31 de outubro de 2010

O inatingível




Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


 
Mário Quintana

30 de outubro de 2010

Be cute


Read books!

Mulheres



Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas
andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam
vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais
organizadas. Enquanto os homens viam futebol,
tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres,
pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar,
a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou
simplesmente a nos abandonar.
No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem,
a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.


Charles Bukowski

Canção




Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar. 
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles

Porque o livro é caro no Brasil




Não é novidade para ninguém. Nos Estados Unidos e na Europa, um livro sai bem mais barato que no Brasil. Vamos só lembrar um dos muitos exemplos. Na França, um dos volumes com as aventuras de Asterix (vendidos em livrarias, não em bancas) sai pelo equivalente a R$ 8,95. Aqui, custa R$ 17,00. A capa, o tamanho, o número de páginas, os quadrinhos, tudo é idêntico. Só o que muda é o idioma que vem dentro dos balões. Claro: os custos da tradução não explicam o aumento.

O problema é a tiragem. Enquanto outros países trabalham com tiragens médias de mais de 10.000 exemplares por edição, no Brasil esse número fica na casa dos 2.000. O mercado é pequeno, vende-se pouco, e elevar essa média é produzir encalhes. Daí que, com edições reduzidas, o custo por unidade sobe. O raciocínio é bem simples. Fora o papel, que varia segundo a quantidade de exemplares, toda edição tem um custo fixo, do qual não dá para fugir. Composição das páginas, máquinas, revisões, ilustrações, tudo isso independe da tiragem. E quando se divide o custo fixo pelo número de exemplares, tem-se o custo unitário.

Como o mercado brasileiro se organizou com base nas pequenas tiragens, o preço final de um volume é sempre alto. Mesmo os best-sellers, que vendem dezenas de milhares de cópias, custam caro, já que os editores fixam o preço com base em padrões (um cento x por página) estabelecidos a partir das baixas tiragens. A vantagem, dos editores, é que best-sellers dão mais lucro. E quase sempre compensam o prejuízo dos títulos que acabam encalhando nas prateleiras.

O leitor brasileiro é prejudicado pelas tiragens pequenas. Como o mercado de livros no Brasil é bem reduzido, as edições são minguadas. Na média, não passam dos 2 000 exemplares. A equação é cruel: tiragens mínimas projetam o custo unitário lá para as alturas. O leitor, quando pode, é quem acaba pagando a conta. Veja, em porcentagens, para quem vai cada parcela do preço de capa que você paga na livraria:

Papel: menos de 5%
Às vezes é transformado no vilão da história. O custo subiu depois do Real: preço da tonelada de papel branco passou de cerca de R$ 600,00 para R$ 1.100 reais, mas não significa nem 5% do preço de um livro.

Editor: cerca de 25%
O editor fica com algo em torno de 25% do preço de capa. Esse valor paga os custos de funcionamento da editora, a tradução, revisão, paginação e o lucro.

Autor: de 7% a 12%
Recebe em média 10% do preço de capa de um livro, mas essa porcentagem varia. O valor inclui todos os custos de seu trabalho. Na maioria dos casos, o autor não recebe adiantamentos.

Gráfica: cerca de 8%
O custo de impressão de um livro comum, sem ilustrações impressas em papel especial, é da ordem de 8% do preço de capa, sem incluir o preço do papel.

Distribuidor: cerca de 15%
A maior parte do preço de capa do livro fica na distribuição e venda. O distribuidor atacadista fica com 15%.

Livraria: 40%
A livraria fica com 40% do preço de capa do livro, em média.


Marco Chiaretti

29 de outubro de 2010

Keep calm and...



Enjoy your home!

O romance mais longo de todos os tempos




Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), é considerado o livro mais longo de todos os tempos. Tem 9.609.000 caracteres, contando os espaços entre as letras.

Proust escreveu o primeiro volume, dos sete que compõem a série, em 1912. Dono de uma saúde frágil, passou boa parte da vida estudando e frequentando os salões da aristocracia francesa, retratada em sua obra.

O último volume foi adaptado para o cinema pelo diretor chileno Raoul Ruiz. Tempo Redescoberto (1999) teve no elenco nomes de peso, como as atrizes Catherine Deneuve, Emanuelle Béart e o ator John Malkovich.


