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16 de fevereiro de 2013

Liberte-se das amarras do egoísmo



Algumas vezes o egoísmo aparece tão disfarçado que mal o percebemos agindo em nós e achamos que sofremos de algum outro mal.

Explico melhor, sabe quando ficamos compulsivamente pensando sobre algo que nos feriu? Ou quando estamos em crise de ciúmes e não conseguimos tirar nosso foco disso? Ou quando vivemos uma ansiedade gigante para que tudo esteja do jeito que queremos? Ou quando somos cortantes na forma de falar porque estamos apressados, atrasados? Ou quando achamos que os outros estão sempre querendo nos trair, ferir, machucar? 

Pois é, nessas horas é difícil enxergar o que há de verdade por trás desses aborrecimentos. Pensamos que pode ser a baixa autoestima a causar esses dissabores, ou ainda que alguém é culpado de nosso sofrimento. Ou que é só uma questão da mente que funciona como se tivesse vida própria: obsessivamente, de forma controladora ou criando medos. Mas se olharmos mais de perto, poderemos observar que a autoestima está sofrendo por conta de algo maior, e que ela foi diminuída, rebaixada, por conta da nascente do problema: o egoísmo.

Estranho, não é? Porém, real. A causa desses males é o egoísmo e a baixa autoestima é apenas o sintoma, bem como os medos e a mente compulsiva.

Autoestima é subproduto de um somatório de atitudes internas e é impossível criá-la a partir só do fortalecimento da autoimagem, ou de se buscar ser mais autoconfiante, ou tentando apenas fortalecer a mente que andava obsessiva. Cuidar assim de si mesmo é como usar um band-aid para tratar ferimentos profundos porque estamos focados só nos sintomas, na parte superficial da questão. A autoestima é dinâmica e assentada sobre pilares que permitem seu aparecimento e a sustentam.

Dr. Nathaniel Branden, em seu livro "Autoestima e os seus seis pilares" ensina que os pilares da autoestima são: viver conscientemente; autoaceitação; auto-responsabilidade; auto- afirmação; intencionalidade e integridade pessoal, e tendo como sua base o amor. Caso todos os pilares da autoestima não sejam trabalhados igualmente, não há força que a sustente. 

Ao ficarmos, por exemplo, muito focados apenas em nossa autoimagem, o que é muito comum hoje em dia, passamos a dar valor demais "a nós mesmos", às nossas vontades, desejos, queres, tornamo-nos ego centrados, ou em outras palavras "egoístas" e por não termos como suprir todas essas vontades, surgem mágoas, raivas, tristezas, decepções, muitas vezes transferidas para outras pessoas a quem julgamos culpados de nossos sofreres. Uma roda de amargura está assim instalada. 

Dar excesso de importância a si mesmo fere a base amorosa da autoestima bem como o princípio da integridade pessoal (descrito pelo Dr. Nathaniel Branden em seu livro), e esse é o princípio da ética para consigo e para com outro. Toda vez que sentimos que nossa vida é mais importante e melhor, ou mais valiosa que a de outra pessoa, entramos nesse círculo vicioso de criação e manutenção de uma autoestima rebaixada.

A pessoa com autoestima elevada tem sinais bem claros e aparentes: é bem-humorada, humilde, amorosa, altruísta, benevolente, tranquila, serena, mente aberta e flexível, adaptável, capacidade de se auto-afirmar com beleza, sem prepotência ou arrogância, costuma ser democrática, cuida de sua aparência sem excessos, reflete sobre sua vida sem obsessões ou compulsões.

Aquele que tem autoestima elevada costuma dar o devido valor a si e às suas ideias sem menosprezar o valor dos outros ou ideias alheias. Mantém sua mente e seus ouvidos abertos aos outros. Seu tempo tem valor, bem como o tempo do outro. Não vive em função apenas de si. Sabe que toda vida tem sua importância na Terra e, portanto, já compreendeu que servir é a chave de seu bem-estar.E a ciência comprova: fazer o bem faz bem! Segundo estudos do Prof. Dr. Jorge Moll Neto, PhD e pesquisador do Instituto Nacional de Saúde dos EUA. Ao praticarmos o bem desinteressadamente, ativamos partes dos nossos cérebros associados ao prazer e à capacidade de estabelecer laços de amor e amizade, gerando um bem-estar duradouro que é um grande aliado nos tratamentos antidepressivos, da ansiedade ou do estresse. Bem como na prevenção desses males.

