14 de julho de 2010

Por detrás do véu

Aqui ou no Irã, a fofoca entre as mulheres é universal. É este o delicioso tom que rege "Bordados" (Companhia das Letras, 136 páginas), história em quadrinhos de Marjane Satrapi, famosa pela série autobiográfica "Persépolis", que há três anos virou filme. Os almoços de família na casa da avó da jovem Marjane, em Teerã, terminavam sempre com o mesmo ritual: enquanto os homens iam fazer a sesta, as mulheres lavavam a louça. Logo depois, começava uma sessão cujo acesso só era permitido a elas, o "bordado", tema deste que é o terceiro livro de Marjane Satrapi.

É nesse momento do "samovar", do chá após as refeições do almoço e à noitinha, que as mulheres se sentam, e neste momento, desde a avó até a Marjane contam causos e discutem suas experiências amorosas. Esses relatos são bastante apimentados, o que surpreende se considerar os estereótipos de recato da mulher do Irã. O grupo é uma amostra de mulheres com moral e experiência bastante variadas, mas sempre às voltas com o machismo e a tradição, sobretudo depois da Revolução Islâmica de 1979.

O "bordado" iraniano seria equivalente ao brasileiríssimo "tricô", não fosse uma acepção bastante particular: a expressão designa também a cirurgia de reconstituição do hímen, uma decisão pragmática para as mulheres que não abrem mão de ter vida sexual antes do casamento, mas sabem que precisam corresponder às expectativas das forças moralistas do país.

As conversas revelam, ainda, a evolução do papel feminino naquele país. Apesar do rigor religioso, as mulheres buscam o amor em suas vidas e a emancipação sexual, ainda que às escondidas, sem abandonarem uma chance de serem felizes, ainda que muitas vezes enfrentem frustrações.

A história só ganha em riqueza com seu formato, que não faz uso de quadros, mas constrói um texto solto - em fonte que imita a letra de mão - e os desenhos característicos de Marjane espalhados pelas páginas.

Bom de ler em uma sentada! 



Fonte

Um comentário:

Maria José disse...

Lena. Adoro conhecer essa cultura tão estranha à nossa, mas que tem sua riqueza e peculiaridades. Esse blog é pura cultura. Beijos, amiga.