14 de julho de 2012

Saber se consultar



É fato: somos seres interdependentes. Afinal, estamos invariavelmente ligados uns aos outros, ao ambiente e a todos os seres vivos. No entanto, não podemos confundir este estado interdependente com o de manter-se dependente.Somos dependentes quando estamos sujeitos aos comando alheios sem que tenhamos a liberdade de nos consultar quanto as nossas escolhas, desejos e necessidades. Mas, para tanto, precisamos primeiro reconhecê-los! 

O problema é que em geral passamos tempo demais nos adequando aos outros socialmente que nem percebemos que nossos sentimentos genuínos muitas vezes não são expressos coerentemente. 

Por exemplo, quando dizemos o que não sentimos, concordamos quando ainda estamos em dúvida ou nos calamos quando temos muita necessidade de falar, perdemos a capacidade de validar nossas emoções a partir de quem somos verdadeiramente. Como resultado, facilmente nos sentimos insuficientes seja para atender as demandas alheias, seja para nos sentir em paz internamente. 

Saber se consultar de modo honesto é a base de todo bom relacionamento. Acolher a si mesmo, é um treino de autossustentação. A honestidade gera um senso de realidade no qual criamos um referencial seguro para comunicarmos o que de fato estamos sentindo. Agrade ou não ao outro escutar o que temos a dizer. 

Na medida em que praticamos tal honestidade, tornamo-nos autênticos, ganhamos força de expressão e autoridade em nossos posicionamentos. Saber dizer a nós mesmos: “Eu de mim sei” é um modo de despertarmos a autoconsciência. Na medida em que aprendemos a nos consultar não ultrapassamos mais nossos limites cedendo às imposições alheias. 

Cabe ressaltar, que saber de si não significa nos apegarmos a uma ideia fixa sobre nós mesmos, mas, sim, não ter medo de nos consultar . Quando cultivamos um estado de honestidade e abertura para conosco temos a coragem de sentir até mesmo o que não sabemos denominar. 

Saber se consultar é desobrigar-se da necessidade de saber de si o tempo todo. Uma vez que sabemos que podemos nos consultar, não precisamos mais nos garantir incessantemente. O ponto é que quanto melhor reconhecermos nossas próprias emoções, menos nos sujeitamos cegamente às vontades alheias. Em outras palavras, quanto mais conhecemos nossos recursos e fragilidades, menos atribuímos ao outro a responsabilidade de cuidar deles. 

Por exemplo, uma coisa é reconhecermos nossa dependência em relação a alguém e nos sentirmos imobilizados, sem saída, outra coisa é nos sintonizarmos com nossa vulnerabilidade e fazermos algo a respeito dela. 

Emoções desagradáveis, como a de sentir o medo de ser abandonado por quem nos consideramos dependentes indicam que ainda temos algo a saber sobre nós mesmos que ainda não exploramos. Conhecer melhor a própria vulnerabilidade já é em si um modo de se fortalecer. 

Outra questão importante é não confundir o ato de se consultar internamente com o de desconectar-se dos outros. Consultar nossas bases não quer dizer evitar o outro, a ponto de sentir: “Não preciso de ninguém”. Mas, sim, de saber estabelecer limites saudáveis no quais podemos nos dizer com clareza: “Eu sou eu, você é você”. 

Ser dependente é contar com os outros “trabalhando” por nós, assumindo nossas responsabilidades. Enquanto que, ser demasiadamente independente é preferir ficar sem satisfazer nossos desejos, como o de estar com o outro, em prol de sentir-se vulnerável diante dele. Neste sentido, buscamos uma certa autonomia emocional como um modo de evitar entrar em contato com a sensação de carência que surge ao se relacionar com o outro. 

O paradoxo do relacionamento é que ele nos obriga a sermos nós mesmos, expressando-nos sem hesitação e assumindo uma posição. Ao mesmo tempo, exige que abandonemos todas as posições fixas, bem como nosso apego a elas. O desapego em um relacionamento não significa que não tenhamos necessidades ou que não prestemos atenção a elas. Se ignoramos ou negamos nossas necessidades, cortamos uma parte importante de nós mesmos e teremos menos a oferecer ao parceiro. O desapego em seu melhor sentido significa não se identificar com as carências nem com as preferências e aversões. Reconhecemos sua existência, mas permanecemos em contato como nosso eu maior, onde as necessidades não nos dominam. A partir desta perspectiva, podemos escolher afirmar nosso desejo ou abandoná-lo, de acordo com as necessidades do momento. 

Não é fácil assumir a responsabilidade por nosso próprio destino, assim como é doloroso manter-se dependente. De maneira geral, existem dois tipos de pais: aqueles que estimulam as crianças a se tornarem “pequenos adultos” transmitindo-as a mensagem subliminar “Seja autônomo, apressa-te a crescer” e aqueles que retardam seu crescimento educando-as a se sujeitar e se submeter a vontade deles: “Enquanto você fizer o que eu digo poderá contar com a minha proteção”. Ambas opções deixam suas marcas. Cabe a cada um reconhecê-las e fazer algo por si para transforma-las. 

Neste sentido, quanto mais assumirmos o controle da resolução de nossos próprios problemas e com sábia abertura de receber o apoio necessário, mais desenvolvemos a motivação interna necessária para nos tornarmos adultos confiantes e participativos. 

Bel Cesar

5 comentários:

Odair Ribeiro disse...

Sem querer discordar,mas apenas opinando, nessas questões de autoconhecimento, autorrealização é meio que ilusório. Penso que somos como falaste no início, interdependentes em todos os campos do saber, do viver. Defendo o pensamento de que não existe autoeducação, autorrealização. E sim somente a alo-educação, a alo-realização. Para mim livre-arbítrio e tal liberdade não existem.

Foi muito proveitoso o teu texto. Me fez pensar.

abraço, volto.

manuel marques Arroz disse...

Texto muito interessante.

Beijo.

Denise disse...

Lena, esse texto é ótimo. É uma parte nossa q necessitamos desvendar, ser independente, sem ser dissociada. As relações sociais são importantes, mas não ao ponto de comandar-nos. Muita paz!

Sandra Portugal disse...

Amiga você tem a sabedoria de escolher os textos certos para cada um dos males da atualidade.
Na ultima quinta-feira estive com duas amigas de trabalho debatendo exatamente esse tema, não com tanta magnitude, mas levando um pouco da minha vivência de 53 anos de idade e 26 de casamento, para as meninas de 30 e poucos anos e menos de 10 anos de casamento a lidar com algumas desilusoes da vida.
Vou recomendar a leitura do seu blog, é claro!
bjs de quem muito te admira!
Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com.br//

Lamarque Bezerra disse...

lena muito bom seu espaço. gostei. ja estou seguindo. texto lindo. bom final de semana. ja estou seguindo - abraços lamarque