26 de dezembro de 2011

Para sempre perdido, para sempre guardado



 
Na minha família, no tempo que eu era menino, o Natal era comemorado só no dia 25 de dezembro mesmo, nada de véspera, por um motivo simples: pai, avô e tios trabalhavam até as seis da tarde do dia 24, no Mercado Municipal de São Paulo. No próprio dia de Natal, a jornada se estendia até o meio dia. Por isso, não havia a ceia, só o almoço. A família não trocava presentes. Recebê-los era exclusividade das crianças. O almoço, feito sob a direção da minha avó, era extraordinário. O prato nobre era o pernil com batatas ao forno. Uma iguaria. Houve um ano em que se comeu cabrito, comprado vivo em sociedade com os vizinhos e dividido escrupulosamente em dois depois de preparado.

Nos dias anteriores, eu levava o cabrito para pastar em alguns terrenos próximos. Afeiçoei-me a ele. O pior é que eu presenciei o seu sacrifício em nome da festa, perpetrado por Luigi, o chefe de família da casa ao lado. Eu não entendia como um homem tão bom, que também vendia frutas no mercado, podia cometer, com absoluta naturalidade e expertise, o que, aos olhos de uma criança, parecia um crime. Na hora, chorei e protestei. No almoço, não só não comi como armei um escândalo. Eu estava acostumado a ver minha avó puxar o pescoço de frangos, que depois eram fervidos e depenados, exalando um cheiro inesquecivelmente horroroso. Não gostava do espetáculo, embora o suportasse. Mas o cabrito… Desde os tempos ancestrais os homens não misturam os animais domésticos com suas necessidades de proteína animal. É uma sabedoria.

As bebidas eram vinho de São Roque, cerveja e guaraná. Não havia nenhuma proibição para que crianças bebessem, mas essa franquia não era exercida. As mulheres tomavam malzbier, uma cerveja preta com pouco álcool e muito doce. Na sobremesa, destacavam-se as uvas, maçãs e peras, vindas da Argentina. Iguarias que só apareciam no Natal, pois eram muito caras.

Depois do almoço havia duas atividades sequenciais, começando pela música. Um de meus tios tinha uma vitrola com microfone, uma preciosa raridade. Os homens não tinham pendores artísticos, com exceção do meu avô, que tocava violão e cantava o stornello calabrês, incompreensível para muitos, mas o que contava era o ritmo. Ensaiava também umas tarantelas, e todos dançavam. Eu era escalado para cantar La strada del bosco e Mamma, que fazia meu pai chorar, pois sua mãe estava na Itália. Tinha também as músicas brasileiras, as mais animadas, de Carnaval.

A estrela era minha tia Theresa, que falava italiano melhor que seu pai, que era calabrês, e espanhol melhor que sua mãe, argentina. Cantava maravilhosamente Una sera di maggio e Adiós, pampa mia, que emocionava minha avó, que nunca mais tinha voltado a seu país por falta de dinheiro. Muitos anos depois de sua morte, descobrimos outra razão: na Argentina, quando conhecera o meu avô, que para lá migrara da Itália, ela era casada com outro homem, mas os dois se apaixonaram e, literalmente, fugiram para o Brasil. Diga-se que meu avô não sabia ler e escrever e jamais falou português, e sim uma mistura do nosso idioma com o calabrês e o castelhano portenho, que aprendera durante a aventura em Buenos Aires.

Ainda durante a cantoria, os homens iam se afastando para jogar cartas. A tensão rapidamente dominava o ambiente feminino. Havia o receio de que, na mesa enfumaçada pelos cigarros, os homens brigassem como culminação dos gritos, blasfêmias e discussões enquanto se dedicavam ao tresette (três setes), um jogo de cartas que nunca consegui aprender. Para mim, aquilo era incompreensível: como podiam exaltar-se tanto por causa de umas cartas, num ambiente sufocado pela fumaça branca dos cigarros e o cheiro das cinzas abundantes? E tudo aquilo num dia santo, como o Natal?

Mas tudo voltava à normalidade quando era servido o lanche, com a comida do almoço requentada — e ainda mais saborosa. As mulheres começavam, então, a lavar e arrumar a casa, e os homens já se preparavam para dormir. No dia seguinte, começavam no batente às seis da manhã.

Os Natais, hoje, os meus e os de muita gente, talvez sejam até muito diferentes… Ocorre que o olhar da criança fica congelado no tempo e compõe a nossa teia de afetos. O que está irremediavelmente perdido também está, na memória, irremediavelmente guardado.



José Serra
 
 
 
 
 

13 comentários:

mfc disse...

A nossa memória é um cofre forte de que só nós temos a chave!

Ivana disse...

Lena,
O Natal do Serra me fez lembrar de todos os anos que eu passei o Natal na casa da minha avó. Todos os familiares se reuniam na casa dela, e quando os homens sentavam para jogar carta, realmente rolava uma tensão, tudo podia acontecer. Mas todos foram maravilhosos, e durou enquanto ela estava viva, depois não nos reunimos mais na casa dela. Muito bom, feliz 2012, um abraço, com afeto.

Produção Sem Roteiro disse...

Com o passar do tempo muitas tradições são deixadas para trás, coisas simples, mais de grande valor no passado, hoje foram dispensadas, para dar lugar as parafernalhas eletrônicas, mas que não vivemos sem! As pessoas dos séculos passados viviam com tão pouca tecnologia, e eram felizes, existia mais contato, mais social, mais amor !

