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15 de junho de 2012

Por que somos supersticiosos?


Quando dizemos para alguém que nossos negócios estão indo bem, imediatamente sentimos uma forte compulsão na direção de buscar algum pedaço de madeira para nela batermos 3 vezes. O mesmo vale ao dizermos que estamos felizes no novo relacionamento sentimental ou que estamos bem de saúde. Ao agirmos de acordo com este ritual temos a impressão que afastamos de nós as perigosas influências malignas da inveja das pessoas. É fato que nossa felicidade pode provocar inveja; o duvidoso é se ela tem mesmo poder de influência negativa sobre nós, bem como se o ritual de proteção será mesmo eficiente. Porém, porque acreditamos nesta possibilidade nos sentimos mais apaziguados ao realizá-lo.

As situações descritas acima nos mostram alguns dos aspectos essenciais do pensamento supersticioso: um deles consiste em nos sentirmos inseguros e ameaçados em determinadas situações, especialmente aquelas em que estamos felizes; construímos uma associação entre a prática de certos rituais e a diminuição dos riscos, de modo a nos sentirmos protegidos contra as adversidades. O outro tem a ver com o desejo de interferir sobre eventos que não dependem de nós, mas que queremos muito que tenham um resultado positivo; associamos, por um caminho nada lógico, sua concretização à presença de algum objeto, um adorno promovido à condição de talismã e cuja presença, no processo ritual que construímos em torno dele, aumentaria – e muito – as chances de obtermos o favor desejado.

Pessoas inteligentes, cultas e um tanto céticas também costumam desenvolver algum tipo de ritual. As que são muito voltadas para as práticas religiosas tendem a desenvolver seus rituais dentro deste contexto: as promessas se assemelham muito ao processo que estamos analisando, sendo que aqui se renuncia a algo do qual se gosta muito em favor da facilitação de um resultado que aparece como muito importante (abre-se mão do chocolate por um tempo longo em benefício da saúde de um filho, por exemplo). As novenas, as peregrinações, os jejuns e as orações em geral têm por objetivo agradecer graças recebidas, pedir proteção para o que se tem e também para que o futuro nos sorria.

Afinal de contas, por que tanto empenho? A verdade é que nossa condição enquanto humanos (e conscientes) é bastante complexa, pois estamos expostos à incerteza de forma continuada e lidamos muito mal com isso. Não suportamos o fato de estarmos em uma embarcação sujeita a ventos que não controlamos. Não sabemos nada do que é relevante acerca do nosso futuro e tentamos nos defender disso por todos os meios.

Buscamos defesas contra a incerteza que cerca os relacionamentos afetivos através de estratégias de controle sobre as pessoas que amamos. As mães de adolescentes tentam saber deles o tempo todo e impedir que todos os males lhes alcancem. Homens e mulheres tentam vigiar os passos de seus parceiros, sempre com medo de serem traídos ou abandonados.

Usamos boa parte de nossas possibilidades intelectuais com o objetivo de projetarmos um futuro de acordo com nossos melhores sonhos. Tentamos impedir que as doenças nos alcancem, de modo que nos submetemos a um estilo de vida que nem sempre é aquele que mais gostamos. Consultamos os médicos para exames periódicos com o intuito de detectar doenças precocemente e, com isso, ter o poder de interferir ao máximo sobre sua evolução. Tentamos acumular o máximo de dinheiro, sempre norteados pela ideia de sermos mais parecidos com as cigarras do que com as formigas: para que nada nos venha a faltar.

Ainda assim não nos sentimos seguros. Temos, em nosso íntimo, a sensação de que estes meios concretos são muito insuficientes; considero muito provável que isso seja verdadeiro, já que todos os exames médicos, por exemplo, apenas nos dizem de nossa condição até hoje e das probabilidades de estarmos bem nos próximos tempos. O mesmo vale para o dinheiro, que poderá ser perdido por alguma fatalidade. Do amor então, nem é bom falar...

Os mais céticos podem pensar que é pura insegurança buscar em forças maiores que a nossa, os reforços a favor de nossos interesses. A grande maioria das pessoas pressente a existência de forças não tão concretas a nos cercar. Buscam também nelas algum apoio tanto com o objetivo de se protegerem contra a inveja para que seus sonhos se realizem. É por essa via que entra o pensamento supersticioso, presente em quase todos nós. Pode não ser de grande valia, mas ações concretas para garantir um futuro melhor também não o são. Por mais que façamos, a incerteza sempre sairá vencedora.

Flávio Gikovate

24 de maio de 2012

Bem me quer, mal me quer




Pior, muito pior que ter certezas dolorosas, é ter incertezas. Quando sabemos, pelo menos fica decidido, dói, a gente chora, finge que se esquece, diz que não aceita e acaba por aprender a conviver com a verdade.

O ciúme é um sentimento pernicioso que não destrói somente uma relação, mas as partes envolvidas. Ele cria feridas tão profundas que podem nos marcar (e o outro) para toda a vida.

O ciumento costuma dizer: "eu tenho ciúme porque te amo" quando na realidade deveria ser mais honesto dizendo: "tenho ciúme porque acho que você me pertence."