Viver o egoísmo é mais do que apenas não querer compartilhar o pão e o agasalho. É viver em função só de sua própria vida, em busca de sua própria felicidade em detrimento do bem estar alheio. É ter a vida mental como um cárcere que aprisiona os pensamentos que passam a girar em torno de si (olha só, aqui aparece claramente um dos sintomas da depressão), de suas necessidades e de seus afazeres. É estar aprisionado pelo seu próprio bem estar e conforto pessoal, ou aficionado pelos mal estares (dores ou indisposições físicas, angustias, tristezas, decepções, inquietação). É estar repetindo a toda hora histórias mentais e fantasias que declama para si mesmo. É ter a si como o centro do universo e achar que se alguém esta triste ou feliz, zangado ou rindo é por sua causa.

O egoísmo nos aliena e faz com que enxerguemos o outro como inimigo pois o "outro" nos tira do conforto da ilusão de sermos o centro do universo e de nos olharmos narcisisticamente, obrigando-nos a sermos sensíveis ao que nos é alheio, agindo em função do seu bem-estar e não só do nosso. Isso mexe com toda nossa estrutura de personalidade, deslocando o centro do ego para o amor, transportando-nos da infância emocional para a maturidade espiritual.

E é a partir daí que a vida começa a ter poesia, encanto e beleza de verdade, porque só vive em estado de graça quem ama! 


Thais Accioly

2 de fevereiro de 2013

Desejo!





"Desejo
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Pra recomeçar.
Pra recomeçar..."
Frejat

No meu aniversário, alguns anos atrás, uma pessoa muito querida me disse desejar que no novo ano de vida eu fosse muito amada.

Esta frase ficou em minha mente, reverberando... será? Será que ser amada ajudará na construção do meu bem-estar? Sim, com certeza! Mas isso é suficiente?

Lembrei-me então de todos aqueles a quem conheci e que, apesar de serem amados por seus familiares, amigos, companheiros de vida, sentiam-se depressivos, angustiados, infelizes, incapazes de sentir amor por suas vidas, por seus trabalhos, por seus pares.

Pessoas que procuravam o reconhecimento do outro como garantia de uma vida valorosa mas que, carentes, nunca se contentavam com o que tinham, com a vida que levavam.

Ser amado é muito bom, mas não é salvo-conduto para uma vida plena.

Quando a gente não se ama, ainda que sejamos adorados por multidões, trazemos a alma vazia, um sentimento de solidão e de desconforto, além de angústias indizíveis.

Quando não nos amamos surge um sentimento quase insuportável de ser estrangeiro em todo lugar, um sentimento de não pertencer.

E então eu desejei, fortemente, para mim mesma, que no meu novo ano de vida eu amasse muito. Não apenas a alguém em especial, mas a vida, meu trabalho, as pessoas que convivem comigo, meus familiares, meus sonhos, a cidade onde moro, o lugar onde vivo, aqueles que cruzassem me caminho.

Porque, ao amar, a vida se aquece, ganha um novo colorido, os minutos tornam-se mais alegres.

Amar o outro requer de nós desprendimento, maturidade, autoestima... sim, porque achamos, muitas vezes, que para amar alguém ele deve fazer por merecer.

Mas o amor que sentimos independe do que o outro é ou faz.

Podemos amar quem nos fere. Podemos inclusive escolher nos afastarmos daquele a quem amamos quando ele é destrutivo, por uma questão de amor-próprio.

Mas sentir amor, em grande quantidade e de qualidade, melhora a vida de qualquer pessoa onde quer que ela esteja.

Quem sente amor não se percebe só, porque a vida lhe é preciosa e porque carrega em seu ser todos a quem ama.

Assim, desejo-lhe que você ame muito e preencha sua vida com um coração aquecido e enternecido!


Thais Accioly  



 

22 de abril de 2012

Felicidade

O que me faz feliz? É possível sofrer e manter um estado de felicidade? É melhor sofrer ou dopar o sofrimento para ser feliz mais rápido? Ou ainda, existe felicidade fast-food? É possível me sentir feliz se assumo posicionamentos ou atitudes não éticas? Prazer e felicidade são a mesma coisa? Andam juntos? Onde está a felicidade? Ou, o que é a felicidade?

Perguntas que todos já nos fizemos ou que nos fazemos constantemente...
Mas também filósofos, psicólogos, religiosos, antropólogos, sociólogos, políticos, educadores, jornalistas e até economistas já escreveram sobre o tema, já pesquisaram o tema e buscaram respostas.

Uma coisa em comum, os mais atuais concluem: vivemos em tempos de pouca felicidade. A tecnologia, os avanços científicos, da comunicação ou políticos não trouxeram ainda ao homem e à mulher um estado permanente de felicidade.

Nosso planeta é local de grande beleza, de imensas diferenças e semelhanças, num equilíbrio dinâmico e intenso. Mas também é palco de muito sofrimento. Não somente o causado pelo homem e pela mulher. Mas também, aquele resultante do viver. Nosso corpo sente dor, fome, frio, calor, coceira, sede, pode sentir angústia, tristeza, raiva, medo. Sim, nosso corpo sente. É um corpo emocional, bioquímico, repleto de hormônios que alteram nosso humor dependendo do que comemos, bebemos, fazemos, sofremos.

