pais e mães de crianças pequenas têm mais medo de morrer do que a média dos mortais. Difícil por causa da saudade, do remorso de se achar egoísta, da vontade simplesmente de ficar junto o tempo todo.


Na primeira (e até agora) única vez que fiz isso, chorei no avião. Não era a primeira vez que eu viajava e dormia longe dela (que já ia fazer 3 anos), porque o trabalho já tinha exigido isso de mim, mas era nossa primeira lua-de-mel pós-filhos. Chegando lá, relaxei e tratei de aproveitar. Afinal, não só era minha primeira viagem a sós com ele depois do nascimento da primeira filha. Era também minha estréia em Nova York, e esse tipo de oportunidade não se desperdiça (aqui rolou uma coincidência, ok? Isso não é um post para dizer que, se você quer ficar a sós com seu/sua companheiro/a, você tem que ir para Nova York, ainda que isso seja uma boa ideia).


Momento confissão: boa parte do tempo em Manhattan foi gasto com visitinhas a lojas de brinquedos e roteiros e comentários repletos de referências infantis. “Ela ia gostar tanto de conhecer a Central Station”, disse, num rompante de saudades da pequena, quando estávamos diante do relógio que Mellman, a girafa do desenho animado Madagascar, enfiou na cabeça. “Será que deveríamos também conhecer o zoo para ver se o Alex está lá?”. Momento gozação.


Jantar a dois, sono ininterrupto e a oportunidade de viver intensamente o egoísmo da paixão que nos uniu antes de tudo é das experiências mais revigorantes para um casamento. Quero mais.


Um amigo disse o seguinte: “isso é muito bom, e tem que ser feito. Todo ano a gente foge uns dias”. O casal tem três filhos. Uau, pensei, lembrando da expressão caricata do Russel, o simpático menino-escoteiro de Up, outra animação imperdível do roteiro infantil. De outra amiga, mãe de duas, ouvi a confissão oposta. “Nossa, acho que desde que Maria nasceu, não sabemos o que é ficar a sós”. Maria vai fazer dez anos.


Claro que ninguém se lança nesse tipo de aventura a dois toda hora. É preciso chance, dinheiro e vontade para uma nova lua-de-mel. Mas se você já tem os dois principais ingredientes (chance e vontade), use a imaginação. Para resgatar o clima namoro, vale uma cervejinha a dois depois do expediente para um papo sem interrupção das crianças. Vale também a regra do “agora vocês vão dormir porque mamãe e papai precisam ficar a sós”. Vale também um cineminha com direito a grandes produções. Que tal encarar o marido como o carinha que você quer impressionar num primeiro encontro?


No caso das viagens, tenha certeza de um dado: as crianças sobrevivem. Aliás, costumam ficar melhor do que nós, desde que continuem na rotina delas, bem cuidadas, com pessoas de confiança. A gente tem que saber também pedir. Pedir ajuda, às vezes, é difícil.


Quanto à minha amiga que chorou no táxi, a viagem foi perfeita. O menino esteve bem, não a rejeitou na volta – um temor muito comum que invade o coração da mãe cheia de culpa - e o casamento segue feliz, obrigada.


Você já teve sua lua-de-mel pós-filhos?




Isabel Clemente