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15 de fevereiro de 2013

O amor pode sobreviver a uma traição?



Costumo dizer que quando se trata de comportamento humano, se a pergunta é "pode?", a resposta é "sim, sempre pode!", já que cada caso é um caso e, em última instância, somos um complexo conjunto de circunstâncias internas e externas que resultam em muitas possibilidades e algumas escolhas.

Além disso, todos nós já presenciamos e ouvimos histórias de casais famosos e nem tão famosos assim que, após uma traição, voltaram a ficar juntos. Do mesmo modo, também já ouvimos histórias em que, em situação semelhante, não houve conversa nem negociação: foi o fim!

Isso significa que a resposta certa é: depende! Para o amor sobreviver a uma traição ou a qualquer crise séria, é preciso considerar vários detalhes. O primeiro tem a ver com o que significa "traição" para cada um. Parto do princípio de que se refere, sobretudo, a mentir e enganar seu par. Ou seja, a deixá-lo acreditando que a relação está acontecendo de um jeito quando, na verdade, está acontecendo de outro.

Porque, convenhamos: se a pessoa chega e diz "olha, estou a fim de sair com fulano ou sicrana. O que podemos fazer com isso?" ou "me interessei por outra pessoa, estou a fim de ver qual é, quero romper e, se for o caso, reconversamos". Bem, então, deu-se a chance de o outro se manifestar ou participar de alguma forma. Não se trata de traição e, sim, de possibilidades humanas.

Bem, mas supondo que não houve colocações desse tipo, o que sobra ao traído são aquelas perguntas doloridas e sufocantes, aquela sensação de ter sido feito de idiota, de ter passado por bobo e, pior do que isso, a certeza de que a confiança e o respeito ficaram profundamente abalados. E é a partir disso que se trata a questão da sobrevivência do amor.

O fato é que se a traição aconteceu porque já não existe amor, então, não há o que ser dito ou feito ou tentado. Está tudo acabado e ponto final. Mas se ainda há amor, então, a questão é: quanto cada um está disposto a realmente ouvir o que o outro tem a dizer, a tentar compreender suas razões, a conversar sobre a própria relação e o que a deixou frágil a esse ponto?

Qual a disponibilidade de quem mentiu ou omitiu informações tão importantes de reconsiderar suas escolhas, de rever seu comportamento, de se comprometer com a verdade a partir dessa crise? Quais sentimentos restaram? São suficientes para arriscar um recomeço ou o mais honesto consigo mesmo e com o outro seria cada um seguir seu caminho?

É preciso considerar que, num momento como esse, em que uma traição se impõe entre duas pessoas que se amam, muitos sentimentos ignorados, negligenciados e empurrados "para baixo do tapete" vão emergir. O lado escuro e abandonado da relação vai gritar e exigir atenção! Talvez esteja aí a grande chance desse amor, desse encontro onde ainda existe vontade, desejo, motivação e vida!

Isso quer dizer que uma traição, por pior que seja, pode ter um lado bom! Será que o casal quer aproveitar esse lado? Talvez não seja possível num primeiro momento, quando dor e raiva estão latentes demais. Mas com o passar dos dias, quando os ânimos começam a retomar seus lugares, a consciência e a maturidade podem ganhar voz e vez.

Penso que, sobretudo, qualquer salvação tem a ver com diálogo. Muitas vezes falar, muitas vezes ouvir. Muitas vezes se colocar no lugar do outro e entender sua raiva, sua dor, seu jeito de concluir, seu jeito de escolher. E se depois de tudo isso, ainda puderem se olhar nos olhos e reconhecer que por trás de todos os rótulos, máscaras e medos, ainda existe uma sintonia de alma, então, ainda há amor pra recomeçar...


Rosana Braga

21 de agosto de 2012

Traição: perdoar é esquecer?




Recentemente, li um texto falando sobre traição conjugal dizendo que se quisermos realmente perdoar, devemos esquecer o que aconteceu. Essa é uma visão comum sobre o que é o perdão e que acaba causando uma certa confusão.

Como é possível simplesmente "esquecer" o que houve? Só se estivermos com amnésia. Não há como, pois memórias não se apagam. O processo do perdão se dá de outra forma que não é através do esquecimento. Também não se trata de não tocar no assunto ou colocar panos quentes. Essas são aparentes soluções que não resolvem o problema.

O perdão acontece quando os sentimentos de mágoa, raiva e ressentimentos são dissolvidos completamente. E quando isso ocorre, voltamos a ficar em paz. A nossa essência mais profunda é de uma paz completa. Esse estado fundamental dentro de nós jamais é alterado. Entretanto, ele pode ser temporariamente encoberto com nuvens de sentimentos negativos.

