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17 de dezembro de 2012

Dezembro...




Por mim, dezembro seria eliminado do calendário. Depois do 30 de novembro, a gente saltaria direto para 1º de janeiro e já começaria a pensar no carnaval. Não que novembro também não esteja se tornando um mês irritante, com as comemorações de Halloween e da Black Friday incorporando-se às tradições brasileiras. Mas, enquanto a gente não festejar o Thanksgiven, acho que dá para aguentar. Dezembro é que é puxado. 

Gosto de Natal e Ano Novo, aprecio rabanadas e roupas brancas. Meu problema é com o corre-corre que antecede essas datas. Por mais que eu me organize, em dezembro sempre tenho a sensação de estar atrasado, de estar devendo alguma coisa, de não estar cumprindo metas. Dezembro, definitivamente, não dá tempo. 

Sei que o mês tem suas vantagens. É quando recebemos o 13º salário, por exemplo. Mas antes de eu comemorar a chegada deste suplemento salarial à minha conta bancária, eu me lembro que os meus empregados também têm que receber o salário extra. E aí começam a chegar os pedidos de caixinha para porteiros, entregadores de jornal, funcionários que medem a luz, entregadores de revista, lixeiros... Antes de pensar seriamente em pedir uma caixinha para meus leitores, tenho que comprar presentes para os parentes, para os amigos, para os colegas... Quando o mês acaba, meu saldo está negativo. Ou estou com o saldo negativado, como se diz agora nas propagandas de TV que prometem dinheiro fácil para ingênuos que não sabem fazer contas. 

Finanças à parte, dezembro me oprime com as festas de confraternização. Fujo das que contam com minha participação. Mas não consigo fugir das dos outros. Dezembro, portanto, não é mês para se jantar ou almoçar fora. Sempre haverá um grupo de telefonistas ou de escriturários ou de jornalistas comemorando na mesa ao lado. É mês de shopping lotado. Esse obstáculo é fácil de superar. Basta não ir a shoppings por um mês. Não chega a ser um grande sacrifício. O problema é que o corre-corre característico da temporada, a sensação de estar sempre atrasado, o acúmulo de tarefas acabam adiando o momento de fazer as compras de Natal. Aos 45 minutos do segundo tempo, não tem jeito: vai-se ao shopping. É sofrimento na certa, mas como evitá-lo? 

E chega o verão. Gosto de verão em tese, ou seja, antes de ele se fazer presente. Meu conceito de casa ideal é aquela com lareira na sala e um armário cheio de edredrons. Mas, como carioca da gema, sonho com o verão. Até começar a suar exageradamente, usar bonés para não queimar a careca e ver a conta de luz chegar a níveis astronômicos por excesso de uso do ar condicionado. E a estação começa justamente em dezembro, como se o mês já não tivesse esgotado sua cota de itens desagradáveis (não vou nem comentar a árvore da Lagoa). 

Em dezembro, há mais carros na rua e, consequentemente, mais congestionamentos. É quando a televisão tira do arquivo toda a sua coleção de filmes bíblicos. É quando o “Jornal Nacional” produz mil e uma matérias sobre a solidariedade que fazem chorar tudo que não chorei o ano inteiro. É quando os supermercados gritam ofertas de bacalhau e de vinhos com desconto. É mês de amigo oculto! Quem inventou o amigo oculto? 

O bom de dezembro é que, como os outros meses do ano, ele, mais cedo ou mais tarde, acaba. Sempre acho que é mais tarde. Penso que não sobreviverei a ele. Já cumpri 1/2 do sacrifício deste ano. Até agora, tudo bem. Mas torço para janeiro do ano que vem chegar logo." 



Arthur Xexeu


25 de dezembro de 2011

Nascidos em dezembro



A jovem grávida tinha medo de que seu filho nascesse na noite de Natal. O médico havia previsto que a criança nasceria entre 20 e 30 de dezembro, no mais tardar, 2 de janeiro. Desde a última avaliação de data ela vinha tecendo fantasias. Brincava, ria quando falava disso com as amigas, mas ao verbalizar punha para fora seus receios:

— Já imaginou se a criaturinha resolve nascer na noite de Natal, na hora da ceia?

As amigas diziam que ela sossegasse, seria muita coincidência ele embicar logo no dia 24, “relaxa”, “desencana”, mas se acontecesse, qual o problema?

— Já imaginou? Hospital em noite de Natal?

— Ué, normal.

— Normal! Helooo! Com que disposição você acha que as pessoas trabalham na noite de Natal? Pessoal lá fora comemorando, maior amigo oculto, dando risada, tomando um vinho com o love, e elas lá de branquinho medindo xixi de paciente! Vão ter ódio de mim e do meu filho.

Riam junto com ela daqueles medos, e quanto mais perto chegavam do período provável, mais ela falava naquilo. Fazia questão de parto normal, nada de cortes na sua barriga. O marido apoiava, dizia que a escolha era dela, mas achava bom esse negócio de não cortar. Nem era pela estética da barriga, tinha horror de cirurgia.

Tudo era argumento para ela. Teatralizava:

— Não, não, não, não, não! Meu bebê não vai fazer isso comigo! Sabe que a Mariana, minha amiga, entrou em trabalho de parto no dia 29 de dezembro? O médico estava no Guarujá, maior descansadão! E ela teve dificuldades, correu perigo feio, a pressão foi a quatro. A máxima!

Que nada, não vai acontecer com você, relaxa, desencana, diziam.

E ela, cômica:

— Já imaginou meu filhinho nascendo com aquela barulhada de Natal? O foguetório! Os sustos que ele vai levar, bum!, bum!, depois de passar esse tempo todo no silêncio gostosinho do meu barrigão?

Riam junto. E ela:

— Agora imagina essa: e se o médico sai correndo da mesa da ceia e solta aquele bafo de vinho na cara do meu baby? Tadinho, mal nasceu e já encara um arroto de farofa! E outra: e se houver uma emergência e o anestesista vier correndo vestido de Papai Noel? Não tiver tempo nem de tirar a fantasia?

Gostavam do jeito daquela amiga loquaz, capaz de transformar medos em comédia, mas lembraram a ela que, se não queria filho no final de dezembro, tivesse pensado nisso na hora de engravidar. E ela:

— Na hora a gente não pensa. Ninguém pensa quarenta semanas para frente na hora de transar.

Nas conversas de sala de espera de consultório ela soube que várias grávidas de dezembro tinham preocupações. Por exemplo, os filhos nascidos no fim do ano não gostavam de fazer aniversário perto do Natal, porque perdiam a festinha com os colegas e, lógico, dezenas de presentes. Ou ganhavam da parentada um só presente valendo por dois. Nos casos de parto de fim de ano, a própria festa familiar do Natal era atropelada pela agitação do nascimento. Ficou sabendo que a maioria das mães antecipava a cesárea.

— Nem pensar em cesárea! — ela se manteve decidida. — Vai nascer bonitinho, parto normal, e é antes do dia 20.

Não foi. O dia 20 passou, passou o 21, chegou o 24, e assim que ela se sentou à mesa para a ceia sentiu a primeira contração. O bebê bagunçou a ceia, a entrega dos presentes de amigo oculto, a sequência de brindes espumantes, a festa das crianças, e nasceu saudável e forte às 2 e pouco da madrugada. De cesariana. Deu tudo errado, mas deu tudo certo.
 

Ivan Angel