30 de novembro de 2011

Carências




Carência: falta do preciso; necessidade; provação. E quando nos referimos às carências psicológicas e emocionais entramos em um campo vasto de pesquisas e inferências. Pesquisas para descobri-las e inferências porque, em boa parte das vezes, as pessoas chegam às conclusões por dedução e não por fatos.

Muitos falam da carência como se ela fosse algo superficial e pudesse ser administrada pela simples percepção. "Estou carente de afeto". De verdade, esta afirmação tem muito mais a ver com a expressão da falta de alguém, de um parceiro ou parceira do que a identificação da carência afetiva que atua em nosso comportamento e de forma camuflada, ou seja, inconscientemente.

A carência não é gerada pela falta de "qualquer coisa", mas pela falta de sentimentos essenciais, necessidades não atendidas no momento e da forma adequada, deixando lacunas que, não identificadas, desencadeiam reações e comportamentos que muitas vezes nem a própria pessoa entende. Mas grande parte das pessoas sequer admite que possam estar ocorrendo influências desse tipo em seu comportamento.

E ela, a carência, ou as carências, são grandes responsáveis por relações conflitantes e desgastantes. Comum se dizer que o casal tinha tudo para ser feliz, mas não está conseguindo uma convivência harmoniosa. E o que era para ser lindo torna-se medonho. Uma pessoa que não se sentiu atendida em sua necessidade de ser amada, tem forte propensão a manifestar sua carência afetiva, não reconhecendo gestos de amor e de afeto que possam lhe ser dirigidos. Sem perceber, estipula como o outro deveria proceder para demonstrar seu bem-querer, a partir do que ela traçou para si sobre o que seria esse gesto de amor e de afeto. O desencontro está traçado e o desentendimento está plantado. Por mais que se manifeste carinho, ele não será sentido pelo outro como uma demonstração de amor. "Não sei mais o que fazer, ela(e) nunca está satisfeita(o)". "O que mais você quer de mim?", já ouviram estas frases? Por trás delas está uma carência enorme e impossibilidade de atendimento, pois a pessoa está fechada.

Isso não ocorre apenas nas relações afetivas, mas também nas profissionais. Excelentes e competentes executivos deixam de obter melhores resultados por não saber enxergar aqueles que estão consigo. Todos percebem que há condições para se ir além, mas a conduta do líder, infelizmente, impede. Ele ainda prega a todos a falta de colaboração e compromisso dos demais. Eles também não têm mais o que fazer ou tentar.

Todos temos carências, não há como escapar. Há, sim, a compreensão, a aceitação e a humildade de reconhecê-las e aí sim, saber lidar com elas de forma a que não interfiram em nossas condutas, nossas relações afetivas ou profissionais, sociais, enfim, onde estivermos nos interrelacionando.

Vícios, de todos os tipos, têm muito a ver com as carências. Inclusive e, principalmente, um vício muito pouco abordado, que é o ligado ao sexo, do qual estaremos falando futuramente.

Tudo o que se refere ao comportamento humano, passa pela auto-imagem e auto-estima. Se necessidades significativas não são atendidas ou sentidas como atendidas, elas estarão gerando comportamentos que buscam a compensação, como se fosse possível preencher citada lacuna através dela (da compensação). A auto-afirmação torna-se um mecanismo que, por não existir naturalmente, passa a ser imposta pela pessoa através da cobrança aos demais daquilo que se considera importante e que deva ocorrer para sentir-se firme e "bem". "Bem" entre aspas, pois nunca será suficiente e sempre se farão repetir e cada vez mais estas cobranças e exigências.

Parar para refletir sobre o que se está cobrando, exigindo do outro, é um dos caminhos para identificarmos do que estamos sentindo falta. Qual nossa real necessidade, por que estamos passando provações. Pode doer a resposta, porém nos levará a uma conduta mais natural e nos propiciará um relacionamento mais saudável, mais satisfatório, mais feliz. Sem a carência interferindo, passamos a identificar inúmeros gestos de amor, carinho e consideração por nós. Pensem nisso. 




