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9 de julho de 2011

É no corpo ou na alma?



Quando o famoso médico e filósofo Avicena (980-1037) viajou a Jurjan trouxeram-lhe um rapaz acometido de um mal que nenhum médico conseguira diagnosticar nem curar.

Avicena então pediu para um dos membros da tribo citar o nome das localidades vizinhas e notou que, ao ser mencionado o de determinada localidade, o pulso do paciente sofria uma variação. Quis que o homem falasse o nome das famílias desse lugar e, do mesmo modo, ao citar o nome de certa família o coração do rapaz novamente se alterava. Pediu então que falasse o nome das pessoas daquela família e percebeu que ao ser citado o nome de uma atraente moça dessa família, a variação do pulso se intensificava.

A inabilidade de demonstrar seu amor havia provocado naquele rapaz uma enfermidade psicossomática. O diagnóstico de Avicena antecipou em mil anos o estudo psicológico e a comprovação das doenças psicossomáticas.

Mas o que fazer se não somos blindados à prova de toda e qualquer emoção? Se não somos responsáveis pela história geracional (aquelas histórias que todos dizem e até os segredos de família que não são comentados) de nossa família?

A resposta é simples: basta nos apropriarmos de nossas emoções, colocando-as na nossa vida na medida exata de nossos limites.

Mas a complexidade está justamente aí, no manejo dessa percepção, já que nossas vidas habituadas a negar dores, frustrações e crises, ou noutro extremo fazer com que justamente as dores e sofrimentos sejam a mola propulsora e o verdadeiro sentido da vida.

Por isso é muito importante termos uma visão clara e realista de nossos limites e, para que isso ocorra, é importante nos vermos com todas as nossas potencialidades sem falsas ilusões de superação e vitimização, valores geralmente agregados na personalidade, quando se vive sem se apropriar de sua própria história, mas deixando-se levar por influências ou cobranças do meio, da sociedade e da família.

A lágrima que sai dos olhos na hora da separação, o grito de dor que os lábios se permitem dar são, na realidade, a expressão totalmente preventiva das doenças físicas.

Deve ser aborrecido ler essas linhas que colocam no colo do doente a “culpa pela doença”, mas na verdade apenas chamo a atenção porque através de seu simbolismo os sintomas têm a capacidade de nos mostrar em que consistem nossos problemas e termos essa leitura nos dá a chance de transformar essa doença numa grande oportunidade de rever conceitos e transformar a vida para melhor.

Outra vertente muito importante das doenças psicossomáticas é a questão do perdão, no sentido da própria libertação da dor de carregar o ódio, a angústia ou a frustração, devolvendo ou tirando de nossas vidas faltas e culpas as quais por ventura nos sentimos injustamente depositários.

O coração agradece ou quem sabe a gastrite, e porque não a tão atual fibromialgia?


Márcia Atik


Carole King - It's Too Late



5 de fevereiro de 2011

Medo do mundo




Suores, tremores, sensações de branco, taquicardia e falta de ar. Quem sofre de fobia social conhece muito bem esses sintomas. Frequentemente confundida com a timidez, ela é grave e especialistas acreditam que possui origem genética. A fobia social, ao contrário da síndrome do pânico, atinge mais homens do que mulheres. A boa notícia é que para esses problemas, também há tratamento. Em geral, uma combinação de medicamentos e psicoterapia. 

Existem três tipos principais de fobias: a agorafobia, que é o medo de ficar sozinho, de lugares dos quais a pessoa não possa sair caso tenha uma crise de ansiedade (túneis, shoppings, teatro, avião, elevador, de lugares muito amplos); a fobia social, caracterizada por sintomas de ansiedade em contato com pessoas estranhas, especialmente quando o paciente tem que fazer alguma coisa na frente dos outros, como comer, segurar um copo, assinar cheques, tomar um cafezinho, digitar no computador; e as fobias específicas, aquelas em que a pessoa evita o contato com determinados objetos ou situações. 

O paciente que sofre de fobia social frequentemente tem graus muito importantes de incapacitação em diferentes áreas da vida: trabalho, convivência familiar, para não falar da vida social que se torna impossível. As fobias impossibilitam o convívio social 

Ela se manifesta muito cedo, na infância, e torna-se mais evidente no início da vida adulta quando os contatos com os outros ficam cada vez mais obrigatórios. Na infância é uma criança que não consegue falar na frente da turma, que evita convites para dormir na casa de amigos, que evita brincar no playground do prédio. 

A maioria das pessoas demora a perceber que sofre do problema. Além disso, só recentemente ela passou a ser mais divulgada e é comum as pessoas confundirem a timidez com os sintomas da denominada fobia social. 

