14 de dezembro de 2010

Dor de cotovelo virtual


 
A enfermeira Paula Bortolotti, de 28 anos, diz que demorou quatro anos para terminar definitivamente um namoro em crise. As idas e vindas aconteciam porque ela não conseguia se desconectar do ex na internet. Como os dois haviam apagado seus perfis no Orkut durante o relacionamento para evitar brigas, a maneira que Paula encontrou de bisbilhotar a vida do rapaz foi usar o perfil de uma amiga dela para fuçar a página dos amigos dele. E conseguia. Todos os indícios de paqueras eram devidamente checados. A enfermeira ia tirar satisfações com o ex, os dois discutiam e acabavam voltando. E ela continuava monitorando os passos do moço na rede.

Ao contrário de Paula, o arquiteto Bruno Ferreira, de 30 anos, apagou a ex-namorada de seus contatos no Facebook assim que o namoro de dois anos terminou. “Eu não queria saber nada sobre a vida dela para esquecê-la mais rápido”, diz. Mas, como os dois tinham amigos em comum na rede, isso não foi possível. Ele sempre via um comentário ou uma foto dela nas atualizações de algum amigo em comum. Para evitar a tortura, Bruno decidiu sair do Facebook.

Paula e Bruno são dois exemplos de uma praga que acomete os términos de relacionamentos no século 21: a dor de cotovelo virtual. Com mais de 900 milhões de usuários em todo o mundo, 35 milhões no Brasil, –, todos ávidos por falar sobre sua intimidade e vasculhar a dos outros, as redes sociais tornaram-se o ambiente perfeito para a propagação dessa nova modalidade de fossa.

Além de manter os ex-pombinhos conectados virtualmente (por vontade própria ou não), as redes sociais também se tornaram uma das principais maneiras de comunicar ao mundo o fim de um relacionamento. Rompimentos sempre foram difíceis. As novas mídias tornaram esse processo ainda mais doloroso. Ceder ao impulso de espiar a vida do ex prolonga o sofrimento.

Antigamente, bastava apagar o nome da pessoa da agenda e deixar de frequentar alguns lugares para evitar o contato com o ex. Agora é preciso deletar o indivíduo do Facebook, do Orkut, do Twitter etc. Isso se o ex-casal não tiver contatos em comum nessas redes sociais. E, se esses amigos compartilham informações de amigos dos amigos, será preciso pedir gentilmente a eles que parem de repassar as informações indesejadas. Ou apagá-los também. Para piorar, agora também é preciso romper duas vezes. Mudar o status de “namorando” ou “casado” para “solteiro” no Orkut e no Facebook tornou-se o equivalente a oficializar a separação.

As pesquisas sobre o uso das mídias sociais mostram que a primeira coisa que os jovens fazem ao terminar um relacionamento é atualizar ou reformular o perfil nas redes sociais. E quem está fora da rede social entra após um rompimento. As pessoas veem as redes sociais como uma forma de anunciar ao mundo que estão disponíveis. Ou não.

Para os ex-amantes inconformados, as redes sociais podem ser um instrumento de tortura. O término de um relacionamento equivale a uma pequena tragédia, cujos efeitos podem ser comparados à abstinência de drogas. A recomendação dos especialistas àqueles que desejam curar a dor de cotovelo virtual é resistir à tentação de dar a primeira clicada. Paula diz que só assim conseguiu se libertar do ex. “Percebi que, se não parasse de bisbilhotar a vida dele na internet, eu nunca conseguiria sair da relação.” Os dois agora são bons amigos... no Orkut.

Fernanda Colavitti 
 

Nenhum comentário: