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20 de fevereiro de 2013

Fofo, querido, um amor!



 

Palavras são cruciais nas relações amorosas, assim como em tudo na vida. O que seria dos homens inteligentes se bastasse erguer as sobrancelhas e retesar os músculos do peito para seduzir as mulheres? Ainda bem que não funciona assim. Para atrair parceiras os homens ainda são obrigados a falar, escrever e mandar mensagens, até mesmo dançar - uma forma poderosa e afrodisíaca de linguagem corporal, me dizem. Como se empenham de todo coração, esperam alguma forma de recompensa, mas ela nem sempre vem. 

Dias atrás, um amigo mandou um torpedo cheio de suingue para uma moça que conhecera numa festa. Em pouco mais de 120 toques ele conseguiu transmitir humor, elogios e interesse carnal pela moça. A resposta, porém, foi devastadora. “Você é um fofo...”, ela escreveu. Poderia ter dito “engraçado”, poderia ter dito “cara de pau”, poderia ter dito “safado”, mas escolheu dizer “fofo”. Perceberam o tamanho do desastre? Foi o mesmo que chamá-lo de “bonitinho”, ou, ainda pior, “um querido”. Meu amigo percebeu que não vai sair com a moça. 

Fofo é o adjetivo que as garotas usam para o sobrinho delas de dois anos. Fofo elas dizem do gatinho da vizinha que mia para elas no corredor do prédio. Fofo é o amigo gay, aquele que liga à meia-noite e um minuto no dia do aniversário delas. Fofo é o cara gentil que a levou para jantar na semana em que ela havia brigado com o namorado. Ela nem lembra direito o nome daquele superfofo. Era Pablo, Diego ou Ramiro? Um nome espanhol, com certeza. 

Para resumir, fofo é uma palavra que parece não ter relação no cérebro feminino com sexo e paixão, e nenhuma proximidade com aventura. É um termo assexuado. Se ela acha você fofo, é certo que vai aceitá-lo como amigo no Facebook, mas tirar por cima aquele vestidinho de verão, desmanchando os cabelos dela no processo, isso você não vai conseguir. Muito menos um romance trepidante. Estou exagerando? Claro, mas apenas me esforço para deixar claro o meu ponto: fofo não é uma palavra que as mulheres usam para os homens que elas desejam. 

Como as relações humanas não são uma ciência exata há notáveis exceções a essa regra. Uma moça que eu conheço vive reclamando que o namorado dela demorou a se aproximar, embora ela tivesse emitido vários sinais de interesse. A explicação dele é muito simples. “Ela me chamava de fofo e de querido. Entendi que não queria nada comigo”, diz ele. Mulher que tenha urgência em levar um sujeito para o quarto talvez devesse usar com ele outro tipo de linguagem. Deixe fofo para o irmão adolescente da sua amiga, aquele que cora quando fala com você. 

Não se trata, entendam bem, de um mero problema de comunicação, aquele clássico em que a mulher diz uma coisa e o homem entende outra. Fofo é fofo para todo mundo: meigo, atencioso, delicado, um amor. A questão essencial é o efeito da palavra na autoestima masculina. Fofo tem uma conotação doce demais, inofensiva. Os homens não gostam de ser vistos assim. Mesmo os mais dóceis gostam de pensar em si mesmos como predadores perigosos e pegadores implacáveis, capazes de aturdir e dominar as mulheres - ainda que frequentemente aconteça o contrário. 

Ao chamar o sujeito de fofo, você não está apenas sugerindo que ele não faz amolecer os seus joelhos e nem acelera os seus batimentos cardíacos. Você está informando que o vê no diminutivo, café com leite, mirim. Para você ele é um gatinho, não um tigre. Do ponto de vista masculino é uma informação das mais broxantes. 

Isso não quer dizer, evidentemente, que não haja espaço para a doçura masculina nas relações entre homens e mulheres. Ela é absolutamente essencial, na verdade. As mulheres precisam recebê-la e os homens necessitam expressá-la, e vice-versa. Carinho físico e verbal são ingredientes essenciais do nosso metabolismo afetivo. Sem eles definharíamos emocionalmente, como macaquinhos tristes. 



A parte difícil está em fazer com que essa óbvia necessidade de afeto conviva com as nossas fantasias sexuais, nas quais o carinho parece não deter a primazia. Os homens têm prazer em sentirem-se másculos e dominantes na hora da sedução. E boa parte das mulheres parece encontrar satisfação em ser conduzida por um parceiro seguro. Esse teatro, por velho que seja, ainda é muito apreciado. O homem mais suave do mundo vestirá uma alma de Lobo para devorar a mulher que deseja. Ela, por mais altiva que seja, envergará o manto vermelho de Chapeuzinho para deixar-se levar, ansiosa e trêmula, para o abatedouro. Isso faz parte de um roteiro tão velho quanto os contos de fada, e funciona. Fazer diferente exige personalidade.

A moça teria que abrir mão das fantasias de princesa e anunciar, com toda clareza, que o sujeito é um fofo, e POR ISSO, ela é louca por ele. Sexualmente louca por ele, capiche? O rapaz agraciado com essa deferência poderia abrir mão das veleidades de príncipe e aceitar, sem complexos, o papel de macho doce que lhe cabe nesse arranjo. Ser chamado de fofo não é o sonho erótico dos homens, mas talvez a palavra possa ser subvertida. Quem diz que não pode haver fofo cafajeste, fofo descarado, fofo safado e feliz? Aliás, parece uma ideia fofa... 



Ivan Martins


 

25 de julho de 2011

O homem separado




Embora muitos não percebam, os homens não se dividem apenas entre casados e solteiros, ou entre aqueles que têm e não têm namorada. Há outra categoria, menor, mas igualmente importante: a dos homens separados. Eles constituem um grupo inteiramente à parte.

Não importa se o sujeito foi casado por dez anos ou se acaba de romper um namoro que mudou a sua vida. Quem terminou uma relação importante vive, por tempo indeterminado, num universo emocional diferente daquele em que vivem as outras pessoas.

