28 de julho de 2011

Amando o amor




O amor é nossa essência e nos envolve. Deu-nos a vida e nos mantém vivos. Respiramos amor e cada célula de nosso corpo físico depende desta energia para se manter sadia e íntegra. A natureza que nos envolve, e da qual fazemos parte, também é expressão deste amor! Somos irmãos do sol, da lua, das ondas que se quebram nas praias, das flores e de cada um dos animais. Nada se perde e nada desaparece neste universo infinito, mas se transforma e continua a existir, em algum lugar. Somos seres eternos em mutação constante... Mas sempre vivos, independentemente de que lugar ocupemos na vida.

Amando, vivemos mais plenamente. Respirando conscientemente nos vitalizamos, nos preenchemos de amor e nos mantemos com mais saúde! Esta ligação nossa com a essência é nossa garantia de bem-estar e felicidade, de evolução e progresso. Precisamos amar o amor, acima de todas as coisas! 

Amando mais e mais, nos afastamos do medo, que é a energia oposta a ele. Mantemos a nossa liberdade de seres que se sabem espíritos num corpo e, portanto, imortais. Independente do que nos acontecer, sempre viveremos, sempre... Em algum local deste infinito universo.

Vamos viver o amor, o incondicional, que não está necessariamente representado por nada, nem ninguém. Tudo em torno de nós é expressão do amor, mas nem sempre o expressamos de forma integral. Se nos decepcionamos com algum irmão, perdoemos, pois ele não sabe o que faz, desviando-se do amor que é, para trilhar caminhos aparentemente sedutores, mas que logo vão provar serem ilusórios. Sigamos em frente!

Amando o amor, nos decepcionamos menos e continuamos sempre vitalizados, caminhando por onde a vida nos levar. Não importa para onde vamos, mas como estamos. Agora, neste exato momento em que existimos em plenitude. Sempre poderemos nos manter nesta paz deste instante, se o amor estiver inspirando e movendo nossos pensamentos e atitudes. Temos a condição de operar verdadeiros milagres, na medida em que amemos mais e mais. Pois só esta força tem poder real. Da mesma forma que a luz ilumina as trevas e se espalha, o amor vai tornando tudo mais vivo, mais pulsante, mais harmonioso, mais belo!

Percebo de forma muito forte, que podemos mudar o mundo, amando! Imprimindo esta qualidade a tudo que fizermos, ou dissermos. Sem muitas explicações nem qualquer teoria filosófica complicada, apenas deixando fluir o que somos naturalmente.

Para amar, não precisamos ser bonitos, elegantes, inteligentes, ricos, poderosos. Precisamos apenas ter a coragem de sermos nós mesmos, de nos ligarmos com nossa essência. Para isto, é claro que o tempo de meditar é imprescindível, o exercício do sorriso franco e aberto é uma importante ferramenta, o perdão precisa ser incondicional, as palavras não devem ferir jamais, as mãos precisam ser usadas para fazer o bem e a mente para enviar pensamentos positivos.

Buscado, o amor nos retribuirá com o preenchimento de um vazio interior que é a causa de depressões, suicídios, doenças as mais complicadas. Ele, simplesmente e sem alardes, nos restituirá uma condição de vida serena e pacífica, mesmo dentro deste aparente caos em que nos vemos, na atualidade.

O amor está se instalando no planeta pequeno e obscuro chamado Terra! Vamos amá-lo! Nas pessoas, nas coisas aparentemente inanimadas que são usadas por nós, nos animais, nas flores, em toda a flora que nos cerca, na música, nas crianças, na natureza...

Amando, nos salvaremos e salvaremos os outros. Pois o amor contamina... Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura... Diz um ditado popular. Se amarmos o amor, não exigiremos tanto de pessoas que, como nós, ainda estão aprendendo a amar e muitas vezes estão nos dando tudo que possuem, em vão!


Maria Cristina Tanajura 

  
Frank  and Nancy Sinatra - Something Stupid





27 de julho de 2011

Gatinha aos "enta".. .





Visita de rotina aos médicos. Todo ano a mesma peregrinação. Mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista...

Mas um dia, resolvi incluir um "ISTA" novo na minha odisséia.... Um Dermatologista. Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos "ENTA". Na verdade, sentia-me espetacular. Tudo certo. Ninguém podia cantar para mim a ridí­cula frase da Calcanhoto nada ficou no lugar... Mas não sei o que deu no espelho lá de casa, que resolveu, do dia para a noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, de bruxas. E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido (ou eu não havia notado?).

Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda, olheiras mais profundas... Como assim??? Assim. Sem avisar nem nada. De repente, o idiota resolveu mostrar e pronto. Ah, não! Isso não vai ficar assim. Um "ista" novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os "istas"! Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro 'bem intencionado' daqueles em que a gente escolhe a roupa íntima com cuidado, que é para não fazer feio, nem parecer que foi uma escolha proposital... Sabe como é, né?

Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e cutucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade. Disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando, através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto. Depois de fazer uma ficha com meus dados, o 'doutor' me olhou finalmente nos olhos, e perguntou:

- O que lhe trouxe aqui?

Fiquei vermelha como um tomate. E muda. Ele sorriu e esperou. Quase de olhos fechados, desfiei minhas queixas. Ele observou 'in loco' cada uma delas, com uma luz de 200watz e uma lupa. E começou o seu diagnóstico.

- As pintinhas são sinais do sol, por todo o sol que já tomou na vida. Com a idade (tóin!) elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir inclusive. Braços e pernas e rosto e pescoço. E praia? Evite. Só de 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda sol, óculos e chapéu. Bronzear-se, nunca mais.

-Ahmmm... (a turma só chega às 11h!).

-Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo sobre saltos altos. Evite. Use sapatos com solado anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica, Kendall, para quando tiver que usar saltos altos.

-Ahmmmaaaa... (Kendall??? E as minhas preciosas sandalinhas???)

-As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias que calças. Evite o jeans e as calcinhas de lycra. As de algodão puro são as melhores.E folgadas.

-Ahmnunght?? (e pude 'ver' as de minha mãe, enormes na cintura, de florzinhas cor de rosa..... vou chorar!).

