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19 de outubro de 2011

Pergunta pra ele, uai!!!


Outro dia, estava no MSN, conversando com uma amiga mineira, de Belo Horizonte. Ela me contava sobre a relação que vinha tendo com um rapaz há alguns meses. Eu já conhecia a história e vinha constatando uma angústia recorrente nela.

O fato é que o tal pretendido aparecia de vez em quando, comportava-se como um verdadeiro Don Juan, mas depois sumia por dias... o que provocava nela o que eu costumo chamar de ‘cara de ué’, ou seja, um ponto de interrogação interno, um ‘não-sei-o-que-faço-agora’ que, geralmente, nos deixa sem rumo...
Ansiosa e confusa, ela começou a me falar de como estava se sentindo, como era difícil estar numa relação tão incoerente e como gostaria de esclarecer a situação de uma vez por todas.

Contou-me que, quando estavam juntos, ele era carinhoso, atencioso e parecia gostar bastante da companhia dela. Entretanto, se saíam, era porque ela ligava e sugeria um encontro. Nos dias seguintes, porém, ele não dava sinal de vida... ao que ela o procurava e ele rapidamente se manifestava: Poxa, você sumiu. Estou com saudades....

Daí, na tentativa de entender o que é que estava acontecendo, já que ele demonstrava, ao mesmo tempo, interesse e desinteresse, começou a disparar uma série de indagações, cujas respostas provavelmente já vinha tentando descobrir a semanas:

- Rô, por que será que ele é tão carinhoso quando está comigo?

- Será que gosta mesmo de mim?

- E se gosta, por que some depois, não me liga, não me procura?

- Será que tem outra?

- Será que não tá a fim de namorar ninguém?

- Você acha que devo ligar de novo e convidá-lo para sairmos?

- Mas pode ser que ele só queira ficar comigo, não é?

- O que você acha que ele quer?


E enquanto ela disparava suas dúvidas feito atirador com uma metralhadora nas mãos, fiquei pensando em como costumamos alimentar fantasias; no quanto insistimos na ideia – tão equivocada – de que devemos tentar ‘descobrir’ as respostas em vez de fazer as perguntas certas para a pessoa certa!

Conversamos com a melhor amiga, o terapeuta, a mãe, o irmão ou com quer que seja que confiemos o suficiente para escancarar toda nossa insegurança diante de uma situação que só pode nos fazer sentir assim: inseguros! Mas não nos atrevemos a conversar justamente com a pessoa cujo comportamento tem nos causado toda essa aflição!

E como até aquele momento eu não havia me manifestado, por um simples e óbvio motivo – o de que EU NÃO SEI E NÃO TENHO COMO SABER, já que não conversei com ele – aproveitei a pergunta-chave que ela me fez!



Ao indagar: O que você acha que ele quer?, eu imediatamente respondi:

- Pergunta pra ele, uai!!!

Ela ficou em silêncio por um tempo e depois escreveu: como assim?!? , demonstrando o quanto essa possibilidade de falar clara e diretamente a assustava, a decepcionava e a deixava em pânico...

Daí insisti, para provocá-la:

- Bem, se você quer saber a verdade, só existe uma maneira – fazendo a ele exatamente todas as perguntas que acabou de me fazer. Porque, afinal, só ele tem as respostas!

Mas ela ainda retrucou: mas, Rô, ele pode achar que estou cobrando, querendo uma decisão da parte dele! .

Ok, querida, então vamos lá:

- E não é exatamente isso que você ta me dizendo que quer saber? Que importa o nome que isso tem – se cobrança, se pergunta, se desejo de entender ou qualquer outra expressão? Agora, se você está com medo de ouvir a resposta, talvez então deva rever sua postura e assumir que prefere ficar na dúvida a correr o risco de ouvir uma verdade que vai doer... A escolha é sua e você tem o direito de querer ficar na dúvida, mas precisa saber qual é a escolha que está fazendo!
Depois de outro silêncio, ela escreveu:

- Acho que você está certa. Vou pensar melhor no que quero...

