Mostrando postagens com marcador Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens
11 de março de 2011
Amor e morte
"Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo ‘clima’, certa ‘preparação’. Certa ‘grandeza’. Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade".
Caio Fernando Abreu
1 de março de 2011
Reticências
Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos
os carinhos, todas as atenções. Quero colo, quero beijo, quero
cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores,
quero doces, quero música, vento, cheiros, quero parar de me doar
e começar a receber. Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar
pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências.
Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando,
eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou…
e continuo indo, assim, desse jeito, sem virar páginas, sem colocar pontos.
E vou dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que
os outros tem para me dar.
Caio Fernando Abreu
23 de janeiro de 2011
Passagem
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue: é a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.
Caio Fernando Abreu
Assinar:
Postagens (Atom)