A característica essencial desse período é a dubiedade de sentimentos e a indefinição. O homem separado não tem mais compromisso, mas ele ainda não se sente realmente livre. Vive, de forma muito aguda, a euforia de não ter mais laços e a angústia de estar sozinho. Habita, simultaneamente, dois mundos que se afastam um do outro. Num deles é o companheiro de alguém, o pai, o homem da casa. No outro, é um camarada solitário em busca de emoções e sensações reprimidas. Até que esses dois mundos voltem a se encontrar, até que o homem separado recupere a sua identidade, ele tende a viver em desequilíbrio – o que não é necessariamente ruim.
Eu lembro desses períodos de separação de forma muito intensa. Viagens, rostos, conversas na rua tarde da noite. A palavra para esses interregnos é descoberta. Sobretudo, a descoberta de pessoas e seus mundos. Cada um de nós vive num planeta próprio. Explorar esses planetas, entrar na casa e na vida dos outros sem o peso dos compromissos é uma delícia.

Há também os excessos. A gente enlouquece de liberdade e pira de carência. Sem se dar conta, o sujeito começa a agir como cachorro louco. É comum ver homem separado se atirando sobre as mulheres indiscriminadamente. Não é só lascívia. Depois de anos com a mesma mulher, ou meses com a namorada atenciosa, passar um fim de semana sozinho pode ser o inferno – e, para escapar dele, as pessoas fazem qualquer coisa.

Quando se olha de fora, parece que os homens separados estão 100% do tempo atrás de sexo, mas não é bem isso. A grande ausente nos namoros e casamentos falidos é a paixão. Sexo existe, mas não existe mais romance. Ninguém mais suspira no meio da transa, não se tem mais vontade de escrever cartas à mão ou mandar flores. Você não olha mais para a sua mulher como se ela fosse a mais linda do mundo. E isso faz falta para os dois.

O escritor Norman Mailer já dizia nos anos 1960: as pessoas se esfregam nas festas achando que estão em busca de sexo, quando, na verdade, estão procurando amor. Cinquenta anos depois, o diagnóstico ainda vale para boa parte das situações.

Às vezes eu me surpreendo ao perceber que dos meus períodos de homem separado sobraram relações bacanas. Algumas mulheres conseguiram enxergar por trás da máscara de sedutor tragicômico um sujeito com quem se poderia conversar e conviver. Tornaram-se amigas - mas são exceção.

A tendência nesses momentos de tumulto é queimar as oportunidades e o filme. Você conhece pessoas especiais, mas não consegue ver um palmo à frente do nariz. Não as percebe. Age com todas de uma forma padrão, ditada pela particularidade do seu momento. Banaliza sentimentos e possibilidades.

Há certo vampirismo nos homens separados, uma necessidade de tomar dos outros dando relativamente pouco. Há uma carência (essa é a palavra-chave) que devora tudo em volta até que algo sacie e acalme. Até que o sujeito seja capaz, de novo, de se apaixonar. Até que ele recupere o romance em sua vida. Esse, eu acho, é o momento em que ele deixa de ser um homem separado e volta a ser um homem livre. A capacidade de se apaixonar encerra a transição.

Esta, ao menos, é a minha experiência. Ela não me parece muito distinta da experiência dos outros homens, mas, nem por isso, serve como regra. Haverá quem saia do casamento pronto para se apaixonar de novo, instantaneamente. Outros baterão cabeça por meses ou anos. Um homem especial talvez seja capaz de reconhecer mesmo na bruma da separação o sorriso da mulher feita para ele – e não jogue fora a oportunidade.



Ivan Martins 



Men At Work - Overkill




18 de julho de 2011

Quem são os homens: a nova identidade masculina




Há muitas décadas as mulheres têm feito uma constante reflexão sobre sua nova identidade e seu papel na sociedade. Não faltam oportunidades para que elas se reúnam em torno destas questões. Produto disto tem sido uma nova mulher, muito mais bonita, bem cuidada, inteligente, ousada, responsável e surpreendente. E os homens? O que aconteceu com eles durante este tempo?

O que sabemos é que tradicionalmente eles não gostam de discutir a relação ou de levar nenhum papo cabeça, de mais consciência. Em parte porque não lhes interessa, pois não convém questionar seu ponto de vista machista. Por outro lado, falta-lhes habilidade para compreender seus sentimentos e expressá-los com clareza. O problema é que agora não é mais possível se abster do diálogo impunemente. Os valores machistas estão indo por água abaixo e hoje em dia um homem que ouse defender publicamente este ponto de vista está sujeito a ser execrado. Mas nós sabemos que no dia-a-dia muitos homens ainda acreditam que as mulheres vivem para serví-los. São homens folgados que não se comprometem, mentem, não são claros na comunicação, manipulam.

O problema ainda não terminou e nem vai terminar enquanto os pais e mães continuarem a criar meninos folgados, não colaborativos, acostumados com mulheres que façam tudo por eles. Um garoto criado desta forma se tornará um homem que se sente superior às mulheres. Em um modo de produção antigo, a força física dos homens os colocava em uma posição de poder, mas agora, quando tudo é mecanizado, automatizado e informatizado, vai melhor quem se comunica bem, quem se dedica ao trabalho, quem tem imaginação ou boas idéias. E as mulheres tem se mostrado cada vez mais aptas para a nova era que se aproxima. Sem a presença do machismo, o que vemos são homens fracos, sem atitude, amendrontados diante da nova mulher. Um homem sem forma, sem identidade. Mas, qual o motivo disto? Por que os homens estão assim?

Em algumas culturas distantes os meninos, quando atingem a idade dos 14 anos, passam por um forte ritual de iniciação à vida masculina adulta, quando aprendem com os mais velhos a serem fortes e respeitadores ao mesmo tempo. Em nossa cultura contemporânea não encontramos nada semelhante. Para as meninas, a menstruação funciona naturalmente como uma espécie de ritual de passagem para a vida feminina adulta. Além disto, nos últimos tempos, as mulheres se uniram para ocupar um espaço mais digno na sociedade. Mas, para os meninos esta passagem para a vida adulta não é muito clara, nem tão evidente assim.