Timidez é uma "maneira de ser", uma característica de personalidade. A pessoa não gosta de contatos com estranhos, de grandes grupos, de grandes reuniões, prefere poucos amigos, círculos menores, é mais recatada, fala pouco, é mais introspectiva, mais introvertida. O tímido não sofre de sintomas e não é incapacitado pela sua maneira de ser. Há inclusive pessoas notoriamente tímidas que são atores, cantores ou músicos, e capazes de ter ótimos desempenhos na frente de grandes públicos. O tímido assina cheques na frente dos outros, realiza tarefas observado pelos outros, sem sintomas de ansiedade. 

Fobia social (que agora passou a ser chamada de Transtorno de Ansiedade Social, segundo a Associação Americana de Psiquiatria) é uma doença. A pessoa sofre de sintomas físicos e mentais de ansiedade quando entra em contato com estranhos (sudorese, tremores, coração disparado, "branco na cabeça", tonteira, sensação de que vai desmaiar), principalmente quando tem que realizar algo na frente dos outros. O paciente não consegue, por causa dos sintomas de ansiedade, realizar atos simples como assinar um cheque ou levar o garfo até a boca, na presença de estranhos. 

Este quadro é completamente diferente da timidez. O paciente que sofre de da doença fica incapacitado, às vezes em graus extremos (um paciente nosso que não foi ao casamento da única filha). O "fóbico social" é incapaz de falar em público, mesmo para pequenos grupos. 

O termo social não é o ideal. O que ocorre com o paciente é que ele tem sintomas físicos e mentais na presença dos outros, principalmente estranhos, em qualquer tipo de situação, não necessariamente situações sociais.



Marcio Versiani, professor de Psiquiatria e Coordenador do Programa de Ansiedade e Depressão do Instituto de Psiquiatria da UFRJ

21 de janeiro de 2011

Qual a sua mania?


Criptomania, dacnomania, sofomania, farmacomania. Se os nomes são estranhos, as manias que eles significam são ainda mais. Roer unha, bater a porta do carro e beber água antes de sair de casa são hábitos normais se comparados com quem costuma morder os outros ou sair por aí pedindo pessoas em casamento. De perto, ninguém parece mesmo normal. Se você só costuma bater na madeira, relaxe. As manias podem até se transformar em doença, mas podem ser apenas um forte indicador de caráter.

Para a Psiquiatria, mania é um distúrbio mental caracterizado por uma exaltação de humor. Quando um médico diz que o paciente está em mania, significa que ele está em um surto de euforia, o que o senso comum considera esquisitice e comportamento compulsivo. A diferença entre essas duas ideias está na intensidade com que a pessoa se sente ‘obrigada’ a adotar a atitude.

Tem gente com mania de ir ao banheiro logo depois de escovar os dentes. Outros bebem água a toda hora, mesmo sem estar com sede nenhuma. Evitar pisar em rachaduras, entrar em lugares com o pé direito ou viver apalpando os bolsos para ter certeza de que nada caiu. Essas características muitas vezes não são notadas, mas ajudam a definir a personalidade e podem afetar quem estiver por perto. Vale lembrar que muitos dos costumes considerados manias não são problemas psicológicos. Quem tem mania de bater na madeira para afastar uma ideia ruim, por exemplo, não é doente, apenas supersticioso.

Mas é preciso cuidar da mania antes de perder o controle. Quando o hábito deixa de ser apenas uma característica e começa a atrapalhar os afazeres, ele pode estar se transformando em uma doença chamada Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso TOC. A doença deixa a pessoa obcecada por coisas que não têm a ver com a situação em que ela está e, por isso, faz com que ela repita compulsivamente certos atos na esperança de prevenir que algo ruim aconteça.

Tem manias que são mais comuns do que parecem e, por isso, ganharam até nomes (tão estranhos quanto elas). Quem nunca ouviu falar da ninfomania, que é a mania de fazer sexo, ou da cleptomania, que leva a cometer pequenos furtos? Existem também outras com nomes e características ainda mais estranhos. A fagomania é uma vontade imensa de estar sempre comendo. A farmacomania é a mania de tomar remédios ou indicá-los a outras pessoas. Quem tem mania de dançar é coreomaníaco.

Manias também são informativas. Quando se nota uma mania em alguém, é possível tirar algumas conclusões sobre sua personalidade. Por exemplo, um sofomaníaco, que vive se passando por sábio, passa a imagem de alguém que gosta de se exibir. Já um acribomaníaco, que tem mania de arrumação, imediatamente dá a impressão de ser organizado, metódico e sempre em dia com suas tarefas.

Embora esses hábitos esquisitos possam afetar qualquer pessoa, os mais velhos sofrem preconceito. Se um jovem tem a mania, não é perseguido por causa dela. É importante respeitar as manias alheias, afinal, todos têm as suas. Essas características moldam a personalidade e dão um toque divertido às diferenças.

Filipe de Paiva