-As olheiras são de família. Não há muito que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir e procure não dormir tarde. Alimentação leve, com muita fruta e verdura, pouca carne e muito peixe. Nada de tabaco, nem álcool. Nem café.

E então a histérica aqui­ começou a rir. Agradeci, peguei suas receitinhas e saí­ rindo. No carro comecei a falar sozinha. Tudo o que deveria ter dito e não disse:
- Trabalho muito, doutor,muitas noites vou dormir às 2h, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas noites de boemia com os amigos e seus violões para as serenatas de lua cheia. E que noites!!!! Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossível a meia elástica(argh!!). Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas... E não abandono meu jeans nem sob ameaça de morte, é meu melhor amigo!!!! Dormir lambuzada? Neste calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite? E nada de praia??? O senhor está louco é??? Endoideceu foi??? Moro no Recife, com esse mar e tudo...E tenho só 40 anos.... Meia vida inteira pela frente! Doutor Filistreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito 30 anos em um!!! Até um dia desses tinha 39. E agora em vez de 40 estou fazendo 70??? Inclua aí na sua lista de remédios... para as de 40 a 60, meia luz... Acho que é só disso que eu preciso. Um bom abajur com uma luz de 15wts... E um namorado que use óculos... É isso, só isso!!! Entendeu????'

Parei no sinal e olhei de lado e um cara de uns 25 anos piscou o olhou para mim. Ah... e ele nem usava óculos!

Nunca fiz o que me recomendou o filistreco. Minhas olheiras são parte de meu charme e valem o que faço pelas noites a dentro... Ah!!! se valem! As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do 'bruxo mau'. Os sinaizinhos estão aqui, sem grandes alardes e até que já acho bonitinho. O espelho é muito menor... o outro, eu dei a minha filha. E meu namorado diz que estou cada dia mais linda! Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música. É claro que ele usa óculos. Mas quando quero ficar fatal, tiro os seus óculos e acendo o abajur.

No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é, e outras, que vão te odiar pelo mesmo motivo. Acostume-se....


Autor desconhecido
George Michael - Freedom


Texto cedido pela minha querida Maria José Rezende, do blog Arca do AutoConhecimento.

26 de julho de 2011

Não se culpe pelas expectativas





Alguém já lhe disse a seguinte frase com um ar irritante de superioridade? “Você cria muita expectativa!”. Eu ouvi várias vezes – da terapeuta às piores e melhores amigas. Em relação à profissional, sinceramente não acredito que ela consiga viver sem criar expectativas; em relação às amigas, tenho certeza de que todas, sem exceção, esquecem os mantras budistas, a lucidez adquirida desde a última frustração e desabam ao primeiro sinal de luz no fim do túnel. Vale para o amor, para o trabalho… vale para tudo o que desejamos na vida.

Se existisse oração, simpatia ou qualquer outra mandinga capaz de aplacar nossas expectativas estaríamos salvas. Não existe. Existe, isso sim, imaginar o que não existe, criar historinhas (que mal começaram) com final feliz. Existe fantasia e ilusão. E quer saber? Perdoe-se por isso. Você não é a única roteirista de casos de amor água com açúcar. E que ninguém se atreva a julgar seus desejos mais profundos e medir com uma trena o tamanho dos seus sonhos. Muito menos aconselhá-la com clichês do tipo “quando você desencanar, acontece”! Diga para uma mulher que está tentando engravidar que, quando ela desistir, engravida. Quem aqui consegue “desencanar” da vontade? As pessoas têm sangue nas veias, sonhos grandiosos, desejos que as mantêm vivas e ativas.

Ok, somos adultas e sabemos que a desilusão – ou a frustração – é proporcional ao tamanho da expectativa. E daí? Estamos aprendendo a viver, certo? Só não podemos esquecer de um detalhe: do céu só cai chuva. Isso significa que tudo na vida é conquista, tanto o homem dos sonhos quanto o emprego dos sonhos ou o filho dos sonhos. Podemos até pular etapas por causa da ansiedade. Faz parte do aprendizado voltar algumas casas e refazer o caminho passo a passo.

A expectativa está alta demais? Sem problemas. A vida saberá como dosá-la. A frustração está doendo demais? Acalme seu coração e não se culpe. Sim, inevitavelmente vamos chorar muito e desacreditar. E quando a próxima possibilidade aparecer, quem sabe não estaremos mais pé no chão para dar os passos na direção certa, heim? Nada é impossível nesta vida. Na-da!



Fernanda Santos 

Coldplay - Clocks



 

25 de julho de 2011

O homem separado




Embora muitos não percebam, os homens não se dividem apenas entre casados e solteiros, ou entre aqueles que têm e não têm namorada. Há outra categoria, menor, mas igualmente importante: a dos homens separados. Eles constituem um grupo inteiramente à parte.

Não importa se o sujeito foi casado por dez anos ou se acaba de romper um namoro que mudou a sua vida. Quem terminou uma relação importante vive, por tempo indeterminado, num universo emocional diferente daquele em que vivem as outras pessoas.

A característica essencial desse período é a dubiedade de sentimentos e a indefinição. O homem separado não tem mais compromisso, mas ele ainda não se sente realmente livre. Vive, de forma muito aguda, a euforia de não ter mais laços e a angústia de estar sozinho. Habita, simultaneamente, dois mundos que se afastam um do outro. Num deles é o companheiro de alguém, o pai, o homem da casa. No outro, é um camarada solitário em busca de emoções e sensações reprimidas. Até que esses dois mundos voltem a se encontrar, até que o homem separado recupere a sua identidade, ele tende a viver em desequilíbrio – o que não é necessariamente ruim.
Eu lembro desses períodos de separação de forma muito intensa. Viagens, rostos, conversas na rua tarde da noite. A palavra para esses interregnos é descoberta. Sobretudo, a descoberta de pessoas e seus mundos. Cada um de nós vive num planeta próprio. Explorar esses planetas, entrar na casa e na vida dos outros sem o peso dos compromissos é uma delícia.