Felizmente, já temos notícia de um novo homem. São indivíduos que compreenderam que homens e mulheres devem ter um relacionamento de igual para igual. São homens que já entenderam que sua força vem das virtudes desenvolvidas: disciplina, ter palavra, integridade, solidariedade. Aprenderam que ser generoso e dar suporte aos outros é um caminho nobre.

Este novo homem também já aprendeu que pode chorar, que pode sensibilizar-se, que pode conversar, mostrando seus sentimentos. É deste homem que a humanidade precisa: poderoso e sensível ao mesmo tempo. É este homem que as mulheres esperam encontrar. Creio que a evolução do comportamento aponta para um novo homem e uma nova mulher que se distingam muito mais como pessoas e menos pelos papéis pobremente definidos pelos gêneros. Afinal, todos nós podemos nos tornar uma espécie de gerreiros pacíficos. O poder não precisa mais continuar nas mãos de pessoas inescrupulosas, mas pode ser apropriado por homens e mulheres que misturam força e sensibilidade.


Sergio Savian



Foo Fighters - Kung Fu Fighting


 


1 de março de 2011

O que faz diferença




Quando paramos e olhamos atentamente à nossa volta, vemos uma multidão de pessoas indo e vindo em turbilhões – algumas concretizando negócios, outras buscando oportunidades, algumas preocupadas e até desanimadas com a situação atual, outras aflitas em busca de conquistar seus objetivos e ainda muitas outras sem quaisquer perspectivas de vida. Em meio de tantas incertezas e transformações, qual o diferencial, nos dias de hoje, das pessoas e das organizações?

As possibilidades de aprimoramento somada à moderna tecnologia, passaram a ser um bem comum, disponível e acessível a todos. Hoje, o que faz a grande diferença nas organizações é o ser humano. Somente através das qualidades pessoais é possível ampliar resultados frente à acirrada competitividade do mercado. Então, cabe ao profissional desenvolver e aprimorar suas habilidades, pois quanto maior o volume de atributos pessoais, mais chances de conquistar uma oportunidade. E nisso as mulheres são especialistas.

Algumas características como a sensibilidade, afetividade, versatilidade, percepção aguçada, entre outras, que até pouco tempo eram consideradas fraquezas, hoje, passaram a somar e são consideradas essenciais no processo produtivo das organizações. Características que nós homens escondemos ou afogamos para não parecermos frágeis. Em contrapartida, as mulheres sempre cultivaram como um dom, buscando sempre desenvolvê-las e amadurecê-las em cada situação.

Diferenças entre o perfil masculino e feminino no trabalho são sensíveis, mas não devem ser generalizadas. O que antes era considerado como obstáculo – a divisão entre problemas domésticos e necessidades profissionais –, hoje a mulher já consegue equilibrar esses dois desafios de sua vida. Sua participação no mundo dos negócios e a própria independência financeira vêm mudando a forma com que os produtos e serviços são desenvolvidos, comercializados e distribuídos.

Sabemos que as mulheres têm maior atividade econômica do que nunca e que estão em posições cada vez mais importantes. Pesquisas demonstram crescimento constante na participação da mulher em cargos mais altos das empresas. Cargos que antes eram ocupados pelos homens, hoje contam com a participação feminina.

Uma coisa é certa. A mulher de hoje e do futuro estará cada vez mais sendo chamada à responsabilidade profissional, familiar e social, sem perder suas características fundamentais de carinho, dedicação e ternura.

Por isso, é primordial que você, mulher, não deixe passar as oportunidades de aprimoramento, quer seja pessoal ou profissional. Você é um dos diferenciais de mercado e quanto mais se conscientizar e buscar o aprimoramento, maior será o espaço que ocupará dentro desse mundo repleto de transformações.

Então não seja apenas uma profissional, mas sim a melhor. É preciso trabalhar, batalhar, lutar e ir atrás daquilo que se quer. A recompensa do trabalho vem com a satisfação de se sentir bem, útil e estar produzindo algo que gosta realmente de fazer. Ouse, seja arrojada e não tenha medo de errar. Não pense se algo dará certo ou não, é preciso tentar, arriscar, traçar metas. Isso com certeza lhe trará o caminho para o sucesso. 


Roberto Shinyashiki


17 de dezembro de 2010

Homens não vão embora


Ontem eu vi Comer, Rezar, Amar. Imagino que muitos de vocês já tenham visto. Bonito filme. Me fez pensar sobre um monte de coisas, algumas boas e outras más. Entre as más, está um fato bem conhecido pelas mulheres: a incapacidade dos homens de ir embora.

É impressionante. Na biografia de Elizabeth Gilbert, autora do livro que deu origem ao filme, há dois casamentos, com homens totalmente diferentes, que terminam exatamente do mesmo jeito: em farrapos, sem sexo e sem amor, mas com um sujeito que se recusa a admitir a realidade. É ela quem tem de arrumar as malas e ir embora.

Isso não me causa a menor estranheza. Boa parte dos casamentos que eu conheci terminaram assim. As mulheres dão fim a eles. Os homens empurram com a barriga, se adaptam a níveis crescentes de desconforto, vão ficando. Por anos. Sofrem o apodrecimento diário da intimidade, a privação física e afetiva do amor que acabou, mas não rompem. Isso vale para maridos, namorados e até amantes. Todos esperam que as mulheres ponham fim às relações, saindo da vida deles ou pondo eles para fora da vida delas. São acomodados, pusilânimes.

Por que esse comportamento? Eu não sei. Num pedaço bonito do filme, ao escrever um email para o ex-marido, Gilbert sugere que ele teria medo de “ser destruído” pela separação. A linguagem parece exagerada, mas faz sentido. Por que alguém viveria numa pocilga emocional por tanto tempo se não estivesse inteiramente apavorado com a ideia de ficar só?

A solidão, para algumas pessoas, em algumas situações, pode ser pior que sofrimento. Ela equivale a um estado de não existência, uma espécie de aniquilação. O sujeito não consegue se imaginar fora do casal. Por isso se agarra a ele de forma obstinada e insensata.

Da minha parte, acho que nós, homens, somos terrivelmente infantis. O casamento, para muitos de nós, equivale a uma espécie pervertida de adoção. Nossa mulher se torna a nossa mãe. Ela cuida do nosso bem estar material, nos dá conforto afetivo, estabelece limites ao nosso comportamento e nos dá carinho físico na forma de sexo.