Este post homenageia o Dia Nacional do Livro, comemorado hoje, 29 de outubro.

Revolução humana do século XXI





Chegou o tempo de levantarmos nossas cabeças e olharmos para o alto, desvencilhar nossos olhares dos mecanismos industriais e repensarmos sobre a insanidade de nossas atitudes. Chegou o tempo de desligarmos as máquinas das fábricas e ligarmos as máquinas da existência.

Se o século XVII levantou questionamentos para os pensadores de seu tempo sobre os modos de produção, o século XXI está escasso de pensadores. Quem, em sã consciência, deixará a rotina de sua empresa para dedicar-se ao pensamento e a buscar soluções para a vida social? Quem, desprovido de interesses econômicos, conseguirá repensar o sistema no qual estamos profundamente mergulhados?

Ainda que encontrar mentes pensantes seja um trabalho de garimpo, é inegável reconhecer que chegou o tempo de dizer-se algo diferente, de propor-se algo diferente.

Os metrôs dos grandes centros estão mais cheios de pessoas e mais vazios de sonhos, de ideais, de vida. As fábricas estão cada vez mais cheias de técnicos, engenheiros, conhecedores das máquinas e mais desprovidas de encontros, de festas, de amores.

Quem poderá contrariar o fato de que nos preocupamos mais com o dinheiro do que com qualquer outra coisa? Quem poderá contrariar o fato de que a maioria dos casais, no pouco tempo em que estão juntos, só discutem sobre os problemas financeiros ou sobre os projetos para se ter mais dinheiro? Quem poderá negar que nossos filhos não nos têm por perto e que a escola tornou-se uma enfadonha prisão, onde professores e coordenadores não sabem o que fazer para compreender os adolescentes?

Chegou o tempo de reconhecermos que os meios de produção do conhecimento estão escassos, vencidos, deteriorados. Chegou o tempo de reconhecermos que o sistema de trabalho e de produção de bens e serviços é insano, pois só tem produzido neuróticos, obsessivos, estressados e depressivos.

Dessa forma, quem poderá negar o fato de que as pessoas acorrem perdidamente para os cultos milagrosos, doam seu dinheiro para as igrejas em troca de soluções sobre as quais elas não conseguem pensar, pois não têm tempo? Até quando vamos viver robotizados, na concepção de que a vida é limitada demais e que não há outra forma de se enfrentar essa situação?

A verdade é que temos medo do futuro. As taxas de natalidade estão gritando em nossos ouvidos, denunciando que caminhamos rumo ao fim. Não queremos mais filhos. Talvez, inconscientemente, estejamos percebendo que a vida não vale a pena! A verdade é que carecemos de heróis. Vivemos em um tempo em que os idosos são vistos como pobres coitados, vitimados pela falta de beleza estética, quando o fato é que são eles os portadores da sabedoria que poderia nos incitar a buscar o essencial, o belo. São eles, que ao final da vida, compreenderam que aquilo de que mais sentem saudades são das pessoas com quem conviveram, as pessoas a quem amaram, a quem ajudaram.

É tempo de apertar o pause da rotina de produção em série. É tempo de levantar sua mão e gritar o seu nome, único, irreproduzível, singular! Tempo de uma Revolução Humana, onde a vida vale mais, onde o tão batido jargão do Time is money dê lugar ao Time is life, e que nossos filhos nasçam e tenhamos orgulho de tê-los colocado em nosso mundo!



Élison Santos

Procure seus caminhos




Procure seus caminhos,
Mas não magoe ninguém nessa procura
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!

Não se acostume com o que não o faz feliz
Revolte-se quando julgar necessário
Alague seu coração de esperanças
Mas não se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!

Se estiver tudo errado, comece novamente
Se estiver certo, continue
Se sentir saudades, mate-a
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!


Fernando Pessoa

Os melhores filmes de ação



O jornal inglês The Guardian publicou uma lista de melhores filmes de ação de todos os tempos. A boa é que o nosso Cidade de Deus, aquele filmaço do Fernando Meirelles, ficou em sexto lugar na lista. 

Considerando que a lista simplesmente não considera Batman - o Cavaleiro das Trevas nem Operação França nem mesmo um clássico como Duro de Matar, é um baita reconhecimento.

