28 de abril de 2011

O medo de amar congela as pessoas




Para evitar futuras desilusões, cada vez mais as pessoas se aproximam esperando receber e dar pouco apoio e ternura. Agem como uma máquina que ”liga” e “desliga”. “Ficam”, mas não se envolvem, e acabam reprimindo os sentimentos.

Existe hoje um profundo medo de se envolver, de amar. A tentativa é de construir um escudo e se esconder atrás dele. Homens e mulheres aproximam-se esperando pouco apoio e ternura, e mesmo quando lhes são oferecidos têm medo de aceitar. Por isso, muitas vezes acabam com menos do que esperavam. Isso provoca uma sensação de desapontamento constante, podendo levar à decisão de não se apegar, não se ligar, o que significa nem ser protetor, nem ser protegido.

Transar, desempenhar, mas não se envolver, é a forma perfeita de não reconhecer os próprios sentimentos. Quando uma pessoa enterra os sentimentos, começa a viver de forma automatizada, e mais e mais passa a ter esse tipo de "sensação desligada". Pensa que o ideal é se perceber como uma máquina que simplesmente "liga e desliga", acende e apaga.

Alguns vêem o envolvimento emocional como o caminho mais curto para o desastre e acham que o "ficar" é a salvação. Portanto, sentir é um perigo, algo arriscado, e a meta é se proteger do envolvimento, encontrar uma saída. As mais conhecidas são duas: uma é "ficar frio", insensível, e a outra, exatamente o contrário, se atirar de cabeça, mergulhar na hiperestimulação.

Como alguém pode ficar insensível? Todos sabemos que nossos sentimentos podem ir se congelando lentamente ou, às vezes, até se solidificar de uma hora para outra, mas também sabemos que não é possível descongelá-los num forno de microondas. Por esse motivo, é fundamental compreendermos porque resolvemos parar de sentir. Como diz Sam Keen em seu livro A Fronteira Interior, "o hábito de reprimir os sentimentos é profundo. Isso porque, em algum momento, em geral na infância, fomos decepcionados, frustrados e rejeitados de alguma maneira. A resposta automática ao sofrimento é o recuo, é se proteger, tentar fugir".
Essa é a lógica da dor. A mente e o corpo se mobilizam para minimizar o sofrimento, influindo a memória de dores passadas, para evitar as futuras. Entretanto, perdas, decepções, fracassos são inevitáveis. Ou decidimos encarar a dor ou nossa aventura de sentir termina aí.

Já outros ficam fixados na maneira oposta de agir: ficam "ligados" sempre. Tornam-se viciados em excitação, vão de um lado para outro, se deslocando sem parar, só agitando. Sua vida parece um aeroporto onde acontecem vários eventos simultaneamente. Pessoas estão sempre entrando e saindo, chegando e partindo. Acontece que a vida não é sempre excitante. Se insistirmos em ficar eternamente borbulhantes, teremos de fabricar muito entusiasmo falso. É arriscado cultivar o apetite pela sensação pura, pela excitação permanente.

Todos precisamos entender a diferença entre sensação e sentimento. A sensação é a resposta mecânica do corpo a determinados estímulos. Trata-se de terminações nervosas, músculos e pele. É simples: no terreno das sensações, as coisas ou dão prazer ou causam dor. Elas também se limitam ao "aqui e agora", como um simples toque que causa arrepio. Já os sentimentos têm história, envolvem tanto nossas memórias quanto nossas intenções. Um beijo, por exemplo, pode produzir uma sensação passageira ou se transformar em carícia. Nessa hora, vêm à tona todos os nossos desejos, nossos medos e nossas lembranças. Aí precisamos de tempo para registrarmos o que sentimos, para digerirmos, para sabermos o que aquele beijo significou.

A verdade é que, quanto mais sentimos a nós mesmos, mais poderemos entrar na vida do outro. Entretanto, nada garante que ao decidirmos sentir, sentiremos o melhor. Apenas sentiremos mais. Mais desejo, mais esperança, mais medo, mais prazer...Descobrimos que nossos sentimentos descongelaram e começaram a fluir quando, um dia, começamos a sentir: vinte minutos de alegria, trinta de raiva, quarenta de indiferença, quinze de verdadeiro desespero; mas não só isso, talvez também duas horas de paz e amor.

Nessa altura dizemos: "Eu me sinto, sinto você, sinto a nós". Sinto que amo. Ficamos, assim, capazes de nos voltarmos para o outro para conseguirmos sustentação e apoio. Aí vem a noção de juntar, unir, confiar, arriscar, começar.



Maria Helena Matarazzo 

20 comentários:

Mariza disse...