Há também os excessos. A gente enlouquece de liberdade e pira de carência. Sem se dar conta, o sujeito começa a agir como cachorro louco. É comum ver homem separado se atirando sobre as mulheres indiscriminadamente. Não é só lascívia. Depois de anos com a mesma mulher, ou meses com a namorada atenciosa, passar um fim de semana sozinho pode ser o inferno – e, para escapar dele, as pessoas fazem qualquer coisa.

Quando se olha de fora, parece que os homens separados estão 100% do tempo atrás de sexo, mas não é bem isso. A grande ausente nos namoros e casamentos falidos é a paixão. Sexo existe, mas não existe mais romance. Ninguém mais suspira no meio da transa, não se tem mais vontade de escrever cartas à mão ou mandar flores. Você não olha mais para a sua mulher como se ela fosse a mais linda do mundo. E isso faz falta para os dois.

O escritor Norman Mailer já dizia nos anos 1960: as pessoas se esfregam nas festas achando que estão em busca de sexo, quando, na verdade, estão procurando amor. Cinquenta anos depois, o diagnóstico ainda vale para boa parte das situações.

Às vezes eu me surpreendo ao perceber que dos meus períodos de homem separado sobraram relações bacanas. Algumas mulheres conseguiram enxergar por trás da máscara de sedutor tragicômico um sujeito com quem se poderia conversar e conviver. Tornaram-se amigas - mas são exceção.

A tendência nesses momentos de tumulto é queimar as oportunidades e o filme. Você conhece pessoas especiais, mas não consegue ver um palmo à frente do nariz. Não as percebe. Age com todas de uma forma padrão, ditada pela particularidade do seu momento. Banaliza sentimentos e possibilidades.

Há certo vampirismo nos homens separados, uma necessidade de tomar dos outros dando relativamente pouco. Há uma carência (essa é a palavra-chave) que devora tudo em volta até que algo sacie e acalme. Até que o sujeito seja capaz, de novo, de se apaixonar. Até que ele recupere o romance em sua vida. Esse, eu acho, é o momento em que ele deixa de ser um homem separado e volta a ser um homem livre. A capacidade de se apaixonar encerra a transição.

Esta, ao menos, é a minha experiência. Ela não me parece muito distinta da experiência dos outros homens, mas, nem por isso, serve como regra. Haverá quem saia do casamento pronto para se apaixonar de novo, instantaneamente. Outros baterão cabeça por meses ou anos. Um homem especial talvez seja capaz de reconhecer mesmo na bruma da separação o sorriso da mulher feita para ele – e não jogue fora a oportunidade.



Ivan Martins 



Men At Work - Overkill




24 de julho de 2011

Juventude: a utopia da onipotência




Para derrotar o medo, alguns jovens acreditam ser imunes a qualquer perigo. Vestem a couraça da onipotência e põem em risco seu futuro e sua vida. Até que um dia descobrem porque não são imortais.

A adolescência é uma fase extremamente difícil da vida. Talvez a mais difícil. Temos que nos comportar como adultos sem dispor de cacife para isso. Temos que ser fortes e independentes quando ainda nos sentimos inseguros e sem autonomia de vôo. Temos que mostrar autoconfiança sexual, mesmo sendo totalmente inexperientes. Temos que formar um juízo a nosso respeito - se possível positivo -, mas nos falta a vivência para aprofundar o autoconhecimento. Enfim, temos que ser ousados e corajosos, embora a cada passo surja o medo para nos inibir.

O que fazer? Frente a tantas incertezas, acabamos seguindo os modelos sugeridos pela própria cultura. Passamos a imitar nossos heróis, travestindo-nos de super-homens e de mulheres-maravilha. Assim, encobrimos nossas dúvidas e inseguranças. Elas que sejam reprimidas e enviadas para o porão do inconsciente. Nós seremos os fortes e destemidos, para nós nada de errado ou ruim irá acontecer. Construímos uma imagem de perfeição, de criaturas especiais, particularmente abençoadas pelos deuses. Resultado: sentimo-nos onipotentes e, a partir daí, não há coisa no mundo que possa nos aterrorizar, uma vez que estamos revestidos de proteções extraordinárias.

Este estado de graça irá perdurar por um tempo variável. É um período bastante complicado para as pessoas que convivem com o jovem, pois ele sabe tudo, faz tudo melhor, acha todo o mundo alienado e burro. Só ele é competente e sábio. No entanto, para o próprio jovem, a fase parece muito positiva. Ele, finalmente, se sente bem, forte, seguro e não tem medo de experimentar situações novas. Pode montar o cavalo mais selvagem com a certeza absoluta de que não cairá em hipótese alguma. Mais tarde, quando não for mais tão ousado e confiante, se lembrará dessa época da vida como a mais feliz. Afinal de contas, a sensação de euforia é sempre inesquecível.

Na verdade, ninguém teria nada contra a onipotência, se ela correspondesse à realidade. Porém, não é isso que os fatos nos ensinam. Sabemos que, entre os jovens, são exatamente os mais confiantes aqueles que se envolvem em todo tipo de acidentes graves, quando não fatais. São estes jovens que dirigem seus carros na estrada, durante a madrugada, com o pé na tábua. Não sentem medo porque é óbvio que os pneus não irão estourar e é lógico que não irão adormecer ao volante. São estes jovens que saem de uma festa e, alcoolizados, vão a toda a velocidade para a praia. Sua imortalidade só é desmentida por um acidente fatal. Aliás, para ser sincero, parece incrível que não ocorra um maior número de acidentes.

Alguns jovens, onipotentes e filhos diletos dos deuses, andam de motocicleta sem capacete. Desafiam a chuva e o asfalto molhado, depois de usarem tóxicos ou ingerir álcool. Fazem curvas superperigosas. Não se intimidam porque para eles nada de mal irá acontecer. E morrem ou ficam paralíticos, interrompendo vidas que poderiam ser ricas e fascinantes. Estes mesmos jovens utilizam drogas em doses elevadas porque se julgam imunes aos riscos da overdose e suas graves conseqüências. Chegam a compartilhar seringas, ao injetar tóxicos na veia, pois é claro que não terão AIDS. E, pela mesma razão, continuam a ter relações sexuais com parceiros desconhecidos, sem sequer tomar o cuidado de usar camisinha.

