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23 de setembro de 2012

Meditação: sintonia com a vida




A meditação tem despertado cada vez mais interesse no Ocidente, sendo, inclusive, objeto de estudos e pesquisas científicas na área da saúde. Contudo, ainda há muita falta de informação e são grandes os mal-entendidos que cercam esse ensinamento tão antigo quanto a própria humanidade, enraizado e disseminado no Oriente.

Embora seja um tema difícil de ser explicado, uma vez que se trata fundamentalmente de uma experiência interna, subjetiva, proponho-me a abordá-lo a partir da minha própria vivência.

Meditação é conexão com a vida, interna e externa. Meditação é silêncio interior. E o silêncio só se manifesta se a pessoa aceitar e acolher o momento presente tal como é, dentro e fora de si. Se isso não acontece, prevalecem os conflitos, as tensões, as divagações mentais e não o silêncio. A aceitação da natureza da vida com compreensão é transformadora, ajuda a descomplicar, a relaxar e a equilibrar o nosso viver, conectando-nos com o estado interior natural de harmonia e felicidade.

E fazer meditação é diferente de estado meditativo, o qual é a nossa natureza. Meditação é o conceito mais incompreendido. As pessoas estão perguntando a partir de uma compreensão equivocada, ou mal-entendido: concebem a palavra meditação como uma técnica, como algo para fazer.

Fazer meditação como uma técnica é uma coisa e meditação, em sentido real, é outra. São entendimentos diferentes. Quando usamos a palavra meditação, em sentido real, referimo-nos a um estado meditativo, que é o nosso estado natural, o qual não pode ser trazido através de nenhuma técnica, esforço ou qualquer coisa que se faça. Ele já está lá, mas tem sido escondido ou suprimido por causa de algo, e esse algo é a mente.

O estado de meditação é o estado de relaxamento. Ele o relaxa muito e lhe dá um silêncio interior profundo. E este silêncio é a expressão desse estado. Assim, você está absolutamente naquele estado além da dor, além do prazer. Esse é o estado de bem-aventurança.

E o que é o estado de harmonia? Harmonia é o fluxo do amor que a aceitação da vida traz.

Quando você começa a aceitar a vida do jeito que ela é, esta aceitação lhe traz de volta a harmonia. E harmonia é o fluxo do amor. Então, você não precisa de nenhum outro poder".

Os sábios dizem que, quando oramos, nós falamos com Deus. E, quando meditamos, nos silenciamos para ouvir a voz de Deus. Assim, não se trata de refletir, de rezar ou entoar mantras. Meditar não é concentrar, pois não é ação mental. É atenção sem esforço, o que é diferente de concentração. Meditar também não é pensar ou visualizar algo e, sim, ir além dos pensamentos e imagens. Simplesmente estar presente, consciente e testemunhar o que acontece internamente, mantendo um desprendimento do que quer que se perceba: sensações corporais, pensamentos, imagens, desejos, emoções, humores, sentimentos. Nessa observação silenciosa, sem apegos e julgamentos de qualquer natureza, corpo e mente se acalmam, aquietam-se e a paz se manifesta em nossos corações. A confusão desaparece e a ordem interna se instala.

Outro aspecto que vale a pena esclarecer é que meditação não é somente sentar-se em postura de lótus, fechar os olhos e assim ficar por um determinado tempo, sem proposição de metas a serem alcançadas. Se um indivíduo colocar a totalidade do seu ser em qualquer tarefa do cotidiano, entrará em estado meditativo. É uma consequência de estarmos inteiros, presentes, motivados e sem conflitos naquilo que fazemos.

Um dos segredos para se atingir patamares de excelência em qualidade, seja na elaboração de produtos ou na prestação de serviços é gostar e estar presente total naquilo que se faz. Nessas condições, o trabalho deixa de ser um fardo e pode transformar-se em meditação que acontece naturalmente, sem esforço. Dessa forma, a pessoa adquire mais e mais clareza mental, torna-se assertiva e também mais sensível, criativa, integrada ao seu entorno de maneira mais equilibrada e harmônica.

Porém, na loucura da pressa, na luta pela sobrevivência, do ter que fazer, envolvidas por um turbilhão de atividades, as pessoas se esquecem até da própria existência; rígidas e identificadas com a tensão do fazer, permanecem num movimento automático e mecânico, tenso e inconsciente, que lhes tira o sabor de estarem vivas.

Por outro lado, a sabedoria, a criatividade e o amor manifestam-se como uma dádiva para as pessoas que adquiriram qualidade e totalidade de presença em tudo o que fazem, seja riscando um palito de fósforo, seja acendendo o fogo de uma grande fornalha.