Quando o sentimento erótico e amoroso acaba, continuamos presos pelo resto, dependentes como crianças de tudo que a mulher-mãe representa na nossa vida. Que criança consegue voluntariamente se separar da mãe? É a mãe que tem de fazer uso da sua autoridade e decretar, para além de qualquer sombra de dívida, que a relação acabou. Aí o homem-menino começa a se mexer e procurar outra parceira.

Para evitar esse tipo de relação é melhor escolher um homem independente, que não precise ser cuidado, tutelado ou aplacado como um bebê. Nem fique fazendo estripulias para chamar sua atenção.

Quando o instinto maternal sugerir que você deveria “tomar conta” daquele marmanjão de vida bagunçada, dê um passo para trás. Lembre de Comer , Rezar, Amar. Lembre que o momento em que você se torna a mãe dele é o mesmo momento em que o desejo dele e o seu começam (paradoxalmente) a acabar. Ninguém quer isso para si mesmo, não é?

Ivan Martins 


3 de novembro de 2010

Comer, Rezar, Amar: uma visão masculina



Elizabeth Gilbert, a autora de "Comer Rezar Amar," era infeliz em seu casamento e, por isso, decidiu tirar um ano sabático viajando pelo mundo. Liz buscou o equilíbrio pessoal comendo na Itália, rezando na Índia e amando na Indonésia. Bonita a história, não?

Principalmente se ela tiver final feliz. Julia Roberts, que interpreta a escritora no filme, encara mais uma vez o papel de heroína – vocês devem se lembrar de Erin Brockovich. Mas nem tudo foram flores na vida dos HOMENS com quem Liz se relaciona nesta história.

Ela tinha uma carreira consolidada como escritora, contava com um círculo de relacionamentos em Nova York que não a deixaria se sentir sozinha – a não ser se assim ela quisesse – e era casada com um homem que a amava, que a amava muito. Num dia ordinário, Liz decide e comunica ao marido que não quer mais fazer parte daquele casamento. Ele não entende nada. Esta é mais uma história de relacionamento em que a mulher acha que deixa claro para o marido a sua infelicidade e ele, por sua vez, acha que está tudo bem. Elas, que querem tanto discutir a relação, talvez precisem deixar mais claro o que passa dentro de suas cabeças, por mais que muitas vezes nem elas mesmas o saibam. Esse era o caso de Liz.

Que atire a primeira pedra a mulher que assistiu ao filme e não se emocionou na cena em que as condições do divórcio são negociadas. Stephen, o marido rejeitado, abre mão de tudo em prol do seu casamento. Liz, com a frieza que muitas mulheres comumente atribuem aos homens, diz que ele vai encontrar alguém que o ame do jeito que ele é. Depois de destruir esse coraçãozinho, a escritora ainda se envolve com um jovem ator que protagoniza uma peça baseada num de seus livros. Ironicamente, ele se parece com o ex-marido de Liz.

Ironicamente, ele também leva uma vida instável. Ironicamente, ele é feliz ao lado de Liz. Ironicamente, ela se cansa dele. A mulher vai morar com um garoto que é igual ao seu ex-marido (15 anos mais novo, porém) e sai da casa dele dizendo que não aguentava mais aquilo. Aquilo o quê? Se foi ela quem o procurou – ou pelo menos procurou, num corpo mais sarado, tudo o que já tinha vivido com o ex.

Ok. Se a solução era viajar e fugir dos problemas, “buscar o equilíbrio”, os problemas de Liz tinham o prazo de um ano para se resolver. Evidentemente, nada é tão fácil. Fazer amigos na Itália, aprender o idioma do país, comer muita pasta e ainda se sentir feliz com os “pneus” que se fazem notar não é para qualquer mulher. Ponto para Liz. Isolar-se do mundo externo para rezar num retiro espiritual na Índia e buscar o controle sobre os próprios pensamentos – de mulher! – não é fácil. Mais um ponto para Liz. Em Bali, na Indonésia, o objetivo da escritora era se reencontrar com um curandeiro que um ano antes lhe havia prometido ensinar tudo o que ele sabia.

Junto ao aprendizado, Liz, que de alguma maneira se sentia melhor consigo mesma após as passagens pela Itália e pela Índia, deparou-se com a prova final da sua recuperação: um homem. E não é que todo o aprendizado – e equilíbrio – chegam à beira do precipício novamente?

Pois não são só os homens que precisam perder o medo de relacionamentos e aprender a amar. A culpa não é só nossa!


Carlos Giffoni 
 

2 de novembro de 2010

Namoro ou amizade?




A amizade entre homens e mulheres é rara, difícil e frágil. Ainda assim, tem quem tente. A frequência da dúvida mostra que nossa sociedade hiperconectada ainda é bem conservadora com esse assunto. Em nossa defesa, temos milhares de anos em que simpatia entre sexos era sinônimo de atração sexual e algumas décadas em que pode não ser. 
 
É um fenômeno novo. Para ter uma ideia, os primeiros estudos sobre esse tipo de relacionamento são do final do século 20, e ainda não ajudam muito a esclarecer todo o emaranhado de dúvidas - naturais - sobre o assunto. E, se o tema é recém-chegado à ciência, ainda é ignorado pela ficção. Em filmes, seriados e novelas, o casal hetero está sempre destinado à cama ou ao altar.

Mas a amizade entre homens e mulheres existe - e acredite, você ainda vai ter uma. As barreiras sociais ficaram no passado e homens e mulheres conseguiram se tornar amigos. Só faltou avisar os hormônios.

A tensão sexual está presente em mais da metade das amizades com o outro sexo, revelam estudos conduzidos por psicólogos e consultores de relacionamentos. Aliás, alguns homens e mulheres admitiram que essa tensão era do que eles mais gostavam nessa relação. Mais homens admitiram ter levado amigas para a cama o chamado sexo amigo. Porém, tanto homens quanto mulheres admitiram que o sexo prejudicou a relação. Na pesquisa, alguns homens relataram que a atração sexual foi a razão para iniciarem a amizade.

