6 de dezembro de 2012

Prazer em resolver problemas





É um prazer resolver problemas quando os encaramos como um estímulo para a autorrealização. Afinal, a alegria diante de uma realização interior é genuína.

É como o sorriso de uma criança quando está aprendendo a andar. Quando sua mente está livre de expectativas exageradas e do medo de errar, ela pode gozar da satisfação do autodomínio. No entanto, na medida em que crescemos, esta satisfação gerada pelo autodomínio será inibida devido aos inúmeros "nãos" que passamos a escutar, sem mesmo entender por que.

Gradativamente, a sensação de inadequação, culpa, vergonha e frustração irá se instalar em nossos padrões mentais. Neste sentido, aprendemos que não podemos controlar os "móbiles" como gostaríamos, mas, sim, que serão eles que irão nos controlar!

Bebês que tiverem pequenos prazeres gerados pela autonomia e independência crescem com mais facilidade para afirmar a sua pessoa. Por exemplo, comer com as próprias mãos. Quando os pais insistem em dar comida na boca das crianças, estão tirando delas o prazer e a aventura de comer.

Aprendi com minha mãe a alimentar meus filhos: colocava diante deles diversas tigelinhas com uma leguminosa, um cereal, uma raiz, uma flor, uma folha e um fruto. Assim, eles podiam escolher por si próprios o que queriam comer. No início, com as mãos, depois com a colher. Era uma grande bagunça, mas que deu certo! Nunca tiveram problemas para comer...

Seguir ordens é um processo penoso, pois, na maioria das vezes, representa negar nossas necessidades pessoais. Abrir mão do desejo natural de explorar o desconhecido e saber aguardar o momento justo para agir é um desafio constante que teremos que adquirir ao longo de toda nossa vida.

Quando as crianças observam os adultos tendo prazer em resolver problemas, aprendem e experimentam o mesmo prazer ao tentar resolver seus próprios problemas. Se tivermos crescido num ambiente seguro e que, ao mesmo tempo, nos encorajou para seguirmos adiante com nossas iniciativas e riscos pessoais, quando adultos seremos autônomos e, ao mesmo tempo, respeitaremos nossas necessidades naturais de dependência e proteção. Mas, se tivermos sido constantemente desencorajados a explorar o mundo à nossa volta, vamos crescer crendo que somos incapazes e que agir não leva a nada. A dor de ter nossas emoções e necessidades ignoradas ou distorcidas gera uma sensação profunda de inadequação.

Aos cinco anos de idade, já desenvolvemos uma noção clara do que podemos ou não fazer. Deixamos de agir erroneamente mesmo quando estamos a sós. Se nossos pais foram extremamente controladores, teremos facilmente a sensação de culpa e vergonha quando agirmos por conta própria, à revelia de seus comandos.

Quando crescemos, este sentimento já estará tão arraigado em nós que nem sabemos mais porque o sentimos. A questão é que quando ele se torna demasiado, perdemos tanto o desejo como o prazer de exercitar a nossa própria vontade!

Para superar esse bloqueio criativo, temos que cultivar uma nova postura interior, na qual nos vemos como criadores de nosso próprio curso de vida. Desta forma, será prazeroso nos estimularmos a assumir tanto os riscos como as suas consequências.

Quando nos sintonizamos com a autorresponsabilidade e o autodomínio, somos capazes de aprender a ver os problemas não como problemas, mas como oportunidades de crescimento interior.

Lama Zopa, em seu livro "Transformando problemas em felicidade" nos esclarece que precisamos ter constantemente duas atitudes internas: cultivar uma mente que não tem aversão aos problemas e gerar uma mente que sente prazer em resolvê-los. Para tanto, temos encarar os grandes problemas passo a passo como uma forma de sermos gentis com nossos limites e incertezas. Intuitivamente, sabemos que não adianta ficarmos inquietos, com raiva ou deprimidos.

Lama Gangchen nos aconselha a substituirmos a palavra "problemas" por "pequenas dificuldades". Na realidade, gostamos de arranjar pequenos problemas para resolver, pois a sensação de controlá-los mantém nosso cérebro saudável e equilibrado. Enquanto uma área do cérebro registra a chance de erro e aciona outra área que nos deixa acordados e atentos, outra área analisa a situação e traça estratégias que, por sua vez, ativa o sistema de recompensa, deixando-nos motivados e animados com o desafio.

