A gente faz besteira, diz o que não deve, diz o que deve fora do contexto, cobra atitudes, ofende, fantasia a realidade, soma dois mais dois e chega a várias conclusões. A gente briga sozinha, tenta adivinhar o que o outro está pensando ou o que ele quis dizer com a frase X. A gente espera uma reação, uma surpresa agradável, acredita no que não vê e se baseia pelo que a gente acha que o outro sente (ou por aquilo que gostaríamos que o outro sentisse). A gente brinca de paranormal e de psicóloga. E ainda fica sem entender absolutamente nada. Quando a gente faz tudo isso, é sinal de que só a gente está amando. Lógico que há algum movimento da outra parte que contribui – e muito – para nos manter nesse estado abobalhado e esperançoso. Em geral, o cara, consciente ou inconscientemente, deixa sempre uma interrogação pairando no ar que quem o respira. Homens não gostam de perder – mulheres também não. É muito bom ter alguém legal sempre por perto, babando ovo, dando carinho, oferecendo apoio, dizendo que gosta de você. Ninguém em sã consciência quer perder essa mordomia emocional, essa nutrição do ego, afinal, é uma das formas que encontramos para lustrar a auto-estima. Não, não há pecado nisso. É humano. No entanto, é só isso. Quem gosta, quer estar junto e ponto. Existem zilhões de impossibilidades que afastam duas pessoas que se querem de verdade. E nenhuma delas jamais será aceita com passividade por qualquer uma das partes. Elas estarão juntas de algum jeito, tenha certeza. A gente pode continuar aceitando as desculpas que o outro dá para não estar com a gente. Mas a gente não pode cair das nuvens se, de repente, encontrar o outro vivendo com outra tudo o que ele ajudou a gente a sonhar. Ossos do amor unilateral, flor. Sempre será melhor viver a dois.
Fernanda Santos