Mas, daí, olhamos a lista e vimos isso:

1. Apocalipse Now
2. Intriga Internacional
3. Era Uma Vez no Oeste
4. Meu Ódio Será Sua Herança
5. Amargo Pesadelo
6. Cidade de Deus
7. Glória Feita de Sangue
8. Salário do Medo
9. O Tigre e o Dragão
10.  Além da Linha Vermelha

Ora, embora o Guardian tenha selecionado ótimos filmes, não são filmes de ação. Apocalipse Now, Era Uma Vez no Oeste e Além da Linha Vermelha são filmes longos, reflexivos, arrastados. Estão longe de serem filmes de ação.

Filme de ação é Rambo, é Comando para Matar, é Top Gun. Nada que mereça figurar nas nobres páginas do Guardian, reconheço. Mas filme de ação também é Kill Bill, é Três Dias do Côndor, é Os Caçadores da Arca Perdida. Ação, moçada!
A seguir, sai uma lista realmente VIP dos Melhores Filmes de Ação:

1. Trilogia Indiana Jones - porque Indy passa fogo e dispensa maiores explicações.

2. Kill Bill, Vol. 1 e 2- Tarantino faz o pau cantar na cozinha, num trailer, num restaurante japonês, na UTI de um hospital. Um gênio. No mais, temos caubóis vivendo no deserto, uma picape chamada Pussy Wagon, a gangue dos Crazy 88, espadas Hatori Hanzo e, claro, David Carradine.

3. Intriga Internacional - porque Hitchcock praticamente inventou o gênero de espionagem como hoje o conhecemos. É, também, o primeiro filme da série 007, só que sem o James Bond…

4. Três Dias do Côndor - roteiro perfeito de conspiração, com Robert Redford se virando contra a CIA. Anos 70, com muita classe.
5. Batman, o Cavaleiro das Trevas - o melhor filme da primeira década do século 21.

6. Operação França - provavelmente, o filme de ação mais premiado da história (levou cinco Oscars). Tem a melhor cena de perseguição de carro do cinema, filmada ao longo de 22 quarteirões de Nova York. E, claro, tem Gene Hackman abatendo o sujeito pelas costas.

7. Superman, o Filme - ora, não seja cínico. O primeiro Superman é demais, com seus letreiros, suas músicas, Christopher Reeve usando cueca vermelha por cima da fantasia, Marlon Brando numa ponta e Gene Hackman (olha ele de novo) arrebentando como Lex Luthor.

8. True Lies - James Cameron mandou bem na série O Exterminador do Futuro e no recente Avatar, mas seu melhor filme é mesmo esse misto de filme de espionagem, ação bruta e comédia romântica reunindo Arnold Schwarzenneger e Jamie Lee Curtis. Um filme exagerado, engraçado, sexy e realmente eletrizante.

9. Missão Impossível - Tom Cruise queria seu lugar na lista. Contratou Brian DePalma, convocou o U2 pra trilha, trouxe para o elenco Ving Rhames, Jean Reno, John Voight e aquela coisinha linda chamada Emanuelle Beart. Entrou pra lista.

10. Duro de Matar - você acha que esse filme merece estar na lista? Minha resposta, parafraseando John McLane: “Yippee-ki-ay, motherfucker.”

Modéstia à parte: perto dessa, a lista de filmes de ação do Guardian parece um festival de documentários iranianos.

E Cidade de Deus? Ah, é um grande filme, mas também não o considero um filme de ação.


Ricardo Garrido

A arte de perder


 
 
A arte de perder não é difícil de dominar
Tantas coisas parecem cheias da intenção de serem perdidas
Que sua perda não é um desastre.
 
Perca alguma coisa todos os dias
Aceite o contra-tempo de perder as chaves da porta
A hora gasta inutilmente.

A arte de perder não é difícil de dominar.
Depois, pratique perder mais, perder mais rápido
Lugares, nomes, situações…. tantas coisas

Eu perdi duas cidades, dois rios, um continente
Eu os perdi, mas não foi um desastre.
Até mesmo perder você, a voz brincalhona
aquele gesto que eu adoro
Eu não terei mentido, é evidente.

A arte de perder não é difícil de dominar
embora sempre continue parecendo um desastre.
 