OI Lena, desculpe a demora em responder, seu Blog é simplesmente maravilhoso, venho sempre ler suas postagens, às vezes não me dá tempo de postar um comentário significante, mas saiba que seu blog vicia, dificil passar um dia sem vir dar uma espiada para melhorar o dia, com as reflexões postadas . Obrigada.
Beijos
Mariza

Nair Morbeck Sobrinha disse...

Ainda fica valendo o amar-se primeiro daí tudo flui mais levemente...excelente postagem..lindo blog!


Shalom no vínculo daquele que nos chama para amar

http://nairmorbeck.blogspot.com/

Meire disse...

Sabe querida, a verdade é que as pessoas tem um medo enorme de sofrer, e quem não tem? Mas com cada história e com cada pessoa aprendemos lições diferentes. E mesmo que sofremos nos entregando, acabamos por tirar lições desse sofrimento...Mas como é difícil se arriscar!!!
Um beijo grande pra ti =D

Alê disse...

'sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta'

Roberta Maia disse...

Nossa...quanta verdade neste texto!!

Sentir...como é bom amar e se envolver!!!O risco faz parte em tudo nesta vida...

Beijinhos ILUMINADOS!!!
Paz e Luz!!!

Fabiola disse...

Lena,
A grande dificuldade tem sido a entrega real dos nossos desejos, necessidades e vontades ... (tão bem cantada na música dos Titãs...rs). Há muito o que fazer para que as pessoas aprendam de novo a confiar ! Um abraço grande, Fabiola.

Eu e o tempo disse...

"As grandes idéias surgem da observação dos pequenos detalhes." (Augusto Cury)

http://www.eu-e-o-tempo.blogspot.com/

http://www.lleandroaugustto.blogspot.com/

Paz & Bem!

Leandro Ruiz

Calu disse...

Lena querida,
cada parágrafo deste maravilhoso texto merece uma reflexão única.A autora sintetizou as ilusões hodiernas, mas não deixou de apontá-las certeiramente.Os medos que nos tomam são, em alguns casos, os criadores desta era instântanea, onde pessoas,sentimentos e valores são recicláveis ao sabor dos interesses momentâneos. Triste constatação, mas poderosa reação para a mudança ou, ao menos, o alerta que vc assim o fez escolhendo esse tema para compartilhar.Bravo, menina!
Obs: já votei, viu!Amadeirado, com toda certeza!
Bjinhos,
Calu

vanessa cony disse...

Leninha...Vim para deixar meu beijo no seu coração.Esses dias estão deixando os corações meio confusos,nè?

C. disse...

Viver é dor, nao tem como sair se escondendo dos riscos que nos espreitam pelas esquinas... muito menos o risco de amar!

Beijos!
* Espero logo esteja de casa nova e arrumada :>

Sandra Botelho disse...

Hoje as pessoas tem um medo enorme de se entregar,.Por isso bloqueiam toda e qualquer aproximação.
beijos achocolatados

* Verinha * disse...

Sempre nos presenteando com textos magníficos!

Beijocas super em seu coração Lena!!

Verinha

Leandro Ruiz disse...

"Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las."

(Augusto Cury)

http://www.lleandroaugustto.blogspot.com/

http://www.eu-e-o-tempo.blogspot.com/

Um grande abraço: Leandro Ruiz

Claúdia Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zil Mar disse...

Oi Lena...fera esse texto...e a autora é demais!

eu adorei!!!!


grd beijo querida!


Zil

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Lena
Muitos reprimem sentimentos com medo de sofrer. São pessoas que já passaram por tantas decepções que não querem mais se arriscarem. Hoje ficar é a alternativa que as pessoas encontraram para não estarem sós, e ao mesmo tempo não terem compromisso.
Bjux

Vera Lúcia Duarte disse...

Bela postagem.
Arriscar e sofrer, sem dúvida, é o
melhor caminho. No final, só há ganho : realização de um lado ou crescimento do outro.
Entrei sem ser convidada, mas convido-a a me seguir no blog
(http://nuvemdeestrelas.blogspot.com).
Já sou sua seguidora.
Abraço.

Catia Bosso disse...

Esses recomeços né!!! Preciso!
Lena-Lindona! Saudades!!! Ja levei meu selo 300, da uma olhada lá p sentir o orgulho q tenho de vc...

bj.

Catita

Carla Farinazzi disse...

Oi Lena!

Acho que não inventaram ainda nada melhor do que sentir! Sentir à plenitude. Sem medo, sem receio, apenas sentir. Inclusive paz. É preciso sentir, para não morrer em vida. E não há pior coisa que morrer em vida...

Beijos

Carla

Sandra Portugal disse...

"A tentativa é de construir um escudo e se esconder atrás dele....
Como alguém pode não se envolver?"

Nossa, eu me pergunto sempre isso!!
Acho que sou tão apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelos relacionamentos humanos que não consigo conceber quem consegue ser tão frio e insensível assim!

Lindo! Lindo!
bjs Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com//