Perdoar significa voltar a ficar em paz. E isso só é possível quando essas nuvens negativas são dissolvidas. Não adianta tentar "esquecer". O que na verdade todos nós queremos é nos livrarmos do sofrimento que a memória causa. A memória ou o fato ocorrido em si não é o problema. O problema é sempre a nossa reação emocional que nos provoca sofrimento. Os fatos e as lembranças jamais poderão ser mudados. Mas é possível, sim, curar o que interessa: a nossa reação emocional. Essa é a única forma de eliminar o sofrimento.

Quando as pessoas tentam "esquecer", o que elas estão fazendo, na verdade, é reprimir as emoções. E quando os pensamentos desconfortáveis surgem, elas tentam pensar em outra coisa para não sofrer. Mas isso não cura a ferida que está lá dentro guardada. Ela continua intacta, só não estamos olhando diretamente pra ela na ilusão de que isso a fará desaparecer.

E como ainda há uma ferida emocional, mesmo não entrando em contato direto com ela, sofreremos suas consequências. Essas emoções ficam armazenadas no inconsciente e provocam diversos efeitos no nosso corpo, pensamentos e ações.

Os ressentimentos e mágoas reprimidos provocam tensão no corpo, geram ansiedade, inquietação. Nossa fisiologia é afetada pelas emoções reprimidas. Cada emoção é produzida quimicamente pelo nosso corpo (mesmo aquelas inconscientes) e alteram a produção dos hormônios e da química do bem-estar que nosso cérebro produz quando estamos livres das emoções negativas.

Essa energia presa dentro de nós tem uma força que não percebemos e influencia na nossa forma de agir em pensar. Mesmo que você queira ficar bem com a pessoa da qual você guarda uma mágoa, sem querer, aquela energia o levará a criar algum tipo de conflito.

Talvez você tente controlar ou manipular o outro como uma forma de compensar a dívida que você sente que ele tem por você. Talvez você tente punir a outra pessoa sendo frio e se mantendo distante no relacionamento, criticando-a na frente dos outros, deixando de apoiá-la. Talvez você passe a se irritar facilmente e dê "patadas" e foras constantemente. Bem, são inúmeras as maneiras que aquela mágoa guardada, mesmo estando bem escondida, vai se manifestar de forma prejudicial no seu relacionamento.

Por mais que tenhamos o desejo sincero de ficar bem com o outro, acabamos agindo de forma negativa. E depois não nos entendemos e ficamos frustrados. Só é possível se libertar dessa força sabotadora curando profundamente suas raízes: dissolvendo as mágoas, raivas e ressentimentos de forma plena.

O resultado dessa liberação emocional é o que chamamos de perdão. Voltamos a ficar em paz. Sentimos alívio. Brotam sentimentos de compreensão, aceitação. Diminui a ansiedade, eleva a autoestima. O reflexo disso será visto na nossa forma de agir e pensar dentro do relacionamento.

Quando isso ocorre, entendemos que perdoar é algo que tem a ver apenas com nós mesmos. É um processo interior e não depende da mudança das pessoas e circunstâncias. Nossas mágoas e ressentimentos são uma tentativa equivocada de atingir a outra pessoa, como se isso fosse trazer algum tipo de justiça para que nós possamos finalmente ficar em paz.

Mesmo quando conseguimos punir e atingir a outra pessoa, os ressentimentos ainda vão permanecer dentro de nós. Ou seja, o sofrimento que queríamos eliminar continua a existir. E talvez agora, somado a ele, surgirá frustração, culpa, vazio e sensação de perda de tempo. Vivemos em um estado de confusão emocional que nos leva a caminhos completamente ineficazes de se alcançar paz e felicidade. O caminho mais simples é liberar nossas próprias emoções. E realmente, não é fácil fazer isso sozinho utilizando força de vontade. Mas, vale tentar! 
Andre Lima

18 de fevereiro de 2012

Quem ama perdoa?

      


A traição nunca esteve tanto na boca do povo e na ponta da pena dos jornalistas. O fim do casamento aparentemente estável e feliz do ator austríaco Arnold Schwarzenegger, após ele confessar à esposa ter um filho fruto de uma relação extraconjugal, chocou o mundo. Mais recentemente, a abnegação de Anne Sinclair, esposa do ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que permaneceu ao lado do marido mesmo durante as acusações de ele ter estuprado uma camareira de um hotel onde estava hospedado, também impressionou. Esses dois casos tão distintos nos fazem perguntar: quem ama perdoa ou não? 