Na medida em que resgatamos o prazer de solucionar problemas, recuperamos o prazer de viver. Afinal, problemas existem e sempre existirão!



Bel Cesar

5 de dezembro de 2012

Toda história tem sempre três lados...




Ah, que saudade eu não tenho da época que achava que a minha verdade era absoluta!

Estar cego em um ponto de vista levará você a perder grandes oportunidades, grandes amigos e até mesmo a oportunidade de aprender e evoluir. Tenho, sim, a humildade de reconhecer que um dia já fui muito diferente do que sou hoje. Possuía enormes defeitos como, por exemplo, não enxergar o outro para atingir um objetivo. Pessoas eram apenas participantes da minha história de vida e nos vai-e-vens me transformei e, hoje, posso dizer que vivo muito mais feliz e em harmonia com o todo.

Aprendi que cada história ou conflito compartilhado tem sempre três lados, o da pessoa que lhe conta a sua versão, a versão do outro e finalmente a verdade, que é justamente a parte da história sem nenhuma potência associada. Como potência associada, posso incluir a raiva que sinto naquele momento, o medo, o peso de histórias passadas, o momento atual em que vivemos, sim! Tudo isso reflete para que você enxergue somente o seu lado e as perdas podem ser irreparáveis e enormes. Ceder e ter a humildade de escutar o outro lado da história, sentir o que o outro sente e se colocar no lugar do outro é, sim, um aprendizado de vida, é um treinamento que requer constância. E no dia em que você conseguir ouvir uma história ou dela ser participante e conseguir se tornar um observador, tenha absoluta certeza que você deu mais um passo na sua trajetória de evolução pessoal.

O termo "ser político" se depreciou ao longo do tempo, mas na melhor das intenções, vou dizer que em muitas situações que vivemos, temos que ser políticos, ou seja, agradar a todos e depois, então, com a cabeça fria e em paz poder interagir com a história do outro e, assim, encontrar o caminho do meio que é realmente o da verdade.

O desafio hoje em dia não é acumular informação e, sim, saber discernir a informação. Conceitos, temos aos montes, mas o verdadeiro aprendizado evolutivo está em aplicar tais conhecimentos adquiridos. A informação é importante quando agregada à prática. O discernimento é igual à proporção entre informação e conhecimento, o resto é desperdiçado.

As experiências negativas são tesouros que alimentam o discernimento. É necessário estudá-las para entendê-las a fim de adquirir informação. Aquele aspecto vivenciado e entendido dará frutos, pois a vivência já existiu, devemos, então, aproveitar os frutos. Só enxergo e percebo no outro aquilo que enxergo e percebo em mim mesmo.

A clareza da decisão depende de como você vê o fato.

Então, para que perder tempo com coisas que lhe fazem mal, para que perder tempo com pensamentos e emoções negativas se a qualidade de sua vida está associada à qualidade que você dá a seu tempo? Se o seu ponto de vista for absolutista em qualquer situação que não seja espiritual o levará ao fracasso e a decepção. Neste caso, cada falha é uma decepção e não uma dificuldade.

No exercício do amor, do dar e receber é que damos oportunidade de desenvolver quatro princípios fundamentais: o amor, o respeito, a dignidade e a simplicidade.

Quem consegue ter esses princípios bem estabelecidos se adequa a qualquer meio. Para desenvolver o princípio do amor é preciso conviver com alguém que tenha esse princípio, para que haja a troca necessária. O princípio do respeito se concretiza quando você reconhece o espaço do outro e o seu em sua mente.

O princípio da dignidade é que dá sustentação à pressão, tão comum nos dias de hoje. O princípio da dignidade reconhece que você é tão digno quanto o outro. Quando eu me sinto digno, eu me posiciono com firmeza. Eu não sou mais pessoa que você, e você não é mais pessoa do que eu.

O princípio da simplicidade é a capacidade de expressar o seu conteúdo na medida da compreensão do outro. Quem tem boa dignidade e simplicidade tem boa estratégia.

Querer ser justo em excesso, na maioria das vezes, leva você a uma exposição desnecessária e muitas vezes à decepção, pois, ser justo é entender que há medidas diferentes do que quer que seja para você e para o outro. Aí, então, caímos na vaidade que é justamente quando não entendemos que todas as histórias têm sempre três lados e enxergamos somente o nosso. A vaidade dá rasteira na justiça, o poder subiu à cabeça e a justiça se perdeu. Somente quando este princípio está bem consolidado é que entendemos que as coisas são relativas e que existe o desigual.