Beijos

marlene disse...

querida amiga que texto tão lindo como fica guardadas no nosso pensamento e coração as doces e lindas lembranças das coisas que nos fizeram felizes na infancia,
guardadas para sempre inesqueciveis
são reliquias da vida,que sempre nos acompanharão um grande abraço tenha uma ótima semana bjs marlene

O Profeta disse...

Tão calmamente corre esta viagem
A terra anda devido ao amor
O que é isso de amar com amor?
O que é isso de o perder sem dor?

O que é isso de acreditar
Às vezes Deus carrega ao colo um justo
Às vezes uma reza acende o Sol a meio da noite
Às vezes duvido acreditando a custo

Abracei o mundo este natal
Lembrei passados desvanecidos
Senti aromas que pensei perdidos
Senti que a vida me infligiu mil castigos

Senti que a solidão era a porta para a razão
Que era uma criatura sem grande importância
Senti que ainda não tinha traçado todos os rumos
Que não há longe perto da distância

Bel Rech disse...

Muito bacana esse relato de José Serra.Assim é a vida...
Paz e bem

Gisa disse...

Memórias que nos acompanham porque em algum momento nos questionaram.
Um grande bj querida amiga e um lindo 2012 para ti!

Meire Oliveira disse...

Lenita linda, verdade seja dita, os Natais mais lindos e doces são os da nossa infância. Depois que a gente cresce nostalgiamos bastante os Natais deliciosos que passamos, mas nem por isso a magia se perde, afinal a criança que fomos mora bem dentro de nós.

hoje vim aqui deixar meu último comment do ano e fiz meu último post tbm, como vc já sabe tô saindo de viagem domani, mas não podia ir sem deixar meu carinho aqui pra ti e agradecer pela sua amizade no decorrer de 2011. :)

Fofura, esse ano vc foi um dos super presentes que Deus me deu. Minha querida irmã de alma, mãe de coração, amiga, Estrela,...ah o título num importa tanto, afinal nessa vida o que une as pessoas é o sentimento que é o que permanece lá, Além das Nuvens. Perto ou longe de mim, saiba que torço demais pelo seu sucesso, paz e harmonia do seu coraçãozinho que desperta tanta coisa boa no meu. Saiba que tenho um respeito enorme por vc e o que quer que vc faça vc terá sempre meu apoio incondicional, mesmo que eu pense diferente. E que, tbm, como sempre fui, sempre serei sincera contigo.
Nunca que eu ía imaginar na minha vida que eu iria conseguir escrever poesia, e isso embora vc diga que não, é culpa sua! Pode xingar!!! rsrs
Adoro seus bloguitos que tem toda sua energia, nos textos, nas imagens, na lateral, em tudo o que todos que vem aqui gostam taaaaaaaanto :)

Essa poesia num é minha, mas traduz exatamente o que vc representa no meu coração de melão:

Algumas ternuras crescem
dentro da gente assim
como crescem os lírios lá nos campos.
Quando menos se espera
já ocupou tanto, tanto.

Algumas ternuras tem o dom
de despertar em nós doçuras adormecidas...

... Cheiram a brisa
numa manhã primaveril
Tem o sabor da lua em noite
estrelada e são livres como asas
de borboletas.

Arnalda Rabelo

Que Deus ilumine cada passo que vc der em 2012, que te proteja de todo e qualquer mal.
Desculpa, ficou enorrrrrrrrme o comment, aff!
te amo muitão!
beijokitas mil.

Toninhobira disse...

Gostei Lena inclusive coincidentemente hoje postei sobre esta saudade em forma de lembranças,que teimam em me visitar aqui tão distante de todas as tradições.
Boa escolha amiga.
Uma bela semana a voce com toda paz junto da familia,nesta semana em que renovo meu carinho à sua pagina e pessoa e que possamos prosseguir nesta sintonia no Novo Ano,que desejo lhe seja o mais confortavel para seu coração.
Um abraço carinhoso.
Bju de luz nos seus dias de alegria com a familia.

Severa Cabral(escritora) disse...

Hoje venho agradecer a sua presença no meu blog que fez irradiar os comentários de calor humano...sentido pela alma que transporta amor e carinho sempre.Te quero em 2012 com o mesmo sabor que me dedicastes esse ano,para que eu possa continuar a sorrir...
Bjsssssssssssssssssss

Mara Melinni disse...

Lena...

Deixo aqui o meu abraço (atrasado) de Natal e um outro (em tempo) que deseja ao seu Ano Novo muita saúde, paz, persistência, amor e harmonia todos os dias!
Seo blog continua gracioso...!

Com todo o meuu carinho e admiração!

=****

Rô... disse...

oi Lena querida,

a nossa infância sempre nos trás
doces lembranças,
acho que talvez seja por isso que adoro crianças,
elas me remetem a um tempo que felicidade era qualquer simples gesto,
e hoje tudo se tornou tão automatizado,
mecânico e obrigatório...
prefiro a espontaneidade
das crianças,
o seu olhar sincero,
o seu sorriso verdadeiro,
o abraço afetuoso...
lindo texto,
verdadeiro e
nostálgico...

beijinhos

Ricardo Miñana disse...

Hola Lena que pases unas felices fiestas y feliz año 2012.
un abrazo.