Um primeiro olhar nessas conclusões pode até levar a concluir que não, a amizade não existe - é sempre um romance fracassado ou dormente. Mas especialistas dizem que é justamente por causa dessa atração que a amizade pode surgir. Na verdade, mesmo quando não há envolvimento sexual, pode haver atração. Alguns pesquisadores acreditam que a energia sexual, sem ser levada às vias de fato, pode contribuir para uma maior produtividade, à medida que adiciona energia e interesse ao trabalho. Tudo bem. Agora, vá explicar isso em casa.

Fazer um amigo do outro sexo quando se é casado ou se tem uma relação estável é muito mais difícil do que continuar se relacionando com os antigos amigos. Na prática, essa nova amizade só tem chance de ir para a frente se o outro membro do casal se aproxima da pessoa. Se não, há uma barreira muito grande.

Mas nem só de complicações vive a amizade entre homens e mulheres: ela também tem suas vantagens. Os benefícios vão desde evitar a solidão a conseguir dicas para conquistar alguém. As mulheres listaram como algumas das principais vantagens de sua amizade com homens ter atividades e discussões "interessantes" e uma outra perspectiva do sexo oposto. 
 
Já os homens citaram como pontos positivos poder falar sobre praticamente tudo e ser confortado quando se sentem mal ou solitários. Elas são imbatíveis para dar apoio emocional. Por outro lado, algumas mulheres relatam que os homens dão conselhos mais objetivos e não há competividade entre os gêneros.

Se, mesmo com tantas complicações, muitos homens e mulheres já são amigos, tudo leva a crer que mais amizades surgirão. As razões vão do aumento da presença feminina no mercado de trabalho à valorização dos relacionamentos virtuais - pesquisas indicam que as amizades entre homens e mulheres costumam ser mais frequentes na internet do que fora dela.

Os estudos ainda são insuficientes, mas tudo indica que a amizade entre homens e mullheres vai se tornar não só uma possibilidade mas uma necessidade. Em tempos que exigem que os gêneros trabalhem e convivam, aqueles que conseguem entender e se comunicar com o sexo oposto têm uma vantagem competitiva.


Veridiana Sedeh

18 de outubro de 2010

O mito do cafajeste



A lenda diz que as mulheres preferem homens sedutores que não criam vínculos e são infiéis. Os homens que gostam delas e que desejam manter com elas uma relação estável não passam de Planos B - enquanto não aparece um cafajeste, elas ficam com os bonzinhos.

Segundo esses tradutores da alma feminina, as mulheres desejam ser tratadas como objetos de utilidade limitada, para obter prazer, dinheiro ou qualquer tipo de vantagem transitória. Assim você vai concluir que mulheres são almas submissas a espera de um macho capaz de revelar sua verdadeira natureza masoquista. Os caras que as respeitam e conversam com elas como iguais não têm menor chance: o que elas querem é serem usadas e abandonadas.


Bem, para mim essa visão é totalmente criada pelos homens. Os homens são obcecados pelos cafajestes, não as mulheres. Nunca ouvi as mulheres falarem desse tipo de cara como objeto de desejo. Elas se referem aos cafajestes como doença, fraqueza, deslize, uma coisa que faz mal e da qual é preciso se ver livre.

Já ouvi de várias mulheres histórias de relações com cafajestes, mas poucas vezes percebi nostalgia na conversa delas. A maioria parecia feliz em se ver livre de uma relação cheia de dor e vergonha. Ninguém merece um cafajeste, dizem.

Logo, temos de concluir que as mulheres são malucas, ou mentem para si mesmas ou estão dizendo a verdade - e, nesse caso, deveríamos acreditar nelas. Se as mulheres não divulgam a lenda do cafajeste, e não parecem acreditar nela, de onde o mito tira a sua força? Dos homens, claro. Somos nós que alimentamos essas fantasias. Por que? Não sei, mas tenho algumas ideias.

O machismo me parece a explicação essencial. Em termos modernos, a visão machista insiste que as moças são incapazes de diferenciar o que é bom do que é mau para elas mesmas. Em vez de escolher um sujeito bacana, que gosta delas, preferem cair na conversa de um malandro bonitão que, logo adiante, vai tratá-las muito mal. É outro jeito de chamar de burra, não? Também é outra forma de chamar de louca, já que elas seriam incapazes de controlar as suas emoções e sensações mais simples.

Quase todo mundo com quem eu já conversei, homem ou mulher, atesta que sexo é como tocar um instrumento: só melhora com a prática. A ideia de que um mestre kung fu do erotismo vai sair do fundo do salão e transformar a mulher que a gente ama em escrava sexual só existe de verdade na paranóia masculina. Já ouvi mulheres relatarem boas transas com esse tipo de cara, mas nada que tenha mudado a vida delas. Então a lenda dos cafajestes não tem qualquer fundamento na realidade? Não é bem assim.

Há, em primeiro lugar, homens muito sedutores. Eles são muito bonitos ou muito másculos ou têm uma conversa muito boa. O fato é que as mulheres gostam deles. Da mesma forma que nós, homens, somos atraídos por mulheres muito bonitas, muito sensuais e com muita personalidade. Como alguns desses privilegiados abusam da boa sorte (ou da boa aparência) e fazem o que querem com algumas mulheres, fica entre os homens a ideia simplista de que todas as mulheres gostam de ser maltratadas. Acho bobagem.

A outra coisa a se levar em conta é que as mulheres dão muito valor às emoções. Quando você pergunta a elas sobre cafajestes, eles respondem: Deus me livre! Mas, logo em seguida, fazem um reparo: a gente gosta que os nossos homens sejam um pouco cafajestes...

O que elas dizem (o que eu entendo, pelo menos) é que ninguém quer um chato. Ninguém quer um namorado que virou irmão, filho ou amigo. Ninguém quer um casamento apenas seguro, sem surpresas e sem erotismo. 


Mulheres precisam de segurança, mas também querem aventura e romance. Há um tanto de Madame Bovary e de Ana Karenina em todas elas, mas isso não deveria nos surpreender. Homens também têm fantasias românticas e, até, fantasias sexuais com a vizinha. Somos humanos, não? Temos desejos inconfessáveis, mas seria injusto que alguém nos julgasse por eles.