Enildes Corrêa

7 de setembro de 2012

Amizade interior




"No momento em que você começa a se amar, a se aceitar, esta mente que se apresenta como inimiga começa a ficar sua amiga. Quando você se aceita, essa transformação acontece por si mesma e a mente começa a ficar silenciosa, naturalmente. Compreenda a sua unicidade e aceite-a. A vida sabe o propósito porque lhe deu essa unicidade. Não há nada de errado no seu ser, não há nada imperfeito em nenhum lugar. Diga SIM para você mesmo. Então, você fica em harmonia dentro de si". Kiran Kanakia

Cada choque que temos nas nossas relações oferece uma oportunidade ímpar para olharmos para nós mesmos e investigarmos as raízes internas do mal-entendido externo. A desarmonia nos nossos relacionamentos pode estar refletindo uma parte nossa que não aceitamos e que está em desequilíbrio. Ao invés de esperar e cobrar mudanças de comportamento da parte dos outros, seria bem mais inteligente e edificante se o ser humano colocasse essa energia a seu serviço, direcionando-a para dentro de si, à procura de se observar e se conhecer melhor. Conflitos intensos e perturbadores surgem quando um quer mudar o outro, sem antes olhar e investigar o próprio comportamento.

Temos que admitir que mal-entendidos podem ocorrer quando as pessoas têm um convívio mais estreito, principalmente, se levarmos em conta que a maioria das pessoas anda em descompasso consigo mesma e, consequentemente, com os outros. Além disso, precisamos entender que cada indivíduo tem sua natureza própria e única. Ninguém é igual, não somos cópias uns dos outros.

Num único dia, frequentemente, passamos por humores diferentes de acordo com os acontecimentos e as situações vivenciadas. E mais, não temos o poder de mudar o outro, seja este quem for: o filho, o cônjuge, o chefe, o pai, a mãe, o amigo etc. No máximo, podemos mudar a nós mesmos. E ainda assim, não mudamos a nossa natureza, mas apenas o nosso entendimento, o que possibilita transformar o nosso olhar e o nosso modo de agir. A natureza de cada expressão é dada pela Vida com um determinado propósito, que nós não sabemos qual é, mas nos cabe compreender e respeitar a unicidade de todo indivíduo. E o primeiro passo nessa direção é dentro de nós mesmos.

Se estivermos mais familiarizados e em paz conosco, a convivência familiar e social terá chances de ser mais harmônica, de fato, saudável e fraterna, uma vez que não projetaremos lá fora a nossa briga e confusão internas. Se a nossa visão está clara, torna-se mais fácil distinguir o que é conteúdo nosso e o que é do outro. Assim, tampouco vamos nos prestar a sermos depósitos do lixo emocional das pessoas com quem convivemos. Podemos escolher deixar o lixo que não nos pertence fora da nossa casa, sem que nos cause transtornos e distúrbios mais sérios, em nível físico, mental ou espiritual.

É bom ressaltar que, mesmo que o mundo lá fora nos rejeite, temos sempre a sagrada opção de nos aceitar e nos acolher com amor e confiança. E esse ombro amigo que oferecemos a nós mesmos opera verdadeiros milagres! Nessa guinada para dentro do espaço interior, guiados por um sentimento profundo de autoaceitação de qualquer face nossa, observando-nos silenciosamente, sem julgamentos, muitos condicionamentos, reações e amarras se dissolvem. Nesse simples passo, mudanças significativas acontecem naturalmente, sem esforço.

O combustível para qualquer transformação pessoal é a compreensão e o amor. Relacionarmo-nos de forma harmônica conosco e com as pessoas é uma arte que exige um exercício constante de boa vontade, entendimento e amizade, a curto, médio e longo prazo. Nem sempre é fácil, mas é possível, se não impusermos a nós e aos outros cobranças absurdas e mudanças bruscas e imediatas. As mudanças consistentes não acontecem da noite para o dia, nem pela imposição de quem quer que seja.

Que possamos conviver conosco e com os outros com menos julgamentos, preconceitos, intolerância e mais afeto, respeito, paciência, compreensão e, sobretudo, muita compaixão pelos limites de cada um, pelas falhas que temos dificuldades em aceitar (dentro e fora). Isso é um pacto de paz, amizade e tolerância conosco e com as pessoas com quem a existência nos faz conviver, seja por um momento, por um dia ou pela vida inteira.



Enildes Corrêa