 
Elizabeth Bishop

28 de outubro de 2010

Osho: o guru dos novos tempos



No fim dos anos 50, um professor de filosofia chamava atenção na Universidade de Jabalpur, na Índia. As aulas do barbudo de gorro e óculos escuros, lotadas, eram as únicas em que homens e mulheres podiam sentar-se juntos e debater livremente. Chandra Mohan Jain, ou simplesmente Osho, causava polêmica principalmente com seus ataques às religiões tradicionais. Pregando a busca da liberdade através da meditação, ele conquistou uma geração de pessoas que buscava a espiritualidade sem ter de se comprometer com antigas crenças.

Seus livros - mais de 600 livros que são best sellers internacionais, traduzidos em 55 idiomas - editados a partir de palestras e entrevistas, oferecem novas interpretações de livros sagrados, líderes religiosos e sistemas políticos.

A abordagem de Osho traz elementos religiosos, especialmente no sentido de que o ser humano tem a capacidade de se iluminar e pode desenvolver seu potencial inerente. Esse potencial seria desenvolvido pela meditação, mas não com os métodos orientais, que segundo ele não surtem efeito no homem moderno e num mundo consumista. Para isso, Osho desenvolveu técnicas, como a meditação dinâmica, e reformulou outras objetivando a libertação do ser humano por práticas diversas das quais se apropriou como o zen-budismo, o tantrismo e o sufismo.

A trajetória espiritual de Osho começou aos 21 anos, com uma revelação. Ele conta que numa noite de março de 1953 foi acordado por uma energia forte em seu quarto, correu para o jardim onde meditava e viu tudo iluminado. Ficou três horas em estado contemplativo e sete dias sem falar. “Desde aquela noite, nunca mais estive em meu corpo.”

Formado em filosofia, Osho passou a dar aulas e a reunir nas universidades seus primeiros discípulos. A quantidade de pessoas que o buscavam era tão grande que em 1962 ele abriu um centro de meditação e começou a dar palestras ao redor da Índia. Em 1964, suas palavras foram publicadas em um livro, Caminho Perfeito. Dois anos depois, Osho abandonaria sua atividade acadêmica para dedicar-se exclusivamente à vocação de guru e passou a organizar acampamentos de meditação na zona rural do país.

Nos anos 70, Osho já tinha uma pequena multidão de seguidores e o movimento começou a ganhar as feições de uma religião. Em 1970, num campo de meditação, ele fez a iniciação formal do primeiro de seus discípulos – ou neosanias. Em 1971, ele mesmo mudaria seu nome para Bhagwan Shree Rajneesh – ou “Rajneesh, o senhor abençoado”, em sânscrito. Os neosanias adotaram rituais como vestir roupas vermelho-alaranjadas, um colar de 108 contas e um medalhão com a imagem do líder. Osho e seus seguidores mudaram-se para uma comunidade no parque Koregaon, em Puna, Índia, que se tornou um resort de meditação.

Em Puna, Osho aplicava métodos terapêuticos em workshops e dava palestras diariamente. Na época, Osho já tinha cerca de 400 livros publicados, somando um volume de texto maior que o da Bíblia ou do Alcorão. Em 1976, o complexo de Puna ganhou um edifício dedicado à produção editorial do guru. Os livros levavam a palavra de Osho para o mundo inteiro e cada vez mais ocidentais eram conquistados pela ideia de renunciar às repressões impostas por religiões, educação, governos, sem ter de abrir mão do mundo material.


Bianca Nunes

Polêmica: drogas e religião


Os rituais do Santo Daime ganharam destaque na mídia em março, deste com o assassinato do cartunista Glauco por um dos fiéis de sua igreja. O alvo de tanta atenção foi uma das tradições da seita: o consumo da ayahuasca. Bebida alucinógena, a ayahuasca pode ser considerada uma droga. E drogas, você sabe, são proibidas no Brasil. Mas a ayahuasca é liberada desde que utilizada durante os cultos religiosos. Isso faz sentido? Faz.