Se isso tudo não foi suficiente para fazer balançar o mito do cafajeste, um último argumento: olhe em volta. Você acha mesmo que as mulheres mais bacanas estão com os caras mais safados? Eu tenho certeza que não.
 
Ivan Martins

7 de outubro de 2010

A verdade sobre a traição masculina

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Os homens traem menos pela falta de sexo conjugal e mais devido a motivações emocionais. É o que garante o terapeuta americano M. Gary Neuman no livro “A verdade sobre a traição masculina”, que, depois de ficar meses entre os mais lidos no New York Times, acaba de ser lançado no Brasil pela editora Best Seller. Neuman entrevistou cem homens fiéis e infiéis e afirma que os homens traem por causa da rotina, da falta de cumplicidade coma parceira, resultante de sua própria dificuldade de demonstrar sentimentos, e também acreditar que sua mulher não o admira mais.

Veja a pesquisa sobre que tipo de insatisfação conjugal contribui para a infidelidade:

- 48% – Principalmente a insatisfação emocional

- 32% – Insatisfação emocional e sexual de igual valor

- 13% – Outro tipo de insatisfação ou nenhuma insatisfação

- 8% – Principalmente a insatisfação sexual

Neuman diz que há uma profusão de livros sobre o drama e o sentimento das mulheres traídas, mas muito pouco sobre o que sentem os homens que traem em relação ao casamento, à vida e à masculinidade. E vai na direção contrária ao senso comum ao afastar as questões sexuais das principais causas da infidelidade. O autor diz que ouviu de muitos homens a mesma frase: “Não me sentia apreciado por minha mulher”. O sentimento de desvalorização e falta de atenção foram muito repetidos na pesquisa

Separação emocional? Apreço? Não parece o discurso das mulheres? A grande mentira ouvida repetidas vezes é que as mulheres são as emocionais e que os homens são como pedras, necessitando apenas de muito sexo para ser felizes.

A influência da família e dos amigos é extremamente relevante na decisão de trair. Ele pesquisou o comportamento de familiares e melhores amigos dos grupos de homens fiéis e infiéis e o resultado foi:

- Homens fiéis cujos amigos íntimos traíram/traem – 47%

- Homens infiéis cujos amigos íntimos traíram/traem – 77%

- Homens fiéis cujos familiares traíram/traem – 33%

- Homens infiéis cujos familiares traíram/traem – 53%

- Homens fiéis cujo pai traiu ou havia suspeita – 28%

- Homens infiéis cujo pai traiu ou havia supeita – 50%

Ter amigos ou parentes infiéis cria uma atmosfera que torna a traição uma parte da vida diária. Neuman não fica só na pesquisa. Pendendo para a auto-ajuda, ele enumera num capítulo inteiro os “sinais de alerta, de traição e de mentira”, para as mulheres terem pistas sobre a traição dos parceiros. Algumas coisas são óbvias, outras um pouco forçadas. Por exemplo: “ele me critica demais” ou “brigamos muito” seriam sinais de traição. Na minha (modesta) opinião, porém, isso significa que, de certa forma, vocês interagem e ele ainda presta atenção na parceira. Quem critica é porque se importa. Sinais de traição maiores são a falta de diálogo, o pouco tempo juntos, o fato de um ignorar o outro, de colocar tudo para debaixo do tapete.

Resumo: traição é um comportamento que guarda tanta diversidade quanto os tipos de relacionamento. Cada um tem o seu, cada um tem a sua – embora guardem pontos em comum. Para os interessados no assunto infidelidade – ou para quem desconfia que está sendo traído, o livro de Neuman pode ser um bom companheiro.

Agora o autor está devendo um livro sobre infidelidade feminina. Afinal, não são só os homens que traem, certo?


Martha Mendonça

5 de outubro de 2010

Elas pedem mais desculpas!




Não que a gente tivesse muitas dúvidas, mas um estudo feito pela Universidade de Waterloo, em Ontário, no Canadá, e publicado no Psychological Science, mostra evidências científicas de que as mulheres pedem mais desculpas do que os homens.

Mas, antes que as mulheres já digam que é porque os homens nunca admitem seus erros, é bom esclarecer que eles os reconhecem, sim. Parece que, quando eles acham que fizeram algo errado, eles pedem desculpas com a mesma frequência que as mulheres. A única diferença é que eles pensam ques cometem menos erros”, diz Karina Schumann, estudante de doutorado da universidade e autora de dois estudos sobre o assunto.

No primeiro estudo, 33 estudantes universitários com idades entre 18 e 44 anos mantiveram um diário online em que contavam se haviam feito algo pelo que deveriam se desculpar e se de fato haviam pedido desculpas. Eles também anotavam quando estavam do outro lado e julgavam que mereciam um pedido de desculpa.

Tanto homens como mulheres pediram desculpas 81% das vezes em que achavam que deviam. Mas as mulheres achavam que haviam feito muito mais coisas pelas quais deviam se desculpar. Os homens viram menos motivos para fazer um pedido de desculpa, mas também acharam menos razões para receber um. Isso levou a pesquisadora a fazer um segundo estudo para analisar uma nova questão: será que os homens têm uma tolerância maior com as atitudes deles e com as dos outros?

Nessa segunda etapa, 120 estudantes universitários julgaram a gravidade de algumas ações como, por exemplo, acordar um amigo no meio da noite e descobrir que ele foi mal numa entrevista no dia seguinte por causa da noite mal dormida. Em média, as mulheres consideravam as atitudes mais graves do que os homens e, por isso, tendiam a julgar que um maior número delas exigia um pedido de desculpas.

Não sei se o fato de ser uma mulher a responsável pela pesquisa influencia na explicação, mas para Karina, os homens são resistentes a pedir desculpas. “Eles pensam que pedir desculpa os fará parecer fracos ou porque não querem se responsabilizar por seus atos.” As mulheres pediriam mais desculpas porque são mais preocupadas com a emoção dos outros e com a harmonia das relações.

