30 de julho de 2012

Sobre o assédio moral no trabalho




Antes de qualquer coisa, é importante compreender o significado do trabalho na sociedade moderna capitalista, onde ele transcendeu o aspecto econômico para se relacionar à identidade do indivíduo, ou seja, ele passa também a se reconhecer (ou se perceber) através daquilo que produz.

Essa mudança na forma de encarar o trabalho favoreceu o desenvolvimento do indivíduo, que pôde pensar em seus projetos pessoais, profissionais, e no tradicional projeto familiar. O novo significado do trabalho tornou-se tal, que Freud, no início do século XX, quando questionado sobre as características de um adulto normal, respondeu ser aquele capaz de amar e trabalhar - enfatizando a importância do trabalho para a realização humana.

Além disso, o trabalho insere o ser humano numa cultura moldada por relações de poder, afetando, de forma mais ampla, seus valores, sua auto-percepção, sua orientação da realidade e o próprio funcionamento intelectual. Inclusive, a Psicologia Social foca grande parte do seu trabalho no estudo das conseqüências psicológicas que o trabalho traz para as pessoas.

Os avanços da tecnologia e as transformações da produção exigem cada vez mais do trabalhador, seja ele técnico, gerente, diretor ou presidente. A competitividade e as incertezas de um mundo globalizado também mudaram a forma como o indivíduo se relaciona com o próprio trabalho, gerando angústias e dificuldades. Ou seja, as empresas fazem exigências cada vez maiores, para produzirem cada vez mais e melhor, em um ritmo acelerado e até desumano. Elas estão criando um clima facilitador para o assédio moral no trabalho.

O assédio moral se caracteriza pelo comportamento abusivo de um chefe ou superior que toma atitudes tendenciosas e discriminatórias contra um funcionário, o qual muitas vezes, por medo de perder o emprego, permanece em silêncio e sofre sozinho. É caracterizado por atos de intimidação e práticas de humilhar, rebaixar, intimidar o outro, no local de trabalho. São práticas que individualizam o problema em uma só pessoa, tratam aquele homem ou aquela mulher como incapaz, quando é resultante de condições outras de trabalho.Envolve atitudes e comportamentos visíveis e invisíveis praticado por gestores, colegas e empresas que levam à 'destruição' do trabalhador ao provocar, gradativamente, intenso sofrimento, adoecimento e perda do emprego.

Atos vexatórios na frente de colegas de trabalho repetidas vezes, exigência de produtividade acima da capacidade do trabalhador, negativa de férias, boicotes à promoção, indiferença, ausência de feedbacks ou feedbacks negativos e transferências desnecessárias, são apenas alguns exemplos de atitudes que culminam na perda da auto-estima do trabalhador. A partir daí, ele passa a duvidar de sua própria competência.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, a violência moral contra o trabalhador ocorre em diversos países desenvolvidos e pode levar a sérios problemas de saúde mental. As consequências são semelhantes às do assédio sexual: sofrimento físico e psicológico, como ansiedade, insônia ou sonolência excessiva, crises de choro, insegurança, depressão, sentimento de menos valia, dores generalizadas e freqüentes (de cabeça, no corpo, no peito), problemas respiratórios, distúrbios digestivos, tremores e nos homens, marcadamente, o consumo acentuado de bebidas alcoólicas.

Costumo dizer que todo sofrimento humano torna-se bem mais fácil de ser superado quando é compartilhado, e o mesmo vale para o assédio moral. Assim como no assédio sexual, é preciso coragem para enfrentar o problema de frente.

Não existem normas específicas suficientes no Direito do Trabalho sobre o assunto, por isso, as ações contra os empregadores costumam pleitear reparação por danos morais. Os Sindicatos e até o Ministério Público também estão atentos ao assédio moral, orientando e apoiando as vítimas.

O assédio moral é um problema que vem se agravando ao longo dos tempos. É uma séria violência contra o trabalhador e consequentemente à sua família e à sociedade. Ressalto a necessidade do funcionário, a despeito do nível hierárquico ao qual pertence, exigir ser tratado com respeito e dignidade, lutando por aquilo que lhe é importante. Por isso ele tem como obrigação denunciar seu empregador. Afinal, presenciar uma violência em silêncio é igual tê-la cometido, ainda que seja contra si mesmo.




Valéria Meirelles 

4 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Cresce, assustadoramente, o assédio moral. Mas, em contra-partida, cresce, em grande escala, as denúncias. Foi-se o tempo, em que, principalmente a mulher, se calava, quando assediada.
Muito bom, trazer esse importante tema para discussão, divulgação.
Obrigada, pela partilha.

Um abraço, Lena.

Leninha disse...

Minha querida Lena,

Já trabalhei em uma determinada repartição publica onde a "chefe"se achava chefe mesmo,de índios,sobre os quais exercia seus "podres poderes"...e era terrível vê-la humilhando as pessoas mais tímidas e mais receosas.Dirigia-se a pessoas como se fossem menos que animais(porque animais a gente costuma tratar bem).Era terrível!

É ótimo ver como você traz temas sempre tão instigantes e esclarecedores.Parabéns,amiga!

Bjssssss,
Leninha

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Lena
O assédio é típico do mau caráter...
Seja abençoada e feliz!!!
Bjs de paz

Sandra Portugal disse...

Amiga esse tema dá assunto para um livro, um pós-doutorado, tenho zilhões de histórias a respeito que tenho até medo de ser politicamente incorreta e acabo não postando no Projetando Pessoas, pois carapuças podem entrar e pode complicar para o meu lado.....
Difícil é comprovar, é registrar, provar, denunciar e encarar todas as consequencias dos fatos e dados, das acariações, pois o mercado é pequeno e todos se encontram....
Bem assunto polêmico, bem polêmico.... o que é assédio moral de verdade nos dias de hoje, tão agressivos, tão violentos, tão sem valores???
bj Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com.br//