O motivo: a liberdade religiosa de cada um. Graças à liberdade religiosa, podemos escolher e exercer as crenças que quisermos. Não precisamos esconder crucifixos, estrelas-de-davi, um exemplar do Alcorão. Para proteger essa liberdade, às vezes é necessário criar exceções ao que se considera ético, moral ou mesmo legal na sociedade, como a feita à ayahuasca. O problema é que algumas exceções acabam prejudicando o bem coletivo. É nessa hora que a fé de cada um deve encontrar um limite.

Fé é particular. Não deve interferir no direito dos outros. Quando isso acontece, estamos diante de um crime. Por isso, o consumo individual da ayahuasca no templo é válido - mas induzir alguém a bebê-la em outro contexto não. Testemunhas de Jeová vetam transfusões de sangue, por uma interpretação que fazem do texto da Bíblia. Isso é aceitável, já que cada pessoa é responsável pelo próprio corpo. Mas o que dizer de um pai que impede uma transfusão vital para um filho? É possível que a criança não sobreviva - em nome da religião. Em países como Arábia Saudita, condenações à morte são proferidas contra aqueles que abandonam o islamismo. Mais uma vez, em nome da religião.

Esses são crimes contra os direitos individuais, ainda que representem, também, uma manifestação de fé. E vão contra os próprios ideais que geraram a liberdade religiosa, nascida junto com a democracia moderna. Mesmo depois da Reforma Protestante, no século 16, pertencer a uma crença não era um direito individual. Ordem política e religiosa eram unidas - a religião de governados obrigatoriamente deveria ser a do governante. Só com o Iluminismo apareceram as formas jurídicas que protegem escolhas religiosas pessoais, justamente para que cada um pudesse escolher o melhor para si.

Roberto Romano

Voar




Voa, que há liberdade,
Voa por inteiro,
escuta tua vontade,
Voa em devaneio,
abandona a sanidade,
Voa o vôo do nobre anseio,
e retorna quando der saudade…



Rafael Vecchio

Primavera




Quando a primavera chegava, mesmo que se tratasse de 
uma falsa primavera, nossos problemas desapareciam,
exceto o de saber onde se poderia ser mais feliz. 
A única coisa capaz de nos estragar um dia eram pessoas, 
mas se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. 
As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, 
exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.



Ernest Hemingway

27 de outubro de 2010

Doses de Mafalda



E não é que neste mundo tem 
cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?


De jipe, por aí, para pensar

Faltava pouco para meio-dia quando um jipe branco, com um casal de gringos a bordo e placa da Suíça, parou num posto da Polícia Militar à beira de uma rodovia na região pantaneira do Mato Grosso. Placa da Suíça? Sim, eu não errei.

Brancos que só, com as bochechas vermelhas sob o sol tropical, o casal vestia roupas simples e mostrava os passaportes vermelhos. Falavam em inglês.

A rodovia brasileira era o caminho para a fronteira boliviana, de onde pretendiam continuar até o deserto de sal, um dos espetáculos mais curiosos que a natureza aprontou aqui na América do Sul.

O casal já tinha conhecido boa parte do território central do Brasil, com suas cavernas, cachoeiras e paisagens inigualáveis. Passou pela Chapada da Diamantina, na Bahia, onde tomou banho nos rios cor de coca-cola, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e pela Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso.
 
O jipe branco embarcara da Europa rumo à aventura na América do Sul. O plano de viagem a partir da Bolívia incluía toda a rota terrestre até o Alasca, de onde embarcariam novamente para chegar à Rússia e voltar à Suíça dirigindo o 4×4.

Sei, por experiência própria, que viagens proporcionam momentos de intimidade e conhecimento do outro que convivência nenhuma dá. Revelam-se fraquezas, desejos e traços da personalidade que muitos tentam esconder. Tudo se potencializa. É hora de ser solidário, corajoso, amigo e paciente como nunca. É hora de abrir mão e saber pedir.

Para um casal é, sem dúvida, uma prova para o futuro da relação. Sei de casais que se separaram no fim de aventuras parecidas. Sei de casais que se surpreenderam com o grau de identificação. Conheço casais que brigam diariamente quando viajam sós. Sei de amigos que brigaram e se perdoaram (tempos) depois. Casais que se declararam, ao fim de tudo, prontos para ter filhos.

Para pensar: seu relacionamento sobreviveria, se fortaleceria ou acabaria com uma aventura dessas?

