19 de abril de 2011

Bolinhos de chuva





A gente se cobra tanto que esquecemos de fechar a porta. Deveríamos nos pressionar menos. Aceitar que esqueceremos sempre alguma coisa a sair, de que é natural não se lembrar de tudo, de que não adianta se explicar, o melhor é viver sem sinalização.

Tão simples. Extraviei a ingenuidade e não coloquei nada em seu lugar. Talvez minha ingenuidade fosse comer bolinho de chuva no sábado de tarde. Ingenuidade é quando temos vó para fazer nossos desejos. Depois, maduros, nossos desejos são bem mais difíceis. O cotidiano poderia ser mais líquido, menos temeroso.

Trabalha-se para conseguir reconhecimento que se perde dentro de casa. Fica-se com a família para conseguir o reconhecimento que se perde no trabalho. É necessário pular do jogo de compensações, se permitir não ser bem informado, não saber o que acontece, não depender do tempo para definir o que fazer no dia. Ler um livro que não é lançamento.

Ler uma revista velha de consultório de dentista. Cortar o cabelo diferente. Escolher um filme no escuro. Fazer palavras cruzadas com ajuda dos resultados. Tomar a cerveja da visita que não apareceu. Ligar para amigos sem um pretexto. Permanecer de bobeira, ingenuamente de bobeira. Não estocar, não se guardar, não se esconder, não esperar o pior, não xingar. Compreender que o outro pode estar falando a verdade, mesmo que a verdade não seja o que gostaríamos de ouvir.

Tanto que recebi uma mensagem de um amigo que fala do distanciamento adulto, do isolamento adulto, que não é solidão, que é algo que nos adia até nos adiar novamente:

"Chega uma hora em que não nos esforçamos mais para aprender. Aprender o que o outro quer, o que o outro precisa. Tudo se torna causa própria: minha família, meus amigos, meu trabalho, minhas festas. E o resto que se dane. Eu lembro de minha irmã mais velha. Era ciumento quando pequeno. Interrogava seus namorados como um cão de guarda. Ela levava na brincadeira e ria da implicância. Eu me dava tão bem, não precisávamos ter alguma coisa em comum. Se ela chorava, eu não queria saber o motivo. Eu me juntava a ela como um pacto até ajeitar seus olhos. Eu dedicava minha vida para ouvi-la. Ela dedicava a sua para me entender. Ela me levava em seus passeios, por mais tedioso que é ter o irmão mais novo colado. E não sentia que estava incomodada, ela tinha orgulho de me apresentar o mundo. Alargou os padrões domésticos. Saiu de casa cedo, fez minha primeira festa aberta aos amigos, me ensinou a dirigir, me deu dicas de como me comportar com as mulheres (o que convenhamos, não deu muito resultado). Passou em primeiro lugar na universidade, era inteligente a ponto de tornar qualquer sucesso dos seus irmãos um tremendo esforço. Ela fazia as provas e os testes sem estudar. Nada parecia complicado. Ela cresceu, teve filhos, casou. Eu cresci, tive filhos, casei. Hoje não há alegria, não há comoção das diferenças, não há compreensão. Não nos prendemos ao telefone e acabamos estranhos, indiferentes, medrosos. Ninguém comemora o sucesso do outro. Nossos filhos não brincam juntos. Não dividimos casa na praia. Como telegramas, só nos comunicamos nas tragédias. As diferenças sociais e de classe nos afastaram. Ela apenas fala de trabalho e viagens, do que gasta e não gasta. Eu não sei o que falar. Cada um procura sua mãe para reclamar, que é a mesma".


Fabrício Carpinejar

20 comentários:

Claúdia Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wanderley Elian Lima disse...

Oi Lena
Sou uma pessoa absolutamente desligada, nunca me cobrei muito ser perfeito, organizado, etc. As vezes tento mudar, mas não consigo. Tenho certeza que vou morrer assim rsrsrs
Bjux

Blogando com Bebeth disse...

Que lindo seu texto!
Espetacular a maneira como você dança com as palavras e forma as frases.

"Talvez minha ingenuidade fosse comer bolinho de chuva no sábado de tarde."

Apaixonei!

Que triste a realidade entre os irmãos.
Mais triste ainda quando vivenciamos isso entre mãe e filho!

Bjokas

Sam disse...

As vezes luto pra nao me esquecer das bonitas simplicidades!
meu beijo, querida
Samara Bassi

| A.Luiz.D | disse...

Olá candanga..
òtimas leituras
lindo blog.

Mafalda S. disse...

Meu Deus! Tanta verdade nesse texto! Dá que pensar...
Beijo

^.^ Ana Clara ^.^ disse...

Muito lindo e verdadeiro esse tezto.
Sábio é quem aprendeu a lidar a vida com simplicidade.
Beijos querida, uma linda Semana Santa para você, carinhos, Toca dos Gatos.

MENTORESDELUZ.BLOGSPOT.COM disse...