Será que traição é, de fato, a melhor palavra para definir o affair do parceiro? Para a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, não. “‘Traição’ é uma palavra que implica uma coisa muito negativa. É sério trair alguém. Nós estamos constantemente sujeitos a estímulos que nem sempre vêm do parceiro fixo. Pode-se ter uma relação estável, amar a pessoa, ter vida sexual boa e ter relações extraconjugais. Outros profissionais podem dizer que essas relações decorrem de algum problema com o casamento, um ressentimento. Acho que, na maioria dos casos, as pessoas têm relações extraconjugais porque variar é bom. Ninguém aguenta comer a mesma coisa todo dia. Está na hora de começarmos a refletir sobre isso porque essa crença equivocada de que quem ama não transa com mais ninguém causa muito sofrimento”, diz acreditar. 

A ideia de que amar é desejar sempre a mesma pessoa pelo resto da vida nem sempre foi difundida. “A propaganda do amor romântico começou no século XII e começou a fazer parte do casamento na década de 1940. Ela prega que os dois amantes só têm olhos um para o outro, que é a alma gêmea, que nada vai faltar, que as necessidades serão atendidas, na fusão entre os amantes. Mentiras. Hoje, as pessoas acreditam nesse tipo de amor e acham que esse é o amor de verdade. Amor é construção social e cada época é de um jeito. O mais importante é que o amor romântico, a idealização do outro, está dando sinais de estar saindo de cena, o que é ótimo porque as pessoas vão viver muito mais felizes”, diz Regina. 

Os tempos mudam e, com eles, as antigas crenças dão lugar a novos padrões. “Estamos vivendo um momento que se caracteriza pela busca da individualidade, onde cada um quer desenvolver seu potencial. A grande viagem do ser humano é pra dentro de si mesmo. O amor romântico está deixando de ser sedutor, pois propõe o oposto do que as pessoas estão buscando hoje. A mudança de mentalidade é lenta, mas já há sinais disso. Daqui a um tempo, a maioria das pessoas não vai querer se fechar numa relação a dois. Vai preferir ter relacionamentos múltiplos ou poliamor. Nas décadas de 1950 e 1960, o divórcio era uma tragédia. Ser virgem era pré-requisito para casar. A época muda, a mentalidade das pessoas sobre o certo e o errado também”, prevê Regina. 

A especialista ainda diz acreditar que a fidelidade é superestimada pela sociedade. “Fidelidade é obsessão na cabeça das pessoas. Ninguém deveria se preocupar com isso, é bobagem. Para ficar bem na relação, é preciso fazer para si mesma apenas duas perguntas: ‘Me sinto amada?’, ‘Me sinto desejada?’. Bastam essas duas perguntas. Se a resposta for ‘sim’, está tudo ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito, não é da minha conta. Se as pessoas entendessem isso, o sofrimento seria muito menor. A cultura diz que quem ama não transa com mais ninguém. Mas não tem nada a ver. Até pode ter a ver com a paixãozinha de estar conhecendo alguém novo, mas é passageiro. Somos regidos pelo mito do amor romântico”, defende. 

Se o amor pelo outro existe por fatores alheios à sua vida sexual, a psicanalista afirma que não existe justificativa para a necessidade de se “perdoar” uma traição. Para Regina, “desde que nascemos somos ensinados de uma porção de valores e a maioria deles deve ir pro lixo. Você gosta de uma pessoa por motivos que estão alheios a ela desejar outro ou não. Em um relacionamento muito longo, por exemplo, as mulheres tendem a perder o tesão pelo marido antes deles perderem por elas. Ele vira amigo, vira irmão. O maior problema na falta de tesão no casamento é justamente a exigência de exclusividade, o maior vilão. Se o casamento é segurança, a insegurança pode ser boa para a conquista. Exigência de exclusividade afeta várias áreas da relação amorosa. Está mais do que na hora de as pessoas refletirem sobre isso. O amor não deve ter nada a ver com a vida sexual do parceiro. Ama-se por outros motivos que estão alheios a isso”.




Ilana Ramos






7 de julho de 2011

Brincando com fogo




Assunto delicado este. Traição. Desde que ouvi o psicanalista Contardo Calligaris dizer que a primeira traição é contra a gente mesmo, quando traímos o nosso desejo, tenho pensado como esse assunto é pessoal e intransferível.

Muita gente concorda com ele, mas não seria uma desculpa egoísta, uma espécie de salvo conduto, para trair sem culpa? Se bem que existe alguma diferença em trair com culpa? Dá no mesmo. A culpa só tira um pouco da culpa, ou seja, mortificar-se ajudaria a amenizar a traição. Sentir-se culpado também torna tudo mais romântico e inevitavelmente atraente.