Paulo Salvio Antolini









14 comentários:

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Texto muito interessante sobre um assunto que a todos diz respeito. Penso assim, porque acho que todos nós sentimos alguma carência, sendo a afectiva a mais difícil de resolver. Há qualquer coisa dentro de nós que nos falta e que não conseguimos identificar e isso impede-nos de nos sentirmos bem, de nos sentirmos felizes. Tem que haver uma reflexão interna, uma meditação profunda para tentarmos descobrir aquilo que nos falta, quando temos consciência de que, ao olharmos à nossa volta não vemos nada que de concreto nos falte. Mas então? Porque razão esta angústia não nos deixa? Pergunta difícil de responder, amiga! Há que tentar encontrar a resposta! Um beijinho e parabéns pelo tema. Até sempre!
Emília

Palavras disse...

Oi Lena,

excelente reflexão!
Dizer que se está carente ficou tão banal que não damos importância para a real carência, que vem das lacunas que deixamos sem preencher!

Abraços

Imac by Artes disse...

Lena querida!
Suas escolhas são ótimas...
Amo ler suas postagens, sempre
leva-me a refletir.
Abraços! Boa noite e um lindo amanhã pra ti.

Cidinha disse...

Olá, Lena. Bom dia! O texto nos mostra claramente o nosso comportamento e é preciso ter aceitação para reconhecer nossas dificuldades, nossa imagem e auto estima.È importante refletirmos sobre isso. òtimo dia pra vc com todo carinho! Bjos.

Liz - Como as Cerejas da Minha Janela... disse...

Refletindo...

Texto muito bacana!! gosto muito de estar por aqui, Lena. Me faz muito bem.

Beijos e um dia lindo!!

Bloguinho da Zizi disse...

Para mim a carência é em primeiro lugar de nós mesmos. Jogamos tudo para os outros esperando que nos complete e cruzamos os braços.
Não nos valorizamos, não trabalhamos o nosso crescimento como ser humano e ser espiritual que somos.
Enquanto houver a necessidade de que o outro me complete,para tapar o buraco da angustia, mais esse buraco aumentará até virar uma depressão profunda, uma síndrome do pânicos e tantas outras doenças modernas.
Tudo por falta de auto-amor.

É assim que sinto.

Beijinhos Lena

Rô... disse...

oi minha querida,

as nossas carências muitas vezes
são confundidas com solidão,
desejo e ansiedade...
estar carente é mais profundo,
é mais sério,
e muito mais complicado,
a carência é responsável pelo desencadear de muitos problemas psiquicos e neurológicos,
tem que ser levada a sério e não banalizada...
como sempre vir aqui é ler para refletir...

beijinhos

mfc disse...

A carência, qualquer que ela seja, dá-nos uma sensação de desconforto e de fragilidade.

AquilesMarchel disse...

li o texto todo e em vez de pegar partes aqui eu digo
sou carente profissiional como diria cazuza
de afeto
de amor
por mais q eu tenha parece sempre q ta faltando e isso oprime o outro

Leninha disse...

Lena querida,

Todos nós,em algum momento de nossa vida,sentimos algum tipo de carência...reflexos de algo perdido e não recuperado na infância.

Muito boa a sua escolha e muito adequada a imagem,como sempre,aliás.

Bjsssss,
Leninha

Toninhobira disse...

Pois Lena uma coisa não está umbilicalmente ligada.A carencia aqui bem refletida é talvez muito dificil de compreensão para pobres mortais,por isso as vezes só mesmo com auxilio de especialistas para esta cura.Assim a carencia dói amiga.Este texto é muito fundo e há que ser relido.
Saudade daqui.
Meu abraço carinhoso e parabens por esta belissima escolha.
Bju.

Poesias Partidas disse...

Muito bom o seu texto Lena, como sempre afinal. A carência é uma doença que afeta muitas pessoas, vive ao lado da solidão. O amor tem que ser cultivado e quem sabe diminui esse sentimento. Parabéns pelo texto e um ótimo final de semana.

Marcos Alderico

Ingrid disse...

nem me fale disso amiga... :(
mas..
lindo post sempre...
beijos de carinho..

LUCONI disse...

Querida Lena saudosa de ti e destas belas postagens, menina que texto você colocou, muito bom, excelente para refletirmos, obrigada por compartilhar sempre, beijos Luconi