Normalmente, julgamos os outros porque temos preguiça de analisar e identificar suas crenças e aprender a gerenciá-las. Tudo, então, só começa a melhorar quando tomamos consciência de nós mesmos. Enquanto não percebermos que não somos donos da verdade absoluta, ficaremos escravos dela.


Maria Isabel Carapinha 
 
 

4 de dezembro de 2012

Comprometer-se




Para muitos seres humanos, ainda é muito difícil aceitar que a realidade de suas vidas é de sua total responsabilidade. Embora as conquistas exteriores dependam de inúmeros fatores, no que se refere ao crescimento interior e à libertação do sofrimento, o que quer que almejem alcançar, terá de ser realizado por eles.

Sem esta consciência, seguirão criando uma série de desculpas para adiar indefinidamente o processo. Porém, a transformação pela qual está passando a humanidade - e que irá acelerar-se a partir desse mês de dezembro-, certamente irá intensificar a necessidade de mudança.

Os que insistirem em permanecer acomodados na velha forma de ser, perderão uma oportunidade valiosa de expandir sua sensibilidade, abrir novos canais de percepção e, consequentemente, gerar possibilidades muito mais criativas para suas vidas.

A resistência em comprometer-se é a última forma de resistência do ego, que fará de tudo para que seus medos, limitações e bloqueios continuem a guiar suas ações.

O primeiro passo é deixar de lado a exigência de garantias, pois ela é um obstáculo considerável para que a mudança aconteça. Encarar o desconhecido, apesar do medo, é a única forma de alcançar o que desejamos.

Ao nos responsabilizarmos por nossas escolhas, ampliamos as chances de fortalecer nossa autoconfiança e experimentar um sentimento de vitória que ninguém, jamais, poderá nos conceder.

"Vida é insegurança. Cada momento é um mover-se para uma insegurança cada vez maior. É um jogo. Nunca se sabe o que vai acontecer. E é belo que não se saiba. Se fosse previsível não valeria a pena viver.

Se tudo fosse como gostaríamos, se tivéssemos certeza de tudo, não seríamos absolutamente homens, seríamos máquinas. Somente para as máquinas tudo é certo e seguro. O homem vive em liberdade. A liberdade necessita de insegurança e incerteza. Um verdadeiro homem de inteligência está sempre hesitante porque não tem nenhum dogma no qual se apoiar. Ele tem que olhar e responder.

Lao Tzu diz: 'Eu hesito e ando alerta na vida porque não sei o que vai acontecer. E não sigo nenhum princípio. Tenho que decidir a cada momento. Nunca decido de antemão. Tenho que decidir quando o momento chega'.

Então, é preciso estar pronto para responder. Isto é responsabilidade. Responsabilidade não é uma obrigação, não é um dever -é a capacidade de responder. Um homem que quer saber o que é a vida tem que ser responsivo.

...Se você estiver buscando segurança e certeza, os seus olhos se fecharão. E cada vez você se surpreenderá menos e perderá a capacidade de se maravilhar, terá perdido a religião. Religião é a abertura de um coração maravilhado, é a receptividade para o mistério que nos circunda..."

OSHO - A arte de morrer.


Elisabeth Cavalcante



3 de dezembro de 2012

50 tons da verdade!




Sim, me rendi à trilogia "50 tons"*! E embora ainda não tenha lido o último volume, já poderia refletir aqui sobre os tantos e tantos temas levantados na narrativa que conta sobre o encontro e a relação entre um jovem casal - Ana e Christian. Porém, quero me deter, neste momento, a apenas um!

Não se trata da combinação entre dominador e submissa, nem do erotismo tão explorado entre cada intenso acontecimento. E também não quero defender nenhuma das tantas diferentes opiniões que já ouvi e li acerca deste que é - indiscutivelmente - um grande sucesso editorial!

Quero falar de um detalhe que muito me envolveu e cativou! É sobre a capacidade que o protagonista - Christian Grey - tem de expor a sua verdade. De se colocar. De falar exatamente o que quer, como quer, onde quer e quando quer.