Aqueles que não morrem ou não ficam gravemente doentes, um dia acordam desse sonho em que flutuavam em estado de graça. Acordam porque lhes aconteceu algo: aquele acidente considerado impossível. Caíram do cavalo. Eles também são mortais! 
Então, tomam consciência de toda a insegurança e de toda a fragilidade que os levaram a construir a falsa armadura da onipotência. Ao se tornarem criaturas normais, sentem-se fracos. Antes era muito melhor. Sim, mas era tudo mentira. Agora, o mundo perdeu as cores vibrantes da fantasia. Vestiu os meios-tons da realidade. Eles não conseguiram domar o cavalo selvagem e foram derrubados no chão. Terão de aprender a cair e se levantar. Terão de aprender a respeitar mais os cavalos! Terão de saber que todas as doenças, todos os acidentes, todas as faltas de sorte poderão persegui-los. E - o que é mais importante - terão de enfrentar com serenidade a plena consciência de que são vulneráveis. Este é um dos ingredientes da maturidade: ter serenidade na viagem da vida, mesmo sabendo que tudo pode nos acontecer.


Flávio Gikovate


Marina Lima - Fullgas




23 de julho de 2011

Perdão a si mesma




Eu me perdoo pelo querer desmedido, desajustado, e por todos os amores frustrados.

Me perdoo por tantas vezes ter fascinado, pelos julgamentos errados, por ter cedido ao desespero, pelo destempero.

Pelo sofrimento que causei a mim mesma, pelos pavores e fantasmas que alimentei, pelas friezas e franquezas que tanto me enfraqueceram.

Me perdoo por idealizar, perder a lucidez, cegar diante do óbvio.

Me perdoo pela ansiedade exagerada, pela sensibilidade amplificada, por me apegar ao nada.

Me perdoo pelos desencontros, pelas rejeições, pelos pequenos suicídios, pelas necessidades satisfeitas e pelos desejos inconfessáveis.

Me perdoo pelas vozes que ouço, pela mente em alvoroço.

E ainda me perdoo por permitir que machucassem meu coração e por todas as vezes em que meti os pés pelas mãos.

Me perdoo por aparentar segurança mesmo sem esperança.

Me perdoo por todas as ilusões e todas as decepções, pela raiva doentia que senti de mim mesma.

Me perdoo por querer controlar, pelo final infeliz e por tanta cicatriz.

Me perdoo por sofrer mais que o necessário, pelo entulho imaginário, pelo orgulho maldito e o dito pelo não dito.

Me perdoo pelas dependências, pelos vícios e suplícios, por não deixar fluir, por interferir, inibir, ferir e fugir.

Me perdoo pelos impulsos, pelas más tendências, pelas preferências, pelas tolices e rabugices.

Por errar, tropeçar, ameaçar.

E me perdoo principalmente por não ter aprendido a perdoar.




Fernanda Santos 



Phil Collins - Against All Odds (Take A Look At Me Now)




22 de julho de 2011

Você sabe manter o foco?




A vida não acontece da mesma forma para todas as pessoas. Para alguns de nós a vida mais parece uma sequência meio maluca de coisas que vão acontecendo aleatoriamente, quase como se a pessoa, dona da vida, não tivesse nada a ver com isso. Já com outras pessoas, a vida parece ganhar um formato mais ordenado, como se fosse um quadro feito de imagens que, antes de serem colocadas na tela, tivessem sido cuidadosamente concebidas na imaginação do artista.

Para que sua vida seja uma obra de arte, é preciso que você reconheça a si mesmo como o artista. Sim, você é o artista! E um artista precisa de foco. Foco e paixão. Precisa ter o desejo, lá no fundo do seu ser, de transpor para o mundo externo o que pulsa em seu íntimo.

Precisa acreditar-se capaz de criar. Precisa correr o risco de frustrar-se, e ainda assim continuar tentando. Essa persistência é o que estou chamando de foco. Essa capacidade de continuar na direção escolhida, a despeito dos resultados imediatos obtidos.

Eu me lembro de uma vez em que tentei fazer uma escultura em um pedaço de madeira. Fiquei horas cavando aquele tronco que encontrei no meio da mata. Mais horas pintando, acertando... e finalmente... uma linda deusa esculpida, minha obra de arte! Mostrei à minha amiga, e ela achou que eu tinha esculpido uma múmia! - que decepção! A moça da limpeza me disse que tinha certeza que minha escultura retratava uma bruxa, e o ascensorista afirmou, com convicção, que eu tinha esculpido um porco!

Assim é a vida, muitas vezes.

Você consegue persistir, mesmo quando percebe ainda estar longe de atingir o desejado objetivo? Mesmo ao perceber que a diferença entre você e um escultor é de... anos luz? Consegue manter o foco no que deseja, mesmo quando a vida não lhe dá tapinhas nas costas?

Pense por um momento em quais são as coisas que você realmente deseja atingir. Um trabalho satisfatório? Um relacionamento saudável? Uma casa de campo? Habilidades de mágico?

Seja lá o que for, o que lhe digo é que... sem foco... nada feito! Sem foco você acabará desistindo no meio do caminho, às vezes a um milímetro de finalmente atingir o que desejava. Desistir é abrir mão da vida. Como fazem as crianças que cruzam os braços e dizem que já não querem mais brincar.

São duas as suas opções. Você pode continuar em frente, mesmo errando, mesmo se perdendo de vez em quando, mesmo fracassando vez ou outra. Ou pode desistir.

A seu escolha fará toda a diferença, não apenas nos resultados obtidos, mas na forma como você gastará seu precioso tempo de viver. Uma vida é muito mais significativa e interessante quando tem foco, quando é vivida por alguém que acredita poder criar algo de belo, quando nos sentimos entusiasmados e seguimos com perseverança.

Sabe... Me parece triste desistir. Acho triste quando vejo pessoas que deixaram de acreditar, que pararam de tentar. Cheias de justificativas, ficam lá, largadas no meio do caminho. Acho triste pois, a meu ver, se seguimos em frente, mesmo que não encontremos o que inicialmente procurávamos, com certeza fazemos de nossa vida uma linda aventura, cheia de coisas para contar.

