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4 de fevereiro de 2012

Quem fala o que quer...




Aposto que você completou a frase, ainda que mentalmente: ... ouve o que não quer!. Afinal, é para isso que servem os ditos populares – para nos fazer crer neles como verdades absolutas. Mas será?!? 

Em alguns casos, certamente vamos ouvir o que não queremos ao falarmos o que queremos, mas em outros, certamente poderemos ouvir o que queremos. Portanto, a frase mais certa seria: Quem fala o que quer, ouve o que o outro quer e ponto. Simples assim, óbvia e justa assim! 

O problema é que, por não suportarmos a ideia de que o outro pode nos falar o que não queremos ouvir, preferimos nem dizer o que queremos. Ou ainda, para não darmos o direito ao outro de fazer o que ele quiser, muitas vezes deixamos de fazer o que temos vontade. 

Quem nunca ouviu alguém dizer algo do tipo Eu não saio com meus amigos porque senão ele vai se achar no direito de sair também!. Ou algo assim Mas e se eu disser que quero passar o final de semana com ela e ela me disser que prefere viajar com os pais dela?. E por aí vai... 

O mundo da imaginação rola solto e ninguém se expõe, ninguém se atreve a ser autêntico, a bancar seus desejos e pagar pra ver quais são os desejos do outro. 

Um amigo meu brigou com a esposa (e quem já dividiu a cama com alguém, sabe: quando um casal briga, o espaço entre um e outro se torna tão grande que na cama onde os dois dormem passa a caber mais umas três pessoas...) e daí ele me disse: Poxa, eu fiquei com uma vontade danada de abraçá-la durante a noite!. 

E eu: Ué, e por que não abraçou?. Ao que ele rapidamente se defendeu: Ah, não! E se ela não quisesse? Ou se ela ficasse achando que, só por isso, estou aceitando que estou errado?. 

Mas eu insisti: Mas se ela não quisesse, caberia a ela que se manifestasse e demonstrasse o que queria. Além do mais, se ela vai achar isso ou aquilo por conta da sua vontade, é problema dela e não seu! Os desejos dela são dela e os seus, são seus. Enquanto vocês ficam imaginando o que o outro pode pensar ou fazer, ninguém revela o que realmente está sentindo ou desejando. Por que você simplesmente não faz a sua parte e deixa que ela faça a dela pra ver o que acontece?. 

Ele ficou me olhando, pensativo, com uma expressão um tanto confusa, como quem – de repente – se vê diante de uma nova possibilidade; mas logo depois voltou a se defender: Ah, não! Prefiro ficar na minha a levar um fora! E eu, pretensiosamente, traduzi: Quer dizer, então, que você prefere não fazer o que está com vontade só para não correr o risco de descobrir que a vontade dela não é igual a sua? E mais: prefere se dar por vencido a arriscar ter seu abraço retribuído?. 

Ele riu, um tanto perturbado com minhas indagações, e nada mais falou. Ficamos em silêncio, cada qual com suas reflexões... mas estou certa de que, da próxima vez, ele vai pensar melhor se realmente deve abdicar de seus desejos por medo do desejo do outro. 

Sinceramente, eu sei que não é nada fácil ser rejeitado ou perceber que o que a gente quer não vai ser possível porque o outro não quer, mas também me sinto cada dia mais inteira e satisfeita comigo mesma na medida em que consigo assimilar que sou responsável tanto por aquilo que faço quanto por aquilo que deixo de fazer, especialmente quando o assunto passa pelo meu coração... 

E assim, mesmo sentindo medo, tenho preferido arriscar, fazer a minha parte e deixar que o outro faça o que quiser fazer, pense o que quiser pensar e sinta o que puder sentir. 

Porque só deste modo estarei vivendo as relações com todo o meu ser, amando como eu realmente quero amar, sem que minhas fantasias sobre o que ele pensa, sente e quer conduzam os meus desejos. 

O resultado? Tem sido bem mais positivo do que eu poderia supor, felizmente!



Rosana Braga



29 de janeiro de 2012

Amar é compartilhar felicidade!




A psicanálise nos fornece uma preciosa contribuição no que diz respeito ao tratamento das desordens emocionais. Nesse sentido, na fase infantil quando mãe e pai são referências máximas na futura definição de perfis masculino e feminino, distúrbios psíquicos podem interferir nas relações afetivas do filho adulto. 