Aí mora o perigo. O que poderia ser uma simples atração, ganha uma força incrível, ao ponto de o desejo se tornar insuportável, com risco de explosão iminente e provável erro de avaliação. As mulheres, sobretudo, tendem a romantizar a atração, acreditando que o amor verdadeiro justifica a traição, não o sexo. Os homens, ao contrário, costumam fugir daquilo que pode se transformar em algo mais forte do que uma simples atração, pois justificam a traição em nome do sexo, e não do amor.

Fato é que traição é uma palavra biblicamente pesada. Faz de você um Judas e ninguém quer ser o responsável pela morte do amor. Mas quando temos a vontade genuína traímos anyway. Pensar insistentemente no objeto de desejo é trair, assim como desfrutá-lo.

Das duas formas corremos o risco de sermos descobertos, ainda que por nós mesmos. Ninguém apaga o desejo não realizado pelo outro quando quer, mesmo que existam milhões de razões para isso. De alguma forma ele se concretiza, seja na fantasia mais íntima, seja na realidade mais obscena. Fugir disso é aproximar-se cada vez mais (Ana Carolina canta algo parecido).

Talvez, com esforço, consigamos espantar aquela pessoa que mexeu em algo adormecido, contudo, outras virão quais fantasmas em outros corpos, outras feições. Com certeza, seja lá o que tiver sido acordado, jamais voltará a adormecer, a menos que a gente mate com bala de prata. Quem está traindo quem?


Fernanda Santos


Scorpions - Dust In The Wind
 


 

22 de fevereiro de 2011

Traição tem perdão?

 



Por que somente algumas pessoas conseguem a proeza de viver bem? Se você conversar com essas pessoas, vai entender que elas se dão ao direito de pensar diferentemente da maioria. Permitem se comportar de uma forma única, autêntica, sempre traçando um caminho de vida sem tanto desgaste e stress.

O lugar comum é falar de traição, fidelidade e infidelidade segundo uma ótica preconceituosa, sem questionar o contexto dos fatos. Mas, diante das últimas pesquisas sobre o assunto, chegamos à conclusão de que o discurso moralista é hipócrita: as pessoas dizem uma coisa e fazem outra. Uma pesquisa feita nos EUA e no Brasil aponta que 70% dos casais vivenciaram ao menos um caso extraconjugal e 90% não se separam. 35% dos traídos terminam a relação, o que significa que mais da metade procura manter o casamento mesmo assim.

Uma das coisas que mais fazem você perder a cabeça num relacionamento é o sentimento de ciúmes e traição. O comum é entrar na briga. Afinal, você também pode pular a cerca, se vingar, fazer planos mirabolantes para descontar aquilo que lhe foi feito. Pode ir ao advogado e preparar o divórcio. Mas, enquanto fica se remoendo com tudo isso, o seu corpo produz uma quantidade enorme de substâncias que lhe fazem muito mal. Cuidado!

É preciso que sejamos mais sábios. Não estou dizendo que você tem de ser bonzinho e aceitar que lhe façam de gato e sapato. Tal atitude também o prejudicaria. Quando nos sentimos injustiçados e contrariados com essa situação, é preciso fazer algo a respeito.

É preciso ter claro o que é mais importante e o que é menos importante em nossos relacionamentos. Se a sua meta é viver tranquilo, ter uma boa companhia e amar, então toda a sua atenção deve ser focada nisso. Qualquer outra coisa ou fato que ocorra é menos importante.

Trate, portanto, de falar ao(à) seu(sua) companheiro(a) quais são os seus reais sentimentos e que você não se sente confortável com tanta confusão. Tente resolver o problema com uma comunicação clara e transparente para não deixar nenhuma dúvida. E depois, meu amigo, vá para a sua vida, vá para o que é realmente relevante.

Deixe o seu parceiro ser ele mesmo. Só vale ele estar com você de livre e espontânea vontade. Neste sentido a monogamia é muito mais um acordo que se chega a partir de muita consciência e diálogo do que um dogma.

Daí é possível perdoar. O perdão precisa ser compreendido com essa amplitude. É uma estratégia para vivermos melhor. Todo mundo erra, ninguém é perfeito. Você também não só tem as suas imperfeições como, eventualmente, pisa no pé dos outros. Mas, enquanto fica alimentando a raiva, o ressentimento e o ódio, você fica mal e deixa de saborear o melhor da vida.

Tente perdoar. Não que seja fácil fazer isso, mas vale a pena. Você tem mais o que fazer!


Sergio Savian