Ora, ninguém pertence a ninguém!!! As pessoas doam-se por amor e continuam elas mesmas. Escolhem voluntariamente estar junto e continuam a ter o direito de respirar sozinhas e se assim não for, melhor que cada qual fique do seu lado.

Se o relacionamento é uma brincadeira de bem me quer, mal me quer, te amo apaixonadamente ou não te amo, então ele não vale a pena.

É insano querer fechar o ser amado num quarto sem portas e sem janelas, impedi-lo de ter amigos e de poder apreciar a vida como se deve ser.

Nada pior para uma relação do que a incerteza do amor do outro, mas ainda o julgar de tudo o que o ele faz, com quem anda, para onde olha... o querer saber a todo custo os pensamentos que passam pela sua cabeça e as emoções que atravessam seu coração.

O amor não é uma prisão, mas um campo aberto ao sol e às flores. É a brisa suave do fim do dia e o sereno da madrugada. É um dar as mãos voluntário.

Ter alguém que desconfia todo o tempo de tudo o que fazemos é humilhante. É como se não fôssemos capazes de andar sozinhos e escolher livremente por onde andamos ou com quem estamos. Conviver com pessoas assim é altamente destrutivo.

As pessoas são ciumentas porque não se sentem amadas ou não têm certeza que são amadas o bastante para que o outro fique com elas por escolha livre.

Elas acham que não são merecedoras do amor e por isso precisam aprisioná-lo.

Essas pessoas precisam, antes de tudo, conhecer a razão de tanta insegurança, curar-se desse mal, desenvolver um bom relacionamento de si para si e só depois poderão abrir-se ao mundo.

Elas deverão amar-se e, por conseqüência, achar natural que o amor venha a elas, não porque ela criou-lhe amarras, mas porque ele descobriu um lugar seguro para morar e para onde, de onde ele estiver e por onde andar, vai querer voltar.



Letícia Thompson

17 de maio de 2011

Incerteza





Estamos em um tempo onde muitas coisas que nos davam segurança e em que confiávamos plenamente já não servem mais...

Para quem sempre aprendeu a colocar o poder lá fora, isso fica muito complicado e gera uma enorme insegurança. Aprendemos a querer certezas e quase não sabemos lidar com o que é incerto.

Cercamo-nos e acumulamos coisas que nos dão uma aparente estabilidade e segurança... fora e dentro de nós.

Fora acumulando coisas... dentro acumulando memórias e crenças que acreditamos que nos protejam e garantam uma estabilidade.

Num mundo onde a única coisa certa é a mudança... a impermanência... buscar estabilidade parece bem incoerente. Mas aprendemos assim e passamos a vida construindo castelos de areia, pensando serem sólidas construções...

Ao perceber que não podemos mais confiar em tanta coisa fora de nós, que antes nos oferecia segurança nós sentimos, às vezes, um frio na barriga... uma vontade de correr; mas... correr para onde?

Estamos em um tempo onde as estruturas que foram criadas em cima de coisas ilusórias estão sendo quebradas... tudo que foi criado com base em crenças e conceitos equivocados está sendo revolvido até as raízes.

Saber fluir com a incerteza é uma chave preciosa, uma vez que nossas certezas se baseavam nos conceitos do ego... que agora, muitas vezes, não vê saída diante das situações que nos são colocadas. Parece que o Planeta -e cada um de nós- está sendo passado a limpo e que nada mais pode ficar guardado debaixo do tapete...

É justamente quando nos julgamos sem saída... quando já esgotamos os recursos do ego... que nos rendemos... Entregamos o controle a uma força maior, porque reconhecemos que não podemos fazer mais nada... e aí os milagres podem acontecer...

Estamos em meio a profundas transformações e diante de nós há a possibilidade de nos tornarmos quem verdadeiramente somos... sem os acréscimos e as limitações do ego...

É preciso deixar ir tudo que ainda nos prende e limita e aprender a fluir na incerteza... aprender que não precisamos nos cercar de tantas coisas... Sei que esse não é um aprendizado fácil, diante da forma pela qual aprendemos a lidar com a vida... mas é o que de melhor podemos fazer nesses tempos de tantas mudanças.

Se estamos abarrotados até o teto de coisas e de memórias, nem deixamos espaço para que o novo... o que está além de tudo que é conhecido... possa se manifestar.

Mesmo as coisas que são muito boas podem prender... e às vezes representam uma prisão muito mais difícil de sairmos dela.

Se nos apegamos, mesmo ao que é bom e queremos manter aquilo em nossa realidade, é porque ainda não confiamos que o Universo possa nos trazer algo ainda melhor...

Soltar... deixar ir... aprender a fluir com a incerteza... sabendo que ela pode ser uma fonte inesgotável de surpresas... arriscar o novo... e nos abrir para a Vida que está sempre se renovando a cada novo dia... nos dá forças para acompanhar esse tempo... que pode não ser o mais fácil... mas é o que temos e pode esconder nas aparentes dificuldades a semente da tão buscada felicidade.



Rubia A. Dantés