A vida não nos foi dada para ser economizada. Qual é a graça de se ganhar uma vela e nunca acendê-la? De guardar as melhores roupas para uma festa que nunca acontece?

Eu lhes digo o que penso. Se ganhamos de presente esta vida, que sejamos capazes de vive-lê com verdade, até o final!



Patricia Gebrim 

Harry Nilsson – Everybody’s Talkin


 

21 de julho de 2011

O presente de uma palavra




Poucos de nós nos damos conta de quanto precisamos de encorajamento. Contudo, de vez em quando, temos de nos apoiar no calor de uma aprovação ou corremos o risco de perder todo o nosso amor próprio.

Todos precisamos sentir que há quem precise de nós e que nos admiram. Mas, a menos que ouçamos palavras de elogio da boca de outrem, como poderemos saber que somos amigos ou colaboradores de valor?

Todos os que querem melhorar suas relações com os outros necessitam apenas demonstrar para com eles uma compreensão amiga. A forma de exprimir tal entendimento e de transmitir aos outros essa sensação de importância e valor baseia-se num simples ensinamento: procure sempre no outro algo que se possa admirar e elogiar - e diga-o a ele.

Todos temos uma ideia de nós próprios, uma autoimagem. Para achar a vida razoavelmente satisfatória, devemos poder viver com essa autoimagem e gostar dela. Quando nos sentimos orgulhosos dessa nossa imagem de nós mesmos, sentimo-nos confiantes e livres para sermos quem somos. Funcionamos então da melhor forma. Mas se nos envergonhamos da imagem que fazemos de nós, esforçamo-nos por escondê-la, em lugar de exprimi-la. Tornamo-nos com isso hostis e de difícil convivência.

Um milagre acontece com a pessoa cujo ego foi posto nas alturas. Ela de repente começa a gostar mais dos outros, torna-se mais simpática e colaboradora com quem a rodeia. O elogio é o polimento que ajuda a conservar a auto-imagem brilhante e resplandecente.

Mas o que tem isso com o fato de se elogiar alguém? Muito. Significa que você tem o poder de realizar essa espécie de milagre noutra pessoa. Quando você estimula o amor-próprio da outra pessoa, faz com que ela se sinta mais capaz de apreciá-lo e colaborar com você. Os efeitos do elogio podem de fato ser notáveis.

A sinceridade é essencial em qualquer elogio. Reforça um cumprimento. Ao voltar para casa após um árduo dia de trabalho, o homem que vê os rostos dos filhos encostados à vidraça à espera dele pode alimentar sua alma com aquele apoio silente, mas tão precioso.

O elogio ajuda a atenuar as arestas afiadas do contato diário. Sobretudo no casamento. Contudo, é talvez no lar que o valor do elogio é menos apreciado. O cônjuge que está predisposto a dizer a palavra calorosa aprendeu uma das regras mais importantes para uma vida familiar feliz. As crianças, sobretudo, têm sede de elogio, de reafirmação e de apreciação.

Dedique-se a encontrar algo para louvar no seu filho e vai ver como suas capacidades e seu comportamento melhorarão. O incitamento pelo elogio é o método mais eficaz de levar as pessoas a darem o seu melhor.

Tal como os artistas encontram alegria no ato de proporcionar beleza aos outros, qualquer pessoa que domine a arte de elogiar acabará por descobrir que ela é proveitosa para quem diz e para quem recebe. É verdade o que afirma o ditado: "As flores deixam parte de sua fragrância na mão de quem as oferece".



Helena Gerenstadt 

Paul McCartney e Stevie Wonder - Ebony and Ivory


20 de julho de 2011

Essa rede invisível de amor






“A felicidade não se compra", de 1946, dirigido por Frank Capra, é um dos filmes mais bonitos que já assisti. Descobri há uns dez anos, citado por um palestrante para ilustrar o tema que abordava. Curiosa, fui procurá-lo na locadora. Fiquei encantada pela história, que conta, entre outras coisas, o quanto “cada vida humana é capaz de tocar muitas outras vidas” de forma preciosa e singular, mesmo sem muitas vezes ter essa percepção.

George Bailey, o protagonista, interpretado pelo ator James Stewart, é um homem de bom coração, gestos nobres, que assume os negócios do pai e, num momento de extremo desespero pela perspectiva da iminente falência, considera que teria sido melhor não ter nascido e pensa em suicídio. Aí começa a parte mais interessante do filme: um anjo meio atrapalhado desce à Terra e o faz mergulhar numa espécie de sonho para lhe mostrar como seria diferente a vida das pessoas que amava e havia ajudado, em vários momentos de sua trajetória, se, de fato, ele não chegasse a nascer. Aparentemente despretensioso, o filme é de uma sensibilidade imensa.

Como é dito em algum trecho do roteiro, cada vida toca mesmo muitas outras vidas. Direta ou indiretamente. No nosso cotidiano, tantas vezes agitado, apertado, ensandecido, a gente não percebe. Não registra. Não lembra disso. Mas, se pudermos parar um pouquinho e afastar o sentimento dessa roda-viva, é possível notar o quanto a nossa vida está ligada a outras tantas numa rede invisível, tecida com fios de puro sentimento. O quanto o fato de existirmos influencia, de diferentes maneiras, em variadas circunstâncias, a história de muitas pessoas, conhecidas ou anônimas. Gente que já passou e nem sabemos mais por onde anda. Gente que continua próxima dos nossos olhos e do nosso amor. Gente, cuja vida esbarra na nossa de forma muito rápida, mas nem por isso o encontro é menos valioso. Pessoas que nem sabemos quem são.

Não estamos separados, como tantas vezes sentimos. É fantástico ter olhos para ver a amorosa rede de conexões que cada vida representa. Quando tratamos uma pessoa com gentileza, respeito, cuidado, não é somente ela que está sendo tocada, mas toda a infinidade de inter-relações envolvidas com a sua passagem pelo mundo, as que já existem e as que poderão vir a existir. Tocamos, em desdobramento, outras tantas histórias e possibilidades vinculadas àquela vida, única e intransferível. Cada pessoa é muita gente, além da preciosidade de ser simplesmente quem é.