Mas, deixando as explicações sexistas – e simplistas – de lado, o resultado da  pesquisa pode ajudar o relacionamento entre homens e mulheres. Nem homens nem mulheres estão errados sobre o que merece ou não um pedido de desculpas – apenas têm visões diferentes sobre o assunto. É bom saber que eles não são lá muito chegados, para não ficar esperando à toa, não é mesmo? Mas é bom saber também que, se você não pedir desculpa por aquela mancadinha, talvez ele nem note!

6 de setembro de 2010

Atenção não solicitada



De qualquer forma, acho que galanteadores e agressores se parecem: cada um deles, a sua maneira, acha que tem o direito de dizer o que pensa a uma mulher estranha. Pode ser um elogio físico ou uma grosseria sexual, não importa. Em geral, trata-se daquilo que os americanos, apropriadamente, chamam de “atenção não solicitada". Indesejada, na verdade.

Nas duas últimas semanas, tenho pensado na forma como nós, homens brasileiros, tratamos as mulheres. Outro dia uma de nossas colegas de trabalho – jovem, bonita, discreta – pediu a palavra para fazer uma espécie de desabafo. “É difícil para uma mulher caminhar nas ruas de São Paulo”, ela disse. “A gente tem de andar olhando pro chão, fingindo que não escuta todas as besteiras que nos dizem”.

É isso, não é? Mulher bonita anda pela rua e vai sendo alvo de comentários em voz alta. Que cara, que bunda, que isso que aquilo. Se você, caro amigo, acha que elas gostam, pergunte. Minha amostragem sugere que a maioria detesta. Se sentem ameaçadas, intimidadas, insultadas. Querem ser deixadas em paz.

Esse assédio sobre as mulheres acontece à luz do dia, na porta do trabalho, na travessia de pedestres, dentro do ônibus. Às vezes o tom de voz do sujeito ou as coisas que ele diz amedrontam. Outras vezes dá asco ou dá vergonha. Nas baladas pode ser pior: o garanhão de calça agarradinha chega apertando o braço da moça, mexendo no cabelo, forçando a barra. Não aceita não como resposta. Mas quem deu licença a ele para dizer coisas e tocar o corpo de uma mulher desconhecida?

Nós, homens, demos licença. A cultura machista nos dá licença.

Assim como os talibãs agridem mulheres que se atrevem a andar sem burca – porque se sentem donos delas – nós dizemos o que queremos às mulheres que se atrevem a exibir sua beleza delas na rua, pela mesma razão. Se estiver acompanhada de um homem, vá la. Mas se estiver sozinha, sem dono, “causando”, vai ter de ouvir o que a gente quiser dizer. Ou pior. Pelo simples fato de que a gente pode.

No universo mental desses camaradas, mulher que não quer confusão se dá ao respeito: anda com as pernas cobertas, sem roupas ou adereços provocativos, discreta e modestamente. Fica no seu lugar. A rua é o espaço em que os homens fazem o que querem e as mulheres se comportam. Mulher que sai da linha ou chama atenção por ser bonita a turba trata como quer. Pergunto: há diferença filosófica entre isso e a misoginia que se pratica nos países islâmicos atrasados?

Com o risco de incorrer em exagero, acho tudo parecido com tudo. O sujeito que diz besteiras a uma moça que caminha na rua, o playboy que agarra a garota na balada, o cara que se esfrega na mulher do trem. Tudo faz parte de um mesmo contínuo de desrespeito à mulher. Ele começa com o chato do bar, que insiste na cantada apesar de meia dúzia de nãos, e termina... Sabe-se lá onde termina.

Claro, todo comportamento social tem uma justificativa ideológica. Neste caso, a justificativa é a de que as mulheres gostam. Se você perguntar, vai ouvir dos conquistadores que, lá no fundo, elas querem ser assediadas, agarradas, elogiadas com bastante pimenta. Faz bem para o ego delas, explicam. Claro, por trás de todo grosseirão há sempre um especialista na alma feminina. Mas eu suspeito que eles estejam errados.

Minha opinião, pelo que vale, é que esse tipo de comportamento insultuoso tem de ser reprimido: socialmente e, se necessário, pela polícia. As mulheres têm direito de andar sozinhas pelas ruas, vestidas como quiserem, e serem respeitadas. E elas são o melhor juiz do que é ou não é desrespeitoso. Se o sujeito cruzou o limite, chama a polícia, avisa o segurança, pede ajuda ao dono do bar. Não faz sentido, em pleno século 21, que nossas filhas, namoradas, irmãs ou amigas tenham de andar pelo mundo com os olhos no chão porque um bando de homens não se aguenta nas calças.




 Ivan Martins

3 de setembro de 2010

Desejo e vontade




Mulheres traem pelo mesmo motivo que homens: por desejo, por vontade. A diferença é que elas costumam culpar o marido ou o namorado. “Ele não me dava mais atenção”, dizem. “Não era mais romântico, não me elogiava, nem sexo queria.” O livro mais recente da antropóloga Mirian Goldenberg desfaz o mito de que o homem trai por sexo e a mulher trai por amor ou desamor. Se assim fosse, o homem seria sempre culpado: quando trai e quando é traído.

Homens e mulheres gostam de acreditar que o marido é safado por natureza, e a mulher casada é santa por dedicação. Esses rótulos podem parecer convenientes, mas contaminam as relações amorosas. Trabalhando há 22 anos com dilemas de casais, Mirian diz, em seu livro "Por que homens e mulheres traem?", que a maior diferença entre eles e elas não é o comportamento, mas o discurso.

“Em vez de assumirem o desejo, as mulheres preferem se fazer de vítimas. Sentimentalizam o caso extraconjugal e botam a culpa no marido. Os homens assumem ter sido infiéis porque quiseram. Raramente culpam a própria mulher.” Cada vez mais, porém, a infidelidade feminina segue os mesmos padrões da infidelidade masculina. O desejo de se sentir desejada conduz a pequenas e grandes infidelidades femininas. As mulheres escutaram, quando crianças, que seu maior objetivo na vida seria casar e ter filhos. No futuro, elas teriam um único homem para chamar de seu. E seriam únicas para um homem só. A idealização da monogamia romântica não mudou muito, mas a realidade a longo prazo é bem outra.