Pois sugiro que façamos isso sempre. Que fiquemos atentos. E, acima de tudo, que aprendamos a fazer as perguntas certas para a pessoa certa, de forma clara e direta!

Porque embora a clareza ainda nos assuste tanto e possa realmente nos machucar, é somente ouvindo-a ou estando cientes de que não desejamos ouvi-la neste momento, que poderemos baixar a ansiedade e parar de sentir tanta angústia diante da dúvida...



Rosana Braga
  
  
       

22 de novembro de 2010

A vida sem instruções




Quem nunca se viu numa situação em que não sabia como proceder? Eu diria que vivemos essa dificuldade quase diariamente. Às vezes não sei como sair de uma briga. Às vezes não sei como pedir desculpas. Às vezes não sei qual é o ponto certo do refogado. E olha que nem os livros de receitas conseguem responder a todas as perguntas. “Vá mexendo e, quando estiver tenro, desligue o fogo.” Como se houvesse uma definição exata de “tenro”.

Ontem mesmo quase comprei um novo livro de receitas. Não tenho muitos, mas os que tenho não me servem de muita coisa. Todos foram ganhos, nenhum foi comprado por mim. Talvez por isso, não tenham as dicas que eu procuro. Foi o que pensei quando percebi que nunca tinha ido a uma livraria para escolher um livro de receitas que se encaixasse nos meus anseios. Estranhei essa falta na minha estante. Se sempre quis ter em casa comida do meu jeito, então por que é que nunca fui atrás de instruções ao meu gosto? Por que é que passei tanto tempo me contentando com os livros que tinham o gosto dos outros, não o meu? Vai ver é por isso que quase não cozinho. Se não sei como fazer o que quero ter, acabo não fazendo nada.

Buscando livros sobre comida pela internet, encontrei, numa única livraria, 180 títulos com a palavra “dieta” em português. Provavelmente não é uma coincidência o fato de minha coluna mais lida até hoje ter sido “A dieta da diarista” (que não falava de dieta no sentido emagrecedor, o que deve ter decepcionado alguns ávidos por mais uma receita milagrosa). A palavra “dieta” tem esse poder incrível de atrair leitores. Tudo porque reúne em si uma promessa de solução infalível do seu problema, sem que você precise fazer nada difícil – só seguir as instruções. O impressionante é que as pessoas que vivem fazendo dieta não percebem que seguir as instruções alheias é uma tarefa inglória. Quando as regras não servem ao nosso jeito de ser, ou ao nosso momento, simplesmente desobedecemos.

Eu adoraria ter instruções para agir sempre que tivesse dúvidas. Compro ou não compro? Escolho este ou aquele? Qual é o jeito mais fácil de... As respostas até estão aí, disponíveis em livros, sites, revistas, escritórios e consultórios. Mas jamais serão exatamente aquelas que procuramos. Estas estão, quase sempre, nesse visitante frequentemente atrasado que chamamos de discernimento.

Regras e instruções gerais são muito úteis, mas prometem um conforto falso. A dieta do fulano de tal pode trazer efeitos interessantes, mas não respeita as suas necessidades nutricionais e metabólicas particulares. Isso só uma dieta personalizada pode fazer, e só dá certo se você observa as mudanças e as leva em conta na próxima consulta. A máquina de musculação projetada para abrigar o corpo de qualquer adulto precisa ser ajustada ao tamanho de cada um, e ainda assim nem sempre é adequada para qualquer pessoa. É preciso ficar atento a dores e limitações e se comunicar sempre com o professor para fazer o exercício mais correto e protetor das articulações.

Talvez seguir modelos prontos seja mais fácil. Talvez investigar diariamente qual a melhor maneira de atender às próprias necessidades dê muito trabalho e traga algum sofrimento. Mas desconfio que há uma recompensa impagável ao longo desse sacrifício. Ao menos dizem que há. Será preciso duvidar e descobrir sozinha.

Francine Lima