Isabel Clemente

Aos meus amigos 
Júlio Lopes Lima Filho e Carmen Rizza Madeira Ghetti,
e aos meus sobrinhos 
Marcelo e Francis Giovanini,
jipeiros de corpo e alma, em maior ou menor intensidade.

O Porto, o berço de Portugal


Segunda maior cidade de Portugal e a mais imponente do norte do país, o Porto deu o seu nome ao famoso vinho. Sua rica história e conjunto arquitetônico lhe garantiram o título de Patrimônio Mundial da Humanidade cedido pela Unesco. Separado pelo rio Douro das grandes caves do vinho afamado ao qual deu o seu nome, existe um certo sentimento de rivalidade em relação a Lisboa. 

Nas margens do rio Douro estão atracados ainda alguns barcos rabelos, antigas e estreitas embarcações usadas para transportar o vinho do Porto das vinícolas (as chamadas "quintas") até os armazéns.  
 
Entre as principais atrações da cidade do Porto estão o Palácio da Bolsa, a Sé (originalmente uma igreja-fortaleza em estilo romano-gótico), a Torre dos Clérigos com seus 75 mde altura, a Praça dos Aliados e as igrejas de São Francisco (de origem romântica, com seu interior coberto de detalhes dourados) e a do Carmo (em estilo barroco, recoberta de azulejos). Outro imponente cartão-postal da cidade é a Ponte de Dom Luís I, toda em ferro, projetada pelos assistentes do francês Gustave Eiffel (1886). Igualmente animado e colorido é o mercado do Bolhão, onde se pode comprar quase tudo, mas bem perto ficam as joalharias e lojas de artigos de pele mais elegantes da Baixa.

E, se você não chegou de trem à cidade vá conferir os 20 mil azulejos espalhados nas paredes da Estação de Comboios de São Bento.

A peculiaridade dos seus bairros, com destaque para a zona da Ribeira às margens do rio Douro, com ruas estreitas e sinuosas, casas típicas com fachadas coloridas e a confusão comercial da Baixa valem um passeio a pé. O fôlego é imprescindível nesta hora, já que a cidade é repleta de morros íngremes, num sobe e desce quase infinito e bastante cansativo para quem não está acostumado. À noite, a Ribeira adquire movimento e animação, sendo um dos locais de eleição, devido à proliferação de aprazíveis restaurantes e clubes noturnos. Casas especializadas na venda do vinho do Porto, vinho verde e do famoso Dão também não faltam, assim como confeitarias que oferecem os deliciosos pastéis de Belém nas vitrines.


 Do outro lado do rio, a Vila Nova de Gaia é o centro da produção do vinho do Porto. Uma boa sugestão é a visita a estas caves, com direito a degustação. Nesta região estão os armazéns de mais de 50 empresas, a maioria controlada por ingleses, que ocupam as ruelas estreitas e tortuosas para se consagrar à vinificação e maturação da célebre bebida e é exportado internacionalmente. 


Foram os ingleses que, no século XVII, “descobriram” o licoroso vinho ao adicionarem aguardente para conservar a bebida que, por causa das longas viagens nos navios até a Inglaterra, chegava ao destino já estragada. Algumas oferecem visitas guiadas para que se possa ver como é feito o vinho e provar as diferentes variedades. A bebida é produzida na região vitivinícola do Alto Douro (a mais antiga região demarcada do mundo). 

Com uma gastronomia bem conhecida e população hospitaleira, também constitui o ponto de partida para a experiência inesquecível de subir o rio Douro. Vários pratos da culinária portuguesa tiveram origem no Porto. O prato típico por excelência da cidade são as tripas à moda do Porto, prato histórico que pode ser encontrado em muitos dos restaurantes da cidade. O Bacalhau à Gomes de Sá é outro prato típico nascido no Porto e popular em Portugal. A francesinha é o prato mais famoso; é um sanduíche recheado com várias carnes (de vaca, linguiça, salsicha fresca e fiambre) e coberta com queijo e um molho especial. O célebre caldo verde é também um prato portuense.
 
A cidade do Porto recebe um milhão de turistas por ano ou quase três mil ao dia. Sua rede hoteleira e de restaurantes é notável. Um ótimo programa é o passeio pelas águas do Rio Douro, no encontro com o oceano atlântico. A hospitalidade dos seus habitantes chama atenção dos turistas, especialmente dos brasileiros, por quem o povo português tem especial carinho.




