17 de abril de 2011

Começando a despertar




Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que tudo começou a ganhar uma cara que, no fundo, eu já conhecia, mas que havia esquecido como era. Comecei a despertar do sono estéril que, com suas mãos feitas de medo e neblina, fez minha alma calar. E foi então que comecei a ouvir o canto de força e ternura que a vida tem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que ninguém começa a despertar antes do instante em que algo em nós consegue deixar à mostra o truque que o medo faz. Só então a gente começa, devagarinho, para não assustar o medo, a refazer o caminho que nos leva a parir estrelas por dentro e a querer presentear o mundo com o brilho do riso que elas cantam. Só então a gente começa a entender o que é esse sol que mora no coração de todas as coisas. Não importa com que roupa elas se vistam: ele está lá.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a lembrar de onde é o céu e a perceber que o inferno é onde a gente mora quando tudo é sono. Comecei a sair dos meus desertos. E a olhar, ainda que timidamente, para todas as miragens, sem tanto desprezo, entendendo que havia um motivo para que elas estivessem exatamente onde as coloquei. Nenhum livro, nenhum sábio, nada poderia me ensinar o que cada uma me trouxe e o que, com o passar do tempo, continuo aprendendo com elas. Dizem que só é possível entendermos alguns pedaços da vida olhando para eles em retrospectiva. Acho que é verdade.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a compreender o respeito e a reverência que a experiência humana merece. A me dar conta de delícias que passaram despercebidas durante um sono inteiro. E a lembrar do que estou fazendo aqui. Ainda que eu não faça. Ainda que os vícios que o sono deixou costumem me atrapalhar. Ainda que, de vez em quando, finja continuar dormindo. Mas não tenho mais tanta pressa. Comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo. Afinal, não há lugar algum para chegar além de mim. Eu sou a viajante e a viagem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a querer brincar, com uma percepção mais nítida do que é o brinquedo, mas também com um olhar mais puro para o que é o prazer. A ouvir o chamado da minha alma e a querer desenhar uma vida que passe por ele. A assumir a intenção de acordar a cada manhã sabendo para o quê estou levantando e comprometida com isso, seja lá o que isso for, porque, definitivamente, cansei de perambular pelos dias sem um compromisso genuíno. E comecei a gritar por liberdade de uma forma que me surpreendeu. Antes eu também gritava, mas o medo sufocava o grito para que eu não me desse conta do quanto estava presa.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a desejar menos entender de onde vim e a desejar mais aprender a estar aqui a cada agora. Só sei que descobri que a solidão é estar longe da própria alma. Que ninguém pode nos ferir sem a nossa cumplicidade. Que, sem que a gente perceba, estamos o tempo todo criando o que vivemos. Que o nosso menor gesto toca toda a vida porque nada está separado. Que a fé é uma palavra curta que arrumamos para denominar essa amplidão que é o nosso próprio poder.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que não importam todos os rabiscos que já fizemos nem todos os papéis amassados na lixeira, porque todo texto bom de ser lido antes foi rascunho. E, por mais belo que seja, é natural que, ao relê-lo, percebamos uma palavra para ser acrescentada, trocada, excluída. A ausência de uma vírgula. A necessidade de um ponto. Uma interrogação que surge de repente. Viver é refazer o próprio texto muitas, incontáveis, vezes.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez.


Ana Jácomo 


13 comentários:

Sônia Silvino disse...

Não importa quando se desperta... Pior aqueles que passam a vida desacordados.
Beijocas, minha amada!
Um lindo domingo!

Patricia disse...

impecable, maravilloso! cada palabra es un toque para el auténtico despertar.

un abrazo.

coisasdelouco disse...

"... e sou viajante e a viagem!"

Maravilhoso!

E percebemos que tudo é rede... Tudo tão interligado, inseparável... Dentro e fora de nós!

Também eu estou despertando, e não só por identificação do momento, amei o texto!

Amei também a forma como se transbordou nele...

beijocas-devaneios

PS: Adorei seu comentário em #PddD Obrigada! ;)

coisasdelouco disse...

Ops...

O texto é de Ana Jácomo?!

como podes ver continuei sobrevoando o lugar...rs

Reafirmo: o texto é lindo!

rs

* Verinha * disse...

Lena.. vc não tem noção como seus textos ultimamente tem me ajudado!

Beijão imenso em seu coração!

Verinha

Catia Bosso disse...

Despertar é realmente um dom.. a cada manhã somos obrigados a praticá-lo, portanto, não o fazemos com a maestria que deveriamos.... Lena Lindona!!! Amei seu post de hj assim como o de ontem..... e despertamos hj pensando meio parecido a começar pela imagem que postamos.... e eu só vi depois que ja havia colocado a minha!!!! Que suavidade!!!! bjs e um excelente dia pra ti!!!

Van disse...

Lena

Está rolando uma investigação sobre você.
Lê lá no meu tt: @suavesoul, você foi a bola da vez.

Pra encurtar caminho e investigação, vou perguntar: Você tem TT? Se tiver segue a gente

Beijos!

Lindo texto da Ana Jácomo que voc~e escolheu!

AOSOLHOSDAALMA.BLOGSPOT.COM disse...

despertar para a vida para a realidade para os sonhos ou seja
para o que for,o importante é o despertar,que seja ele alegre feliz iluminado,esperançozo cheio de vida
lena que teu despertar seja sempre muito feliz,e perfumado,pela vida pelo amor,por coisas lindas que a vida nos empresta,bjs marlene

Claúdia Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
manuel marques disse...

Felizes são os que ao despertar se reencontram com o prazer e se reconhecem como aqueles que gostam de ser...

Beijo.

Kiro Menezes disse...

Como é verdadeiramente belo o despertar!!!

Abrir os olhos e enxergar ♥

Apaixonante, e revigorante!

Estimula a vontade de mudar...

AC disse...

"...
Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez."

Lena,
Que maravilhoso texto nos trouxe, uma espécie de manifesto de vida...!

Beijo :)

Poesias Partidas disse...

Verdade! Precisamos sempre estar atentos a isso, despertar para a vida, o respeito, o amar sincero, temos que nos policiar porque isso é o nosso cotidiano. Ainda bem que temos poetas como vc para nos alertar sempre...

Abraços