Quando escolhemos o parceiro ou a parceira para um compromisso sério, estamos depositando naquele indivíduo, expectativas de que o suprimento de amor do qual necessitamos seja contemplado nessa relação. No entanto, esse "suprimento" que são as nossas carências afetivas, não inicia na nova relação com o sexo oposto, mas a continuidade do histórico de relações com as figuras materna e paterna que são transferidas para a atual relação. 

As carências afetivas tornam-se transferenciais, passam do pai ou da mãe para aquela mulher ou homem cujas expectativas de suprimento que restaram do passado, alimentamos inconscientemente. 

Em suma: parceiro não é pai, mas tem que ser um pouco "pai". Parceira não é mãe, mas deve ser um pouco "mãe". Caso contrário, sentimentos não resolvidos com as figuras referenciais da infância, podem emergir com a energia das emoções desequilibradas que acabam por afetar a qualidade do relacionamento. 

Portanto, o mais importante nas relações afetivas adultas é ambos encontrarem o ponto de equilíbrio entre a demanda afetiva do passado e a necessidade de suprimento do presente. Não esquecendo, que não basta ser um pouco mãe ou pai se o inerente desejo sexual não for contemplado pelo desempenho dos amantes... 

Invariavelmente, o relacionamento íntimo - e sério - entre duas pessoas, envolve a fusão de carências afetivas, desejos e expectativas de crescimento pessoal e mútuo. E na ânsia de preencher o vazio de amor que ficou da relação com as figuras parentais da infância, o volume de energia que acompanha o envolvimento afetivo do casal, costuma gerar conflito de egos. 

Se os envolvidos não tiverem um nível aceitável de conhecimento de si mesmos e do que o outro representa na relação, o envolvimento tende a fixar-se na demanda instintual (sexo), que apesar de ser importante no contexto geral, é apenas mais um ingrediente na qualidade do relacionamento. 

Amar exige cumplicidade no sentido de compreender as carências que transitam numa relação amorosa. Ignorar é assumir um comportamento infantil ainda sintonizado ao passado. Por este motivo, o risco maior para a relação ocorre quando levamos para a proposta de crescimento mútuo e pessoal, os sentimentos negativos que transferem-se para o outrem em forma de processo obsessivo e asfixiante para ambos, como a dependência afetiva e o ciúme patológico, entre outros. 

Quanto mais estivermos focados numa relação afetiva estável, mais libertos estaremos da sintonia do passado para assumirmos a condição de adultos que encaram o amor como uma forma de buscar a completude e a felicidade.




Flávio Bastos


26 de janeiro de 2012

Quando você muda, a relação muda!





Quando você se relaciona com alguém, sob qualquer título – amigo, parceiro, companheiro, namorado, cônjuge, etc. – esta relação pode ser comparada a uma combinação entre dois elementos químicos. 

A interação entre o que você é e o que o outro é resulta num terceiro elemento, diferente do que cada um é individualmente e diferente também da simples soma de duas individualidades, já que somos intrinsecamente mutáveis. 

Não é difícil perceber essa alquimia se observarmos que nos comportamos de modo específico e diferenciado dependendo de com quem estamos. Com algumas pessoas somos mais calmos, com outras, mais frágeis; com algumas, mais agitados, com outras, mais espontâneos; e por aí vai... 

Aí está o encanto dos encontros: tudo pode ser transformado! Basta que um dos dois mude, e o resultado será novo, será outro, diferente do obtido até então... 

Mas, infelizmente, muitas vezes nos esquecemos desta opção (ou escolhemos nos manter na cômoda posição de ignorá-la). Preferimos acreditar que o outro é sempre o mesmo, não muda nunca e que, sozinhos, por mais que tentemos, não podemos transformar a relação. 

Nesta crença estão contidos dois enganos extremamente limitantes: o primeiro é que o outro não é o mesmo de sempre e pode mudar a qualquer momento, acredite você ou não. O mais provável é que você não queira se arriscar a olhar para esta possibilidade, até porque tais mudanças não necessariamente serão do seu agrado; mas que ele pode mudar, não resta dúvida. 

O segundo engano refere-se ao fato de que você, sozinho, é capaz de mudar a relação, sim. Talvez não queira. Talvez não esteja disposto. Entretanto, é fato: quando você muda, a relação muda! Claro que isso também não é garantia de que o outro gostará da mudança, mas que será diferente, será! 

