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15 de junho de 2011

A lição das camareiras




 
Prestei atenção nas imagens das camareiras de Nova York, que vaiam e xingam Dominique Strauss-Khan quando ele desce de uma limousine para comparecer ao tribunal onde responde a uma acusação de estupro. O retrato marca uma virada na história.

Fiquei emocionado só de olhar para aqueles rostos duros, com raiva. Prestei atenção nos músculos, nos dentes, nos olhos, nas mãos.

Nós sabemos que pode-se medir o grau de civilização de toda sociedade pelo tratamento que reserva às mulheres.

As camareiras de Nova York mostram que o mundo mudou. Lembram que mesmo nos escalões menos protegidos da sociedade não é mais possível atacar nem humilhar mulheres com certeza da impunidade. Sua dor e sua raiva espalha-se pelo mundo, chega a nossas casas, inspira conversas e reações de repúdio. Olhando para aqueles rostos, imaginei: quantas entre elas passaram pelo mesmo sofrimento? Quantas sofreram apenas de pensar no risco?

Mesmo pobres, em busca de muitos direitos, a palavra dessas mulheres já não pode ser ignorada nem distorcida para atender as conveniencias de quem reside na outra calçada dos generos humanos e em outro patamar da pirâmide social.

Há pouco tempo era possível encontrar pessoas capazes de sustentar a tese criminosa de que não existe estupros — apenas mulheres que não souberam ou nem quiseram resistir como era preciso. É inacreditável mas é verdade.

O processo de Strauss Khan pode se tornar exemplar em função deste aspecto. Os estupros sempre foram praticados e perdoados, no mundo inteiro, graças a um cotidiano de massacre moral das mulheres, pelo esforço permanente para diminuir sua credibilidade, negar o direito de decidir sobre seu corpo e até fazê-las sentir vergonha por seu sofrimento.

Nós sabemos que, em qualquer área da existência humana, o melhor remédio para se enfrentar um crime não são cursos educativos, nem discussão sobre valores morais — mas a certeza da punição.

É certo que toda pessoa tem direito a ser considerada inocente até prova em contrário. O caso também possui aspectos políticos que não podem ser ingorados.

A denuncia contra Strauss Khan, porém, é fortíssima e detalhada. Momentos depois do ataque, quatro funcionários que exercem funções diferentes no hotel de luxo em que ele se hospedara conversaram com a camareira fez a acusação de estupro. Ela estava descontrolava, chorava sem parar, vomitava, e ainda assim fez um relato detalhados e coerente do que ocorreu.

Paulo Moreira Leite

B.J.Thomas - Raindrops Keep Falling On My Head





17 de dezembro de 2010

O médico, o monstro e a vergonha feminina

Existem os médicos e os monstros. “Ele é um médico monstro.” Assim uma ex-paciente se referiu ao doutor Roger Abdelmassih, na televisão. Calvo, de cabelos e bigodes brancos, 67 anos, esse especialista em reprodução humana foi preso ao chegar a sua clínica de luxo. A acusação é de abuso sexual contra cerca de 50 mulheres desde os anos 70. Os depoimentos são de embrulhar o estômago.

Alguns homens que se consideram inteligentes e sensíveis perguntam, rindo: “Que droga será essa que deixa as mulheres mais amorosas e submissas?”. Também há os que não entendem por que as mulheres não denunciaram o médico antes: “Elas deveriam sair da clínica e ir direto à delegacia. Por que ficaram caladas?”.

Talvez eles não possam mesmo compreender o alcance do sentimento feminino de vergonha, humilhação, revolta, nojo e culpa. Um sentimento pleno de ambiguidades invade a mulher em episódios que misturam abuso sexual a poder. Médicos podem ter mais poder que chefes ou maridos. Como desmascará-los? Especialmente o médico que promete dar a ela a capacidade de gerar um filho. É visto quase como um deus. Elas se tornam reféns dele e de um sonho.

Nem o advogado de defesa nem o filho dele compreendem o “motivo” das denúncias. O médico escreveu um artigo em que pergunta: “Qual a verdadeira motivação para esse movimento que mais se caracteriza como sanha de vendeta, que se expressa em denúncias esvaziadas de sentido, em acusações perversas, subjetivas, sem materialidade?”.

Pois é, doutor. Não parece haver nenhum motivo nos depoimentos das mulheres além de restabelecer uma verdade, restaurar a dignidade, devolver a humilhação e cassar o médico que, segundo elas, um dia as beijou na boca na cama ginecológica, encostou-as com seu corpanzil na parede, passou a mão em seus seios e corpo. E, segundo algumas, as violentou levantando o lençol que as cobria quando saíam da sedação.

Entre as mulheres que já relataram crimes sexuais na clínica de Abdelmassih, umas conseguiram ter filhos, outras não. O tratamento de fertilização na clínica pode custar R$ 200 mil, dependendo do tempo e da sofisticação. A primeira acusação de abuso, em 2008, foi de uma ex-funcionária. Natural.

As pacientes só ganharam coragem para se confessar vítimas quando houve uma denúncia do Ministério Público. Elas não estavam mais sozinhas. A cena sem testemunhas – “subjetiva e sem materialidade”, nas palavras do médico – poderia vir a público com menos danos morais. Já não seria a palavra de uma mulher anônima contra a palavra de um médico rico, poderoso e influente.

A defesa alegou que o número foi irrisório diante das suas 20 mil pacientes. Eu me pergunto se o número importa para a acusação de crime. Talvez importe para uma conclusão de distúrbio de personalidade. Um médico que trai a confiança e aproveita a vulnerabilidade de uma paciente para atacá-la sexualmente deveria rasgar seu diploma.

No consultório Abdelmassih tem porta-retratos com a mulher, o filho e parece muito sério. Volta e meia anda com um padre pelos corredores, o que reforça sua aura de respeito. No dia 23 de novembro foi condenado pela Justiça a 278 anos de prisão.

Ruth de Aquino