MINHA AMIGA QUERIDA COMO SEMPRE A VIDA NOS DEIXA QUEIXAS E VAZIOS,
SAUDADE DE TANTAS COISAS QUE VÃO FICANDO SOMENTE NAS LEMBRANÇAS
LINDO TEXTO ESTE SEU,MUITO LINDO
PASSEI PARA CONVIDA-LA A BUSCAR UM SELINHO NOVO DO MENTORESDELUZ,QUE
GANHEI E GOSTARIA DE VE-LO PERTINHO DE VOCE,ESPERO QUE GOSTE,UM ABRAÇO
COM CARINHO MARLENE

* Verinha * disse...

É interessante como as coisas mudam.. como de repente nada mais passa a ter o mesmo sentido.. e nos fazem pensar onde será que começou a se perder o que antes era tão fundamental em nossa vida!

Beijoquinhas super em seu coração Lena!

Verinha

Fabiola disse...

Oi Lena,
Seu texto é um presente, com sabor de chocolate !
Aprender mesmo diante das situações que não temos os códigos, nem as respostas...E, para isso, construir e re-construir. Esse é nosso grande desafio !
Um abraço, com carinho, Fabiola

*MARCIA E CARLOS* E LINDAS MENSAGENS disse...

ei boa noite vim aqui no seu cantinho lhe agradecer a visita ao meu blog e o comentario e por me seguir. lena o seu blog e um encanto Que lindos textos! gostei muito e estou te seguindo tbem mil bjos

Andressa disse...

Cada um procura sua mãe para reclamar, que é a mesma.

Sonhos De Deus disse...

Boa noite minha linda ,nossa que post,verdade o tempo muda separa as pessoas não deveria ser assim né.passando pr te desejar uma semana feriado lindoooo muito ótimooo bjks no teu coração ti gosto muitooo!!!

VEREDAS, por Marluce disse...

Lena,

Temos que nos permitir ler textos assim, com gostinho de bolinhos de chuva, faz bem prá alma!



Um lindo post!


Um abraço, Marluce

Rejane-Enajer disse...

F a n t á s t i c o !!
Este levei comigo para minha cabeceira da cama para ler e reler.
Adorei!!
Feliz Pàscoa com muito amor e bolinhos de chuva(rsrs)
Bjs

Sônia Silvino disse...

Leninha!
Adoro o Carpinejar! Grande escritor gaúcho!
Antes do coelhinho chegar,
eu vim te visitar!
Uma mensagem de Páscoa
de presente vou deixar!
Não trouxe chocolates,
pois eles iriam te engordar!
É Tempo de Páscoa, é tempo de...

"Tempo de meditar, de buscar, de agradecer, de plantar a paz.

Tempo de oração!!!

Tempo de abrir os braços, de abrir as mãos e de ser mais irmão.

Tempo de recomeçar!

Tempo de concessão, de compromisso, de salvação. Tempo de perdão.

Tempo de libertar, de libertação, de passagem, de passar...

Para onde? Para a luz, para o amor, para a vida que é eterna!

Tempo de Ressurreição"

Desconheço a autoria!

Beijos com sabor de chocolate!!!

C. disse...

Oi amiga (ó eu me achando), eu deveria me sentir austríaca, afinal, por lei, é um documento que tenho, mas sabe que nao consigo? A que se sobressai sempre é a brasileira :-)

Eu me emocionei quando terminei de ler esse texto. Parece que tudo na vida nesse contexto começa nessa ordem, e termina também... Me vi pensando nos meus irmãos... pra quem comia sopa de fubá por falta de ter outras coisas, e mesmo assim dávamos gargalhadas, pra agora falarmos apenas de banalidades. E pior é que eu insisto, mando e-mail, foto, antes telefonava mais (mas agora desisti porque me sinto inconveniente, porque eles sempre tem algo mais importante do que falar no telefone), e depois que nao temos mais pai e mae então, a coisa degringolou. Fabrício Carpinejar é ótimo!

Boa quarta querida!
Vai viajar na páscoa?

Roberta Maia disse...

Realidade nua e crua,rs!! Temos que relaxar mais, hã?!Amei o poster!!!

Querida, vim desejar uma PÁSCOA MARAVILHOSA E ILUMINADA!!!

P.S: Tem selinho para você da Páscoa no Blog Luz, vá buscar...

Beijinhos...
Até a volta...

Nuvembranca disse...

Interessante o depoimento do Fabrício, em algum momento eles se permitiram o distânciamento, mas não acredito seja regra nas relações entre irmãos, há os que se permitem este distanciamento desde pequenos, há os que permitem na adolescência, vida adulta (como eles) e há os que não permitem o distanciamento em tempo algum, são eternamente parceiros. O seu blog é lindo, vou seguir você. Beijos. Boa Páscoa.

Fabiola disse...

Lena,
Li, reli e voltei para comentar que o texto me levou até minha infância. Sentimentos...e uma história para contar. Produzi um texto lá no Piruetas. Apareça para uma visita ! Um abraço, Fabi.