Fonte:UOL 

Dedico este post aos meus amigos Angelina, Marquinhos
Carmen, Júlio, Marcão, a saudosa Mirela 
e ao meu marido Enzio
pela nossa inesquecível viagem de férias em 2008.

26 de outubro de 2010

Embriaguem-se!



É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:

"É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso".

Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.



Charles Baudelaire


25 de outubro de 2010

Destinos românticos



Então você quer surpreender sua alma gêmea, mas acha que jantar fora está batido. Por outro lado, já perdeu a conta de quantas praias já foi com ele ou ela e não sabe mais que outro lugar do Brasil seu amor quer conhecer. Se o seu problema é variar o repertório, fique tranquilo.

A seleção abaixo reúne sete dos roteiros mais belos do mundo, que exalam romance. E todos eles fora do Brasil, o que dá um gosto diferente à escolha. Ou às escolhas: você também pode percorrer todos eles, dependendo do tamanho do seu apetite por extravagâncias e vontade de impressionar a cara-metade. Tem para todos os gostos, do clássico ao exótico. Da França ao Egito, passando pela Itália e o Caribe. Tem praias e ilhas mágicas, como Havaí e Aruba, além de cidades como Veneza (podia faltar?) ou Nova Orleans. Confira o que cada um oferece.

1) Paris (França)

Talvez a capital mundial não-reconhecida-oficialmente da sedução, tem pontes e cafés ao ar livre de incomparável beleza no mundo, além da atmosfera de romance. Outras opções a dois incluem um passeio pelo rio Sena, piquenique no Jardim de Luxemburgo ou brindar ao por do sol do alto de Montmartre.

2) Puerto Vallarta (México)

Catapultada à fama nos anos 60 pelo casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, no filme A Noite do Iguana, Puerto Vallarta tem paisagens que parecem cinematográficas, mesmo anos depois do sucesso em Hollywood. Praias se misturam com florestas, e restaurantes são tão atraentes a dois quando o passeio de barco.

3) Veneza (Itália)

O simples fato de não haver carros aqui já justifica a inclusão da capital das gôndolas em qualquer lista romântica. De arquitetura impressionante e passagens misteriosas, Veneza é perfeito para os amantes que sonham em jantar pratos tipicamente italianos à luz de vela, e olhar a lua embaixo de um dos canais, ao som da cantoria do gondoleiro.

4) Honolulu (Havaí, EUA)

Um mix de tudo que há de atraente no Havaí: praias para passear ou tomar sol, escalada nas crateras vulcânicas, observar os surfistas desafiando ondas perfeitas, ver o sol se por de mãos dadas ou desfrutar de um jantar romântico com direito a velas e música típica havaiana ao vivo.

5) Aruba (Caribe)

Popular na rota das luas de mel, oferece uma deliciosa mistura de atividades do dia, vida noturna e restaurantes de renome internacional para atrair os casais às suas margens cinematográficas. Mime-se com sol e passeios românticos em praias particulares, ou explore a beleza natural ou as diversas atrações culturais espalhadas pela vida.

6) Sharm El Sheikh (Egito)
Talvez um dos menos conhecidos, o litoral da Baía Na'ama é o cenário perfeito para uma escapadela romântica. Oferece uma porção de atividades próprias para casais, seja um passeio pela praia tranquila e os resorts de luxo ou noturno, ou emocionantes mergulhos e passeios de camelo.

7) Nova Orleans (EUA)

Nem o Katrina foi capaz de tirar o brilho deste lugar, que teve boa parte das suas atrações turísticas conservada. Sensual como sempre, o Bairro Francês é o lugar definitivo para se apreciar jazz e blues, pois aqui o som rola ao vivo, enquanto se escuta o trotar de cascos de cavalo misturado com a trilha sonora e casais nos bairros ao lado conversam entre si por meio de sussurros. 

Felicidade




O que é a felicidade além da
 simples harmonia  entre o homem e a vida que ele leva?  


Albert Camus

Incompletude



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito. 

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às seis horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc. 

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.


 Manoel de Barros