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22 de julho de 2012

Mergulhos



Ao deixarmos para trás coisas que nos davam segurança, mas que só nos levavam até determinado ponto... podemos acessar um pouco mais de profundidade nos mergulhos e um pouco mais de abertura nas possibilidades... 

Sei que sempre tem mais... e esses momentos onde adentramos em algo novo que nos inspira a ir fundo em busca da gente mesmo... são especialmente preciosos, porque nos oferecem a certeza que está na hora de tirar mais um pouco dos véus que nos impediam de ir além.... 

Eu estou em um momento assim, e percebo que o universo me colocou em um campo fértil de possibilidades... Nada fora de mim, mas chaves, que até então eu não havia acessado, mostram-me como o nosso potencial de crescimento é sempre aberto e nunca chega ao fim... 

Essa imensidão que se abre diante dos nosso passos que se arriscam no desconhecido, nos dão sempre uma soprada de que não devemos parar e nos apegar a nada, por mais maravilhoso que aquilo possa parecer... 

Mas, muitas vezes, nos esquecemos disso e tentamos segurar com as mãos o que de repente se revela maravilhoso e especial... 

Sinto que estou indo para um lugar novo dentro de mim... um lugar de acolhimento de muitas coisas que não aceitava em mim por julgar inadequadas a quem eu pensava que era... Hoje sei que inadequado é negar qualquer coisa que faça parte da sua totalidade... 

Me encanto quando essas possibilidades novas se deixam perceber... ou melhor, quando me deixo perceber as possibilidades novas que estão sempre presente. 

Esse tempo é sempre precioso, porque já sabemos o que não queremos mais e temos coragem de avançar sem garantias rumo ao desconhecido.... e só a intenção já movimenta um fluxo enorme de informações que são reconhecidas por sua Alma... e que lhe dão novas esperanças de que tudo pode ser mudado, se mudamos nossa percepção das coisas... Diante de novas percepções um leque de variedades se desdobra e o novo passa a ser algo, não mais só sonhado e esperado, mas uma possibilidade real que vem da sua disponibilidade de se abrir para ele... deixando os velhos modos de ser e de agir vamos enveredando por terrenos novos dentro da gente e liberando com amor e aceitação tudo que pede para vir a luz de consciência... 

Amo quando estou nesse tempo... onde tudo parece possível de se expandir na proporção em que também expandimos os espaços do nosso coração para que neles caibam as coisas que até então rejeitávamos em nós mesmos e considerávamos como partes não aceitáveis da nossa natureza... 

Nesse mergulhos tenho encontrado partes minhas que estavam prontas para vir à luz... e que só tinham sido negadas e rejeitadas por não se enquadrarem aos padrões normais... por não se adequarem a normalidade de uma certa história ou de uma certa época, que já nem tem mais importância... 

E muitas dessas partes são tão preciosas e tem me soprado uma sabedoria tão simples... mas tão simples... e que agora, à luz da consciência, me parece tão obvia, que até me pergunto como nunca havia me dado conta dela... 

E isso me dá uma vontade de mergulhar ainda mais... para buscar cada vez mais profundo, até que não fique nada escondido e negado... mas sei que tudo tem o tempo certo para acontecer... e sei que por mais que eu me busque sempre tem mais de mim para ser buscado... até que um dia não reste mais nada... nem o buscador nem o que ser buscado... Seremos Um com o Todo. 


Rubia A. Dantés

17 de abril de 2011

Começando a despertar




Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que tudo começou a ganhar uma cara que, no fundo, eu já conhecia, mas que havia esquecido como era. Comecei a despertar do sono estéril que, com suas mãos feitas de medo e neblina, fez minha alma calar. E foi então que comecei a ouvir o canto de força e ternura que a vida tem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que ninguém começa a despertar antes do instante em que algo em nós consegue deixar à mostra o truque que o medo faz. Só então a gente começa, devagarinho, para não assustar o medo, a refazer o caminho que nos leva a parir estrelas por dentro e a querer presentear o mundo com o brilho do riso que elas cantam. Só então a gente começa a entender o que é esse sol que mora no coração de todas as coisas. Não importa com que roupa elas se vistam: ele está lá.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a lembrar de onde é o céu e a perceber que o inferno é onde a gente mora quando tudo é sono. Comecei a sair dos meus desertos. E a olhar, ainda que timidamente, para todas as miragens, sem tanto desprezo, entendendo que havia um motivo para que elas estivessem exatamente onde as coloquei. Nenhum livro, nenhum sábio, nada poderia me ensinar o que cada uma me trouxe e o que, com o passar do tempo, continuo aprendendo com elas. Dizem que só é possível entendermos alguns pedaços da vida olhando para eles em retrospectiva. Acho que é verdade.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a compreender o respeito e a reverência que a experiência humana merece. A me dar conta de delícias que passaram despercebidas durante um sono inteiro. E a lembrar do que estou fazendo aqui. Ainda que eu não faça. Ainda que os vícios que o sono deixou costumem me atrapalhar. Ainda que, de vez em quando, finja continuar dormindo. Mas não tenho mais tanta pressa. Comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo. Afinal, não há lugar algum para chegar além de mim. Eu sou a viajante e a viagem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a querer brincar, com uma percepção mais nítida do que é o brinquedo, mas também com um olhar mais puro para o que é o prazer. A ouvir o chamado da minha alma e a querer desenhar uma vida que passe por ele. A assumir a intenção de acordar a cada manhã sabendo para o quê estou levantando e comprometida com isso, seja lá o que isso for, porque, definitivamente, cansei de perambular pelos dias sem um compromisso genuíno. E comecei a gritar por liberdade de uma forma que me surpreendeu. Antes eu também gritava, mas o medo sufocava o grito para que eu não me desse conta do quanto estava presa.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a desejar menos entender de onde vim e a desejar mais aprender a estar aqui a cada agora. Só sei que descobri que a solidão é estar longe da própria alma. Que ninguém pode nos ferir sem a nossa cumplicidade. Que, sem que a gente perceba, estamos o tempo todo criando o que vivemos. Que o nosso menor gesto toca toda a vida porque nada está separado. Que a fé é uma palavra curta que arrumamos para denominar essa amplidão que é o nosso próprio poder.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que não importam todos os rabiscos que já fizemos nem todos os papéis amassados na lixeira, porque todo texto bom de ser lido antes foi rascunho. E, por mais belo que seja, é natural que, ao relê-lo, percebamos uma palavra para ser acrescentada, trocada, excluída. A ausência de uma vírgula. A necessidade de um ponto. Uma interrogação que surge de repente. Viver é refazer o próprio texto muitas, incontáveis, vezes.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez.


Ana Jácomo