Sofrer faz parte do viver, ensinam os budistas. A filósofa francesa Chantal Thomas, em seu livro Souffrir diz que "sofrer de amor nos torna invencíveis".
Há sofrimentos que necessitam de tratamentos médicos, psicológicos ou psiquiátricos, o que é diferente de "dopar" o sofrer. Isso não nos traz felicidade, somente um descanso temporário, às vezes, até indicado para nossa recuperação. E quando sofremos o que fazer?

Segundo Chantal Thomas, sofrer sem perder o sentido da vida, aproveitando o que de melhor a vida nos pode oferecer, ajuda-nos a superar o sofrimento e a nos fortalecer.

É preciso enfatizar que prazer e felicidade também não andam sempre juntos, ensina Sua Santidade Dalai Lama em seu Best-seller: A Arte da Felicidade.
Há muitas coisas que dão imenso prazer e causam muita infelicidade para nós mesmos ou para os outros.

As drogas, de forma geral, são muito prazerosas e causam destruição da personalidade, do grupo social onde o indivíduo está envolvido, quando não sua morte, além de financiar o crime organizado no Brasil e no mundo. Isso só como um exemplo.

Um remédio como a quimioterapia, por outro lado, é desagradável de se receber, de se ingerir, traz mal-estar momentâneo, mas sempre que possível traz consigo a cura ou sua probabilidade, gerando no mínimo esperança, e esta esperança pode alicerçar a felicidade de alguém.
Portanto, quem busca no prazer sua fonte de felicidade pode ter pegado a estrada errada.
Agora, como pode pretender o homem e a mulher serem felizes sem serem éticos? Falo aqui da ética da amorosidade, esta a mais esquecida das éticas, esta ética a qual Sua Santidade Dalai Lama dedicou um livro: "Uma ética para o novo milênio".
Não há felicidade possível sem ética, aquela construída pelo respeito a todo o senciente, com altruísmo, com compaixão e ternura, com responsabilidade por nossos atos e opiniões.

O homem e a mulher não éticos são também não coerentes, e essa incoerência gera conflitos imensos em suas mentes que impedem a possibilidade da felicidade.
Na prática da crueldade, há muito poder e prazer. O que gera uma falsa sensação de felicidade.
Na prática da tolerância e da compaixão, pode haver uma sensação irreal de fraqueza ou de perplexidade, mas o estado íntimo, de vitória sobre si mesmo, leva à conquista de um estado de espírito feliz.

Aristóteles caracterizava a felicidade como um objetivo visado por todo ser humano e esta felicidade também poderia ser entendida como um bem-estar, principalmente, com relação a algo que se realiza. Para este filósofo, a noção de felicidade é central à ideia da ética, porque ela só ocorre quando se obtém algo que foi bem feito, correspondente à excelência humana e esta seria dependente de uma virtude ou de uma qualidade de caráter que tornasse possível sua realização. Assim, acreditem, ética e felicidade andam de mãos dadas.

Por fim, não posso deixar de dizer que felicidade, como ensina o filósofo, educador, teólogo Rubem Alves, anda onde está o menino que vive em cada um de nós... Porque responsabilidade e seriedade nada têm a ver com sisudez, ranzinzices ou mau humor. Ensina-nos Rubem Alves que quando nos tornamos adultos e vestimo-nos como tal, às vezes, começamos a nos comportar de um jeito mal-humorado, chato, aborrecido e isso, segundo o autor, é uma doença grave chamada adultice, e para se curar só tomando chá de criança. Aí, dá-lhe subir em árvores, chupar fruta no pé, balançar, dançar, correr, chutar bola, brincar. Esse Rubem Alves sabe das coisas.

Mexer o corpo, mexer a mente entediada. Suar de brincar, de rir, de rolar no chão com o filho, o cachorro, na areia da praia. Voltar a pulsar, a viver. Para ser feliz, deixe o corpo voltar a pulsar, para sentir o prazer de viver. Volte a olhar para aquele que está do seu lado ternamente, põe doçura de novo no seu olhar. Deixe sua alma voltar a amar e a ter esperança nessa sua vida.
Volte a ser pequeno por dentro. Tenha coragem... Não tenha vergonha.

Para ser feliz é preciso de pouco. Precisamos gostar muito de nós mesmos, da vida e dos outros. Manter a fé e a esperança acesas. Pulsar. Respirar. Ser ético. E claro, manter o melhor de nós vivo em cada ação, em cada pensamento: a criança que vive e saltita dentro de nós.

Thais Accioly