Ao olhar para mim, sinto a presença de muitas pessoas. Não teria chegado até aqui, da mesma forma, sem elas. Gente da minha família de sangue. Gente da família que o meu coração cria, vida afora. Gente que encontrei em algum ponto do caminho. Muitas me ajudaram sem sequer perceber. Recebi, em diferentes momentos, a dádiva de gestos de cuidado e amor que fizeram toda diferença. Mesmo os mais singelos foram providenciais: sorrisos, olhares, escutas, abraços, palavras, silêncios compartilhados quando a presença diz tanto. Luciano de Crescenzo, escritor italiano, disse uma coisa linda: “Somos todos anjos como um só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. E não é?

Essa leitura da interpendência, que eu acho muito poética, nos convida a refletir sobre a responsabilidade das nossas ações. O filósofo Emerson, num texto que lhe é atribuído, disse que tivemos sucesso na nossa jornada quando ao menos uma vida respirou mais fácil porque nós vivemos. Essa perspectiva de contribuir para que outras vidas respirem melhor porque existimos nos faz redimensionar a importância da nossa estada por aqui. A natureza é um sistema vivo todo amoroso, feito de gestos gratuitos de troca e beleza. Como parte dela, não somos, por essência, diferentes. Precisamos aprender a respirar melhor e a ajudar, cada um do seu jeito, que outras vidas também respirem com mais facilidade. Não precisa ser por meio de feitos espetaculares. Pode ser nas miudezas do dia-a-dia, no improviso de cada instante. Isso já é grande à beça.



Ana Jácomo 

Michael Jackson and Friends - We are the world




Feliz  Dia do Amigo!!!
  

A Felicidade Não Se Compra


Título original: It's a Wonderful Life
Lançamento: 1946 (EUA)
Direção: Frank Capra
Atores: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore (Henry F. Potter) Thomas Mitchell, Henry Travers.
Duração: 129 min
Gênero: Drama
Sinopse:
Em Bedford Falls, no Natal, George Bailey (James Stewart), que sempre ajudou a todos, pensa em se suicidar saltando de uma ponte, em razão das maquinações de Henry Potter (Lionel Barrymore), o homem mais rico da região. Mas tantas pessoas oram por ele que Clarence (Henry Travers), um anjo que espera há 220 anos para ganhar asas, mandado Terra, para tentar fazer George mudar de idéia, demonstrando sua importância através de flashbacks.



19 de julho de 2011

Dissolvendo mágoas




É inevitável que vez ou outra na vida sejamos feridos pelas pessoas. Alguém nos engana, alguém nos trai, alguém nos trata com falta de respeito, desconsidera nossos sentimentos... Eu sei que você já passou por isso em algum momento. Isso não quer dizer, necessariamente, que tenhamos que continuar carregando isso no peito pelo resto de nossas vidas, cultivando mágoas, como fazem tantas pessoas.

O nosso peito é como um grande lago, suave, ladeado por flores, pássaros e todos os tipos de vegetações. Quando alguém nos fere, é como se uma pedra fosse jogada no lago... tudo fica ondulado por alguns instantes, a superfície perde a limpidez, a água fica momentaneamente turva e o vento sopra de uma forma tão gélida que chega a doer.

Mas depois de um tempo, o que naturalmente aconteceria? A pedra atirada ficaria quieta em algum lugar lá no fundo do lago, uma prova de que vivemos intensamente, uma experiência de vida que veio para nos trazer sabedoria. A superfície da água voltaria a ficar lisa como um espelho, a areia levantada voltaria ao fundo e voltaríamos a sentir a plácida paz desse lago sagrado.

Mas algumas pessoas não se conformam. Em vez de aprenderem com o que aconteceu e retornarem a seu estado natural de confiança na vida, querem encontrar a pedra atirada, que agora se encontra perdida lá no meio de seus lagos. E, se possível, gostariam de atirar a pedra de volta, bem no meio da testa do infeliz que ousou jogar a pedra no lago! Ficam andando de lá para cá dentro do lago, cultivando mágoas e pensamentos ruins, ondulando ainda mais a superfície, levantando cada vez mais areia, turvando a água, perturbando a própria paz. Cada vez que se lembram do que aconteceu e de quem as magoou, é como se jogassem novamente a pedra no lago, e de novo, e de novo, e de novo! E a todo momento comprovam o grande estrago que lhes foi causado, e dizem: Vê? Não consigo mais enxergar a minha imagem na superfície do lago!

Na verdade, a pessoa que nos magoou atirou, sim, a primeira pedra, mas a forma como reagimos a isso é o que pode de verdade nos fazer mal. Continuamos impedindo que a paz aconteça, recriamos a mágoa infinitas vezes dentro de nós... Por que fazemos isso?

Fazemos isso porque em algum lugar dentro de nós existe uma crença distorcida de que a vida deve ser sofrida, de que o sofrimento nos torna maiores, mais dignos. Se lá, no nosso íntimo, existisse a crença sorridente de que merecemos ser felizes, simples assim, não perderíamos tempo em nos atormentar dessa forma, em cultivar mágoas que só nos ferem.
Se acreditássemos de verdade que merecemos a felicidade, deixaríamos a pedra lá, no fundo do lago, e sairíamos para encontrar algo melhor para fazer. Também cultivamos mágoas porque nos falta amor, amor por nós mesmos. E foi essa mesma falta de amor próprio que, provavelmente, acabou permitindo que o outro nos ferisse tanto. Quem ama a si mesmo não fica em relacionamentos desrespeitosos, é mais rápido em buscar aquilo que é bom e saudável.

Precisamos parar de nos colocar no lugar de vítimas das situações. Mesmo quando a outra pessoa errou, nos enganou ou o que quer que seja, uma partezinha nossa permitiu que isso acontecesse. Assim, de nada adianta ficarmos repetindo infinitamente em nossas mentes e corações o ocorrido. Isso só nos aprisiona mais e mais.