Porque se considerarmos que mudanças são escolhas pessoais e intransferíveis, ou seja, que somente estamos habilitados a promover mudanças a partir de nossas próprias atitudes mudadas (e, portanto, ninguém pode mudar pelo outro), há aqui uma valiosa conclusão: se você deseja que sua relação seja diferente do que é atualmente, decida-se você por mudar seu comportamento e pare de investir toda sua energia na expectativa de que o outro mude. Caso contrário, correrá o eminente risco de se frustrar várias e várias vezes. 

Óbvio que é extremamente delicado investir em mudanças quando o outro é parte essencial do que virá a ser. Requer dedicação, paciência e persistência. Requer o exercício constante e intensivo de suas melhores qualidades. Requer, sobretudo, a decisão contundente e firme de que você deseja dizer e expressar, ser e agir, propor e sentir um amor ‘manualmente’ transformado... 

E é aí que está o xis da questão: sentar-se no sofá da sala e pensar em como têm sido chatos os seus dias ao lado de alguém com quem você imaginou viver uma linda história de amor é realmente bem mais fácil... Porém, não lhe rende alegria, satisfação e a sensação de ter feito absolutamente tudo o que podia para que os próximos dias sejam diferentes... 

Ter na ponta da língua um sem número de reclamações não lhe permite vivenciar uma competência superior, ousada, própria de quem redige sua história no imperativo, de modo consciente, e não no condicional, somente reagindo ao ritmo que a vida ou as pessoas lhe impõem. 

No final das contas, sua capacidade de dar novo sentido para esta relação (e para sua vida) é uma oportunidade de apostar naquilo que você deseja para si, de um novo jeito. E se conseguir enxergar a sutileza contida nesta possibilidade, certamente entenderá que a felicidade não está apenas nos resultados que obtém, mas especialmente no que você faz, e como faz, para alcançá-los.




Rosana Braga





25 de janeiro de 2012

Dá pra simplificar o amor?





Por que raios os relacionamentos não podem ser mais simples? Por que cargas d´água duas crianças conseguem se comunicar de forma tão clara e dois adultos não são capazes de se entender mesmo falando a mesma língua? Claro que não se trata aqui de casamentos estabelecidos nem de namoros sólidos e sim dos passos iniciais das relações afetivas. São tantos filtros, frescuras e censuras que amar fica inviável! Cadê a espontaneidade de que o romance tanto necessita para florescer? Cadê a sinceridade adulta de que as pessoas tanto precisam para se entender? Gente, ainda não somos capazes de nos comunicar por telepatia. Hello! Aliás, está cada vez mais difícil manter a sintonia afiada porque existem milhões de interferências, externas e internas. Por isso, é preciso falar! Usar a boca, as palavras que você aprendeu na vida – de preferência as mais simples – e pronunciá-las clara e pausadamente. “Eu gosto de você”. “Eu quero conhecer você melhor”. “Eu não estou interessada”. Simples assim. Para complicar, adquirimos esta mania infantilóide de trocar emails, MSN, torpedos, que dá o direito ao outro de captar a mensagem da forma que lhe convier. Mais ou menos isso: você escreve acreditando ter dado um passo acertado (até ousado!). O lado de lá recebe sua mensagem sabe Deus como e, nos dias subsequentes, silencia. O lado de cá acha que o silêncio é a resposta a uma ofensa, ou quem sabe o lado de lá tenha entendido que o de cá deu um chega-pra-lá. Aiiiiiiiiii. E se porventura os dois lados estavam querendo a mesma coisa? A chance acabou nessas mal traçadas linhas das cartas eletrônicas, né? Silenciar é sintoma para o bem ou para o mal e sempre dá margem para mil e uma teses quase acadêmicas. Sem querer comparar homens e mulheres e já comparando, eles são especialistas em cortar a conversa, desligar o MSN na cara, mudar o tom do email, ou nunca mais responder seus torpedos (“somos adultos”, mesmo?). E as mulheres, especialistas em querer saber tudo nos mínimos detalhes, insuportavelmente ansiosas, são incapazes de pararem quietas e esperar para ver o que acontece. Cutucam, perguntam, mandam um email seguido de outro. O cara acha que a gata é doida, se assusta e só reaparece quando o surto felino passou. Ou some de vez. É ou não é assim? Na era da comunicação, o que mais falta é comunicação. Se metade desse caminho tortuoso fosse abreviado pela clareza, vocês já estariam do mesmo lado da cama há muito tempo, acredite.



Fernanda Santos