Em princípio, colocado desta forma, e especialmente a quem não leu, pode parecer uma característica egoísta. Mas definitivamente não é! A começar por um contrato que ele aceita discutir, passando pela clareza de suas colocações e, sobretudo, pela coerência que ele mantém, o tempo todo, entre o que fala e faz. Fiquei realmente admirada.

Pra quem já me lê, sabe que uma das sugestões que insisto em repetir quando falo de relacionamento é sobre a comunicação. Clareza, objetividade, transparência. Acredito, realmente, que a prática recorrente dessas qualidades facilitaria de modo imensurável e inenarrável nossa vida, nossa saúde e nossas relações, especialmente as afetivas.

De repente, pensei: "Que maravilha! Ele pede e pratica pelo menos 50 tons da verdade!". E por ser assim, termina incentivando Ana a esse treino. Não exige "sim" ou "não", porque mais importante do que as determinações é o que pode ser vivido. Enquanto casal, parceiros, adultos e conscientes, eles discutem, perguntam, ouvem um ao outro. Quando ainda não sabem, dão-se espaço e tempo para pensar. Quando sentem que algo pode lhes ser demais, comprometem-se a, pelo menos, tentar.

Sem garantias, sem certezas. Um dia de cada vez. Um cômodo de cada vez. Um acessório de cada vez. E pra melhorar, ainda têm as palavras de segurança! "Amarelo" e "Vermelho"! A primeira serve de alerta para quando um está se aproximando do limite do outro. E a segunda, refere-se ao alerta de que um chegou ao máximo do que o outro pode suportar.

Quem de nós tem coragem de avisar? Quem de nós pergunta ao outro qual é o seu limite? Quem de nós pede ao parceiro para gritar "pare" quando não aguentar mais uma situação e, de forma respeitosa, mantendo as alteridades rigorosamente intactas, para imediatamente? Sem discutir. Sem barganhar. Sem tentar impor as próprias necessidades!

Não estou aqui discutindo os termos ou as cláusulas do contrato formal e por escrito que ele propôs a ela, mas sobretudo do contrato verbal, das intermináveis conversas, da abertura total e irrestrita para falar, perguntar, refletir, esgotar as dúvidas, os medos e as inseguranças. Isso é que é incrível, arrebatador, encantador!

Quem não quer conviver com alguém que está disposto a falar do que sente, que está comprometido até o último fio de cabelo com a sua verdade? Penso que não é o sexo ou o dinheiro ou a beleza do personagem que conquistou o mundo. Sim, claro, tudo isso tem seu valor e, apesar de serem questões absolutamente relativas, realmente não vejo nada de mau em querer o belo, o bom e o prazeroso. Mas penso que o que sustenta tudo isso na narrativa são os inúmeros tons da verdade usados tão contundentemente na relação entre eles.

Quantas vezes temos medo de nós mesmos, da nossa história, do nosso passado, de nossos pensamentos e sentimentos, de nossas fraquezas? E por tudo isso, inventamos alguém que não somos para tentar obter alguma garantia de que podemos ser amados pelo outro? E sabe o que conseguimos? Enganos, ilusões e frustrações! Amores de mentira! Relações pequenas, cheias de silêncios ensurdecedores, abismos e mal-entendidos!

O que me abraçou definitivamente na trilogia de E. L. James, a autora britânica deste best-seller, foi a coragem de seu personagem de não se esquivar de si mesmo. De enfrentar seus próprios demônios como consegue, quando pode, pedindo ajuda ao seu psiquiatra, aceitando ajuda de onde veio, sem julgar, sem desmerecer.

Porque, acredito eu, foi a sequência de suas escolhas - nem certas e nem erradas, apenas as escolhas possíveis em cada momento de sua vida - que lhe possibilitou chegar ao encontro de seu grande amor. Ao encontro da mulher através de quem ele pode enxergar sua própria alma. E o que é o amor senão ser para o outro um espelho fiel de tudo de bom e tudo de nem tão bom que existe nele e, ainda assim, continuarem juntos?

No mais, o exercício é de evolução diária, consistente e com o máximo de prazer que for possível! Lancem mão de seus acessórios pessoais e façam-se pulsantes e satisfeitos!

* De E. L. James, a trilogia foi traduzida e publicada no Brasil sob os títulos "50 tons de cinza", "50 tons mais escuros" e "50 tons de liberdade".

Rosana Braga