Muito mais sábio seria tranquilizar a mente até que a superfície do lago voltasse a ser calma como um espelho. E então, sentados em frente a esse espelho, perguntaríamos: Como posso aprender com o que aconteceu? Como posso evitar que volte a acontecer? E depois, seria bom que ficássemos em silêncio, até que a resposta nos venha.

Imagine que as águas de seu lago sejam como um bálsamo sagrado capaz de curar e dissolver pedras. Permita que as mágoas sejam dissolvidas nessa energia que brota de seu coração. Não tenha pressa, leva certo tempo, eu sei, mas até mesmo os maiores rochedos podem ser dissolvidos pela suave persistência da água.



Patricia Gebrim 


Aerosmith - Crazy




 

18 de julho de 2011

Quem são os homens: a nova identidade masculina




Há muitas décadas as mulheres têm feito uma constante reflexão sobre sua nova identidade e seu papel na sociedade. Não faltam oportunidades para que elas se reúnam em torno destas questões. Produto disto tem sido uma nova mulher, muito mais bonita, bem cuidada, inteligente, ousada, responsável e surpreendente. E os homens? O que aconteceu com eles durante este tempo?

O que sabemos é que tradicionalmente eles não gostam de discutir a relação ou de levar nenhum papo cabeça, de mais consciência. Em parte porque não lhes interessa, pois não convém questionar seu ponto de vista machista. Por outro lado, falta-lhes habilidade para compreender seus sentimentos e expressá-los com clareza. O problema é que agora não é mais possível se abster do diálogo impunemente. Os valores machistas estão indo por água abaixo e hoje em dia um homem que ouse defender publicamente este ponto de vista está sujeito a ser execrado. Mas nós sabemos que no dia-a-dia muitos homens ainda acreditam que as mulheres vivem para serví-los. São homens folgados que não se comprometem, mentem, não são claros na comunicação, manipulam.

O problema ainda não terminou e nem vai terminar enquanto os pais e mães continuarem a criar meninos folgados, não colaborativos, acostumados com mulheres que façam tudo por eles. Um garoto criado desta forma se tornará um homem que se sente superior às mulheres. Em um modo de produção antigo, a força física dos homens os colocava em uma posição de poder, mas agora, quando tudo é mecanizado, automatizado e informatizado, vai melhor quem se comunica bem, quem se dedica ao trabalho, quem tem imaginação ou boas idéias. E as mulheres tem se mostrado cada vez mais aptas para a nova era que se aproxima. Sem a presença do machismo, o que vemos são homens fracos, sem atitude, amendrontados diante da nova mulher. Um homem sem forma, sem identidade. Mas, qual o motivo disto? Por que os homens estão assim?

Em algumas culturas distantes os meninos, quando atingem a idade dos 14 anos, passam por um forte ritual de iniciação à vida masculina adulta, quando aprendem com os mais velhos a serem fortes e respeitadores ao mesmo tempo. Em nossa cultura contemporânea não encontramos nada semelhante. Para as meninas, a menstruação funciona naturalmente como uma espécie de ritual de passagem para a vida feminina adulta. Além disto, nos últimos tempos, as mulheres se uniram para ocupar um espaço mais digno na sociedade. Mas, para os meninos esta passagem para a vida adulta não é muito clara, nem tão evidente assim.

Felizmente, já temos notícia de um novo homem. São indivíduos que compreenderam que homens e mulheres devem ter um relacionamento de igual para igual. São homens que já entenderam que sua força vem das virtudes desenvolvidas: disciplina, ter palavra, integridade, solidariedade. Aprenderam que ser generoso e dar suporte aos outros é um caminho nobre.

Este novo homem também já aprendeu que pode chorar, que pode sensibilizar-se, que pode conversar, mostrando seus sentimentos. É deste homem que a humanidade precisa: poderoso e sensível ao mesmo tempo. É este homem que as mulheres esperam encontrar. Creio que a evolução do comportamento aponta para um novo homem e uma nova mulher que se distingam muito mais como pessoas e menos pelos papéis pobremente definidos pelos gêneros. Afinal, todos nós podemos nos tornar uma espécie de gerreiros pacíficos. O poder não precisa mais continuar nas mãos de pessoas inescrupulosas, mas pode ser apropriado por homens e mulheres que misturam força e sensibilidade.


Sergio Savian



Foo Fighters - Kung Fu Fighting


 


17 de julho de 2011

Viver o momento presente




A vida é feita de momentos. Não existe uma vida feliz e sim, momentos felizes. Muitas pessoas vivem no passado, de recordações. Recorrem às lembranças, emoções que já se foram, momentos que não voltam mais. Agarram-se às fotos antigas, cartas, objetos. Tradições, costumes ultrapassados, outros valores. Pensar naquele amor que se foi, outro que não aconteceu, na promoção que não veio, nas glórias do passado. Não modificam a nossa existência atual. Não fazem a menor diferença. É passado.

Ensinar alguém a pescar e não dar o peixe já pronto. Existe a tendência para um fato ou situação acontecer, mas o livre arbítrio (decisão) é sempre nosso. Somos cem por cento responsáveis pelas nossas atitudes e pensamentos! Culpar os outros pelos nossos fracassos é tapar o sol com a peneira. O futuro é construído pelas ações do presente: é consequência. O futuro é imprevisível.

Existe um ditado chinês que diz que A oportunidade é uma moça com o cabelo comprido na frente e totalmente careca atrás. Temos que ficar atentos para aproveitar a chance quando ela está chegando, porque depois que ela passa.

Viver no presente implica em ser responsável, sentir e vivenciar os momentos ao máximo. Captar a verdadeira essência da vida. Ver o arco-íris após a chuva, sentir o perfume da natureza, escutar a sinfonia dos pássaros, acompanhar o botão se transformar numa flor linda. Não deixar mágoas virarem uma bola de neve. Praticar o perdão. Falar eu te amo todos os dias.