Mulheres são um pouco Leila Diniz no exercício da sedução, mas não necessariamente na transgressão. As obrigações sociais jogam sua libido num lugar invisível e inatingível. Várias sublimam o prazer ao assumir o papel de mãe. Isso não significa que abram mão de suas fantasias. Conheci mulheres absolutamente certinhas, monogâmicas, que casaram virgens e têm sonhos delirantemente libertários.

Algumas não se contentam em fantasiar. Catherine Deneuve, em "A bela da tarde", de Buñuel, é uma das personagens mais enigmáticas do cinema. Bem casada, rica, belíssima, ela se entrega a desconhecidos após o almoço como prostituta de luxo. É um exemplo extremo de desvio. Mas, se a infidelidade feminina fosse apenas um fetiche, Nélson Rodrigues não teria tocado com tanta propriedade a alma da classe média brasileira.

O psicanalista Contardo Calligaris acha que as mulheres são tão infiéis quanto os homens. Não vê nisso um problema. “As mulheres só são campeãs na fidelidade companheira e solidária. Em hospitais ou presídios, os visitantes são mulheres. Mas, sexualmente, não vejo diferença. Caso contrário, existiria um problema lógico. Se os homens heterossexuais são infiéis, quem são suas amantes, todas solteiras e livres ou também casadas e namorando outros?”

Contardo acha a palavra infidelidade muito pesada para a traição puramente sexual: “Jamais deixaria minha mulher se ela me contasse algo parecido. Mas sou fiel. Acho um saco trair. Ter outra relação dá um trabalho horroroso”.

Nos tribunais do Rio de Janeiro, recentemente, o juiz Paulo Mello Feijó ignorou o pedido de indenização por danos morais de um marido traído. Para o juiz, marido traído é marido relapso. “Homens de meia-idade, já não tão viris, descarregam suas frustrações nas mulheres, chamando-as de gordas e deixando-lhes toda a culpa por seu pobre desempenho. E elas buscam o prazer em outros olhos, outros braços, outros beijos (...) e traem de coração.”

Se a mulher for infiel, será por desejo e por vontade própria.

Ruth de Aquino

2 de setembro de 2010

O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas



Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão. Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. E assim, decidem continuar sozinhas.

Ela sabe do que está falando. Foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.

Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha.

E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor. Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.

A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.

A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair por perversidade, para não ter de olhar para dentro, onde dói; necessitam de auto-afirmação e fazem das pessoas suas verdadeiras muletas e não conseguem ter um olhar amplo das diferentes mulheres que o cercam.

Talvez preciso falar em nome de todos os homens, por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?

A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado.Todo mundo está fazendo barulho.Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa.Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior e do próximo – com apoio da publicidade.

Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.

Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos. Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.

Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha, tenho certeza! Ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.

 
Ivan Martins
Edição: Lena


24 de agosto de 2010

Manual do homem sensível



Tenho ouvido acusações recorrentes e bem humoradas de ser um “homem sensível”. Como eu não sei o que isso significa, saí perguntando aos amigos e escolhi algumas respostas interessantes.

. É um cara que se importa com os sentimentos dos outros (resposta de homem).
. Alguém sensível que é capaz sentir o que o outro está sentindo (resposta de mulher).
. É um homem que percebe os efeitos e as consequências de seus afetos (resposta de homem).
. É o cara que “percebe” as coisas, aquele que é capaz de se deixar emocionar com as coisas bonitas do mundo, que se deixa afetar sem medo, sem ser bebê chorão (não confundir com falta de masculinidade). Gostar de filmes de ação, carros, futebol, não é sinal de insensibilidade (resposta de mulher).
O que se pode concluir disso? Primeiro, que homem sensível é elogio. A sensibilidade masculina é vista como coisa positiva, como sinônimo de olhar e entender melhor o outro. Segundo, é que o termo ainda sofre de indefinição. Assim, vou tentar rascunhar a primeira versão com as regras básicas do "Manual do Homem Sensível".

1. Gostar de mulher. Não só do corpo ou da cara bonita, mas ter interesse pelo jeito, pela conversa, pela vida delas que é tão diferente da nossa. O sujeito que vive cercado de homens perde metade do potencial da humanidade. Homens sensíveis dão bom dia, felizes, porque gostam da presença feminina.

2. Olhar e escutar. Homens sensíveis prestam atenção ao redor, inclusive nas mulheres. As pessoas têm coisas a dizer, não nasceram para nos servir. Suas opiniões e ideias frequentemente são interessantes. Seus sentimentos devem ser considerados. Isso é sinal de inteligência e de sensibilidade.

3. Sentir. A tradição diz que homem não chora. Isso equivale a dizer que homens não sentem ou não mostram seus sentimentos. Na intimidade da relação é comum que ocorram conversas difíceis, durante as quais a mulher chora e o sujeito fica ali, com cara de tonto, sem saber o que sentir. Isso é um aleijão masculino que deve ser superado. Um homem sensível vive com todos os seus sentimentos.

4. Dividir e ajudar. Há uma parte do mundo doméstico na qual os homens não entravam. Ele se estendia da cozinha à sala de parto. Isso vem mudando: homens sensíveis não dividem o mundo entre tarefas masculinas e femininas, sobretudo no que diz respeito aos filhos. Entrar no mundo das tarefas das mulheres é trabalhoso, mas garante que a mulher desfrute melhor da vida e permite ao pai uma relação mais densa com filhos.

5. Dedicar-se. Esta talvez seja a parte mais difícil. As mulheres se dedicam aos seus amores com facilidade, os homens hesitam. Mas aqueles que traduzem seu afeto na forma de uma atenção prática e apaixonada pelo outro, têm mulheres muito mais felizes. Um homem sensível começa a se preocupar com o presente da mulher dele bem antes da semana do aniversário. Ele planeja uma viagem com meses de antecedência, para surpreendê-la. Ele antecipa as preocupações da casa e evita os problemas, porque pensa sobre as necessidades do outro. Quem faz assim diz que dá trabalho, mas compensa.

Bom, esse é o começo. O Manual do Homem Sensível está aberto a colaborações.

 
Ivan Martins