6 de outubro de 2010

A (difícil) lua-de-mel pós-filhos




“Você mentiu para mim! Você disse que eu ia chorar no avião, mas eu chorei no táxi!”. Isso aí foi o desabafo bem-humorado de uma amiga que estava me contando sobre a experiência de ter passado uma semana a sós, com o marido, em viagem, desde que o primeiro filho do casal nasceu. O bebê ia completar um ano quando eles deram uma fugidinha para Nova York. Chique, né? Eu diria, também, necessário.


Não é preciso ser pai e mãe para saber que a vida do casal não pode ser negligenciada depois dos filhos, mas é preciso ser pai e mãe para saber, na prática, o quanto é difícil deixar os pequeninos para trás, por poucos dias que seja.


É difícil por causa da logística. Quem cuidará dele ou deles, se for mais de um? É difícil por causa da preocupação que nos assola. Acredito, sem nenhuma referência científica para enfiar aqui, que pais e mães de crianças pequenas têm mais medo de morrer do que a média dos mortais. Difícil por causa da saudade, do remorso de se achar egoísta, da vontade simplesmente de ficar junto o tempo todo.


Na primeira (e até agora) única vez que fiz isso, chorei no avião. Não era a primeira vez que eu viajava e dormia longe dela (que já ia fazer 3 anos), porque o trabalho já tinha exigido isso de mim, mas era nossa primeira lua-de-mel pós-filhos. Chegando lá, relaxei e tratei de aproveitar. Afinal, não só era minha primeira viagem a sós com ele depois do nascimento da primeira filha. Era também minha estréia em Nova York, e esse tipo de oportunidade não se desperdiça (aqui rolou uma coincidência, ok? Isso não é um post para dizer que, se você quer ficar a sós com seu/sua companheiro/a, você tem que ir para Nova York, ainda que isso seja uma boa ideia).


Momento confissão: boa parte do tempo em Manhattan foi gasto com visitinhas a lojas de brinquedos e roteiros e comentários repletos de referências infantis. “Ela ia gostar tanto de conhecer a Central Station”, disse, num rompante de saudades da pequena, quando estávamos diante do relógio que Mellman, a girafa do desenho animado Madagascar, enfiou na cabeça. “Será que deveríamos também conhecer o zoo para ver se o Alex está lá?”. Momento gozação.


Jantar a dois, sono ininterrupto e a oportunidade de viver intensamente o egoísmo da paixão que nos uniu antes de tudo é das experiências mais revigorantes para um casamento. Quero mais.


Um amigo disse o seguinte: “isso é muito bom, e tem que ser feito. Todo ano a gente foge uns dias”. O casal tem três filhos. Uau, pensei, lembrando da expressão caricata do Russel, o simpático menino-escoteiro de Up, outra animação imperdível do roteiro infantil. De outra amiga, mãe de duas, ouvi a confissão oposta. “Nossa, acho que desde que Maria nasceu, não sabemos o que é ficar a sós”. Maria vai fazer dez anos.


Claro que ninguém se lança nesse tipo de aventura a dois toda hora. É preciso chance, dinheiro e vontade para uma nova lua-de-mel. Mas se você já tem os dois principais ingredientes (chance e vontade), use a imaginação. Para resgatar o clima namoro, vale uma cervejinha a dois depois do expediente para um papo sem interrupção das crianças. Vale também a regra do “agora vocês vão dormir porque mamãe e papai precisam ficar a sós”. Vale também um cineminha com direito a grandes produções. Que tal encarar o marido como o carinha que você quer impressionar num primeiro encontro?


No caso das viagens, tenha certeza de um dado: as crianças sobrevivem. Aliás, costumam ficar melhor do que nós, desde que continuem na rotina delas, bem cuidadas, com pessoas de confiança. A gente tem que saber também pedir. Pedir ajuda, às vezes, é difícil.


Quanto à minha amiga que chorou no táxi, a viagem foi perfeita. O menino esteve bem, não a rejeitou na volta – um temor muito comum que invade o coração da mãe cheia de culpa - e o casamento segue feliz, obrigada.


Você já teve sua lua-de-mel pós-filhos?




Isabel Clemente


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