Às vezes, deixamos de curtir a pessoa linda que está ao nosso lado pensando no amor antigo. Esquecemos que a memória só registra os momentos bons, os defeitos são apagados e aí endeusamos a 'ex-paixão'. Gratidão é uma virtude que deveria ser praticada todos os dias. Só nos fixamos no negativo, no copo de água que achamos que está meio vazio e não quase cheio. Na falta de vontade de sair porque está chovendo, porque está frio, porque não tem aquela blusa. A verdadeira necessidade mostra que precisamos de muito pouco para ser feliz. Pequenos toques, um gesto de carinho. Agradecer pelo que nós temos e somos. O essencial é básico. Fala direto com a alma. Entra direto no coração.

O que mais se escuta é: Eu não tenho tempo... Quando vamos encontrar tempo para viver? Pare de se castigar! Consagre 30 minutos por dia à você. Dedicados totalmente à sua pessoa. Leia aquele livro fantástico, ouça a sua música predileta, escreva os seus desejos. Tenha a liberdade de escolher, vá atrás dos seus sonhos!

Somos do tamanho de nossos sonhos. Viva intensamente o momento presente. A vida é bela... Ame-se!



Mon Liu 

Coldplay - The Hardest Part


 

16 de julho de 2011

A maturidade afetiva



A afetividade não está por assim dizer encerrada nos sentimentos, mas permeia toda a personalidade. Estamos continuamente sentindo aquilo que pensamos e fazemos. Por isso, qualquer distúrbio da vida afetiva acaba por impedir ou pelo menos entravar o amadurecimento da personalidade como um todo.

Observamos isto claramente no fenômeno de "fixação na adolescência" ou na "adolescência retardada". O adolescente caracteriza-se por uma afetividade egocêntrica e instável. Essa característica, quando não superada na natural evolução da personalidade, pode sofrer uma "fixação", permanecendo no adulto: este é um dos sintomas da imaturidade afetiva.

É significativo verificar como essa imaturidade parece ser uma característica da atual geração. O homem, esse desconhecido: vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos.

Mesmo em pessoas de alto nível intelectual, ocorre um autêntico analfabetismo afetivo: são indivíduos incompletos, mal-formados, imaturos que estão preparados para trabalhar de forma eficiente, mas são absolutamente incapazes de amar. Esta desproporção tem consequências devastadoras: basta reparar na facilidade com que as pessoas se casam e se "descasam", se "juntam" e se separam.

O conceito de amor que se cultua na nossa época parece que se retrocedeu a uma espécie de adolescência da humanidade, onde o que mais conta é o prazer. Este fenômeno tem inúmeras manifestações.

- Edifica-se a vida sentimental sobre uma base pouco sólida: confunde-se amor com namoricos, atração sexual com amor profundo. Incapazes de um amor maduro, pessoas acham que é mais fácil conquistar do que manter a conquista.

- Diviniza-se o amor: a pessoa imatura idealiza a vida afetiva e exalta o amor conjugal como algo extraordinário. O amor é uma tarefa esforçada de melhora pessoal durante a qual se burilam os defeitos próprios e os que afetam o outro cônjuge.

- No imaturo, o amor fica "cristalizado” na fase de deslumbramento, e não aprofunda na "versão real" que o convívio conjugal vai desvendando. Quando o amor é profundo, as divergências que se descobrem acabam por superar-se.

- A pessoa afetivamente imatura desconhece que os sentimentos são dinâmicos. A pessoa madura sabe que o amor se constrói dia após dia, lutando por corrigir defeitos, contornar dificuldades, evitar atritos e manifestar sempre carinho.
- O imaturo quer antes receber do que dar. Amar para ele é uma forma de satisfazer uma necessidade afetiva, sexual, ou uma forma de auto-afirmação.

Os sentimentos são caminho de ida e volta, onde deve haver reciprocidade. A pessoa imatura acaba sempre queixando-se da solidão que ela mesma provocou por falta de espírito de renúncia. A nossa sociedade esqueceu quase tudo sobre o que é o amor. Não há felicidade se não há amor e não há amor sem renúncia. O imaturo pretende introduzir o outro no seu projeto pessoal de vida, em vez de tentar contribuir com o outro num projeto construído em comum. A felicidade do cônjuge, da família e dos filhos: esse é o projeto comum do verdadeiro amor. Quem não é solidário termina solitário.


Rafael Llano Cifuentes 

Minnie Riperton- Loving You (Is easy cause your beautiful)


15 de julho de 2011

Corações machucados




As pessoas estão cheias de feridas ocultas, desconfianças, sobressaltos. E talvez a razão não seja o medo da felicidade, essa teoria simplista alardeada por alguns especialistas em seres humanos. Só teme a felicidade quem acredita – e sentiu na pele – que ela pode nos tornar duramente infelizes no momento seguinte. Antecipamos a dor para não sorvê-la aos poucos qual veneno corrosivo; assim como apressa o orgasmo quem não aguenta sentir prazer.

Somos colecionadores de crenças, teorias, verdades absolutas. Em algum momento de fato precisamos delas, seja para acreditar que nunca mais nos machucaremos novamente, seja para criar defesas intransponíveis e, assim, não despencarmos de vez, seja para anestesiar a sensibilidade debilitada na tentativa de manter as emoções sob controle – como se isso fosse possível. As crenças nos salvam, as verdades absolutas nos mantêm numa zona confortável e as teorias alimentam nossa preguiça. Pra quê? Em nome do quê?

Amar dá muito trabalho mesmo. É preciso ter a força e a coragem de um gladiador e a fragilidade de um cristal. Tão incompatível isso! Ainda largar as muletas da autopiedade, fazer com que o outro entenda nosso coração amedrontado e, o mais difícil, sair da superficialidade, desapegar-se do medo do ridículo e da indescritível sensação da traição em todos os níveis – até os mais sórdidos. Amar é um sonho arriscado demais. Quem garante a sinceridade alheia hoje em dia? São tantas decepções (diria o Rei Roberto neste século).

Esqueça. Não há garantias. E assim continuamos nos privando do mais caro sonho de consumo. Seguimos sobressaltados, machucados, desconfiados… E envergonhados por sermos quem somos. Já que conseguimos a proeza heróica de ceifar todo o mal, melhor mesmo é cortar o bem pela raiz.


Fernanda Santos


Sting - Fragile